O Cultivo de Camarões Marinhos no Nordeste do Brasil

Alberto J.P. Nunes, Ph.D.
Gerente Técnico de Aqüicultura Agribrands Purina do Brasil
E-mail: [email protected]


Conhecer o passado recente da carcinicultura brasileira, bem como os principais manejos da atividade, pode ser uma boa arma tanto para os que querem se iniciar na atividade, como também para aqueles que já a estejam praticando. E nada mais oportuno do que a leitura deste excelente artigo de Alberto Nunes já publicado em março último, em versão reduzida, na World Aquaculture Magazine. Para os leitores da Panorama da AQÜICULTURA, Alberto preparou uma versão ampliada, recheada de dados mais atualizados – um verdadeiro panorama da carcinicultura no Nordeste do Brasil.

Historicamente, o cultivo de camarões marinhos teve sua origem no Mediterrâneo e no século 15 A.D. na Indonésia. A era moderna da atividade nasceu nos anos 30, quando no Japão o Dr. Motosaku Fujinaga alcançou a desova do Penaeus japonicus em condições controladas, permitindo a produção de pós-larvas em grande escala. Nos anos 70, houve a propagação das técnicas de cultivo comercial em países de regiões tropicais e subtropicais. A partir de então, a camaronicultura marinha começou a ganhar uma posição importante no cenário internacional. Nos anos 80, com uma crescente demanda e valor econômico em ascensão, a produção de camarões em cativeiro evoluiu rapidamente. Hoje a atividade está modernizada e estabelecida em escala industrial em mais de 50 países, com uma produção atual respondendo por quase a metade do volume de camarões extraído através da pesca.

A História da Indústria no Brasil

No Brasil, o litoral nordestino é considerado ideal para o cultivo de camarões marinhos. A região possui extensas áreas costeiras com temperaturas elevadas, possibilitando a criação de camarões durante todo ano. A nível experimental, as primeiras tentativas de cultivo de camarões marinhos no país começaram nos anos 70 no Estado do Rio Grande do Norte, com a espécie nativa P. brasiliensis e a o camarão exótico P. japonicus. No início da década de 80, órgãos do governo federal começaram a promover a exploração racional dos recursos marinhos, através de incentivos e créditos financeiros. Tal iniciativa induziu a implementação das primeiras camaroniculturas comerciais no país.

A construção dos projetos pioneiros na Região Nordeste foi encorajada para criar um uso alternativo as áreas costeiras abandonadas pela atividade salineira. Na época, os métodos artesanais de extração de sal tornaram-se obsoletos na medida em que foram adotadas técnicas mecanizadas de produção. As primeiras fazendas de cultivo no Brasil operavam com viveiros com áreas superiores a 15 ha e sob baixas densidades de estocagem (1 a 3 camarões/m2), ministrando-se pouco ou nenhum complemento alimentar.

Erros e tentativas caracterizaram a primeira fase de desenvolvimento da indústria de cultivo de camarões no país. Logo após alguns anos em funcionamento, muitos empreendimentos começaram a enfrentar dificuldades de ordem técnica e financeira. Grande parte dos recursos governamentais não foram investidos de forma condigna, resultando em fazendas de cultivo carentes de infra-estrutura básica e suporte técnico especializado. Neste período, um outro grande entrave para consolidação da atividade deveu-se a uma precária indústria de insumos básicos. Na época não existia uma oferta consistente de larvas de camarões ou rações balanceadas apropriadas para a engorda. Outros obstáculos incluíram o uso de áreas consideradas inadequadas para o cultivo de camarões, erros de engenharia e construção de viveiros, além da restrita tolerância do P. japonicus as elevadas condições de salinidade e temperatura de algumas áreas do litoral Nordestino. Essas dificuldades geraram produções irregulares e produtividades que raramente excediam 0,2 ton./ha/ciclo. Em meados dos anos 80, muitos projetos fracassaram, abrindo espaço para a segunda etapa de desenvolvimento da indústria.

No período subsequente, somente os produtores comprometidos com a atividade permaneceram no setor. Esta fase deu início quando os cultivadores de camarão decidiram migrar integralmente para o cultivo de espécies nativas, notadamente o P. subtilis e o P. schmitti. Nesta fase, o processo de produção ainda mantinha-se bastante rudimentar e completamente dependente de fêmeas e (ou) pós-larvas provenientes do ambiente natural. Este animais eram capturados em mar aberto, regiões costeiras e estuários para a desova em laboratório e estocagem direta nos viveiros de cultivo, respectivamente. Apesar dos camarões nativos terem possibilitado uma continuidade da atividade, o desempenho destas espécies sob condições de cultivo era ainda considerado insatisfatório. A inexistência de alimentos balanceados e de uma tecnológica apropriada de cultivo inviabilizaram a criação comercial destas espécies. Isto levou aos produtores a operar sob condições semi-extensiva ou semi-intensiva baixa por muitos anos. Durante este mesmo período, por volta de 1987, iniciou-se o cultivo semi-intensivo do camarão branco do Pacífico P. vannamei no Estado da Bahia, embora confinado a um único empreendimento.

As técnicas de larvicultura e engorda do P. vannamei foram mantidas em silêncio até 1993, quando as principais larviculturas no país começaram a produzir esta espécie em grande quantidade. Como resultado, o cultivo semi-extensivo dos camarões nativos deram lugar rapidamente, a métodos semi-intensivos com o camarão branco. Esta mudança ocorreu progressivamente na medida em que se propagava entre os produtores, a informação sobre a boa adaptação e aos melhores níveis de desempenho do P. vannamei com as rações produzidas no Brasil.

Em 1994, com a estabilização da moeda brasileira, foi desencadeada uma nova onda de investimentos privados no setor. Neste período, iniciou-se no Brasil a produção de rações balanceadas direcionadas para o cultivo semi-intensivo do P. vannamei. Em algumas áreas do Nordeste, os níveis de produtividade dobraram, pulando de 0,3 ton./ha/ciclo para mais de 0,6 ton./ha/ciclo. Quando a segunda fase de desenvolvimento da atividade encerrou, o cultivo de camarões marinhos no país tinha passado de uma atividade de alto risco para uma oportunidade de investimento altamente atrativa economicamente.

Esse novo entusiasmo se converteu em arrojados investimentos no setor. Isto resultou em um rápido crescimento territorial da área cultivada e em um maior profissionalismo, caracterizando a fase atual de desenvolvimento. Somente entre os anos de 1996 e 1999, o crescimento na produção anual variou entre 67% e 86%. Devido a maior demanda por pós-larvas (PL) da espécie P. vannamei, atualmente existem 16 larviculturas comerciais em funcionamento no Brasil com uma produção mensal superior a 500 milhões de PL. Com a credibilidade renovada, os créditos governamentais retornaram para o setor com critérios de financiamento mais rígidos. As fazendas inoperantes e os empreendimentos obsoletos modernizaram suas infra-estruturas (Figura 1), enquanto outras operações iniciaram a aquisição de novas terras para expansão ou diversificação de seus negócios. Amplas áreas virgens para a implementação de novas operações de cultivo ainda estão disponíveis ao longo de toda costa nordestina, contudo, relatos sugerem um aumento especulativo nos seus preços.

Figura 1. As antigas fazendas de cultivo de camarão marinho no Nordeste investiram fortemente na modernização da infra-estrutura e na formação de um corpo técnico qualificado.
Figura 1. As antigas fazendas de cultivo de camarão marinho no Nordeste investiram fortemente na modernização da infra-estrutura e na formação de um corpo técnico qualificado.

Em algumas áreas de cultivo na Região Nordeste, a adoção de métodos semi-intensivos de produção com o P. vannamei e a implementação de modernas práticas de cultivo incrementaram os níveis de produtividade acima de 2,5 ton./ha/ciclo. Em 2000, a produção nacional de camarão em cativeiro atingiu 25 mil ton., com previsões para 40 mil ton. no ano 2001 (Figura 2).

Figura 2. Aumento da produção anual (ton.) de camarões e expansão territorial (ha) da indústria de cultivo de camarões marinhos no Brasil nos últimos cinco anos e previsões para o ano de 2001 (Fonte: Purina, ABCC).
Figura 2. Aumento da produção anual (ton.) de camarões e expansão territorial (ha) da indústria de cultivo de camarões marinhos no Brasil nos últimos cinco anos e previsões para o ano de 2001 (Fonte: Purina, ABCC).
Ciclo de Produção

O ciclo de produção no cultivo de camarões marinhos no Brasil pode ser resumido em três fases: maturação e acasalamento de reprodutores, produção de pós-larvas e engorda de camarões.

Maturação e Acasalamento de Reprodutores

O primeiro estágio de produção no cultivo de camarões inicia-se com a despesca. É neste momento que são selecionadas espécimens com características adequadas a reprodução. De uma forma geral, os camarões selecionados para serem utilizados como futuras matrizes são indivíduos saudáveis e de tamanho corporal acentuado (maiores de 15 g). Além da aparência são também analisados aspectos como ausência de áreas necrosadas no corpo do animal e presença de todos os apêndices e estruturas reprodutivas.

Para se alcançar a maturação sexual de camarões em cativeiro é necessário a manipulação hormonal, ambiental e nutricional dos reprodutores. No Brasil, a maioria das fêmeas de camarões são maturadas em viveiros semelhantes aqueles empregados durante o ciclo normal de engorda, com o diferencial destes possuírem uma menor área de cultivo a fim de facilitar o manejo e o controle dos animais estocados. As matrizes são povoadas sob baixas densidades (um a dois camarões para cada 2 m2) e alimentadas com rações peletizadas com 35% de proteína bruta, suplementada por uma dieta natural composta de alimentos ricos em ácidos graxos polinsaturados, como ostras, búzios e lulas. O ciclo de maturação pode durar de 3 a 6 meses, com camarões atingindo um peso final entre 35 g e 45 g (Figura 3).

Figura 3. Despesca de matrizes da espécie Penaeus vannamei de viveiros de maturação.
Figura 3. Despesca de matrizes da espécie Penaeus vannamei de viveiros de maturação.

A utilização de matrizes originárias das próprias fazendas de cultivo reduziu por completo a dependência de estoques importados de reprodutores de P. vannamei. Essa autonomia permitiu que o ciclo de produção deste camarão fosse completamente dominado no país. Existem uma série de vantagens em adotar um ciclo fechado de produção, entre as quais uma maior rotatividade das matrizes (a cada 3 a 4 meses) e uma menor possibilidade de introdução de novas enfermidades através da transferência internacional de camarões adultos (Figura 4).

Figura 4. Diagrama do ciclo fechado de produção de camarões marinhos adotado no Brasil.
Figura 4. Diagrama do ciclo fechado de produção de camarões marinhos adotado no Brasil.

A perda das qualidades genéticas seja talvez a maior desvantagem no uso contínuo de matrizes provindas de cativeiro. Algumas fazendas na Região Nordeste estão agora empregando a quinta geração (F5) de camarões. Especula-se, por um outro lado, que as matrizes passam a desenvolver atributos genéticos singulares a região na qual foram introduzidos, tornando-se melhor imunizados e adaptados às condições locais de cultivo. Atualmente, estudos e programas de melhoramento genético através do uso de marcadores estão sendo desenvolvidos no Nordeste com o P. vannamei. No futuro estas ações permitirão gerar camarões que apresentam uma maior resistência a enfermidades e melhores taxas de crescimento e conversão alimentar.

Os camarões selecionados em fazendas de engorda para servir de reprodutores passam por uma quarentena de até 15 dias após a chegada no laboratório. Neste período são descartados os indivíduos menos ativos ou os que apresentarem um comportamento fora dos padrões normais. A quarentena tem também como objetivo induzir a troca ou muda do exoesqueleto e possibilitar o acondicionamento do reprodutor às condições de confinamento do laboratório. Após este período, os reprodutores estão aptos para a maturação (caso for necessário) e o acasalamento.

Os camarões machos e fêmeas são estocados em tanques circulares (escuros ou azuis) a uma densidade de até 3 individuos/m2, geralmente obedecendo uma relação de 1:1 (Figura 5). Neste estágio é previamente observado o nível de preenchimento e coloração dos ovários na região dorsal do abdômen das fêmeas e a presença de espermatóforos saudáveis nos machos, além do estado de intermuda. Nas fêmeas, é realizado a ablação unilateral dos pedúnculos oculares, cuja finalidade é remover o hormônio inibidor da reprodução. O período de latência entre a ablação e a ocorrência da primeira desova é de no mínimo três dias. O fotoperíodo é manipulado (14 hrs. luz:10 hrs. escuro) e a qualidade do espectro de luz controlado para induzir uma desova diurna nas fêmeas, facilitando assim a coleta dos ovos eclodidos. Nas espécies de camarão com o télico aberto, como o P. vannamei, a cópula ocorre logo após a maturação das fêmeas, algumas horas antes da desova. Nesta espécie é preciso que o processo de copulação ocorra antes de cada desova para que a fertilização seja viável.

Produção de Pós-Larvas

Os laboratórios de produção de larvas de camarões marinhos são divididos basicamente em três setores: 1) laboratório de produção de microalgas; 2) sala de maturação, acasalamento e desova de reprodutores; 3) sala de larvicultura de camarões. As larviculturas brasileiras, na sua grande maioria, operam com um alto nível de tecnologia. Embora existam também laboratórios menos tecnificados, suas produções podem exceder até 40 milhões de pós-larvas/mês. Alguns laboratórios tem sua operacionalização restrita ao cultivo de camarões da fase de náuplio até PL (pós-larvas).

Os grandes laboratórios possuem instalações próprias de maturação ou trabalham em parceria com fazendas de engorda a fim de obter as matrizes. Estes empreendimentos operam com altas densidades de estocagem para obter um alto volume de larvas. Para eliminar problemas como surtos de enfermidades, inconsistência no peso corporal e reduzida sobrevivência das larvas produzidas, as larviculturas estabelecem um rígido monitoramento da qualidade dos parâmetros físicos, químicos e biológicos que influenciam o cultivo.

Na larvicultura de camarão marinho é indispensável ter uma ampla disponibilidade de água oceânica de altíssima qualidade. Estas águas possuem uma salinidade entre 30 e 40 ppt (partes por mil). Por este motivo, os laboratórios são instalados em praias isoladas, para permitir a captação de água diretamente do mar. Os laboratórios são equipados com sistemas sofisticados de filtragem, incluindo filtros de ozônio e ultravioleta, além de caldeiras. Estes equipamentos visam manter adequados os parâmetros de qualidade da água, como a temperatura e os compostos nitrogenados, evitando assim o estresse dos reprodutores e pós-larvas e a proliferação de patógenos. Todos os setores do laboratório são freqüentemente lavados e desinfetados com produtos químicos, como o hipoclorito de cálcio.

A fase de produção das larviculturas inicia-se com a coleta de náuplios (1º estágio larval do camarões marinhos), 24 horas depois da desova das fêmeas (Figura 6). Um total de 5% a 7% de todas fêmeas estocadas nos tanques de acasalamento podem ser fertilizadas diariamente, produzindo entre 100.000 a 120.000 náuplios/desova. Os náuplios são facilmente coletados dos tanques de acasalamento e desova por atração luminosa devido ao fototropismo positivo das larvas (Figura 5).

Figura 5. Tanques de acasalamento e desova de camarões.
Figura 5. Tanques de acasalamento e desova de camarões.
Figura 6. Ciclo de vida e estágios larvais dos camarões peneídeos.
Figura 6. Ciclo de vida e estágios larvais dos camarões peneídeos.

Nos tanques de larvicultura, as larvas são estocadas sob alta densidade de estocagem (entre 100 a 200 larvas/L) em água rica em microalgas (fitoplâncton), que são inoculadas, vivas ou secas, nos tanques de cultivo a fim de servir de alimento para as larvas. Um laboratório e tanques são dedicados exclusivamente ao cultivo de microalgas (Figura 7), produzidas através de um processo de repicagem. É empregado um coquetel de algas variando de espécies como Tetraselmis chuiiChaetoceros gracilisThalassiosira sp.,Schizochytrium sp., entre outras.

Figura 7. Tanques empregados no cultivo de microalgas.
Figura 7. Tanques empregados no cultivo de microalgas.

O tipo de alimento administrado para os camarões depende do estágio larval. Na fase inicial de crescimento, os peneídeos são classificados como onívoros, adquirindo um hábito alimentar mais carnívoro quando o estágio pós-larval é alcançado. Nas larviculturas nordestinas, os camarões são alimentados somente a base de microalgas durante os estágios de náuplio e zoea (Figura 8), e em combinação com Artemia da fase de mysis aos estágios prematuros de pós-larva (PL4 a PL6). Dietas microencapsuladas e rações formuladas são oferecidas entre os estágios de PL4 e PL10, período em que os animais já se encontram prontos para comercialização as fazendas de cultivo.

Figura 8. Camarão P. vannamei no segundo estágio larval denominado de Zoea.
Figura 8. Camarão P. vannamei no segundo estágio larval denominado de Zoea.

Alguns laboratórios também comercializam náuplios, em quantidades e preços muito mais reduzidos em relação as pós-larvas. Da eclosão até a comercialização leva-se cerca de 21 dias para produzir camarões no estágio de PL11 (3 dias da desova até náuplio; 11 dias de náuplio até PL2; 8 dias de PL3 a PL11). Mais recentemente tem sido adotado o sistema bifásico de cultivo (Figura 9), no qual os animais na fase de PL2 são cultivados a céu aberto em tanques circulares ou retangulares de alvenaria até PL10 ou PL11. Este procedimento tem como objetivo obter pós-larvas mais resistentes e saudáveis para a engorda.

Figura 9. Tanques raceway utilizados no cultivo de PL2 a PL10.
Figura 9. Tanques raceway utilizados no cultivo de PL2 a PL10.
Engorda de Camarões

O transporte e a transferência de camarões para as instalações de engorda pode ocorrer logo após a produção de pós-larvas no estágio de PL10. As instalações de engorda são constituídas basicamente de tanques berçários e viveiros escavados de engorda. Embora algumas fazendas também possuam pequenos viveiros berçários, atualmente estas estruturas tem sido adaptadas para a maturação ou para a engorda de camarões. A grande maioria das novas fazendas no Brasil estão sendo construídas para operar com tanques berçários intensivos. Estes tanques são instalados ao ar livre, possuem uma forma retangular ou circular, com uma profundidade de até 1,2 m, sendo capazes de operar com altas densidades de estocagem (até 30 PL/L) e com um volume de água variando entre 30.000 L e 80.000 L (Figura 10).

Figura 10. Os tanques berçários intensivos empregam a mesma água dos viveiros de engorda para acondicionar as pós-larvas as condições ambientais da fazenda.
Figura 10. Os tanques berçários intensivos empregam a mesma água dos viveiros de engorda para acondicionar as pós-larvas as condições ambientais da fazenda.
Figura 11. Tanques berçários estocados com pós-larvas em um viveiro de engorda. Observe o uso de aeradores e a proximidade dos tanques-rede com as comportas de abastecimento de água.
Figura 11. Tanques berçários estocados com pós-larvas em um viveiro de engorda. Observe o uso de aeradores e a proximidade dos tanques-rede com as comportas de abastecimento de água.

Os tanques berçários intensivos operam com uma baixa renovação de água e aeração artificial constante. As pós-larvas são geralmente cultivadas do estágio de PL11 até PL21. A água utilizada nesta fase é a mesma dos viveiros de engorda, sendo a produtividade natural incrementada através de uma fertilização inorgânica a base de uréia e superfosfato triplo e (ou) por meio de substratos artificiais (telas verticais), que servem também para aumentar a área útil de cultivo. O alimento é distribuído por lanço, sendo de 5% a 10% da refeição total concentrada em 2 ou 3 bandejas de alimentação. A fase nos tanques berçários é útil para avaliar a qualidade das pós-larvas adquiridas, reduzir o estresse inicial e permitir um suave processo de acondicionamento no ambiente de engorda. Outras vantagens incluem uma seleção de indivíduos mais resistentes e com pesos corporais mais consistentes para a fase de engorda, além de permitir uma melhor sincronização com o cronograma de povoamento da fazenda.

As fazendas de cultivo no Brasil empregam dois tipos de estocagem: o método direto e o método indireto. O método indireto consiste na estocagem de pós-larvas no estágio de PL10 ou mais avançada, em tanques berçários intensivos antes do início da fase de engorda. Isto permite obter estimativas mais precisas do tamanho da população inicial de camarões que irá povoar os viveiros de engorda. Nesta fase, as densidades de estocagem podem variar entre 20 PL/L e 30 PL/L, com períodos de cultivo não excedendo 10 dias e níveis de sobrevivência acima de 75%. O método direto de estocagem é geralmente empregado por fazendas de cultivo que não dispõem de tanques berçários intensivos. Neste caso, as pós-larvas podem ser transferidas diretamente para os viveiros engorda, estocadas em gaiolas flutuantes ou em cercados, sendo os animais completamente liberados no viveiro dentro de 4 a 10 dias, respectivamente. Mais recentemente tem sido utilizado tanques-rede, que permitem cultivar PLs em viveiros de engorda já povoados por um período de até 30 dias. Neste sistema, é possível estocar até 50.000 pós-larvas/m2, obtendo-se ao final do cultivo camarões juvenis de 1,5 g (Figura 11). Relatos sugerem que esta prática tem reduzido o tempo de engorda em até 3 semanas.

Os viveiros de engorda no Brasil são tecnicamente diversificados. Em geral na carcinicultura marinha, os sistemas de cultivo podem ser classificados como extensivos, semi-intensivos ou intensivos (Figura 12). No Brasil, existem várias outras designações intermediárias, como semi-extensivo, semi-intensivo baixo ou semi-intensivo alto. Na prática, estes termos refletem sistemas com um amplo espectro de atuação que variam de acordo com a intensidade de uso de diferentes recursos (capital, mão-de-obra, terra, água, larvas, rações, adubos, equipamentos; Figura 12). No mundo, grande parte do cultivo de camarão é conduzido utilizando métodos de produção extensivos ou semi-intensivos

Figura 12. Classificação dos sistemas de cultivo de camarão marinho em relação a intensidade do uso de diferentes recursos segundo o Banco Mundial.
Figura 12. Classificação dos sistemas de cultivo de camarão marinho em relação a intensidade do uso de diferentes recursos segundo o Banco Mundial.

A maioria do camarão marinho produzido em cativeiro no Brasil origina-se de sistemas semi-intensivos médios (entre 15 e 25 camarões/m2) e altos (acima de 25 camarões/m2). Ultimamente tem sido observadas fazendas empregando altas densidades de estocagem, entre 50 e 70 camarões/m2. Embora não sendo muito freqüentes, podem também ser encontradas fazendas que operam com densidades abaixo de 15 camarões/m2. Estas operações podem ser pequenos ou grandes empreendimentos de cultivo, o último sendo a reminiscência das primeiras fazendas comercias de criação de camarão marinho construídas no início da década de 80. Uma menor intensificação ocorreu nestas operações devido principalmente a um menor nível de tecnificação ou a dificuldades no manejo de viveiros com grandes áreas de cultivo, alguns excedendo 25 ha. A preparação do viveiro, o arraçoamento e o monitoramento de parâmetros ambientais e populacionais são mais laboriosas em áreas de cultivo muito extensas. No Brasil, os sistemas semi-intensivos baixos operam com densidades de estocagem entre 5 a 15 camarões/m2 e uma taxa de renovação de água inferior a 3% do volume total do viveiro/dia.

Viveiros semi-extensivos podem também ainda ser encontrados ao longo do litoral nordestino, embora este sistema seja restrito a pequenos cultivadores que não possuem condições econômicas para alcançar um maior nível de intensificação e produção. Estes sistemas operam com baixas densidades de estocagem (1 a 5 camarões/m2), utilizando muito pouco ou nenhum tipo de alimento artificial. Os viveiros são pequenos (0,5 a 5 ha de área) e rasos (< 0,80 m de profundidade) e a renovação de água é limitada devido ao uso de bombas com baixa capacidade de captação. Sob tais condições, a produtividade natural do viveiro tem um papel fundamental no crescimento dos camarões, embora pequenas quantidades de ração possam ser empregadas. Nestas condições de cultivo, as produtividades alcançadas são mais baixas, mas o sistema de produção é considerado mais sustentável do que os mais intensivos.

Figura 13. Caiaques de fibra de vidro são utilizados durante a oferta de ração. As bandejas de alimentação, fabricadas da parte central de pneus, são instaladas no viveiro a partir do 30º dia de engorda.
Figura 13. Caiaques de fibra de vidro são utilizados durante a oferta de ração. As bandejas de alimentação, fabricadas da parte central de pneus, são instaladas no viveiro a partir do 30º dia de engorda.

Sistemas semi-intensivos médios e altos empregam viveiros com áreas menores, variando entre 3 e 7 ha. Durante o cultivo utiliza-se aeração mecânica (de 4 a 6 hp/ha) para permitir densidades de estocagem de até 60 camarões/m2. A freqüência de arraçoamento é aumentada de 2 para 3 ou até 5 vezes/dia e todo alimento artificial é distribuído exclusivamente em bandejas. Muitas fazendas vem também empregando arraçoamento noturno com bons resultados.

As bandejas de alimentação ou comedouros são utilizados para melhorar o controle sob os níveis de consumo alimentar dos camarões e permitir um monitoramento mais direto das condições de saúde da população cultivada (Figura 13). As bandejas de alimentação podem ser alocadas em viveiros a uma densidade de 20 a 30 unidades/ha, ou obedecer proporcionalmente as densidades de estocagem empregadas (i.e., 1 bandeja/ha para cada 1 camarão/m2).

Estes sistemas utilizam fertilização inorgânica a base de uréia, superfosfato triplo (SPT) ou fosfato monoamônia incorporados na água obedecendo uma relação de 40 kg (uréia) : 10 kg (SPT) ou até se alcançar uma transparência da água entre 30 e 40 cm. A qualidade da água é incrementada através de maiores taxas de renovação, embora algumas operações de cultivo já passaram a adotar o conceito de baixa renovação de água. Neste método, a água é bombeada somente para repor as perdas resultantes da evaporação, infiltração e despesca. Os processos de calagem do solo e esterilização envolvem o uso de cal virgem e hipoclorito de cálcio (somente em poças d’água após a despesca), proporcionado uma redução na incidência de predadores e (ou) competidores na despesca (Figura 14). Os sistemas semi-intensivo alto e o intensivo estão tornando-se mais populares no Brasil na medida em que os cultivadores tentam aumentar seus níveis de produtividade.

Independente do nível de intensificação, os cultivadores obtêm até 2,5 ciclos de engorda por ano. O período de engorda dura entre 90 a 150 dias. Os camarões podem alcançar um peso médio de 12 g, com taxas de sobrevivência variando de 55% a 80%. Na medida em que o sistema se intensifica, as produtividades pulam de 550 para até 5.000 kg/ha/ciclo.

A implementação de avançados programas de manejo do solo, da água, do alimento e dos animais cultivados têm sido responsável pelos surpreendentes resultados zootécnicos obtidos no Brasil, hoje considerados os melhores do mundo. Nas operações de cultivo menos intensivas (até 30 camarões/m2), tem sido alcançado um fator de conversão alimentar (FCA) de 1,0, enquanto os FCAs mais elevados não ultrapassam 1,6 (até 60 camarões/m2). Baixo FCA reflete uma utilização eficiente da ração administrada, melhor uso da produtividade natural e menores custos operacionais. O uso de rações de alta digestibilidade e de modernas práticas de alimentação melhoram radicalmente os resultados de performance, a qualidade do solo e dos efluentes das fazendas de cultivo, reduzindo a quantidade de nutrientes e matéria orgânica liberados em águas adjacentes a operação de cultivo.

Considerações Finais

A carcinicultura marinha é uma atividade em franca expansão no Brasil. A maioria dos carcinicultores brasileiros estão altamente conscientes das conseqüências de uma rápida intensificação e de uma expansão desordenada. A Associação Brasileira de Criadores de Camarões – ABCC, juntamente com órgãos governamentais, empresas privadas, universidades e ONGs, estão tentando organizar e auto-regular o crescimento da indústria. Isto tem resultado em inúmeras ações dentre as quais destaca-se: o financiamento de pesquisas em áreas consideradas como obstáculo para o crescimento e sustentabilidade da indústria (melhoramento genético, nutrição, manejo, enfermidades, meio ambiente, mercado); a implementação de medidas de caráter emergencial contra o ingresso de enfermidades virais classificadas de alto risco para a atividade; a realização de programas de treinamento para qualificar e satisfazer o crescente aumento por mão-de-obra especializada nos vários setores da atividade (larvicultura, engorda, beneficiamento); o monitoramento da qualidade dos efluentes das fazendas de cultivo e o desenvolvimento de códigos de conduta e manejo para minimizar os possíveis impactos ambientais da atividade.

Como o país mais recente a desfrutar dos benefícios econômicos de uma atividade altamente rentável, os carcinicultores brasileiros têm em suas mãos a oportunidade de demonstrar para o mundo que o cultivo de camarões marinhos pode ser também um negócio ambientalmente amigável e socialmente vantajoso.

Figura 14. Comporta com dupla entrada para uma rápida troca de água em situações de emergência. As comportas são equipadas com um sistema de dupla telagem (malha de 1000 e 500 micras) a fim de minimizar a entrada de organismos indesejáveis. As telas necessitam ser escovadas a cada bombeamento para evitar o entupimento e rompimento das malhas.
Figura 14. Comporta com dupla entrada para uma rápida troca de água em situações de emergência. As comportas são equipadas com um sistema de dupla telagem (malha de 1000 e 500 micras) a fim de minimizar a entrada de organismos indesejáveis. As telas necessitam ser escovadas a cada bombeamento para evitar o entupimento e rompimento das malhas.