O Cultivo do Camarão Litopenaeus vannamei em Águas Oligohalinas*

Figura 1. Pós-larvas do camarão L. vannamei aclimatadas a baixa salinidade.

*Água com níveis de salinidade entre 0,5 e 0,6 ppt ou gramas por litro (g/L)


Por: Alberto J.P. Nunes,
Ph.D. Gerente Técnico de Aqüicultura
Agribrands Purina do Brasi
l e-mail: [email protected]


O cultivo do camarão Litopenaeus vannamei em águas de baixa salinidade é uma atividade recente no país, mas que já vem despertando o interesse de vários pequenos empreendedores. As extensas faixas de áreas salinizadas localizadas em regiões interiores e a boa adaptação, rusticidade e crescimento do L. vannamei a condições de baixa salinidade, sugerem boas perspectivas de expansão deste novo segmento. Devido a grande escassez de informações, além das muitas especulações e questionamentos, este artigo vem esclarecer sobre alguns fatores técnicos relacionados as exigências e as limitações do cultivo oligohalino.

Fatores Ecológicos e Biológicos

O L. vannamei, também conhecido como camarão branco do Pacífico, é uma espécie exótica ao litoral brasileiro. Sua distribuição natural vai desde as águas do Oceano Pacífico na província de Sonora, México, até o sul de Tumbes no Peru. O camarão branco foi introduzido no Brasil nos anos 80, mas somente na última década seu cultivo se proliferou no país. Este peneídeo está entre as 5 espécies de camarão marinho mais cultivadas no mundo e em função de sua típica coloração esbranquiçada, apresenta uma alta aceitação no mercado americano.

Nas suas fases iniciais de desenvolvimento, o camarão branco habita regiões com águas de característica oceânica (30 – 40 ppt), mas refugia-se em ambientes próximos ao litoral na medida em que cresce . Estuários, baias ou outros habitats costeiros servem de berçários naturais para pós-larvas (PLs) e camarões juvenis desta espécie. Estes ecossistemas são freqüentemente expostos a repentinas mudanças na salinidade da água, como resultado da influência de marés e rios, da evaporação ou de chuvas. Ainda no estágio juvenil, o L. vannamei migra para o alto mar a procura de águas com profundidade de até 70 m. No ambiente natural a alteração de habitats tem uma finalidade única, incrementar as chances de sobrevivência da prole.

Resistência Adquirida a Baixa Salinidade – O L. vannamei já nasce com uma tolerância a salinidade da água. Esta espécie é reconhecida como potente osmoreguladora. Apesar de alguns camarões peneídeos serem classificados como estenohalinos, suportando apenas uma estreita faixa de variação na salinidade, outras espécies como o L. vannamei e o Penaeus monodon, são consideradas eurihalinas, tolerando rápidas e amplas flutuações na salinidade de até 10 ppt (partes por mil).A tolerância a uma extensa faixa de salinidade foi uma característica adquirida ao longo do processo evolutivo, mas não é singular a estas espécies de peneídeos. Vários outros animais aquáticos que habitam regiões estuarinas possuem uma capacidade semelhante.

Osmoregulação – Os camarões peneídeos necessitam de uma concentração mínima de sais na água para manter o equilíbrio osmótico no meio em que vivem. Em água salgada, durante o processo de osmoregulação, os camarões marinhos retêm água do meio e excretam sais. Isto visa evitar o acúmulo excessivo de íons em seus fluidos corporais e conseqüentemente a desidratação celular. Em ambiente completamente doce, o animal tenderia a perder quantidades excessivas de água, retendo muitos íons durante a osmoregulação. Dependendo do tempo de exposição, esta condição levaria eventualmente o animal a morte. Em águas interiores, os camarões de água doce conseguem manter o equilíbrio osmótico, pois por serem hipertônicos em relação ao meio, minimizam ao máximo o ganho de água, priorizando a retenção de íons.

Águas Oligohalinas – Erroneamente muitos têm se referido a águas oligohalinas como sendo “água doce”, pelo fato destas serem, em alguns casos, adequadas ao consumo humano ou por possuírem níveis de salinidade não detectáveis por refratômetros manuais (aparelhos que medem a salinidade). Na nomenclatura científica, águas oligohalinas possuem níveis de salinidade entre 0,5 e 0,6 ppt, enquanto águas com salinidade entre 0,7 até 18 ppt são chamadas de mesohalinas. A salinidade, uma medida expressa em partes por mil (ppt) ou gramas por litro (g/L), mede a quantidade total de sais inorgânicos na água, principalmente cloretos (Cl-), sódio (Na+), sulfato (SO42-), magnésio (Mg2+), cálcio (Ca+) e potássio (K+). A água doce possui uma concentração muito baixa destes sais quando comparada a água oligohalina (Tabela 1). Água oligohalina também apresenta dureza e alcalinidade mais elevada em relação a água doce. Estas diferenças não devem ser desprezadas, pois águas essencialmente doces são consideradas inapropriadas para o crescimento e sobrevivência dos camarões marinhos. Recomenda-se, uma vez identificada a área para o cultivo, que seja conduzido um estudo minucioso relacionado as características físicas, químicas e biológicas da água.

Tabela 1. Comparação dos parâmetros físico-químicos de uma amostra de água doce em relação a uma amostra de água oligohalina, ambas coletadas em diferentes áreas interiores da Região Nordeste.
Tabela 1. Comparação dos parâmetros físico-químicos de uma amostra de água doce em relação a uma amostra de água oligohalina, ambas coletadas em diferentes áreas interiores da Região Nordeste.
Requerimentos para o Cultivo

Existem basicamente dois requerimentos para engorda do camarão branco em águas oligohalinas: 1) as pós-larvas devem ser submetidas a um procedimento de acondicionamento a baixa salinidade antes do povoamento em viveiros; 2) a água de cultivo deve apresentar certas condições qualitativas.

Procedimentos de Aclimatação

A aclimatação é um procedimento que aumenta as chances de sobrevivência dos camarões após a estocagem nos viveiros, pois permite que estes animais se adaptem gradativamente as condições ambientais da fazenda. O L. vannamei pode alcançar equilíbrio osmótico e aclimatar-se por completo a baixas salinidades (menores de 1 ppt). Isto é alcançado por meio de reduções sucessivas na salinidade da água enquanto o camarão ainda está no seu estágio pós-larval. Durante este procedimento é possível alcançar níveis de sobrevivência próximos a 100% (Figura 1). A aclimatação pode ocorrer na larvicultura ou na própria fazenda de cultivo.

Aclimatação na Larvicultura – Nas larviculturas, emprega-se tanto a idade cronológica como morfológica das pós-larvas para determinar o período ideal de aclimatação. As PLs devem ter pelo menos oito dias de vida (PL8) e possuírem todos seus arcos branquiais bem desenvolvidos para suportar adequadamente uma redução na salinidade. Pós-larvas mais jovens podem ser utilizadas, embora a aclimatação seja mais longa, arriscada e estressante para os animais. Isto está relacionado ao desenvolvimento branquial, que diretamente influencia a capacidade de osmoregulação dos camarões. Os arcos branquiais somente aparecem nos peneídeos durante os estágios de mysis. Nas fases iniciais de PL, as brânquias ainda estão em um estado rudimentar, alcançando um desenvolvimento integral na fase de juvenil.

As larviculturas do camarão L. vannamei operam com tanques de cultivo de grande volume e altas densidades. Portanto, uma redução significativa na salinidade só é viável quando as encomendas de larvas são suficientemente elevadas para compensar o trabalho e tempo investidos durante o procedimento de aclimatação. Dependendo do laboratório, as pós-larvas podem ser encomendadas condicionadas a uma salinidade variando entre 15 ppt até 1 ppt. Um protocolo de aclimatação é apresentado na Tabela 2.

Tabela 2. Protocolo para aclimatação do L. vannamei a condições de baixa salinidade em larviculturas.
Tabela 2. Protocolo para aclimatação do L. vannamei a condições de baixa salinidade em larviculturas.

Aclimatação na Engorda – Quando a aclimatação até a salinidade desejada não é possível na larvicultura, a redução pode ocorrer na própria fazenda de engorda utilizando tanques berçários intensivos. Os tanques berçários intensivos são circulares ou retangulares, geralmente construídos de alvenaria. Este tanques comportam um volume de água variando ente 30.000 e 80.000 L e operam com uma profundidade entre 1,0 e 1,2 m (Figura 3). Os camarões são estocados sob densidades de 20 a 30 indivíduos/L, por um período de até 20 dias precedendo o povoamento em viveiros de engorda.

Figura 2. Tanque berçário intensivo em uma fazenda de cultivo oligohalina, empregado na aclimatação de pós-larvas.
Figura 2. Tanque berçário intensivo em uma fazenda de cultivo oligohalina, empregado na aclimatação de pós-larvas.
Figura 3. Ovos de caramujo, também conhecido como aruã, são comuns em viveiros que empregam água de baixa salinidade.
Figura 3. Ovos de caramujo, também conhecido como aruã, são comuns em viveiros que empregam água de baixa salinidade.
Figura 4. Viveiro de engorda do L. vannamei com água oligohalina localizado na Região Nordeste do Brasil.
Figura 4. Viveiro de engorda do L. vannamei com água oligohalina localizado na Região Nordeste do Brasil.
Figura 5. Camarão L. vannamei cultivado em água oligohalina.
Figura 5. Camarão L. vannamei cultivado em água oligohalina.
Figura 6. Bombeamento de água no cultivo do camarão L. vannamei em condições oligohalinas.
Figura 6. Bombeamento de água no cultivo do camarão L. vannamei em condições oligohalinas.

Na fazenda de engorda, são empregados procedimentos de aclimatação mais conservativos (Tabela 3), pois a capacidade osmoregulatória do L. vannamei aparentemente diminui após PL15. A aclimatação somente é iniciada em tanques berçários, 24 hs após a chegada das PLs na fazenda e pode durar entre 5 e 9 dias. Durante todo o procedimento de aclimatação, os camarões devem ser alimentados com ração desintegrada contendo 40% de proteína bruta. O alimento deve ser distribuído uniformemente sobre toda área cultivada por períodos de 24 hs, em intervalos contínuos de 2 horas. Cerca de 5% de todo alimento distribuído pode ser fornecido em 2 ou 3 bandejas de alimentação para fins de acompanhamento do consumo e condição geral de saúde das PLs.

Tabela 3. Protocolo para aclimatação do L. vannamei a condições de baixa salinidade em berçários intensivos. O período de aclimatação depende da salinidade da água de transporte das pós-larvas.
Tabela 3. Protocolo para aclimatação do L. vannamei a condições de baixa salinidade em berçários intensivos. O período de aclimatação depende da salinidade da água de transporte das pós-larvas.

Diluição de Água Salgada/Doce – Durante o acondicionamento das pós-larvas à baixa salinidade, os tanques de aclimatação com água salgada são esvaziados até a metade para possibilitar a diluição com a adição gradual de água doce ou vice-versa. Apesar deste ser o método mais empregado, a diluição por renovação constante é mais recomendada, pois possibilita que as larvas sejam mantidas na densidade original de estocagem, evitando assim problemas com o canibalismo. Para calcular o percentual de água a ser adicionada no tanque de aclimatação a fim de alcançar uma determinada salinidade, emprega-se a fórmula:

Fração de Água Doce = 1 – [(Pnova – Pfinal)/(Pnova – Pinicial)] onde,
F = fração de água doce a ser adicionada
Pnova = salinidade (ppt) da água adicionada
Pinicial = salinidade (ppt) do tanque de aclimatação
Pfinal = salinidade (ppt) final desejada

Exemplo 1: Pnova = zero ppt; Pinicial = 28 ppt; Pfinal = 1 ppt
F = 1 – [(0 – 1)]/[(0 – 28)] = 1 – 0,04 = 0,96 ou 96%

Nas condições apresentadas acima, será necessário trocar 96% da água original do tanque para se obter uma salinidade final de 1 ppt. O cálculo da taxa de renovação de água doce necessária para repor um determinado volume de água do tanque de aclimatação durante um dado período é obtido através da fórmula:

Q = -ln (1 – F) x V/T onde,
Q = taxa de renovação de água doce (L/h)
ln = logaritmo
F = fração de água doce a ser adicionada
V = volume do tanque de aclimatação (L)
T = tempo necessário para aclimatação (h)

Exemplo 2: F=0.96; v=60.000; T= 15 h
Q=ln (1-0.96) x 60.000/15=3.22×4.000=12.880 L/h ou
215 L/min (i.e., 12.880/60)

Requerimentos da Água para Engorda

Os requerimentos quanto a qualidade física e química da água para o cultivo do L. vannamei em condições oligohalinas foram pesquisados por cientistas do Habor Branch Oceanographic Institution (HBOI, Flórida, EUA). Os níveis recomendados dos principais parâmetros coincidem com um monitoramento realizado em uma fazenda de camarão no Equador que utiliza água de baixa salinidade (Tabela 4). Além daqueles parâmetros já reconhecidos como sendo essenciais para o crescimento e sobrevivência do L. vannamei (temperatura, oxigênio dissolvido, etc), em baixa salinidade, a dureza, a alcalinidade e a concentração de sódio e cloretos são considerados primordiais. Em águas com baixa salinidade, estas variáveis podem tornar-se restritivas, pois afetam diretamente a osmoregulação e a formação da carapaça dos camarões, além do equilíbrio químico da água.

Tabela 4. Níveis de qualidade da água recomendados para o cultivo do L. vannamei em condições oligohalinas (Wyk et al. 1999) e valores observados em uma fazenda no Equador ao longo de um ciclo de engorda (López 2001, com. pes.). Valores observados indicam média ± desvio padrão de 30 leituras em três viveiros de engorda. Números em parênteses referem-se a valores mínimos e máximos.
Tabela 4. Níveis de qualidade da água recomendados para o cultivo do L. vannamei em condições oligohalinas (Wyk et al. 1999) e valores observados em uma fazenda no Equador ao longo de um ciclo de engorda (López 2001, com. pes.). Valores observados indicam média ± desvio padrão de 30 leituras em três viveiros de engorda. Números em parênteses referem-se a valores mínimos e máximos.

Nível Mínimo de Salinidade – Embora no cultivo tradicional do L. vannamei emprega-se águas com salinidade variando entre 15 até 40 ppt, em algumas camaroniculturas da Região Nordestina, o camarão branco pode ser exposto a salinidades hiperoceânicas, acima de 55 ppt ou a salinidades próximas a 1 ppt. Os camarões adultos da espécie L. vannamei conseguem tolerar condições límnicas ou de água completamente doce por várias semanas. Entretanto, até onde se sabe, 0,5 ppt de salinidade é considerado o nível mínimo aceitável para o cultivo desta espécie.

Como os refractômetros manuais não fornecem uma leitura precisa de águas com baixa salinidade, recomenda-se analisar a concentração de cloretos (Cl-) na água como indicativo da salinidade. Em água salgada com 35 ppt de salinidade, a concentração de cloretos pode alcançar 19.344 ppm (partes por milhão). Em comparação, águas com 300 ppm de cloretos (nível mínimo recomendado) indicam uma salinidade por volta de 0,5 ppt. É possível converter a concentração de cloretos (ppm ou mg/L) em salinidade (ppt ou g/L) através da fórmula:

S = [30 + (1,805 x Cl-)]/1000 onde,
S = nível de salinidade da água (ppt ou g/L)
Cl- = concentração de cloretos da amostra de água analisada (ppm ou mg/L)

Exemplo 3: Cl- = 500 ppm
S = [30 + (1,805 x 500 ppm)]/1000
S = [932,50 mg/L]/1000
S = 0,93 ppt ou g/L

A fórmula não é valida para águas completamente doce, pois a quantidade de Cl- em relação a outros íons não será a mesma.

Dureza e Alcalinidade

A dureza é uma medida da quantidade de cálcio (Ca+) e magnésio (Mg2+) na água. Na prática, quanto mais dura for a água mais difícil é a formação de espuma. A alcalinidade indica a capacidade neutralizadora da água contra variações no pH. Ao contrário da água salgada, águas oligohalinas podem ser limitantes em Ca+ e Mg2+. Isto pode resultar em animais com uma carapaça mole ou com um crescimento deficiente. A água salgada é também mais tamponada (alcalinidade > 100 ppm) do que a água doce. Em regiões semi-áridas, entretanto, geralmente há uma alta concentração de íons em água doce devido as elevadas taxas de evaporação, causando um aumento na alcalinidade. Solos argilosos ou siltrosos também contêm uma alta quantidade de carbonato de cálcio ao contrário dos solos arenosos. Os níveis mínimos aceitáveis de dureza e alcalinidade no cultivo de crustáceos de água doce são de 50 ppm e 20 ppm, respectivamente. Águas com dureza e alcalinidade baixas são corrigidas através de uma calagem da água ou do solo.

Outros Cuidados na Engorda

Controle de Predadores e Competidores – Um dos problemas mais comuns observados no cultivo em águas oligohalinas tem sido a ocorrência de uma grande quantidade de predadores e competidores. O nível de infestação de peixes, como carás e piabas, é geralmente detectado somente na despesca, o que pode acarretar no final do cultivo, níveis de sobrevivência e índices de conversão alimentar desfavoráveis.

Outros organismos indesejáveis como larvas de insetos, caramujos e seus ovos são também observados (Figura 3). Os caramujos são geralmente encontrados em grandes quantidades nas bandejas de alimentação, levantando especulações de que estes animais também consumam ração. Os caramujos exalam um líquido pegajoso, reduzindo a atratibilidade da ração. Isto leva a um baixo consumo de ração visto que os camarões hesitam em se aproximar das bandejas. As fazendas devem estabelecer uma rotina de coleta e descarte destes animais e seus ovos dos viveiros pelo menos a cada 5 dias. A proliferação de larvas de insetos, como odonatas, é evitado realizando um rápido enchimento e povoamento dos viveiros, dentro de no máximo 3 dias após os procedimentos de calagem e revolvimento do solo.

O manejo para eliminar predadores deve ser iniciado já na despesca com a coleta manual de peixes e outros animais indesejáveis, seguido da esterilização, secagem e revolvimento do solo. A secagem consiste em expor o solo do viveiro ao sol até uma completa evaporação da água. Cloro (hipoclorito de cálcio) ou cal virgem (óxido de cálcio, CaO) deve ser jogado em poças d’água (proporção de 900 g para cada 10 L d’água e 500 kg/ha, respectivamente). As comportas de entrada d’água devem ser vedadas e teladas precedendo o enchimento do viveiro. Um sistema duplo de telagem deve ser instalado na comporta de entrada d’água . A primeira e segunda tela devem possuir malhas de 1.000 e 500 micras, respectivamente. A tela de 500 micras deve ser mantida por um período mínimo de 2 meses durante a engorda, tendo o cuidado de manter uma rotina diária de escovação durante o bombeamento de água para evitar a obstrução e rompimento das malhas. O revolvimento do solo deve ser feito antecedendo o enchimento do viveiro, manualmente ou com tratores.

Fertilização Inorgânica – A adubação ou fertilização é um procedimento que permite adicionar nutrientes a água a fim de aumentar a produção de plâncton e assim incrementar a produtividade e o crescimento dos camarões na engorda (Figura 5). Em águas oligohalinas, a adubação deve ficar restrita ao uso de fertilizantes químicos nitrogenados (uréia, nitrato de cálcio, nitrato de sódio), evitando-se os fosfatados como superfosfato triplo e fosfato monoamônio. Aparentemente em água oligohalina, os fertilizantes fosfatados propiciam o incremento de algas cianofícias, consideradas indesejáveis tanto para o cultivo, como para a qualidade final dos camarões despescados.

Os fertilizantes granulados devem ser dissolvidos em água e aplicados no viveiro durante seu enchimento. As quantidades variam conforme o grau de transparência da água e em algumas regiões a fertilização é desnecessária. Geralmente utiliza-se até 40 kg/ha de uréia durante o enchimento do viveiro para alcançar uma transparência d’água entre 30 e 40 cm. Aplicações subseqüentes de uréia podem ser realizadas para manutenção da transparência ao nível ideal.

Vantagens e Desvantagens do Cultivo

Enfermidades e Área Disponível – Especula-se que a grande vantagem do cultivo de camarão marinho em águas interiores em relação ao cultivo estuarino seja o menor risco de disseminação de enfermidades. Aparentemente em condições muito baixas de salinidade, vetores aquáticos de enfermidades virais, como microcrustáceos, são eliminados, permitindo assim incrementar a biossegurança do sistema de cultivo. Este aspecto tem chamado a atenção de países como o Equador, que teve sua produção de camarão fortemente afetada pelo vírus da Mancha Branca (White Spot Syndrome Virus).

No Brasil, uma vantagem considerável é a disponibilidade de áreas com menores restrições ambientais quando comparadas ao cultivo estuarino de camarões. As regiões estuarinas possuem mangues e outras vegetações protegidas pela legislação brasileira. Com a procura e o custo de terras se intensificando nas regiões costeiras do nosso litoral, haverá cada vez mais um crescente interesse neste novo segmento.

Fatores Técnicos e Mercadológicos – O L. vannamei cultivado em águas oligohalinas cresce tão bem quanto em águas estuarinas ou oceânicas. No Equador durante condições de baixa salinidade, o L. vannamei tem um melhor desempenho e alcança peso comercial mais rápido do que durante períodos de seca. Isto está aparentemente relacionado a uma maior abundância e diversidade de microalgas e uma menor incidência de surtos de enfermidade.

No Brasil, resultados indicam que apesar de ciclos de produção às vezes mais longos e menores níveis de sobrevivência, a conversão alimentar, a produtividade e o peso final dos camarões na despesca não apresentam diferenças representativas. O custo energético do processo de osmoregulação para o L. vannamei é aparentemente muito pequeno. Mesmo em condições extremas de salinidade (acima de 50 ppt), a espécie apresenta uma boa performance, podendo exibir apenas um detrimento na conversão alimentar.

Os camarões cultivados em água com baixa salinidade podem apresentar uma coloração mais esbranquiçada na despesca do que aqueles cultivados em condições estuarinas e oceânicas (Figura 6). Como conseqüência, este tipo de camarão deve ser direcionado unicamente para mercados que apreciam esta coloração. Tanto o sabor como a textura do animal não apresentam alterações detectáveis.

Questões Ambientais – Variações sazonais na precipitação e a influência de rios podem causar reduções significativas na qualidade da água de viveiros oligohalinos. A salinidade da água de muitas carciniculturas do litoral brasileiro caim drasticamente durante a estação de chuvas. Isto afeta fortemente a alcalinidade e a dureza da água. Em águas essencialmente oligohalinas, é importante que o período de chuvas seja monitorado precedendo a instalação do empreendimento, a fim de averiguar se a salinidade, a alcalinidade e a dureza se mantêm dentro de níveis considerados aceitáveis.

Fatores relacionados a disponibilidade de água e ao meio ambiente podem também impor certas limitações no crescimento do segmento oligohalino. No cultivo do L. vannamei é necessário bombear mecanicamente água estuarina para enchimento dos viveiros, para compensar as perdas com evaporação e infiltração da água e para manter as boas condições físicas, químicas e biológicas do meio (Figura 7). Em algumas regiões interiores, a disponibilidade de água é limitada. Além deste aspecto, o contínuo uso de águas com característica oligohalina proveniente de rios ou poços pode eventualmente causar a contaminação e salinização de lençóis freáticos. Por isto, recomenda-se restringir este tipo de cultivo a regiões semi-áridas que já apresentam solos ou águas salinizadas inadequados para a agricultura ou outras atividades produtivas.

Considerações Finais

A engorda do L. vannamei em águas oligohalinas é uma alternativa viável tanto do ponto de vista técnico como econômico. No Equador, Sudoeste da Ásia e EUA, já existem inúmeras fazendas que operam permanentemente ou temporariamente sob condições de baixa salinidade. No Brasil, a atividade resume-se a pequenos cultivadores ou antigos produtores de tilápia, localizados principalmente nos Estados do Piauí e Ceará. Também já podem ser detectadas iniciativas nos Estados da Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte. Na Região Nordeste, estima-se que hoje existam pouco mais de 250 ha de área operando sob tais condições. Apesar de recente no país, já ficou claro que o êxito ou fracasso zootécnico do cultivo e a qualidade do produto final estão intimamente relacionados ao manejo. Em função da complexidade e sensibilidade deste cultivo a fatores técnicos e ambientais, a engorda do L. vannamei em condições oligohalinas só deve ser avaliada e conduzida com a assessoria de empresas com comprovada experiência na área. Isto permitirá garantir o sucesso zootécnico e econômico da atividade, evitando que se torne em uma amarga experiência.