O Desenvolvimento da Salmonicultura no Chile

Lições de um modelo vigoroso e sua possível aplicação na indústria do cultivo do camarão no Brasil


Por:
Carlos Wurmann G.
Engenheiro Civil, M.Sc. Economista, Director Ejecutivo AWARD Ltda.,
Consultor Internacional em Aqüicultura e Pesca Membro do Comitê Executivo do International Institute of Fisheries Economics and Trade Membro do Comitê de Aqüicultura e Pesca do FONDEF. Comissão Nacional Científica e Tecnológica – Chile
e-mail: [email protected]
Raúl Malvino Madrid
Engenheiro de Alimentos. Dr. em Tecnologia de Alimentos.
IBAMA-CE/LABOMAR-UFC
e-mail: [email protected]


Não há dúvida de que o Brasil é uma nação destinada a ser um importante país no setor da aqüicultura, tão ou mais importante do que o é na agropecuária: líder mundial em vários segmentos produtivos. Os resultados da aqüicultura brasileira estão longe de mostrar o seu potencial, e são na verdade, uma simples amostra do que este país continental é capaz de realizar. Em muitos projetos aquícola, no entanto, a busca por sistemas de desenvolvimento adequados às circunstâncias locais faz com que os produtores, técnicos e políticos tratem de definir estratégias que, parecendo novas, já foram tentadas ou comprovadas em outras latitudes, com diferentes graus de êxito. Dado o estado atual da carcinicultura brasileira e a urgente necessidade de ter sua competitividade global fortalecida, nos parece interessante comentar alguns aspectos do vigoroso desenvolvimento chileno no campo dos cultivos aqüícolas, particularmente com o salmão, e analisar sua eventual pertinência ao caso do Brasil.

Da mesma forma que o Brasil, o Chile é um país que conta com um extenso litoral e com uma variedade de climas e de temperatura das águas. No caso do Brasil, destaca-se o fato de ser o país possuidor de enormes corpos de água doce com temperaturas adequadas para a aqüicultura, característica esta que supera, com sobras, o potencial dos rios chilenos nas suas áreas mais accessíveis. Assim, a aqüicultura chilena desenvolve sua estratégia sobre a base de produtos cultivados no mar, como moluscos, algas e, especialmente, peixes diádromos como o salmão e a truta, enquanto que o Brasil centra sua produção aquática em peixes de água doce e, em menor proporção, em mexilhões e ostras nos seus mares do Sul. Só mais recentemente o Brasil tem direcionado sua grande energia ao êxito do cultivo do camarão do Pacífico Litopenaeus vannamei em ambientes estuarinos.

Os resultados da produção de camarão marinho em viveiros são os mais auspiciosos da aqüicultura nacional até a presente data, tendo-se desenvolvido, neste setor, a primeira produção aqüícola brasileira com categoria e qualidade internacionais.

O caminho do desenvolvimento da carcinicultura brasileira, entretanto, não tem sido fácil. Após o fracasso comercial dos cultivos experimentais com espécies asiáticas e dos intensivos esforços de mais de uma década com espécies nativas (1986/1995), somente com a introdução do camarão do Pacífico – espécie já cultivada com êxito no Equador e Panamá – foi possível conquistar resultados positivos, que a partir de 1996 permitiram o começo exitoso do desenvolvimento da indústria camaroneira do Brasil e sua expansão para chegar ao nível em que se encontra a atividade neste momento.

Em ambos os países, a razão que impulsiona os cultivos aquícolas é muito clara: os mercados internacionais continuam demandando peixes, crustáceos e moluscos de forma crescente, enquanto a pesca extrativa não é capaz de satisfazer essas demandas. Essa disparidade, segundo as previsões, continuará acentuando-se nas próximas décadas. De fato, espera-se que entre os anos 2000 e 2030 a demanda mundial por produtos pesqueiros comestíveis cresça em 60 milhões de toneladas, ou seja, ao ritmo de cerca de 2 milhões de toneladas anuais, cujo suprimento deverá ser realizado principalmente por meio da produção derivada da aqüicultura.

Foto: Revista Panorama da AQÜICULTURA
Foto: Revista Panorama da AQÜICULTURA
Foto: Revista AQUA Chile
Foto: Revista AQUA Chile

_____
Atualmente a aqüicultura mundial está concentrada em um número limitado de países e de espécies, situação esta que permite realçar a presença brasileira e a chilena nessa atividade produtiva. As 11 nações que geraram os maiores valores nos cultivos aquícolas entre 2001-2003 (o Chile como o sexto e Brasil, décimo primeiro) representam 88% do volume total e 82% do valor da aqüicultura mundial. A China, por si só, no referido triênio, foi responsável por 69% das despescas aqüícolas mundiais e por 51% de seu valor. Também, as 10 principais espécies mais cultivadas – entre elas o salmão e o camarão – representam 56% do volume e 52% do valor da produção total.

O Brasil e o Chile enfrentam uma situação especialmente promissora, já que os dois países foram capazes de superar barreiras de produção na aqüicultura que a grande maioria das nações ainda não conseguiu. Assinala-se como exemplo o fato de que entre 2001-2003 a grande maioria dos países produtores (105 dos 170), individualmente, gerou menos de 10 milhões de dólares anuais. Além dos níveis de produção e produtividade alcançados em relação aos cultivos marinhos e estuarinos, o Chile concentra sua produção basicamente em salmonídeos e o Brasil em camarões, as duas espécies que figuram entre aquelas de maior produção e demanda no cenário mundial.

O desenvolvimento dos cultivos de salmão no Chile e de camarão no Brasil depende não somente do potencial de condições naturais insuperáveis para esses fins, mas também, de cada um desses países estarem participando da produção de espécies de elevado valor unitário, com demandas bem estabelecidas em praticamente todos os mercados dos países industrializados.

Certamente que o alto preço de ambos os produtos, com demanda internacional crescente, tem atraído muitos países competidores, com aumentos consideráveis e consistentes de produção e oferta em escala mundial, cuja conseqüência é o declínio acentuado dos preços. Igualmente, na medida em que o conhecimento tecnológico avança, os produtores se sentem atraídos para trabalhar com densidades cada vez maiores na busca de melhores rendimentos econômicos, o que, infelizmente, tem redundado no aparecimento de doenças e mortalidades preocupantes, situação que neste momento, para o caso do salmão, já é controlável no Chile.

No cenário atual do mercado, os preços do salmão e do camarão continuarão declinando nos próximos anos, embora provavelmente de maneira muito menos pronunciada do que o registrado nos anos recentes. Esse fato impõe respostas precisas e certeiras dos países produtores que desejam continuar expandindo os seus cultivos e que queiram manter sistemas sustentáveis a médio e longo prazo. Outra preocupação ocorre com as temidas doenças, que devem ser pronta e eficientemente prevenidas e, evitadas com medidas profiláticas e de ordenamento territorial.
Sobre essas preocupações, bem como às relativas aos aspectos de tecnologia, de investimentos, de meio ambiente, de organização, de participação do Estado, etc., o Brasil e o Chile têm opções estratégicas, das quais dependerá o êxito dos aqüicultores nacionais, algumas das quais serão aqui analisadas.

Por certo que a grande vantagem do Brasil em relação ao Chile está representada pelo seu enorme mercado interno, já que no caso chileno, com a demanda local para a produção aqüícola extremamente limitada pelo número reduzido da população consumidora, a produção deve destinar-se basicamente às exportações. As maiores vantagens do Chile com relação ao Brasil parecem estar nos níveis de organização da indústria chilena, com uma presença mais bem estabelecida em seus principais países compradores, especialmente com produtos de maior valor agregado, e um amplo reconhecimento da atividade aqüícola e de seu impacto na economia nacional, por parte dos políticos, empresários e da comunidade nacional, fatores que facilitam o trabalho atual e favorecem a implantação de novos empreendimentos e planos para o futuro. Em ambos os países, por certo, as oportunidades comerciais de exportação são atrativas e, embora por motivos distintos, a aqüicultura tem em ambos o potencial de adquirir uma dimensão considerável e uma categoria de nível mundial.

As Estruturas Produtivas

Chile

Atualmente, o Chile tem uma indústria de classe mundial que cultiva salmão e truta e que, embora esteja atrás da Noruega em termos de volume de produção, é a primeira do planeta quanto ao atributo de eficiência econômica. A indústria chilena trabalha com três fundamentos básicos para possibilitar a sustentabilidade a médio e longo prazo: 1) o país dispõe de uma base produtiva com cultivos massivos de cerca de 600 mil toneladas anuais; 2) essas produções são conseguidas com os menores custos médios em nível mundial e, 3) destaca-se a excepcional capacidade que o Chile desenvolveu de comercializar seus produtos nos principais países importadores de produtos pesqueiros do mundo, como os Estados Unidos e o Japão, nos quais é o primeiro fornecedor de salmão e trutas. Na União Européia, a cada ano o Chile consegue captar porções crescentes do mercado, apesar da competição da Noruega, Escócia, Irlanda, etc..

Na indústria chilena do salmão caracteriza-se, entre outros aspectos relevantes, a presença da grande empresa de capitais nacionais e estrangeiros (Noruega, Países Baixos, Estados Unidos, Canadá, etc.), considerada a mais eficiente do mundo do ponto de vista de manejo econômico. As empresas chilenas são de dimensões consideráveis e mostram uma capacidade média que fica entre 20 e 30 mil toneladas anuais por unidade, cifra esta que tende a crescer. Esses níveis de produção por empresa são 100 vezes superiores às cifras médias, com as quais foi iniciada a indústria nos anos 80.

Foto: Revista AQUA Chile
Foto: Revista AQUA Chile

O cultivo está altamente tecnificado, o país dispõe de uma indústria de serviços conexos extremamente bem desenvolvida e sofisticada, e os níveis de qualidade da produção são excelentes. Trabalha-se com uma altíssima proporção de produtos com alto valor agregado (filés defumados, salgados, etc.), de qualidade sanitária impecável, e embalados de maneira a serem oferecidos diretamente aos consumidores finais das grandes cadeias de supermercados, restaurantes e outros tipos de clientes em diversas partes do mundo.
Junto à produção massiva de diversos itens (praticamente commodities), com a qual o país aproveita de maneir

eficiente suas vantagens competitivas na produção primária e na elaboração de produtos, inclui-se um esforço especial e crescente para atender mercados mais seletivos e em menor escala pela via de produtos orgânicos, produtos funcionais (mais rico que o normal em vitaminas, em ácidos graxos poliinsaturados e em outros elementos), produtos especiais para grupos étnicos (comunidades de origem asiática) ou religiosos (alimentos kossher). Esse setor produtivo, além de crescer constantemente, reinveste sistematicamente em melhorias tecnológicas, em capacitação de pessoal, em superaração de seus níveis de gestão e na comercialização de seus produtos.

O Chile tem visto crescer sua enorme indústria, apesar das reduções de preços ao longo do tempo, da existência de inúmeras e variadas dificuldades administrativas, da falta de legislação adequada em certas áreas e das crescentes pressões ambientalistas, parte importante das quais parece ser exagerada. Pode-se afirmar que o êxito da indústria chilena está radicado na determinação do setor empresarial em realizar um trabalho dedicado para a obtenção de um produto diferenciado pela qualidade, no excelente nível de organização associativa, na incorporação permanentemente de tecnologias e no melhoramento da gestão em todos os níveis.

Brasil

Pode-se dizer que o cultivo do camarão é a iniciativa mais auspiciosa da aqüicultura brasileira. Em sua relativa curta história, já conseguiu a maior produtividade do mundo (6.084 kg/ha/ano em 2003), superando em volume a produção dos países tradicionais do hemisfério ocidental (Equador, Honduras, Panamá e México), se revelando como o setor de maior desenvolvimento da indústria aqüícola nacional.

Foto: Revista Panorama da AQÜICULTURA
Foto: Revista Panorama da AQÜICULTURA

Já em 2003, o setor implantava um modelo exigente de cultivos intensivos, com densidades superiores a 40 pl/m2, que permitia produzir camarões com peso médio de 12 gramas, três vezes ao ano. Aproveitavam-se assim, as condições climáticas favoráveis do país, principalmente da Região Nordeste, onde se concentravam 91% dos produtores nacionais em uma área instalada de 14.824 ha, com uma produção total, no referido ano, de 90.100 toneladas. Setenta e cinco por cento dos produtores eram considerados pequenos, com até 10 ha de viveiros, sendo responsáveis por 17,4% da produção com 18,8% da área total implantada. No outro extremo, só 50 produtores eram classificados como grandes, com área de cultivo superior a 50 ha cada, responsáveis por 55,3% da produção e 53,3% da área implantada.

Ainda em 2003, a indústria do camarão dispunha de 36 laboratórios de pós-larvas, 17 fábricas de rações e 42 centros de processamento para o mercado, além de uma série de empresas complementares. Na maior parte dos casos, as unidades produtivas de cultivo eram de propriedade de empresários brasileiros e, em geral, a indústria apresentava pouca integração vertical. Uma parte importante dos investimentos foi realizada com recursos próprios, muitas vezes provenientes dos lucros obtidos no início das atividades aqüícolas.

Da produção de camarão cultivado em 2003, 77,7% se destinou ao mercado externo com produtos de pouquíssimo valor agregado. Do total exportado, 35% foram enviados aos Estados Unidos (camarão sem cabeça) e 62% aos países europeus (camarão inteiro). As exportações geraram naquele ano US$ 226,0 milhões. Assim, em pouco tempo, concentrada no Nordeste, a indústria do camarão cultivado se posicionava em segundo lugar entre as exportações do setor primário da Região. Do ponto de vista social, também se evidenciava a importância da carcinicultura na zona costeira como empregadora de mão-de-obra local, gerando mais empregos por hectare do que as atividades agrícolas irrigadas do Nordeste.

Entre os anos 2000 a 2003, a indústria do cultivo do camarão mostrou uma impressionante trajetória de crescimento, apesar das reduções de preços nos mercados internacionais, que se compensavam com as contínuas desvalorizações da moeda nacional em relação ao dólar. As reduções médias dos preços das importações americanas de camarão das classificações 41/50, 51/60, 61/70 e > 70 (unidades por kg), foram -25,9%, -19,9% e -11,9%, respectivamente para os biênios 2000-2001, 2001-2002 e 2002-2003. Entretanto, a não recuperação dos preços internacionais, a mudança da situação cambiária com a valorização do real, o processo de dumping movido pelos pescadores americanos e, o surgimento e disseminação do Vírus da Mionecrose Infecciosa no Nordeste, contribuíram para a súbita perda de dinâmica da indústria camaroneira brasileira, com a apreciável diminuição da produção nos anos de 2004 e 2005, em 15,8% e 27,9%, respectivamente, em comparação com o nível alcançado em 2003. Das 90.000 toneladas produzidas nesse ano, que colocaram o Brasil como líder do Hemisfério Ocidental, a produção brasileira de camarão cultivado, afetada em seu desempenho global, ficou reduzida a 65.000 toneladas em 2005.

Lições e Estratégias do Processo de Desenvolvimento

O crescimento da aqüicultura comercial no Chile remonta a um pouco antes do início da década de 1980. O processo chileno respondeu a vários fatores que se conjugaram favoravelmente num momento oportuno e foi iniciado com o cultivo comercial do salmão e da truta, espécies que foram introduzidas no país. Por essa época, são registradas em diversas partes do mundo as novas tecnologias para engorda de peixes em gaiolas, o que se complementava com melhoras de desempenho na produção de juvenis, fatos que já eram conhecidos em muitos países, inclusive no próprio Chile. Rapidamente, o país decidiu experimentar esse tipo de cultivo com maior dedicação por parte do Governo e de instituições nacionais relacionadas com o desenvolvimento tecnológico (Fundação Chile, entre outras), e de maneira tímida das empresas privadas. No andamento desse processo, a situação do mercado internacional passou a favorecer, em termos definitivos, a intensificação de cultivos dessas espécies, apesar da enorme competição com grandes volumes capturados da pesca extrativa.

O Chile começou a sua nova aventura produtiva, basicamente sem esperar o desenvolvimento científico nacional, adaptando, sim, a tecnologia estrangeira. Projetos demonstrativos com investimentos do Estado e de fundações sem fins lucrativos foram então estruturados e operacionalizados, com o convite amplo a muitos atores a excursionarem nas novas tarefas produtivas da aqüicultura nacional. Paralelamente na medida em que cresceu o interesse do setor privado, foram criados serviços de assistência técnica, que ajudaram enormemente a desenvolver a indústria. O aparelho governamental, mesmo sem dispor de uma legislação específica, atuou com flexibilidade normativa, não se limitando no substantivo processo de implantação de novas empresas com capitais nacionais e estrangeiros. Os aspectos ambientais, na época ainda não recebiam atenção preferente no país, nem em outras latitudes do mundo.

Foto: Ricardo Albuquerque ___
Foto: Ricardo Albuquerque ___
Foto: Revista AQUA Chile
Foto: Revista AQUA Chile


A indústria reconheceu, desde o início, sua vocação exportadora, assumindo voluntariamente o controle da qualidade de seus produtos de exportação e trabalhando de maneira sincronizada na promoção do “produto chileno”, que se estabeleceu de forma exitosa nos Estados Unidos e Japão. Essa eficiente associação voluntária de empresas com seus planos de auto-regulamentação da qualidade do produto final constituiu-se, de fato, no posicionamento chave para o êxito da nova atividade.

As primeiras instalações eram rudimentares. As empresas se equipavam com tecnologias básicas, empregando mão-de-obra pouco qualificada e disponível nos próprios locais de cultivo, onde não existiam outras fontes de emprego alternativas, o que lhes permitiu produzir de forma competitiva e auspiciosa. Com o transcorrer do tempo, a competição internacional se fez intensa, evidenciando-se a necessidade de aumentar a dimensão das empresas e de mecanizar operações manuais. Só assim foi possível conseguir custos razoáveis para satisfazer os requerimentos dos clientes cada vez mais exigentes, que demandavam confiabilidade nas entregas, produtos de maior valor agregado e uniformidade e qualidade constantes. Paralelamente se apresentaram as primeiras doenças graves e perdas massivas, que foram neutralizadas com um rápido e eficaz sistema de controle, mediante a instalação de laboratórios; uso crescente de antibióticos e vacinas; melhoras importantes nos métodos profiláticos e na redução das densidades de cultivo; nas rotações dos locais de cultivos e, no sangramento controlado, etc.
Os aspectos ambientais se incorporaram paulatinamente à “equação produtiva”. Por sua parte, o Estado se mostrou lento e só conseguiu se modernizar parcialmente, retardando a produção quando da necessidade de outorga de autorizações, e dificultando a vigilância para um desenvolvimento equilibrado e oportuno em muitos aspectos, embora tenham sido publicadas medidas para melhorar as questões sanitárias, regulamentar as distâncias entre os centros de cultivo e para limitar a implantação de cultivos nas lagoas.

Contudo, o processo produtivo em vários países gerava sobre-produções de salmão/trutas em escala comercial no mundo, as quais foram contornadas com êxito no Chile, mas que causaram enormes perdas na Noruega e Canadá. Essas desfavoráveis situações de mercado, em última instância, terminaram fortalecendo a indústria como um todo, que continuava a enfrentar baixa de preços com a realização do esforço conseqüente de melhorar sua efetividade de forma sistêmica. Isso se conseguiu por meio de um processo praticamente contínuo de aumento da capacidade de produção do cultivo, conexo com a mecanização das principais tarefas. No caminho ficaram as pequenas empresas ao serem fechadas ou transferidas para unidades maiores que as absorveram rapidamente.

Assim, no decorrer de 20 anos, o Chile registrou um aumento de quase 100 vezes no tamanho médio das empresas de salmonicultura, a melhora substantiva do nível dos produtos (valor agregado) exportados e a sua qualidade, uniformidade e condições sanitárias. O Chile alcançou o segundo lugar entre os produtores mundiais de salmão e truta e se destacou como o mais eficiente, apoiado por um forte aparelhamento de formação e aperfeiçoamento de técnicos e profissionais através das universidades, institutos tecnológicos e instituições similares. Somente com esta exigente e disciplinada dinâmica organizacional foi possível a sobrevivência e o progresso da salmonicultura chilena.

Ainda que timidamente, em anos recentes, começou no Chile um processo de busca da diversificação produtiva com a exploração de outras espécies, não menos de 15 a 20, entre as quais se destaca a merluza austral, instalando-se novos cultivos exóticos (turbot e abalone) e intensificando outros (vieiras, mexilhões, algas e ostras). Essas iniciativas são financiadas com fundos de pesquisa e desenvolvimento do Governo que são administrados pela Corporação de Fomento da Produção – CORFO, pela Comissão Nacional Científica e Tecnológica – CONICYT, por diversos fundos (FONDEF, FONDECIT), e ainda por recursos regionais.

A verdade é que a combinação equilibrada e oportuna de esforços entre o Governo e a iniciativa privada contribuiu decisivamente para que a aqüicultura chilena tenha conseguido estabelecer-se como uma grande indústria de nível mundial – a do salmão – acompanhada de medianos e pequenos produtores de mexilhões, ostras, vieiras e de empreendimentos emergentes como o turbot e o abalone.

A análise que se pode fazer em relação ao Brasil, cuja indústria camaroneira depois de várias experiências fracassadas cresceu em produção e produtividade com a introdução do camarão do Pacífico e manteve lucros, apesar da redução dos preços internacionais, permite formular o seguinte comentário: o aumento de produtividade, principalmente entre os pequenos e médios produtores, não foi acompanhado de melhoramento da tecnologia, nem tampouco de assistência técnica e, menos ainda, da mecanização dos trabalhos manuais.

A crise posterior a 2003, que incidiu sobre o setor e que descapitalizou os produtores, por certo, fez aflorar as deficiências de toda a cadeia produtiva, evidenciando: um marco regulatório incompleto e ineficiente; alimentos balanceados de qualidade irregular; sistemas de controle governamental deficientes ou inexistentes; pós-larvas de baixa qualidade genética e muitas vezes transmissoras de doenças; conflitos não resolvidos na área ambiental; dificuldades de obtenção de financiamento a custos adequados; recursos financeiros para pesquisa incompatíveis com o aporte e importância regional da atividade; falta de pessoal preparado em todos os níveis para tratar de problemas relacionados com a biossegurança dos cultivos nas unidades de produção e, principalmente, a falta uma política pública federal, mesmo com a criação da Secretaria Especial da Aqüicultura e Pesca (SEAP).

Além desses fatores internos, o desafio da carcinicultura brasileira fica aumentado com a exitosa introdução do cultivo do camarão do Pacífico nos países asiáticos, o que dificultará a recuperação dos preços internacionais.

Apesar da crise por que passa o camarão em confinamento no Brasil, seu cultivo é muito importante para o setor pesqueiro nacional, já que contribui com mais de 40% das exportações totais e 32,5% da produção pesqueira marinha de toda a Região Nordeste, na qual se sobressaem o Estado do Ceará com 50,6% e o Rio Grande do Norte com 64,1%.

Foto: Revista Panorama da AQÜICULTURA
Foto: Revista Panorama da AQÜICULTURA
O Futuro

O Chile também enfrentou acusações de dumping no mercado norte-americano, o que resultou na aplicação de sobretaxas alfandegárias por vários anos. Também, a sua indústria de salmão, embora recentemente favorecida com preços internacionais em alta, maiores que em temporadas anteriores, tem enfrentado um cenário de preços fortemente decrescente nos últimos 10 anos e em ocasiões – como neste último ano – uma forte valorização do peso chileno em relação ao dólar, que tem afetado negativamente os ingressos associados às exportações.
Então, cabe a pergunta: qual é a fórmula que tem permitido a indústria chilena do salmão seguir progredindo? Qual a receita para sustentar o crescimento futuro? Sem dúvida, trata-se da combinação de muitos fatores que finalmente incidem num conceito global que é a chave de tudo: a profissionalização da atividade. Trata-se de um processo de maturidade crescente, no qual se deixam de lado os “adjetivos” e os problemas menores, para concentrar-se no “substantivo” e no essencial. Trata-se também de apreciar que existem interesses coletivos na indústria, que podem e devem ser assumidos por todos seus participantes, embora sem postergar de forma desmedida as legítimas diferenças e interesses entre os seus membros.

Finalmente, mas não menos importante, conclui-se que a sociedade deve fazer parte do processo de crescimento, necessitando-se cada vez mais de uma aliança e de um entendimento entre a empresa e o Governo, que devem finalmente buscar afinar a maneira de satisfazer o interesse público e privado de maneira harmônica.


Aqui devem ser destacados os fatores essenciais nos quais tem sido sustentada a profissionalização da salmonicultura no Chile. Eles mostram claramente não apenas os “eixos” sobre os quais se tem atuado no passado, mas também constituem os pilares sobre os quais se cimentará o desenvolvimento futuro. São os seguintes:

• Aumento contínuo e importante da capacidade média de cada empresa;
• Forte tendência à integração vertical das atividades;
• Incorporação permanente de tecnologia aos processos de produção com o aumento da mecanização e da melhoria do equipamento físico;
• Preocupação crescente e incorporação da biotecnologia e da genética aos processos produtivos;
• Capacitação permanente da força de trabalho;
• Maior eficiência das rotinas de gestão em todos os níveis e, especialmente, o dos corpos gerenciais;
• Melhorias substantivas nos procedimentos sanitários em todas as fases de produção, para prevenir e se necessário tratar as doenças;
• Terceirização dos trabalhos não essenciais, contratando empresas especializadas capazes de oferecer melhores contribuições a menores custos;
• Incorporação efetiva do tratamento oportuno dos problemas ambientais na “equação produtiva”, eliminando e mitigando os efeitos indesejáveis;
• Atenção e esforço permanente para produzir e vender somente produtos de qualidade e sanidade garantidas a toda prova;
• Melhoramento substantivo das plantas de processamento de pescado no que se refere a seus equipamentos, procedimentos fabris e sanitários;
• Busca constante da lealdade dos clientes nos mercados internacionais;
• Estrito cumprimento dos contratos comerciais;
• Preocupação permanente por aprofundar a presença nos mercados já tradicionais e por abrir novas oportunidades de negócios;
• Fortalecimento do nível de organização e contribuição da indústria de serviços correlatos, provedores de insumos, equipamentos diversos e maquinaria;
• Fortalecimento do trabalho associativo, uma forte liderança entre a Associação de Produtores de Salmão (SalmónChile) e seu instituto tecnológico associado, a INTESAL.
• Crescente nível de entendimento e de apoio mútuo entre Empresa e Governo, para enfrentar situações conflitantes, dentro e fora do país.

Essas medidas têm significado para o Chile a necessidade de destinar boa parte dos lucros das empresas para sua constante implementação, melhoria e ampliação permanentes e, para manter reduzidos os níveis de endividamento com os fornecedores de equipamentos, insumos e serviços. Como contrapartida, têm permitido à indústria chilena manter-se eficiente e altamente competitiva, com a habilidade de converter cada problema ou desafio numa oportunidade para melhorar a eficiência e a competitividade do setor. Só assim o Chile pôde continuar avançando e chegar a dispor de uma indústria de categoria internacional e sustentável de longo prazo. Essas medidas deverão intensificar-se no futuro, embora com mudanças de ênfase.


Sem dúvida, também existem frustrações e problemas pendentes que estão sendo enfrentados da melhor forma. Entre várias outras situações não desejáveis, porém esperadas, observou-se a perda dos pequenos e médios produtores, que tiveram que abandonar os cultivos pela incapacidade do sistema em acolhê-los e/ou acomodá-los ao processo de modernização e crescimento. Muitos deles têm deixado o setor, mas alguns, reconhecendo sua vocação empresarial, estão recomeçando a trabalhar em outros cultivos menos exigentes e/ou dando origem a novas empresas de serviço e de abastecimento de insumos e equipamentos de variados tipos que acompanham o processo de produção central.
Outra grande frustração, que ainda não foi possível resolver completamente, é a necessidade de uma legislação moderna, administrada por um aparato governamental que seja ágil e que apresente uma atitude e vocação real de apoio sistemático à aqüicultura. É reconhecido que ultimamente têm ocorrido avanços, porém não suficientes. Finalmente, estão presentes os conflitos entre a indústria do salmão e as organizações ambientais que não podem ser desconsiderados, ao contrário, devem ser enfrentados com diálogo, com maiores investimentos em sustentabilidade e em informações adequadas e oportunas à comunidade, aos políticos, aos formadores de opinião e, principalmente, ao Governo.

Por certo, não se deve esperar que os mercados para o salmão e trutas continuem crescendo com as impressionantes taxas de incremento do passado. Já se evidenciam certos sinais de saturação que pressagiam períodos de crescimento mais moderados. Se este é o caso, a competição entre países produtores se intensificará e deverá continuar o processo de melhoria na competitividade para garantir a sustentabilidade a longo prazo. Nesse contexto, será importante pensar em criar valores, não tanto pelo aumento dos volumes exportados, senão muito mais, baseados no incremento do preço médio do que se exporta. Isso significa que a indústria deverá distanciar-se, na medida do possível, dos mercados de commodities, e atender cada vez com maior ênfase mercados mais especializados e com maior demanda.
Isto posto, que lições se podem tirar da salmonicultura chilena para que a carcinicultura brasileira se torne cada vez mais sustentável? Em realidade são muitas, mas inicialmente se deve fazer o dever de casa. Para o desenvolvimento sustentável do cultivo de camarão é fundamentalmente necessária a existência de uma vontade política dos governos, federal e estaduais, como um todo, reconhecendo e assumindo as oportunidades e ameaças, por um lado, e suas forças e fraquezas, por outro. Se deve usar as vantagens comparativas e os ganhos de ordem política conseguidos recentemente: preço da energia e isenção do pagamento do ICMS, para explorar ao máximo as oportunidades que se apresentam como, por exemplo, a exploração eficiente do mercado interno. Se deve trabalhar adequadamente as fragilidades internas de ordem ambiental e de biossegurança e as ameaças externas de natureza comercial e de competitividade. Deve-se considerar principalmente a força da iniciativa privada, que mesmo com todos os problemas pela qual hoje passa a atividade, ainda acredita nela, e continua produzindo e visualizando dias melhores. É preciso trabalhar incansavelmente sua fraqueza principal: dar uma base organizacional e institucional ao desenvolvimento sustentável da carcinicultura, devendo progredir a capacidade de preparar uma organização pautada em diretrizes coerentes e em recursos humanos capacitados para fazer frente a um mundo globalizado. Só assim, se poderá constituir uma parceria forte entre a iniciativa privada, incluindo o agronegócio como um todo. O Governo, não deve perder a perspectiva de que a área privada visa o lucro e a administração pública dirige o olhar para sua função social, só então, será possível seguir os ensinamentos e caminhos que a salmonicultura nos oferece.

Salvo escassas exceções, e solucionados os problemas de ordem organizacional e institucional, os conceitos descritos anteriormente poderiam aplicar-se ao caso do Brasil e à sua indústria de cultivo de camarão. Certamente, haverá que trabalhar com diferentes matizes, mas os problemas e as opções são extraordinariamente similares.

Admitimos, portanto, que o caminho já percorrido pela salmonicultura chilena é um bom indicativo de alguns aspectos que já ocorreram ou que ocorrerão na carcinicultura brasileira, e que as opções estratégicas para continuar desenvolvendo essa importante atividade econômica no Brasil não distam muito daquelas que enfrentam os produtores de salmão do Chile.

Essa constatação convida a um melhor e maior intercâmbio de opiniões e experiências entre técnicos e líderes empresariais e governamentais de ambas as nações, com vistas a compartilhar inquietações e explorar soluções criativas a problemas que às vezes parecem insolúveis, mas que, curiosamente, são um dejá vu em outras latitudes.