O êxito da primeira desova do bijupirá

Bahia Pesca sai na frente e produz os primeiros alevinos de bijupirá do País

Por: Jomar Carvalho Filho
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Nos últimos anos o crescimento da aqüicultura no Estado da Bahia vem sendo fomentado pela Bahia Pesca, que ao apoiar diferentes programas de desenvolvimento tecnológico, conquistou inúmeros resultados positivos tanto na carcinicultura como na piscicultura continental. Tais resultados contribuíram para que a Bahia Pesca se decidisse a apoiar também a pesquisa e o desenvolvimento da piscicultura marinha, procurando espécies que pudessem ser cultivadas no litoral brasileiro, e que aliassem o interesse comercial e bom retorno econômico, à facilidade de manejo. As buscas recaíram sobre o bijupirá, um peixe de ocorrência comum em todo o litoral do país, em especial no Nordeste, onde se encontram inúmeros apreciadores da sua saborosa carne.

De rápido crescimento (500g a 800g/mês) em condições de laboratório, o bijupirá já é considerado pela Bahia Pesca como peixe capaz de revolucionar a aqüicultura nacional. A decisão de incentivar o cultivo do bijupirá resultou na construção de um laboratório de reprodução de peixes marinhos no Município de Santo Amaro, onde a empresa já possui sua fazenda de cultivo de camarões. O projeto contou com a parceira da SEAP-PR, Fundação PROMAR, SESOM, TWB e Universidade de Miami.

Para o Coordenador do Projeto Bijupirá da Bahia Pesca, Gitonilson Tosta, com a consolidação desta nova atividade dentro da Bahia Pesca, a tendência será a ampliação da capacidade de produção do laboratório para atender a implantação dos novos projetos de engorda do bijupirá. Isto acontecendo, com certeza irá incentivar todos os segmentos envolvidos na cadeia produtiva, o que contribuirá bastante para a tão desejada consolidação da piscicultura marinha no Brasil.


Captura e adaptação dos alevinos selvagens

A formação do plantel de reprodutores foi uma das preocupações iniciais da equipe do projeto. Entretanto, os contatos com pescadores da região de Santo Amaro, onde está localizado o Laboratório da Bahia Pesca, foram bastante proveitosos e levaram os pesquisadores a optar pela captura de alevinos selvagens, já que a ocorrência desses animais na Bahia de Todos os Santos é bastante comum. Os primeiros alevinos de Rachycentron canadum foram capturados em novembro de 2003 e, de lá para cá, peixes com peso médio de 68 gramas, vêm sendo capturados sistematicamente por pescadores profissionais com a ajuda de redes de cerco e espinhel de fundo. Logo após a captura, são trazidos para o laboratório em caixas especiais providas com um eficiente sistema de oxigenação, respeitando uma densidade máxima de estocagem de 20 kg/m3, mesmo nos casos em que o tempo de transporte não exceda a uma hora.

Segundo o responsável técnico do projeto, biólogo José Jerônimo de Souza Filho, ao chegar ao laboratório da Bahia Pesca, todos os indivíduos recém capturados são submetidos a um protocolo de profilaxia utilizado pela equipe do Dr. Daniel Benetti (Universidade de Miami), que compreende uma seqüência de três tratamentos: anestesia com eugenol (10 – 40 ppm), o uso de solução de formalina (100 ppm) por 5 minutos e imersão rápida em água doce por 10 minutos. Em seguida, os peixes são alojados em tanques circulares de fibra com capacidade para 5.000 litros, numa densidade não superior a 2 kg/m3, aí permanecendo sob quarentena. Ao longo desse período o comportamento dos peixes é observado para verificar se existem sintomas de enfermidades, ao mesmo tempo em que são aclimatados ao ambiente de laboratório, iniciando a transição do alimento natural para a dieta artificial.

Segundo Jerônimo Filho, foi possível verificar durante o período de adaptação à alimentação artificial, que os peixes de pequeno porte (até 100 g) se adaptam facilmente ao alimento inerte, iniciada nos primeiros cinco dias após a captura com a oferta de alimento natural (pedaços de peixes e crustáceos). Por outro lado, os indivíduos capturados com um porte maior têm mais dificuldade para aceitar o alimento inicial e, em alguns casos, permanecem inapetentes por até duas semanas.

A transição do alimento inicial para a dieta final vem sendo feita através de uma seqüência de rações elaboradas na Bahia Pesca, de forma a conter alterações graduais na textura e na proporção dos ingredientes de sua composição. O processo de transição leva em média quatro semanas, e é considerado finalizado quando o peixe aceita a ração base (semi-úmida) sem rejeitá-la. A ração utilizada é preparada à base de lula, camarão, biomassa de artêmia e farelo de ração (55% PB).

Reprodutor de Rachycentron canadum (bijupirá) nas mãos do biólogo José Jerônimo de Souza Filho
Reprodutor de Rachycentron canadum (bijupirá) nas mãos do biólogo José Jerônimo de Souza Filho
Crescimento e maturação de reprodutores

Ao fim do período de aclimatação os peixes são anestesiados e transferidos para tanques circulares de 20.000 litros, para crescer e maturar, sendo antes selecionados pela uniformidade de tamanho e mantidos numa densidade entre 1,5 e 3 kg/m3.

Para manter a qualidade da água nesses tanques, é feita, com a ajuda de bombas de alta vazão e filtros mecânicos, uma renovação diária de 50 a 100% do volume total. Taxas de oxigenação acima de 50% da saturação são obtidas com o uso de aeração constante e retirada diária dos resíduos por sifonamento. Além disso, os tanques são cobertos a fim de evitar o crescimento de algas filamentosas.

Quando identificada a presença de Amyloodinium spp através da observação de peixes com comportamento de natação em flash e abrindo a boca com freqüência como se estivesse bocejando, é feito um tratamento com sulfato de cobre pentahidratado (CuSO4) a 0,5 ppm. Nos casos de parasitismo por isópodes e copépodes são aplicados o mesmo protocolo da profilaxia utilizado quando da chegada dos juvenis ao laboratório. Nas infecções bacterianas é empregado o antibiótico oxitetraciclina.

Tanque da 20 mil litros onde os bijupirás selvagens crescem e maturam - Foto: José Jerônimo
Tanque da 20 mil litros onde os bijupirás selvagens crescem e maturam – Foto: José Jerônimo
Estratégia de condicionamento dos reprodutores

O monitoramento dos parâmetros físico-químicos aliados à manipulação nutricional tem sido determinante para a obtenção de indivíduos com bom desenvolvimento e potencial de reprodução. Dentro deste contexto, algumas alterações na composição da dieta base foram feitas pela equipe técnica da Bahia Pesca para melhor atender aos requerimentos nutricionais dos peixes, tendo sido adicionando carne de peixe e um complexo poli-vitamínico. Esta ração é oferecida à saciedade duas vezes ao dia (manhã e tarde) na forma peletizada, ao longo dos sete dias da semana.

Além dos procedimentos de rotina adotados para o setor de maturação, como: limpeza, alimentação, verificação de bombas e da parte hidráulica, observação dos coletores de ovos e abastecimento, também é observado o comportamento dos peixes no que diz respeito à aceitação de alimento, letargia, natação e agressividade. Segundo Jerônimo Filho, modificação na coloração dos peixes, comportamento agressivo e natação veloz, com um indivíduo sendo perseguido pelos demais, são características do comportamento de corte e podem representar a iminência de uma desova.

As desovas da Bahia Pesca

Segundo o Coordenador do Projeto da Bahia Pesca, Gitonilson Tosta, em janeiro deste ano foi realizada uma avaliação do plantel de reprodutores da Bahia Pesca, contando com a consultoria técnica do Dr. Daniel Benetti, ocasião em que foi feito um prognóstico de desova a partir da primavera. Confirmando esta previsão, no final de setembro, indivíduos com peso variando entre 4 e 9 kg começaram a apresentar comportamento de corte. A partir daí, optou-se por uma redução da renovação diária da água para 30%, com o objetivo de manter altas as concentrações de feromônios nos tanques, o que pode ter influenciado na primeira desova de bijupirá do Brasil, ocorrida no dia 12 de outubro de 2006 e estimada em torno de 700.000 ovos.

1 - Ovos momentos antes da eclosão; 2 - Detalhe da larva recém eclodida e 3 - Larva no 4º DAE (dia após a eclosão)
1 – Ovos momentos antes da eclosão; 2 – Detalhe da larva recém eclodida e 3 – Larva no 4º DAE (dia após a eclosão)

Os parâmetros de salinidade e temperatura encontrados no dia da desova foram 30 ups e 28º C, respectivamente. Os ovos fertilizados foram estocados em incubadoras de 500 litros a uma densidade de 300 ovos/litro, tendo a eclosão ocorrida 21 horas após a desova.

No 3º DAE (dias após eclosão) 500 mil larvas foram alojadas em um viveiro escavado com área de 1 hectare. Outras 40 mil larvas foram mantidas num tanque de 2.000 litros, dentro do laboratório, para que pudesse ser desenvolvida uma larvicultura experimental, uma oportunidade para que a equipe pudesse conhecer todos os aspectos envolvidos.

Uma segunda desova ocorreu no dia 19 de outubro resultando aproximadamente 750.000 ovos (fêmea com 6,5 kg), cujo percentual de fertilização foi calculado em 80,9%. Depois de 20,5 horas houve a eclosão de 400.000 ovos e no 2º DAE foram encaminhadas 210.000 larvas ao Laboratório do Instituto de Pesca em Cananéia – SP, para a realização de uma larvicultura em paralelo.

Uma terceira desova aconteceu no laboratório da Bahia Pesca no dia 02 de novembro, dessa vez a partir de uma fêmea de 6 kg, tendo sido estimando um total de 600.000 ovos, sendo 450.000 considerados viáveis os quais resultaram em 230.000 larvas. Foram enviados 150.000 ovos deste lote para o Instituto de Pesca.

Segundo Jerônimo Filho, as medidas de salinidade e temperatura demonstraram que estes parâmetros não se alteraram ao longo das desovas ocorridas no laboratório da Bahia Pesca, permitindo supor que o atual período do ano favorece as desovas naturais na região, considerando que o comportamento de corte está se repetindo nos demais tanques do setor de maturação da empresa.

Comparativo do crescimento das larvas

O desenvolvimento da larvicultura experimental em andamento no laboratório da Bahia Pesca (no fechamento desta edição a larvicultura ainda não havia terminado) vem apresentando resultados comparáveis aos encontrados na literatura. Segundo o pesquisador Jerônimo Filho, a partir do 8º DAE (dia após a eclosão) as larvas começaram a se alimentar de artêmia e no 15º DAE os peixes começaram a apresentar mudanças comportamentais iniciando o canibalismo.
O “desmame”, como é chamada a passagem do alimento vivo para o inerte, foi iniciado no 21º DAE com as larvas apresentando 42 mm de média de comprimento total.

Indivíduos da mesma idade (21º DAE) cultivado em viveiros (acima) e em incubadoras (abaixo)- Foto: José Jerônimo
Indivíduos da mesma idade (21º DAE) cultivado em viveiros (acima) e em incubadoras (abaixo)- Foto: José Jerônimo
Alevinos de bijupirá produzidos pela Bahia Pesca - Foto: Bruno Sardenberg
Alevinos de bijupirá produzidos pela Bahia Pesca – Foto: Bruno Sardenberg

Uma comparação entre o crescimento das larvas mantidas no laboratório e as que foram estocadas no viveiro escavado, mostra um diferencial positivo em favor destas últimas, que apresentaram uma média de 85 mm de comprimento total no 21º DAE, contra os 42 mm das outras. Esta melhor performance está relacionada a dois fatores: a grande disponibilidade de alimento vivo e à condição do viveiro onde ocorreu a estocagem, já que este apresentou uma situação mais próxima do ambiente natural. Este crescimento acelerado implica em uma menor permanência dos peixes no viveiro. Por isso uma despesca parcial foi realizada no 22º DAE, com a retirada de alguns indivíduos. Esta medida proporcionou a observação de que os peixes já alcançaram um tamanho propício para a estocagem em tanques-rede, entretanto só com a realização da despesca final serão conhecidos os índices zootécnicos para uma melhor avaliação desse cultivo.

Os resultados obtidos no Laboratório de Piscicultura Marinha da Bahia Pesca, no entanto, já podem ser considerados como um marco na piscicultura marinha brasileira, que ganha assim um novo impulso rumo ao propósito da empresa de promover o desenvolvimento de ações de apoio ao setor aqüícola.


Também fazem parte da equipe do Projeto Bijupirá os biólogos José Roberto Andrade e Fábio Expedito