O Futuro da Truticultura no Brasil

Aspectos atuais e sugestões para o desenvolvimento do setor

Por João Luis Sauer Dias
Pesquisador junto ao CNPq/RHAE e
ex-presidente da ABRAT


Para falarmos do futuro da truticultura no Brasil é necessário que se faça, em primeiro lugar, uma revisão nas etapas do seu desenvolvimento. A truticultura comercial iniciou-se no país em 1974 com o criador Kiyoshe Koike, em Campos de Jordão e, nos anos seguintes, toda a tecnologia de projeto de tanques, manuseio de peixe e reprodução, foi baseada no conhecimento obtido através deste truticultor. Nesta época, o mercado era pequeno e o peixe desconhecido, mas alcançava-se um bom preço na venda, fazendo com que a atividade tivesse um bom retorno.

A segunda fase da atividade, se inicia em 1987 com a criação da ABRAT – Associação Brasileira de Truticultura e o aparecimento no cenário da Estação de Salmonicultura do Instituto de Pesca, localizada em Campos do Jordão, hoje denominada Estação de Truticultura Ascânio de Farias. As duas instituições, com o objetivo de disseminar tecnologia, procuraram estar atualizadas de forma a dirimirem dúvidas existentes, principalmente em certas áreas como a de reprodução, considerada na época como segredo de alguns poucos.

A resposta à este fato foi o aparecimento de um número cada vez maior de criadores, fazendo com que o mercado ficasse mais competitivo. Porém, a concorrência era somente interna, entre os truticultores, já que os outros peixes cultivados no país, naquele momento, eram a carpa e a tilápia.

A terceira fase é a que vivemos no momento. O mercado apresenta forte concorrência interna (peixes de água quente) e externa (truta e salmão provenientes de outros países, como o Chile) e, além disso, os sistemas atuais de produção e comercialização da truta brasileira ainda utilizam as tecnologias dos anos 70, quando já poderíamos estar utilizando as mesmas tecnologias dos concorrentes.

Produção

Neste ponto, temos que ressaltar dois problemas fundamentais da truticultura brasileira. O primeiro diz respeito ao nível de produção. Hoje, o país produz em torno de 1.500 a 2.000 toneladas por ano, o que vem a ser a produção de algumas truticulturas particulares da França ou Estados Unidos. Se produzíssemos 20, 30 ou 50 mil toneladas/ano, com certeza já estariam instalados no país produtores de ração e equipamentos, que ajudariam enormemente o desenvolvimento da atividade.

A truticultura é uma atividade extremamente dinâmica. A velocidade de utilização dos resultados da pesquisa em aplicações práticas é tão grande, que podemos citar como exemplo um simpósio de nutrição no Chile em 1992, cujos resultados apresentados foram oferecidos por vários fabricantes de ração, um ano depois.

Entendemos que o futuro da truticultura no Brasil passa por três pontos principais: desenvolvimento genético e melhoria do plantel; utilização de tecnologias modernas de produção e, profissionalização da atividade.

Desenvolvimento genético e melhoria do plantel

O plantel brasileiro é hoje uma mistura de peixes originários de vários países, quase sempre de ovos trazidos de forma irregular. Mesmo os importados de maneira legalizada, foram trazidos com o objetivo de se produzir alevinos no meio do ano, e não, visando o desenvolvimento de uma qualidade específica do peixe.

Esta talvez seja a área mais difícil a ser desenvolvida pelos criadores, e até mesmo pela ABRAT, pois necessita de altos investimentos em equipamentos, pessoal especializado e o retorno é demorado e incerto. Hoje, no Brasil, somente a Estação de Salmonicultura Ascânio de Farias poderia desenvolver esta área, mas a falta de verbas e, provavelmente, a definição de prioridades de pesquisas do Instituto de Pesca de São Paulo, tem cerceado as possibilidades desta Estação, impossibilitando-a de desenvolver um trabalho deste porte.

A solução de importar novas linhagens para melhoria genética, apresenta como desvantagem a introdução de doenças que podem se converter em epidemias devastadoras. Também a simples introdução destas linhagens, não garante que elas irão repetir aqui as mesmas vantagens apresentadas no país de origem. As condições ambientais diferentes e, principalmente, o quadro de temperatura das águas, podem afetar o desenvolvimento destas linhagens.

A importância do desenvolvimento genético pode ser exemplificado com o aparecimento do super salmão, desenvolvido por engenharia genética pelos canadenses e cuja tecnologia foi comprada por um grupo de produtores ingleses. O salmão melhorado geneticamente leva em média 8 meses em água doce para atingir cerca de 80 gr, quando então é levado para o mar e, passados mais 12 meses atinge o peso de 3 quilos. O super salmão atinge os mesmos 3 quilos num total de 9 meses, em vez de 20.

Utilização de técnicas modernas de produção

Para se obter um crescimento mais rápido, e com isto diminuir custos, riscos e ciclo de produção, são necessários: ração de primeira qualidade; equipamentos de automação e, utilização de técnicas modernas de biotecnologia e programação. Com a utilização adequada destes itens, nos países onde a temperatura da água é bem mais fria que no Brasil, os criadores conseguem produzir o peixe no tamanho de abate em tempo igual ou menor.

O único fator positivo que o criador nacional tem a seu favor é a temperatura mais alta da água, e ele tem que aproveitá-la ao máximo. Utilizando-se da curva de crescimento de trutas da Noruega, com melhoramento genético e ração desenvolvida por eles, mas com perfil de temperatura da água de Nova Friburgo no Rio de Janeiro, as trutas levariam do início da alimentação ao abate com 300 gramas, apenas 4-5 meses, contra os 10-12 meses atuais.

Como as fábricas de rações nacionais não conseguem produzir um produto adequado, pois faltam equipamentos, matérias primas de boa qualidade e vontade de atender às necessidades dos criadores, a ABRAT importou uma quantidade para fazer alguns testes.

As rações nacionais até que atendem às necessidades básicas dos peixes quanto aos ingredientes necessários, porém, em termos energéticos, ficam muito a desejar. Elas atingem de 2.700 a 3.100 kcal/quilo de energia bruta, enquanto que qualquer ração importada fornece acima de 4.000 kcal/quilo de energia metabolizável. A importação é uma solução viável, e talvez emergencial para fornecer ao criador, pelo menos uma ração semelhante ao dos concorrentes estrangeiros.

Na maioria das vezes, devido ao seu alto preço, os equipamentos para automação da produção, não estão ao alcance dos produtores médios e pequenos. Porém, alguns deles, como alimentadores automáticos para alevinos, quando acoplados a técnicas como a iluminação dos tanques podem fornecer resultados surpreendentes. Para atender os seus associados, a ABRAT está estudando também a possibilidade de importação destes equipamentos pois, os alimentadores automáticos para alevinos à venda no mercado, não funcionam adequadamente quando a ração apresenta uma quantidade de gordura acima de 7%. É possível que, com o aumento da produção nacional de organismos aquáticos, apareçam no mercado fabricantes de equipamentos mais adequados e de preço acessível aos criadores.

São várias as técnicas modernas para aceleração do crescimento e redução de custo de produção do peixe, e tanto a ABRAT como a Estação de Salmonicultura Ascânio de Farias, disseminam estes conhecimentos através de cursos, simpósios e encontros, porém, os criadores que assistem a estas palestras, parecem entender o que foi dito e mostrado, mas não se utilizam das informações adquiridas.

Um exemplo típico é o da utilização de lotes totalmente fêmeas. É inadmissível o tempo, ração e espaço no tanque utilizados pelos machos, para após 7-8 meses, iniciarem a maturação sexual, em vez de atingirem o peso comercial programado. É inaceitável também, o custo de pigmentar lotes mistos, quando os machos ao iniciarem a maturação sexual perdem a coloração da carne, transferindo-a para a pele. Mesmo assim, a comercialização de lotes de ovos totalmente fêmeas, que é a forma adequada de reverter esta situação, é mínima. A tal ponto que a Estação de Salmonicultura Ascânio de Farias, comercializa os ovos totalmente fêmea e misto, com o mesmo preço quando, normalmente, o primeiro sempre é mais caro. Na Inglaterra, no ano de 1995, 92% dos ovos comercializados eram totalmente fêmea, 6% triplóides e apenas 2% de lotes mistos.

A utilização de programação de crescimento, engorda e finalização, com a utilização de ração com energia e composição diferenciadas utilizando o computador é hoje pratica bastante comum, principalmente na Europa. Porém, para que isto funcione bem, é necessário que existam dados corretos e confiáveis, o que no Brasil simplesmente inexiste. Novamente seria necessário que centros de pesquisa gerassem dados práticos, como curvas de crescimento para diferentes temperaturas e tamanhos de peixes, criados em condições ótimas, para que se pudessem utilizar os programas computadorizados já existentes.

Outra área de importância vital, e ainda inexistente, é a disponibilidade de ovos e/ou alevinos em diferentes épocas do ano. Nos EUA, truticulturas como a de Monte Lassen, Califórnia, e a de Sperrin Mountain, na Irlanda do Norte, apenas para citar duas, oferecem ovos/alevinos de sexo misto, totalmente fêmeas ou triplóides, durante o ano todo. As vantagens são bem claras, desde um aproveitamento maior das construções, como os laboratórios que hoje trabalham 2-3 meses e ficam o resto do ano parados, a uma programação mais adequada de crescimento dos lotes; não havendo, assim, necessidade de produzir e/ou comprar toda a capacidade da truticultura de uma só vez, tendo que fazer o diferenciamento dos lotes através do arraçoamento. Sobre este tema, a ABRAT tem um projeto aprovado pelo CNPq/RHAE que está sendo desenvolvido na Fazenda Campo Verde – MG.

Profissionalização do truticultor

O termo profissionalização aqui usado envolve dois aspectos: a busca de uma constante atualização dos procedimentos utilizados na atividade e uma análise do empreendimento como um todo e o seu direcionamento em busca do segmento mais adequado.

A estrutura das truticulturas no Brasil está, a grosso modo, dividida em dois grupos. As truticulturas de maior porte, que geralmente pertencem a pessoas cuja piscicultura é mais uma das suas atividades, e as criações de porte médio e pequeno, pertencentes a pessoas que moram e vivem da atividade ou a tem como um complemento da sua atividade principal. De qualquer forma, nos dois casos, a atualização de conhecimentos e cursos de aprimoramento para gerentes ou caseiros é deficiente. Não estamos falando de Encontros ou Simpósios, e sim de cursos de aprimoramento, que levam, no mínimo, de três a quinze dias. No primeiro caso citado acima, os criadores dificilmente terão tempo disponível para freqüentar cursos deste tipo, pois suas outras atividades provavelmente não permitirão. No segundo caso, o criador não poderá faltar ao trabalho ou se afastar da truticultura pois, certamente não terá substituto. O único local adequado para um curso desse tipo seria a Estação Ascânio de Farias que, entretanto, não oferece condições de acomodação para os alunos. O que está claro, é que a atividade para melhorar e alcançar a competitividade necessária, terá que passar pela atualização do conhecimento de todos os que nela estão envolvidos.

A análise do empreendimento para a sua otimização é outro item muito importante. Se o principal fator limitante para a expansão da atividade no Brasil é a quantidade de água disponível, o criador deve procurar otimizar ao máximo a sua utilização. Porém, o que mais se encontra são truticulturas onde se pratica o ciclo completo do peixe, quando deveriam se ater a certas etapas, otimizando assim, tanto a utilização da vazão disponível quanto da temperatura local da água.

Os projetos dos tanques, em geral, ou são antigos ou não foram levadas em consideração todas as variedades do sistema, como número de trocas por hora, circulação interna, otimização de capacidades de carga e densidade, velocidade aparente, possibilidade de variação de velocidades aparentes em relação ao tamanho do peixe, etc. Tudo isto faz com que, em geral, não se utilize toda a capacidade dos tanques. É verdade que os custos muitas vezes inviabilizam a modificação ou reforma dos mesmos, porém, não se deve deixar de programar uma modificação que muitas vezes vai proporcionar um aumento de produção, assim como melhorar a sanidade dos peixes.

Trutas da Serrinha – Truticultura localizada no município de Resende – RJ

A recirculação total ou parcial da água é outro item que deveria merecer um estudo mais detalhado. Apesar do custo parecer alto, a possibilidade de se criar o peixe em um ambiente controlado, pode, em certas situações justificar a utilização desta tecnologia. Se somarmos a isto o fato de que a intensificação do rigor da legislação sobre a retirada da água dos rios e de seu retorno como efluente da atividade, podemos afirmar que a recirculação surge como opção interessante a curto prazo. Recentemente a ABRAT recebeu uma série de especificações de uma firma alemã, para produzir 50 toneladas/ano de trutas com apenas 10 litros/segundo de vazão. A unidade completa incluindo os tanques, sistemas de tratamento, um mês de treinamento no local da instalação, custava 300 mil dólares, o que representa hoje o lucro bruto/ano de uma instalação de 50 toneladas/ano. Acredito que se for conseguido um financiamento externo, a taxas de juros internacionais para pagamento em prazos mais extensos (5 a 10 anos), este investimento pode se tornar viável.

Em resumo, a truticultura se aproxima cada vez mais de cultivos como o frango de corte. Cada dia a mais que o peixe passa dentro do tanque sem alcançar a meta desejada, pode fazer com que este perca a possibilidade de comercialização, principalmente quando se pretende alcançar mercados muito competitivos, como os do Rio e de São Paulo. Esta diminuição de prazo de produção só pode ser alcançada com o conhecimento de técnicas adequadas, equipamentos eficazes e vontade de aplicá-los na prática.