O Mercado de Pescados em Brasília

Por: Rui Donizete Teixeira – Médico Veterinário,
especialista em Ranicultura em Brasília.
e-mail: [email protected] e
Raul Malvino Madrid – Responsável pela
Divisão de Aquicultura – DIPEA / DEPAQ / IBAMA –
E-mail: [email protected]


Acaba de ser editado pela INFOPESCA a publicação “O mercado de Pescado em Brasília” fruto de uma cooperação entre esta instituição e o IBAMA. Seus autores relatam no artigo a seguir, detalhes importantes desse estudo e os números do consumo de pescado na capital do País, numa contribuição preciosa para os aqüicultores interessados em aprender como se dá a comercialização de pescado nas grandes cidades brasileiras.

A cidade de Brasília com seus quase 2 milhões de habitantes, possui algumas características interessantes: situa-se cerca de 1000 quilômetros longe do mar; não possui rios expressivos na região; a piscicultura somente agora está se desenvolvendo, e todo o abastecimento de pescado marinho e água doce é importado de outras regiões. Além disso, sua renda per capita de U$ 8.280 destaca-se como a maior do país e sua população, em sua maioria composta por nordestinos, cultiva o saudável hábito de consumir pescados.

Originário de várias partes do país, o pescado comercializado em Brasília vem principalmente de São Paulo (CEAGESP), Santos-SP, Itajaí-SC, Rio Grande-RS, Rio de Janeiro-RJ e, parte de Manaus e Belém. Uma parcela significativa do pescado consumido em Brasília vem da importação, como bacalhau, vindo principalmente da Noruega; o salmão do Chile e, o filé de merluza, o corimatã e a traíra, oriundos da Argentina (quadro1). Nesse quadro, demonstramos a participação significativa da merluza (62,4%), inclusive como o peixe mais consumido no Distrito Federal.

O único entreposto de pescado existente em Brasília foi instalado para processar rãs (RANDER), mas com o atual crescimento da piscicultura na região, esta indústria está se adaptando para brevemente processar também (filetar) peixes. O estudo aponta que apesar do pescado fresco ter a preferência do consumidor, o pescado congelado, provavelmente pelas vantagens logísticas de comercialização (quadro 2) é o mais consumido na cidade. Dois produtos dominam este mercado e representam juntos mais de 45% do volume comercializado: o filé de merluza, com grande consumo nos restaurantes self service e cozinhas industriais, e a piramutaba, pelo seu preço baixo e razoável qualidade de sua carne.

O pescado congelado lidera o consumo, sendo surpreendentemente seguido pelo pescado em conserva, que supera o consumo de pescado fresco. A população de menor poder aquisitivo é tradicional consumidora de pescado em conserva, manifestando uma preferência pela sardinha (74,1%) e pelo atum (25,5 %) enlatados. Já nas bancas de peixe das feiras livres, cerca de 70% do volume de pescado comercializado é inteiro.

Além do consumo da tradicional sardinha e do bacalhau, tem crescido a venda do filé de merluza e da piramutaba, da corvina, do corimatã, do surubim e do salmão. Outros pescados com volumes razoáveis de consumo são a pescada amarela, o bagre, o dourado, a dourada, o peroá, a pescada branca, o pintado, e ainda o badejo, o linguado, o tucunaré, o mandi e a pescadinha.

Semana Santa

A Semana Santa mantêm-se como a época de maior volume de pescado comercializado no ano, sendo que alguns pescados alcançam mais de 30% de todo o consumo anual nesta época. Neste período, alguns piscicultores aproveitam para escoar toda a sua produção. O consumo de bacalhau na Semana Santa é maior que em outras épocas, chegando a representar 30% do volume comercializado durante todo o ano. O Natal representa uma parcela de 17%. Nesta ocasião, o consumo de camarão em Brasília cresce, alcançando cerca de 200 toneladas, quando a venda anual é de 780 toneladas (1996), incluindo o mercado informal, que participa com cerca de 35%.

SupermercadoNo supermercado há ainda resistência dos consumidores para o pescado industrializado (congelado e embalado), apesar do razoável avanço verificado nestes últimos anos, em que triplicou a área de congelados de pescados nestes estabelecimentos. Apenas 4% dos supermercados possuem peixaria e o percentual comercializado é de 45% de pescado inteiro (41% peixe e 4% crustáceos), 35% de postas, e 20% de filé. As espécies de maior aceitação junto ao público consumidor são a piramutaba, merluza, corimatã, salmão, corvina, dourada, surubim, porquinho (peroá limpo) e a sardinha.

O pescado semi pronto é ainda muito caro, inibindo a sua compra apesar do conhecimento do consumidor sobre a praticidade deste tipo de produto. Mas o supermercado lidera em volume de pescado (incluindo o pescado congelado, fresco, seco salgado e conserva) consumido em Brasília. No ano de 1996, 1.970 toneladas de pescado industrializado foram consumidos em Brasília (51,6% do total). Por sua vez, os pescados inteiros, frescos ou congelados, tiveram um consumo de 11.231 toneladas (48,4% do total).

Alimentação coletiva

Favorecido pela ajuda alimentação aos trabalhadores (Ticket), o mercado institucional tem uma participação significativa (quadro 3), surgindo nesta última década um grande número de restaurantes self service (comida por quilo), além de cozinhas industriais. O estudo sobre as características do mercado de pescados em Brasília detectou também, que cerca de 240 toneladas por ano de sardinha em conserva são consumidas no programa “merenda escolar” do Distrito Federal; que empresas de refeições coletivas, que produzem juntas mais de 65.000 refeições diárias, oferecem pescado numa freqüência de 2 vezes/semana; que o catering (serviço de alimentação para aeronaves), prepara 144 mil pratos principais com pescado/ano e, que a alimentação hospitalar, somente na Rede Pública de Brasília consome 45 ton. de peixe inteiro/ano, sendo 75% de filé.

Entressafra

Os atacadistas enfrentam a irregularidade de abastecimento que, em conseqüência, afeta toda a cadeia de comercialização de pescados. Devida aos defesos de espécies (época de proibição da pesca), ou a situações ambientais, que provocam a diminuição ou ausência de cardumes para captura, essa irregularidade compromete o comércio pois a entressafra faz subir o preço do produto no mercado, desgastando a imagem dos atacadistas junto as peixarias e aos supermercados.

O agravante do não fornecimento faz com que alguns peixes sejam retirados do cardápio dos restaurantes, limitando mais ainda sua divulgação e comercialização na safra. Esta situação será sempre uma constante para aqueles que comercializam matéria prima da pesca (captura), pois a produção não pode ser controlada, havendo oscilação na oferta, e dificuldade até de previsão já que, historicamente, a captura não se comporta de modo uniforme, mudando muito de um ano para outro.

Aqüicultura

Ao avaliar o quadro 4 com os preços de pescado, nota-se que da origem até o consumidor final o preço aumenta de 3, 4 até 5 vezes o valor de origem. Esse fato, demonstra que mesmo não havendo inflação, tem-se mantido elevadas margens de ganho. Neste aspecto é preciso que o aqüicultor possa se preparar, evitando o menor número de atravessadores até o consumidor, oferecendo um preço competitivo e tenha uma margem de ganho melhor, viabilizando sua atividade. Mas é importante esclarecer que a participação da aqüicultura no mercado é um fator benéfico para o setor, e não um concorrente a mais para o mercado de pescados oriundos da pesca. Sua parceria é fundamental principalmente na época de entressafra (sazonalidade) da pesca, fato que não ocorre no cultivo, principalmente em regiões tropicais, havendo portanto, possibilidade de oferta constante do produto, eliminando um grande “gargalo” do mercado de pescado pela falta de produto, que ocasiona o desespero dos comerciantes e a frustração dos consumidores.

Sanduíches

Enquanto a rede McDonald’s com o sanduíche (McFish) de peixe, tem um consumo de 24.360 unidades/McFish/mês, os restaurantes a la carte (tradicionais) tem um baixo consumo.

Exemplos como o do McDonald’s, com aumento significativo das vendas do sanduíche McFish, após uma campanha de 3 meses, mostram que o pescado é um excelente produto que necessita de uma melhor estratégia de vendas. A Rede McDonald’s está realizando um serviço imensurável para o setor de pescado e somente após vários anos será possível comprovar seus reais benefícios, quais sejam, a preparação de novas gerações de consumidores de pescado. As crianças comem pouco peixe e criar este hábito desde cedo, será vital para que tenhamos no futuro gerações de fiéis consumidores deste nobre alimento.

Há uma preocupação hoje das pessoas com relação ao alimento a ser ingerido e o exemplo clássico é o elevado consumo em churrascarias de salmão, kani kama e bacalhau, representando uma parcela significativa das vendas nestas casas especializadas em carne vermelha. Esse é um indicativo de mudanças de atitude dos consumidores e que será irreversível.

Futuro

Nos últimos dez anos, observou-se uma importante e expressiva evolução no consumo de pescado em Brasília. Em 1988, o IBGE constatou um consumo anual de apenas 1,7 kg/per capita. Os resultados atuais apontam para um consumo de 12,8 kg/per capita/ano, fazendo com que a capital tenha um consumo duas vezes maior que a média nacional brasileira de 5,8 kg/per capta/ano (FAO, 1995).

O consumo de pescados em Brasília no ano de 1996 foi de 23.201 tLEW (convertido em pescado inteiro) e, apesar de elevado, observa-se que o setor ainda tem condições de desenvolver-se e aumentar este consumo. Para isso, é preciso com profissionalismo aprimorar toda a cadeia de distribuição, desde a chegada do pescado até a sua comercialização. Além de campanhas de divulgação e esclarecimentos, é necessário a diminuição dos custos de produção e melhorias nas indústrias, para que o setor seja competitivo neste mercado altamente disputado que é o de alimentos.

Há a necessidade de realizar um trabalho, com planejamento e estratégia, com a participação de todos os envolvidos nesta cadeia produtiva, desde o produtor, o atacadista, o distribuidor, o varejista, até o consumidor final, para encontrar-se caminhos promissores.

O estudo nos torna otimistas quanto ao crescimento do consumo per capita que, aliado ao crescimento da população, irá tornar o mercado de pescados de Brasília cada vez mais atrativo, tanto para os comerciantes quanto para os produtores, em particular os aqüicultores do Centro-Oeste do país. A presença de um pólo de consumo em pleno planalto central incentiva a produção aqüícola regional que tem condições de paliar os atuais grandes problemas enfrentados pela distribuição de pescados na cidade graças a um fornecimento regular de pescado fresco com tamanho padronizado.

Interessados em adquirir a publicação “O Mercado de Pescados em Brasília” editado pela INFOPESCA contactar fone: 598.2.902.8701 (Montevideu-Uruguay) ou e-mail: [email protected]