O Modelo Equatoriano de Produção de Tilápias

É possível usá-lo como exemplo?

Por: Francisco Hiran Farias Costa
Professor Universitário,
Universidade Federal do Ceará
[email protected]


A aqüicultura está crescendo no mundo inteiro, tendo atingido em 2004, uma produção de 59,4 milhões de toneladas e uma receita de U$ 70,3 bilhões de dólares. Por outro lado, o Brasil que se posicionou entre os 10 principais produtores mundiais em termos de crescimento anual da produção aqüícola no período 2000–02, impulsionado pelo crescimento da carcinicultura marinha e da tilapicultura, hoje, tem sua produção estagnada com ligeira redução comparando-se os anos de 2003 e 2004.

A produção brasileira de camarões cultivados, girando em 60.000 toneladas, tem sido fortemente afetada por uma enfermidade (vírus da mionecrose infecciosa – IMNV), pela ação “anti-dumping” movida pela aliança norte-americana de pescadores e pela valorização da moeda brasileira, enquanto a produção de tilápias no Brasil, estabilizada em torno de 70.000 toneladas, tem como principal obstáculo à burocracia para uso de águas públicas.

Apesar dos diversos entraves, o Brasil ocupou, nos anos de 2003/2004, o posto de 2o maior produtor aqüícola da América Latina, com uma produção de quase 270.000 toneladas, sendo superado pelo Chile, 10o principal produtor mundial, com uma produção de 700.000 toneladas.

Em relação à produção de tilápias, o Brasil foi, em 2003/2004, o principal produtor da América Latina, seguido pela Colômbia, Costa Rica e Equador. A produção equatoriana de tilápias, por exemplo, é baseada no aproveitamento de viveiros anteriormente utilizados exclusivamente para o cultivo de camarão marinho e ascendeu após o surgimento do vírus da síndrome da mancha branca (WSSV) no final da década de 1990.

Devido ao porte e logística da indústria de camarões cultivados equatoriana, o crescimento da tilapicultura nas formas de monocultivo e de policultivo com camarões marinhos cresceu fortemente nos últimos anos, atingindo quase 35.000 toneladas no ano de 2005. Essa indústria vem atuando de forma completamente verticalizada com quase 4.000 hectares produzindo tilápia vermelha, Oreochromis sp., um híbrido resultante do cruzamento de pelo menos 3 espécies – O. mossambicus, O. aureus e O. niloticus.

No Equador, as principais fazendas de cultivo estão estabelecidas em áreas estuarianas, o que justifica o cultivo da tilápia vermelha, pois este híbrido cresce satisfatoriamente em águas com salinidades de até 25-30 ppt. Contudo, recentemente, houve a introdução de um lote de alevinos de tilápia nilótica, O. niloticus, linhagem Chitralada, para a formação de reprodutores, a partir da Colômbia, sendo que estes indivíduos são oriundos da primeira introdução da tilápia tailandesa feita no Brasil, no ano de 1996.

Com essa introdução, torna-se possível o cultivo de tilápia tailandesa em águas com salinidades máximas de até 15-20 ppt, visto que esta linhagem possui amplas vantagens zootécnicas em comparação com a tilápia vermelha.

A cadeia produtiva da tilápia cultivada no Equador difere da brasileira em diversos aspectos, desde o modelo de produção até a questão mercadológica.

A sistemática de produção de alevinos é similar, baseada na seleção de reprodutores por conta de suas características zootécnicas, uso de hapas para acasalamento de reprodutores, coleta de ovos para incubação artificial (Figura 1), reversão sexual em duas fases – 1a fase (primeiras duas semanas) em sistema fechado de recirculação de água (5 ppt) e 2a fase (duas últimas semanas) em viveiros de até 1,0 ha (Figura 2).

Detalhe do setor de incubação de ovos (foto à esquerda)

Figura 1 - Detalhe do setor de incubação de ovos (foto à esquerda) e de reversão sexual de larvas (foto à direita) de tilápia vermelha, durante os primeiros 14 dias, na Fazenda Modercorp S.A., estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador
Figura 1 – Detalhe do setor de incubação de ovos (foto à esquerda) e de reversão sexual de larvas (foto à direita) de tilápia vermelha, durante os primeiros 14 dias, na Fazenda Modercorp S.A., estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador

 

Detalhe da reversão sexual durante as duas últimas semanas em sistema heterotrófico (foto à esquerda)

Figura 2- Detalhe da reversão sexual durante as duas últimas semanas em sistema heterotrófico (foto à esquerda)  e seleção de alevinos após reversão sexual em viveiros de 1,0 ha protegidos com tela anti-pássaro (foto à direita),  na Fazenda Modercorp S.A., estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador
Figura 2- Detalhe da reversão sexual durante as duas últimas semanas em sistema heterotrófico (foto à esquerda)  e seleção de alevinos após reversão sexual em viveiros de 1,0 ha protegidos com tela anti-pássaro (foto à direita),  na Fazenda Modercorp S.A., estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador

O principal produtor equatoriano de alevinos de tilápia vermelha é a empresa Modercorp S.A., com uma produção anual de 80.000.000 de alevinos a partir de 1,0 g com preço similar ao praticado no Brasil. O diferencial, além do uso contínuo de probióticos, é o funcionamento da larvicultura com um sistema fechado de recirculação de água e o monitoramento do equilíbrio osmótico das larvas durante os primeiros 14 dias de reversão sexual, sendo fator primordial para a obtenção de altas taxas de sobrevivências nas larviculturas atingindo valores médios de 90%. A finalização da reversão sexual e a etapa de alevinagem são realizadas em diversos tipos de tanques, podendo ser feita em estufas utilizando cultura em sistema heterotrófico ou em viveiros de 1,0 ha protegidos com tela anti-pássaro.

A indústria equatoriana é caracterizada pela presença de grandes grupos produtores (Tabela 1) atuando de forma associada, não havendo nenhum tipo de dependência em qualquer etapa da cadeia produtiva. O sistema de cultivo preponderante é o semi-intensivo nas formas de monocultivo e de policultivo com camarões marinhos, com produtividades finais chegando a 7.000-8.000 kg/ha/ciclo, fazendo-se uso de um manejo com 3 fases de cultivo, totalizando 300 dias de operação.

Tabela 1 – Principais produtores de tilápia vermelha, Oreochromis sp., no Equador - Fonte: GLOBEFISH, 2006a
Tabela 1 – Principais produtores de tilápia vermelha, Oreochromis sp., no Equador – Fonte: GLOBEFISH, 2006a

Nos policultivos, safras entre 500-700 kg/ha/ciclo de camarões marinhos são obtidas.

O uso de probióticos na aqüicultura equatoriana é uma realidade que tem contribuído fortemente para a melhoria da qualidade do solo e da água dos viveiros de produção, o aumento das produtividades e a redução dos custos de produção. A aplicação de probióticos visa uma diminuição dos níveis de matéria orgânica no solo e na água dos viveiros de produção, sendo o probiótico adicionado quando da preparação de um determinado viveiro e ao longo de um cultivo diretamente na água. Quando incorporado em dietas, o uso de probióticos tem como objetivos o aumento da digestibilidade das rações e uma adequada regulação da flora intestinal das tilápias cultivadas.

O monitoramento por bacteriologia, através da identificação de grupos de bactérias benéficas e patogênicas, e as etapas de multiplicação e incorporação dos probióticos nas rações (Figura 3) são realizados nas fazendas, garantindo um acompanhamento rotineiro da sanidade dos peixes cultivados. O custo médio de aplicação de probióticos por ciclo de produção gira em torno de U$ 30.00-50.00/ha, contudo os custos com tratamento de solo após uma despesca são reduzidos a valores insignificantes.

Figura 3- Procedimento de incorporação de probióticos em rações para tilápias,  realizado na Fazenda Garsal, estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador. Ao fundo, tambores com probióticos multiplicados e embalagens em azul com rações com probiótico  incorporado. Após, incorporação, a ração deverá ser administra em períodos entre 18-24 horas
Figura 3- Procedimento de incorporação de probióticos em rações para tilápias,  realizado na Fazenda Garsal, estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador. Ao fundo, tambores com probióticos multiplicados e embalagens em azul com rações com probiótico  incorporado. Após, incorporação, a ração deverá ser administra em períodos entre 18-24 horas

Em relação ao cultivo em 3 fases, na fase de 1-25 g, o cultivo se faz em viveiros de até 1,0 ha protegidos com tela anti-pássaro, durante aproximadamente 60 dias, com sobrevivências entre 80-90% e densidades de até 100.000 alevinos/ha. Na segunda fase, que vai dos 25-300 g, o cultivo se faz em viveiros de até 3,0 ha protegidos com tela anti-pássaro, durante aproximadamente 90 dias, sobrevivências entre 80-90%, em densidades de até 40.000 juvenis/ha, sendo posteriormente transferidos (Figura 4) para viveiros de até 15 ha, onde permanecem por mais 150 dias, até atingirem peso comercial entre 700-800 g, com sobrevivências na faixa de 90%. Provavelmente devido à baixa performance zootécnica da tilápia vermelha, os valores de conversão alimentar variam entre 1,8-2,0:1, sendo os cultivos finalizados com rações extrusadas entre 24-28%, com custo médio entre U$ 0.27-0.33/kg. Comparativamente, no Brasil, a tilápia chitralada cultivada em tanques-rede atinge 700-800 g, em períodos inferiores a 210 dias, e conversões alimentares entre 1,6-1,8:1.

Detalhe da captura de juvenis para a transferência para o viveiro de terminação

Figura 4- Viveiro de 3,0 ha protegido com tela anti-pássaro, utilizado para a 2º fase de cultivo  (cultivo de juvenis de 25-300 g), Fazenda Garsal, estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador.  Foto à esquerda: Detalhe da captura de juvenis para a transferência para o viveiro de terminação.  Foto à direita: Detalhe da transferência para o viveiro de terminação através de comporta entre viveiros de crescimento e de terminação
Figura 4- Viveiro de 3,0 ha protegido com tela anti-pássaro, utilizado para a 2º fase de cultivo  (cultivo de juvenis de 25-300 g), Fazenda Garsal, estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador.  Detalhe da captura de juvenis para a transferência para o viveiro de terminação (1ª foto).  Detalhe da transferência para o viveiro de terminação através de comporta entre viveiros de crescimento e de terminação (2ª foto)

Por serem cultivadas em viveiros, sempre se verifica se as tilápias apresentam sabor indesejável (“off flavor”) e caso negativo, os peixes são despescados (Figura 5).

Detalhe da captura de peixes  terminados para transporte

Figura 5- Detalhe da despesca do viveiro nº 22 de 13,0 ha, utilizado para a 3º fase de cultivo (cultivo de adultos de 300-800 g),  Fazenda Tiberialles, Grupo El Rosário, estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador. Foto à esquerda: Detalhe da captura de peixes  terminados para transporte. Foto à direita: Detalhe do embarque de peixes terminados em um caminhão tanque para transporte de  peixes vivos até a planta de processamento
Figura 5- Detalhe da despesca do viveiro nº 22 de 13,0 ha, utilizado para a 3º fase de cultivo (cultivo de adultos de 300-800 g),  Fazenda Tiberialles, Grupo El Rosário, estuário do Rio Guayas, Guayaquil, Equador. Detalhe da captura de peixes  terminados para transporte (1ª foto). Detalhe do embarque de peixes terminados em um caminhão tanque para transporte de  peixes vivos até a planta de processamento (2ª foto)

Por se tratar de viveiros de grande porte, a rede de despesca é arrastada por 2 tratores agrícolas e os peixes capturados concentrados próximos à comporta de abastecimento (área menos profunda do viveiro) e divididos em bolsões com uma quantidade estimada de 10.000 libras (capacidade máxima de transporte de um caminhão-tanque), sendo que a quantidade a ser despescada dependerá da capacidade da indústria de processamento. Após a despesca, a tilápia é transportada viva em caminhões-tanque, sendo processada imediatamente e embarcada, no início da noite, para o mercado norte-americano, na forma de filé fresco (Figuras 6-14).

Figura 6- Detalhe do tanque de recepção com as tilápias recebendo o primeiro choque térmico (foto à esquerda) e, posteriormente, sendo encaminhadas para o processamento (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário  (capacidade diária de processamento de 25 toneladas de tilápia inteira), Guayaquil, Equador

Figura 6- Detalhe do tanque de recepção com as tilápias recebendo o primeiro choque térmico (foto à esquerda) e, posteriormente, sendo encaminhadas para o processamento (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário  (capacidade diária de processamento de 25 toneladas de tilápia inteira), Guayaquil, Equador
Figura 6- Detalhe do tanque de recepção com as tilápias recebendo o primeiro choque térmico e, posteriormente, sendo encaminhadas para o processamento, na planta do Grupo El Rosário  (capacidade diária de processamento de 25 toneladas de tilápia inteira), Guayaquil, Equador

 

Após a entrada do produto na área suja, as tilápias são abatidas e submetidas a lavagens sucessivas (foto à esquerda: 1.a lavagem

Figura 7- Após a entrada do produto na área suja, as tilápias são abatidas e submetidas a lavagens sucessivas  (foto à esquerda: 1.a lavagem; foto à direita: lavagem secundária) para a retirada do excesso de sangue, planta do  Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 7- Após a entrada do produto na área suja, as tilápias são abatidas e submetidas a lavagens sucessivas 1.a lavagem (1ª foto); lavagem secundária para a retirada do excesso de sangue (2ª foto), planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 8 - Detalhe do descamador de tilápias e o produto sendo submetido à nova lavagem após a descamação para posterior encaminhado à filetagem, planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 8 – Detalhe do descamador de tilápias e o produto sendo submetido à nova lavagem após a descamação para posterior encaminhado à filetagem, planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador

procedimento de filetagem

Figura 9 - Detalhe do procedimento de filetagem (foto à esquerda) e, posteriormente, filés com pele obtidos  (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 9 – Detalhe do procedimento de filetagem (1ª foto) e, posteriormente, filés com pele obtidos (2ª foto), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 10 - Detalhe do procedimento de ingresso de filés com pele na área limpa após resfriamento do  produto em tanque com água e gelo, na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 10 – Detalhe do procedimento de ingresso de filés com pele na área limpa após resfriamento do  produto em tanque com água e gelo, na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador

Detalhe da área limpa onde se faz a retirada da pele dos filés frescos

Figura 11 - Detalhe da área limpa onde se faz a retirada da pele dos filés frescos (foto à esquerda)  e preparação do filé para apresentação final (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 11 – Detalhe da área limpa onde se faz a retirada da pele dos filés frescos (foto à esquerda)  e preparação do filé para apresentação final (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 12 - Classificação dos filés frescos por tipagem, na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 12 – Classificação dos filés frescos por tipagem, na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador

Embalagem com insulfilm dos filés frescos após tipagem

Figura 13 - Embalagem com insulfilm dos filés frescos após tipagem (foto à esquerda) e resfriamento  rápido em túnel de congelamento para garantia da qualidade do produto (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 13 – Embalagem com insulfilm dos filés frescos após tipagem (foto à esquerda) e resfriamento  rápido em túnel de congelamento para garantia da qualidade do produto (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador

área de embalagem dos filés frescos em caixas contendo 10 libras do produto e 1 libra de gelo

Figura 14 - Detalhe da área de embalagem dos filés frescos em caixas contendo 10 libras do produto  e 1 libra de gelo (foto à esquerda) e preparação final de um lote com 3 embalagens de isopor (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador
Figura 14 – Detalhe da área de embalagem dos filés frescos em caixas contendo 10 libras do produto  e 1 libra de gelo (foto à esquerda) e preparação final de um lote com 3 embalagens de isopor (foto à direita), na planta do Grupo El Rosário, Guayaquil, Equador

Para se produzir 1,0 kg de filé fresco, faz-se uso de 3,0 kg de tilápia inteira que são comercializadas por U$ 1.56/kg (sabendo que U$ 1.00 equivale R$ 2,11, em 19/04/06, temos R$ 3,30/kg), assim, se gasta U$ 4.68 (R$ 9,89) para se adquirir 3,0 kg de tilápia inteira na fazenda. O custo de transporte da fazenda até a planta de processamento (raio máximo de 250 km) fica na base de U$ 0.05/kg de tilápia inteira transportada, ou seja, U$ 0.15 (R$ 0,32) para 3,0 kg de tilápia inteira. O custo para a produção de 1,0 kg de filé fresco embalado é de U$ 0.90 (R$ 1,90). O custo de transporte da planta de processamento até o aeroporto (raio máximo de 50 km) fica na base de U$ 0.02/kg de filé fresco embalado (R$ 0,04). As despesas alfandegárias e os impostos ficam na base de U$ 0.07/kg de filé fresco embalado (R$ 0,15).

As principais tipagens comercializadas são de filés frescos de 5-7 onças e 7-9 onças, com preços FOB-Equador por kg de U$ 6.05 (R$ 12,76) e 6.49 (R$ 13,69), respectivamente, em abril/2006. Representando uma margem de lucro líquido para as tipagens 5-7 e 7-9 de U$ 0.22 (R$ 0,46) e U$ 0.66 (R$ 1,39), respectivamente. Para a carcaça obtida após a o procedimento de filetagem, existem compradores que pagam U$ 0.66/kg (R$ 1,39/kg) de carcaça e o destino é o mercado colombiano que faz uso do resíduo em sopas e caldos.

Como no Brasil, não existem grandes expectativas para o consumo de peles e escamas, sendo esses subprodutos descartados. Contudo, recentemente, a indústria costa riquenha exportou 412 toneladas de pele de tilápia por U$ 289 mil e 130 toneladas de escamas por U$ 146 mil. Estes produtos são usados para extração de geléias e colágenos, que são utilizados na Europa para a fabricação de produtos cosméticos e, em Honduras, a companhia Aqua Finca Saint Peter Fish está inaugurando uma fábrica de farinha de peixe e uma fábrica de biodiesel baseada no óleo de peixe, com investimentos totalizando U$ 20 milhões.

As exportações equatorianas de filé fresco de tilápia para o mercado norte-americano, no período de 2004-2006, têm se mantido estáveis com crescimento moderado, alcançando 10.900 toneladas (35.000 toneladas de tilápia inteira), em 2006. Essa tendência é devido à forte recuperação da produção de camarões marinhos, produto principal da indústria aqüícola equatoriana, sendo a tilápia considerada um “by-product”. Caso contrário, provavelmente, a produção de tilápias no Equador já atingiria valores semelhantes aos brasileiros. Por outro lado, as exportações brasileiras de filé fresco de tilápia que, no período 2004-2005, tiveram um crescimento de quase 200% e, no período jan-jul/06, cresceram 60% em relação ao mesmo período de 2005, praticamente, se estabilizaram no período 2005-2006, passando de 963 para 1.018 toneladas, um crescimento inferior a 6% , fruto do real valorizado.

Finalmente, essa tendência de desindustrialização, provocada pelo real valorizado e aumento das importações, pode comprometer fortemente os futuros parques aqüícolas no Brasil, visto que excedentes de produção teriam como conseqüência uma redução nos preços de comercialização da tilápia com perda de lucratividade, em face da impossibilidade de se exportar. Além do mais, a China que tem exportado filé congelado de tilápia para os Estados Unidos por U$ 3.0/kg, ou seja, R$ 6,33 (U$ 1.00 = R$ 2,11, em 28/02/07), poderá no futuro ser uma forte concorrente dos produtores brasileiros no mercado nacional.


Agradecimentos
Aos Drs. Diego Buenaventura Borrero e Fernando Huerta Durman pelo repasse de partes das informações contidas neste artigo, quando da visita a Guayaquil/Equador, realizada em abril/2006, por técnicos cearenses em uma Missão Técnica como parte do projeto “Arranjo Produtivo da Piscicultura” coordenado pela Prefeitura Municipal de Sobral, em parceria com o Governo Federal, através do Ministério da Integração Nacional.


Bibliografia Consultada

1. FAO, 2006a. The State of Aquaculture 2006. FAO Fisheries Department, Rome, Italy. 134 pp.
2. FAO, 2004. The State of the World Fisheries and Aquaculture 2004. FAO Fisheries Department, Rome, Italy. 153 pp.
3. IBAMA, 2004. Estatística da Pesca no Brasil – 2003. Ibama, Brasília-DF, 98 pp.
4. IBAMA, 2005. Estatística da Pesca no Brasil – 2004. Ibama, Brasília-DF, 98 pp.
5. FAO, 2006b. Regional Review on Aquaculture Development 1. Latin America and The Caribbean – 2005. FAO Fisheries Department, Rome, Italy. 177 pp.
6. GLOBEFISH, 2006a. La Industria de la Tilapia en el Equador. http://www.globefish.org/files/La%20Industria%20de_380.pdf, último acesso em 12/02/2007.
7. GLOBEFISH, 2006b. Tilapia Market Report – February 2006. http://www.globefish.org/index.php?id=2738, último acesso em 12/02/2007.
8. GLOBEFISH, 2007. Tilapia Market Report – February 2007. http://www.globefish.org/index.php?id=3614, último acesso em 12/02/2007.
9. GLOBEFISH, 2006c. Tilapia Market Report – October 2006. http://www.globefish.org/index.php?id=3155, último acesso em 12/02/2007.