…O OVO OU A GALINHA?

Tempos atrás comparavamos a relação entre a aqüicultura e a indústria de rações no Brasil com a clássica relação do ovo com a galinha. Isto é, quem deverá nascer primeir? A aqüicultura brasileira estimulando a indústria de rações ou a indústria de rações estimulando a aqüicultura brasileira?

Para tentar responder a essa clássica indagação perguntamos, via fax, às dez indústrias que formulam rações para organismos aquáticos no país, quais os seus produtos, onde são fabricados, como a empresa vê a aqüicultura no momento, seus planos para o futuro e, por fim, qual o total da produção.

Das respostas foi possível concluir que:

1 – As dez empresas consultadas operam 16 fábricas que produzem rações para organismos aquáticos. Dessas 16 fábricas, 12 se encontram instaladas na Região Sudeste/Sul.

2 – Há um grande interesse pela fabricação da ração de trutas. Dos 17 tipos de rações fabricadas 9 são para trutas.

3 – Apesar de muitas empresas não revelarem seu total mensal produzido acreditamos que a produção não ultrapasse as 350 toneladas por mês.

DISCUSSÃO

À julgar pela quantidade de ração produzida (estimada), isto é, 350 t/mês, os aqüicultores estão hoje consumindo anualmente cerca de 4.200 toneladas de rações. Ao admitirmos uma taxa de conversão aproximada de 2,5:1, concluímos que as fábricas de rações são responsáveis por 1.680 t/ano de pescados.

Este total representa somente 7,6 % das estimadas 22 mil toneladas de pescados produzidas por ano pela aqüicultura no Brasil. A produção extensiva (baixa produtividade) e a fabricação própria, tem sido os cami-nhos encontrados pelos produtores e é responsável por 92% da produção. Se levarmos em consideração as baixas produtividades dos cultivos extensivos, é fácil imaginar como seria a nossa indústria de aqüicultura aproveitando a mesma lâmina d’água já existente apoiada por uma indústria parceira de rações. Infelismente o desenvolvimento de rações para organismos tropicais é na realidade pouco praticado dentro das indústrias brasileiras que, devido ao pouco contato com os produtores, não pesquisam os requerimentos nutricionais dessas espécies.

O marketing, outro estimulador de vendas, não é praticado. Os criadores não sabem para onde se dirigir para adquirir rações. Em várias revendas de rações consultadas no Rio de Janeiro, somente uma tinha rações para organismos aquáticos e nas restantes soou estranho para os vendedores o desejo de adquirir rações para peixes além de não saberem informar o prazo de entrega. Comprar rações é complicado, demorado e caro. Os preços médios do kg estão na faixa de US$ 0.70 ultrapassando os anteriores US$ 0.50 praticados tempos atrás.

GEOGRAFIA

A realidade agroecológica nos mostra que os insumos para rações vem essenciamente do sul do País. Isto porque as fábricas de farinha de pescados estão localizados do Rio de Janeiro para o Sul, assim como as grandes regiões produtoras de soja, milho, sorgo, trigo estão na região Sul e Centro-Oeste. Portanto, é natural encontrarmos os principais fornecedores de rações no Sudeste-Sul. O transporte de rações a longa distância, via estradas de rodagem para estados com excelentes potenciais aqüícolas, como os do Nordeste, encarece o custo de produção não apenas para aqüicultores, mas também para criadores de aves e suínos, diminuindo sua competitividade e seu potencial para crescimento e exportação.

ELDORADO

À julgar pelas declarações dos fabri-cantes entrevistados pelo Panorama, o futuro do mercado de alimentos para a aqüicultura é pro-missor. Para corroborar tecemos algumas con-siderações:

1. O potencial de explotação dos mares está chegando a seu limite máximo sustentável, o que equivale dizer, que retirar mais peixe do mar, será dificil

2. O pescado tem ganho importância cada vez maior pela qualidade de alimentação que fornece ao ser humano. Destaca-se a baixa quantidade de gordura.

3. Países que dominaram a criação de pescados como Noruega, Taiwan, Equador, Escócia e Chile, encontram hoje na aqüicultura uma forte contribuição para ingressos de capital.

4. O Cone Sul, tem hoje alguns dos principais ingredientes para realizar o sonho do Eldorado: fartura de terras planas (no Brasil, em várias regiões), água em abundância, condições climáticas bem distribuídas, insumos para rações (no Brasil, quantidades de subprodutos das regiões produtoras de cereais e, em países vizinhos da margem do Oceano Pacífico, grandes quantidades de farinha de peixe de alta qualidade).

O Brasil tem condições de produzir anualmente centenas de milhares de toneladas de pescados através da criação racional em cativeiro, com alimentação nutricionalmente balanceada e gerenciamento técnicamente correto. Para se ter uma idéia, se o país produzisse hoje a mesma quantidade de catfish que os EUA produzem anualmente na região sul, teríamos um mercado de aproximadamente 250 mil toneladas/ano de ração somente para essa espécie.

OVO E GALINHA

O que se coclui é que não é correto compararmos a relação da aqüicultura com a indústria de rações com a famosa relação do ovo e da galinha.

Isso porque a aqüicultura brasileira tal qual a conhecemos nasceu com Von Ihering nos idos de 1929, engatinhou e hoje já dá seus primeiros passos com um rumo certo, ao passo que a indústria brasileira de rações somente agora engatinha. E é bom que corra caso queira fazer parte da história da construção da atividade no Brasil.

Veja a seguir o panorama das indústrias de rações.

As dez empresas produtoras de rações, listadas abaixo por ordem alfabética, foram entrevistadas via fax. Dos responsáveis pela linha aquática das empresas solicitamos os nomes comerciais das rações que produzem e informação que caracterizasse mais o insumo. Perguntamos também o total da produção – o que para alguns trouxe certo embaraço, e finalmente perguntamos como a empresa vê a aqüicultura brasileira atualmente e os quais os planos de cada uma para o futuro.

1 – AGROCERES
Fábrica: Patos de Minas – MG
Ração: AGROCAMARÃO – Para camarõres marinhos e de água doce com 25 % de proteína.
Produção mensal: Não informada.

A Agroceres está no – mercado desde 1990 produzindo a AGROCAMARAO com boa aceitação entre produtores de camarões marinhos. Seu diretor Luiz Antônio Pereira afirma que a Agroceres vê um futuro promissor para a aqüicultura no Brasil e na sua opinmião o mercado para rações de organismos aquáticos deve sofrer significatica expansão nos próximos anos com boa participação da empresa.

2 – Braswey Sf A Ind e Com. fRações Anhanguera Fábrica: Campinas – SP
Ração: TRUTA’S -,Para trutas com 44% de proteína
Produção mensal: E variável pois a ração é preparada somente quando há encomenda.

Marcos Sardinha – gerente de marketing da Braswey S.A. Indo e Com. acentua o significativo crescimento da atividade nos últimos anos, impulsionado pelo sucesso que os atuais criadores vem experimentando, e está muito atento a este mercado. Os planos da Braswey para o futuro não foram revelados exceto que são muitos e que estão sendo desenvolvidos com a ajuda dos bem equipados laboratórios da empresa que são procurados até por fábricas concorrentes.

3 – CARGILL AGRÍCOLA S.A.
Fábricas: A CARGILL se associou a SOCIL e quem produz CARGILL no Nordeste é a SOCIL ocorrendo o contrário no Sul e Sudeste.
Rações: Peixe I e Peixe 11 – 24% de proteína bruta (comercializadas principalmenter no Nordeste) Produção mensal: Não revelada pois depende de encomendas.

Para Regis Regina – Gerente de Produtos da empresa, que possui cinco fábricas em todo o país, a aqüicultura brasileira já se caracteriza pela solidez e pelo futuro que parece ser altamente promissor, visto a rápidez com que está caminhando a atividade, já com produtores exigindo alimentos de altíssima qualidade. A CARGILL lançará em futuro próximo sua nova linha de produtos para camarões e peixes de água doce, que foram elaborados com assessoria internacional já tendo sido testadas com excelentes resultados.

4-COPAGRIL- Cooperativa Agrícola Mista Rondon Ltda.
Fábrica: Marechal Cândido Rondon – PR
Ração: Peixe Inicial Copagril, peletizadas, 32 % de proteína bruta.
Ração: Peixe Final Copagril peletizadas, 26 % de proteína bruta.
Produção mensal: 60 toneladas

O assessor de cooperativismo e marketing da Copagril, Paulo César Ilha, diz que a Cooperativa vê na aquacultura e, em especial a da região do Oeste do Paraná, uma excelente alternativa para a diversificação da pequena propriedade rural. Nesta Região, Paulo César assegura que a alimentação para peixes já está resolvida da mesma forma que a industrialização do pescado e para isso foi decisiva a vontade e o incentivo do governo estadual. No momento a Copagril se prepara para investir em equipamentos e na formação de equipe técnica para dar fundamental assistência técnica aos produtores.

5 – Mogiana Alimentos S/ A – GUABI
Fábrica: Campinas – SP
Ração: PiráTropical Crescimento – Extrusada, flutuante, 28 % de proteína Bruta para peixes de água doce em geral em fase de crescimento/engorda.
Ração: Pirá Truta Crescimento – Para trutas em fasede engorda com 42 % de proteína bruta .
Ração: Da Rã Inicial – Para rãs jovens (imagos) logo após a absorção da cauda com 42 % de proteína bruta.
Ração: Da Rã Crescimento – Para rãs em fase de engorda com 40% de protéina bruta.
Produção Mensal: 100 toneladas

Para Silvio Romero, Gerente do Departamento de Aqüicultura da Mogiana, a empresa está ajudando a escrever a história da aqüicultura brasileira. Para isso mantém há três anos um Departamento exclusivamente voltado ao setor, desenvol vendo rações com formulações nutricionais exclusivas para organismos aquáticos e dando assistência técnica aos produtores. Para o futuro, os planos da Guabi estão voltados para o aumento da participação da empresa no mercado atendendo também um número maior de segmentos do setor.

6 – PURINA NUTRIMENTOS Ltda.
Fábricas: Ração: Nutripeixe – Para peixes tropicais com 30% de proteína bruta.
Ração: Nutritruta Inicial – Para trutas com 48 % de proteína.
Ração: Nutritruta Final – Para trutas com 34% de proteína bruta.
Ração: MR 25 – Para camarão de água doce com 25 % de proteína.
Ração: MR 30 e 35 – Para camarão marinho com 30 e 35 % de proteína bruta.
Produção Mensal: Não informado por ser dado confidencial da empresa.

A preocupação visível dos produtores, se unindo e buscando orientação para alcançarem maior produtividade e rentabilidade é um dos sinais mais importantes da expansão da aqüicultura no Brasil, segundo Alfredo Roldan, Gerente de Produtos da Purina. Para a purina é a constatação do amadurecimento de uma atividade que tem responsabilidades com o abastecimento da população brasileira. E, segundo Roldan, para atender ao mercado que evolui a empresa oferece, principalmente, tecnologia e alta qualidade para suprir adequadamente as exigências nutricionais das espécies.

7 – SIBRA AQÜICULTURA S/A

Não enviou a teJ1l.po as respostas solicitadas pelo Panorama da AQUICULTURA via fax.

8 – SOCIL PRÓ-PECUÁRIA S.A.

Fábricas: Bauru (SP), Contagem (MG), Cruzeiro (SP), Descalvado (SP), S.L. da Mata (PE).
Ração: Carpil – Para todos os peixes de água doce com 22 % de proteína bruta.
Ração: Trutil Alevinos – Inicial para trutas com 46% de proteína bruta.
Ração: Trutil Engorda – Crescimento e engorda de trutas com 45 % de proteína bruta.
Ração: C.R.S. 25 – Camarão de água doce com 25% de proteína bruta.
Ração: C.R.S. 30 – Camarão de água doce com 30% de proteína bruta.
Ração: C.M.S 30 – Camarão marinho com 30% de proteína bruta.
Ração: C.M.S 37 – Camarão marinho com 37% de proteína bruta.

A SOCIL está fazendo a dobradinha com a CARGILL conforme já explicado, uma fabrica prá outra no Nordeste e inverte tudo no Sul e Sudeste. Mas a SOCIL é uma empresa do Grupo Guyomarc’h sediado na França e lider européia no segmento de cultivos aquáticos. No Brasil éo médico veterinário Ivo Taubner. há mais de 10 anos na empresa, o responsável pela área de aqüicultura. Para Ivo, as boas perspectivas de crescimento do setor são responsáveis pelo otimismo que a SOCIL vê a atividade assim como a certeza de que a qualidade e o alto nível tecnol6gico agregado aos produtos são ti.mdamentais para o crescimento da empresa junto aos aqüicultores que desejam. Estudos e pesquisas para atender aos ranicultores fazem parte dos planos da empresa bem como o lançamento de sua linha de extrusados que se encontra em fase final de desenvolvimento.

9 – VITANUTRE RAÇÕES E SUPLEMENTOS Ltda.
Fábrica: Paulínea – SP
Ração: Nutravit 25 e 35% – Para uso geral
Ração: Nutravit para carpas com 25 % de proteína bruta.
Produção mensal: 30 toneladas

A responsável pelo departamento de vendas da Vitanutri, Seria Cardelli, aposta no futuro da aqüicultura, com crescimento acentuado tão logo o país alcance uma certa estabilidade econÔmica. A Vitanutre se orgulha de produzir somente rações para organismos aquáticos e poder manter uma formulação constante, sem os famosos evemuais substitutos, e está preparando para breve rações especiais para trutas e camarões.

10 – WEG PESCADOS LTDA.
Fábrica: Penha – se
Ração: WEG alevino – Para trutas com 50% de proteína bruta.
Ração: WEG crescimento – Para trutas e catfish com 46% de proteína bruta.
Ração: WEG matriz – ParaTrutas com 48 % de proteína bruta.
Produção Mensal: 150 toneladas

Rubens Nicoluzzi, Diretor Superintendente da WEG Pescados, parece não ter dúvidas ao afirmar, apoiado em sua experiência na setor da pesca, que a aqüicultura além de ser uma redenção para o setor pesqueiro será um novo eldorado para a agricultura brasileira. Aliás o Rubens é um dos poucos homens da pesca que respeitam e acreditam na aqüicultura como atividade comercial séria. A WEG vem mantendo a liderança da alimentação das trutas brasileiras e foi a indústria pioneira a apoiar o Fundo de Pesquisa e Marketing proposto pela Associação Brasileira de Truticultores onde 8 % do valor da compra de rações reverte para a Associação investir em pesquisa e marketing da truta brasileira.