O POLÍTICO E O TÉCNICO

Por: André Macedo Brügger
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Muitas vezes nos deparamos com comentários acerca da pertinência de um administrador público ter formação técnica na área em que exerce sua função. Já tivemos vários exemplos de bons administradores públicos que não tinham formação na área em que atuaram, Ministros da Saúde formados em engenharia, médicos na Fazenda e advogados no Meio Ambiente e isso vale obviamente para os níveis federal, estadual e municipal. Claro que o ideal é quando encontramos técnicos com boa formação e sensibilidade política, como, por exemplo, poderíamos citar Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen, Adib Jatene, entre outros.

D ifícil, porém, é conseguir precisar até aonde, numa estrutura de governo, devem ir os técnicos e até aonde podem chegar os políticos. Para que o tema fique interessante para o público alvo desta Revista, pensemos na Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca – SEAP, carinhosamente chamada de “Ministério da Pesca”.

“Dizem as más línguas” que tem gente na SEAP que acha que “Zona Costeira” é um prostíbulo situado à beira-mar e que “calado” de um navio é aquele cidadão que fala pouco quando está a bordo, tamanha a distância entre a sua formação e o setor. Claro que é exagero, porém, se falarmos de metil-testosterona, aí a coisa pode complicar mesmo…

Por outro lado, é importante ressaltar que é igual ou ainda pior ver um técnico, daqueles preocupados se o nome científico do animal está escrito em itálico ou não, sem nenhuma sensibilidade política e/ou visão macro-estratégica, preparar um Plano/Programa ou Projeto para incrementar, de modo sustentável, a atividade pesqueira ou aqüícola em uma determinada região. Pode ser um “desastre tecnocrata”, daquele tipo cheio de detalhes que nunca saem do papel.

Muitos tecnocratas enchem o peito e falam “eu sou técnico e não gosto de política” quando, na verdade, possivelmente eles não gostem de “politiquinha”, ou de “politicagem”, que é aquele troca-troca obsceno de favores, cargos e recursos onde o compromisso se limita a acomodações temporárias sem alguma pretensão ou possibilidade de gerar frutos para a sociedade (ou pior, gerando frutos poderes). Talvez estejam, até mesmo, pensando em política partidária, aquela coisa de ser filiado do partido A ou B e se comprometer com as suas diretrizes e orientações, que é menos mal do que a anterior. Agora, é claro que não estão pensando na política propriamente dita, ou na “política pública”, que são as estratégias de desenvolvimento, que envolvem ações planejadas e articuladas, objetivando o crescimento de uma região ou de um setor econômico.

Voltando a SEAP, parabenizo o Ministro Fritsch, que até aonde eu tenho podido acompanhar tem feito o que precisa, “vendendo” bem a imagem da atividade pesqueira e aqüícola do país no Brasil e no Exterior convencendo o seu superior (o presidente Lula) e sua equipe (demais Ministros) da importância estratégica deste setor. Acho que um “doutor” do setor pesqueiro não poderia fazer melhor.

Pode ser que existam mesmo muitos políticos de carteirinha ou tecnocratas extremistas ocupando os escalões inferiores da SEAP e isso deve ser alvo de uma análise crítica, tanto externa, quanto interna, de modo a garantir o sucesso da mesma na sua missão de desenvolver sustentavelmente o setor pesqueiro nacional.

Claro que não existe uma receita de bolo para que uma estrutura de governo dê certo. Outras variáveis como infra-estrutura, recursos financeiros, pessoal de apoio, fatores externos, apenas para listar algumas, pesam sobremaneira no sucesso ou no fracasso de uma organização.

Quase que como um “dégradé”, a política e a técnica devem se misturar numa suave, porém, gradual, mudança de tons. Uma não funciona sem a outra e, sabendo disso, há que se ter o devido respeito entre ambas, para que se gere a sinergia necessária para o funcionamento da uma estrutura qualquer.

Atendendo-se esta premissa constataremos vida longa para a pesca e a aqüicultura nacional, bem como para as suas instituições, e assim, acho que ainda veremos surgir vários “Campos”, “Simonsens” e “Jatenes” no setor pesqueiro nacional.


André Macedo Brügger é Diretor Executivo da FISHTEC Consultores Associados e professor de Elaboração e Análise de Projetos do IESB.