O que Aconteceu com os preços do Vannamei no mercado Americano?

No negócio dos camarões, um dos princípios tido como verdadeiro é o de que o camarão branco (Litopenaeus vannamei) sempre foi mais bem cotado que os camarões café (Farfantapenaeus californiensis), usualmente 25 centavos de dólar a mais por libra. Isso, porém, não é mais verdade, já que atualmente, os robustos camarões cafés, muitas vezes com sabor comparado com o iodo, custam até US$ 1.00 a mais por libra que os camarões brancos (uma libra é igual a 453 gramas). Com um sabor suavemente adocicado, o camarão branco também é considerado superior ao insípido camarão tigre (Penaeus monodon) que domina as importações. Por que será então que o mundo dos camarões brancos ficou de pernas pro ar? Muitos culpam os chineses.


No final dos anos oitenta, a China foi por um curto tempo, o maior fornecedor de camarões para o mercado americano, já que os carcinicultores da costa nordeste cavaram viveiros na areia e os povoaram com o seu camarão branco Penaeus chinensis. Em 1990, no pico da produção industrial, as processadoras chinesas exportaram quase 60.000 toneladas de camarão branco para os Estados Unidos a preços de pechincha, ao redor de US$ 3 a libra. A indústria do camarão na China, ainda no seu auge, entrou em colapso, já que as enfermidades arruinaram os cultivos fazendo a produção cair. Em 1996, a exportação para os EUA já estava ao redor de 7.000 toneladas.

O Equador cobriu parte desse déficit, uma vez que os produtores equatorianos haviam expandido sua produção de camarão branco do Pacífico, Litopenaeus vannamei. Carcinicultores dos outros países da América Latina passaram a cultivar também o vannamei, porém, suas produções eram ofuscadas pelas do Equador, onde o cultivo comercial desta espécie teve início em meados dos anos 70. Assim, em meados dos anos 90, os produtores equatorianos lideraram o mercado como a única fonte significativa de camarão branco cultivado. Nesta ocasião, os compradores europeus pagaram bons preços pelos camarões com cabeça, os compradores americanos estavam felizes com os camarões sem cabeça e, o Japão e Taiwan estavam mostrando que também eram mercados muito rentáveis.

Logo a China voltou à cena, agora como comprador de camarão branco, e não mais como vendedor. Ainda que o país tivesse tarifas inflexíveis sobre os produtos do mar importados, os magnatas de Pequim olhavam para outro lado e desejavam que os crustáceos entrassem sem impostos para poder suprir a grande demanda local. Em 1998, a China já estava importando10.000 toneladas anuais de camarão branco do Equador, o relativo a 10% da produção equatoriana.

O camarão tigre (P. monodon) do sudeste da Ásia, passou a pressionar os preços no mercado americano, e mesmo sendo vendido a quase US$ 5 a libra (36/40 sem cabeça), os preços do camarão branco não eram nada desprezíveis. Em 1999 porém, a carcinicultura equatoriana despencou quando o vírus da Mancha Branca devastou a indústria. Os equatorianos haviam sobrevivido à Síndrome de Taura, porém a Mancha Branca era outra história. Em poucos meses os viveiros de Esmeraldas e Guayaquil estavam repletos de camarões mortos e levando a produção a pique.

Mas o Equador não estava sozinho neste problema: o vírus da Mancha Branca rapidamente se disseminou por outros países da América Latina. Para piorar as coisas, o mercado chinês de camarão branco importado desapareceu da noite para o dia ao começar a valer as tarifas sobre estes produtos. A dor dos produtores de camarão foi aliviada de certa forma pelos altos preços, porém, em janeiro de 2001 os preços do camarão branco começaram a cair mesmo estando a produção muito abaixo do normal. Todos os produtores da América Latina se perguntavam o que estava sucedendo.

Os chineses estavam novamente de volta e, desta vez, ao invés de comprar camarão branco, o estavam vendendo. Depois de comprarem um grande número de pós-larvas de laboratórios do Havaí no final de 1990, os chineses começaram a produzir vannamei em grande escala. Em 2000, os carcinicultores do centro e sul da China estavam despescando camarões brancos dos seus viveiros e vendendo-os vivos a preços que chegavam a US$ 6 a libra, durante as festividades do ano novo chinês.

O vannamei, se comparado ao camarão branco chinês (P. chinenses) ou ao tigre (P. monodon), é muito fácil de cultivar, já que pode tolerar baixas salinidades a ponto de poderem ser cultivados em água doce. Também não era difícil manter os camarões saudáveis, dado a ampla gama e baixos preços da “medicina chinesa” (antibióticos).

Na China, a rentabilidade nos negócios é muito rápida, e os produtores de peixes começaram a povoar seus viveiros com vannamei aumentando excessivamente as despescas. Inclusive, nas épocas que tiveram que congelar o camarão pela caída de preços do mercado de camarão vivo, os carcinicultores chineses tiveram uma grande vantagem sobre os produtores latino-americanos: não só por seus baixos custos de produção, como também pela boa rentabilidade que obtiveram com o camarão vivo, o que lhes permitia vender seu camarão congelado mais barato que os produtores que tinham que vender toda a sua despesca congelada.

A China manteve esta vantagem pelo menos até o princípio do ano passado. Em janeiro de 2002, a União Européia proibiu a importação de camarão chinês, quando encontrou em alguns dos embarques, rastros de resíduos de cloranfenicol, um antibiótico proibido, o que levou, alguns meses depois, políticos astutos da Louisiana a fazer suas próprias analises no camarão chinês. O nível de tolerância do cloranfenicol estabelecido pelo FDA era de 5 partes por bilhão e, os resultados encontrados estavam próximos dos estritos padrões de 0.3 ppb estabelecidos pela União Européia. Mas isso já foi suficiente para que a Louisiana solicitasse a FDA que todo camarão chinês fosse fiscalizado quanto a presença de antibióticos, antes de ser vendido nos Estados Unidos.

Quando os políticos dos estados vizinhos (onde havia queixas dos pescadores de camarão sobre os baixos preços que conseguiam por seu camarão capturado) se sentiram ameaçados, o FDA anunciou que a tolerância seria então baixada para 0.3 ppb e que passaria a realizar inspeções mais rigorosas em todo o camarão asiático. Até o momento, o FDA não conseguiu diminuir as importações dos camarões brancos da China, ainda que cada vez mais, os embarques sofrendo atrasos e, quem sabe, os compradores possam perder a paciência.

Até então não existe um lugar onde haja escassez de camarão branco. Certamente também existe a pesca do camarão branco silvestre do Golfo do México e dos estados localizados ao sudeste do Atlântico, de onde os pescadores americanos desembarcam anualmente de 35 mil a 40 mil toneladas de P. setíferus, o camarão branco do Norte. Além disso, existe uma grande quantidade de camarão branco que vem do Brasil, onde o cultivo finalmente tomou impulso depois que a Mancha Branca afetou o Equador. Além disso, os produtores de camarão tigre (P. monodon) do Vietnã estão pensando em mudar para o camarão branco, e se isso se suceder, poderá levar ainda um bom tempo para que os compradores de camarão tenham que pagar um preço premium por este camarão premium.