O sucesso do Catfish

Em 1957, Dr. Homer Swingle, pesquisador da Universidade de Auburn, Alabama – EUA, publicou um trabalho relatando o resultado de experimentos que comparavam a produtividade de vários peixes nativos do sul dos EUA. Das espécies testadas, Dr. Swingle escreveu que a produção do channel catfish (Ictalurus punctatus) foi satisfatória (aproximadamente 1.200 kg/ha) e sugeriu que os experimentos deveriam continuar para que a espécie pudesse ser criada comercialmente. Na ocasião, a falta de conhecimentos para a produção de alevinos em quantidades significantes, foi identificada como uma grande barreira para a produção em escala comercial.

Em 1960 ocorreram as primeiras vendas de alevinos que foram estocados em açudes particulares com a finalidade de pesca recreativa. Os fazendeiros descobriram que no período de um ano obtiveram quantidades suficientes que justificavam a despesca para comercialização. Como naquela época não existia uma indústria para o beneficiamento, os vendedores de alevinos passaram a comprar os peixes engordados pelos fazendeiros a fim de poder voltar a vender outras quantidades de alevinos e se viabilizarem no mercado.

A primeira beneficiadora foi montada em 1968 em Greensboro, Alabama. Três mil t foram processadas em 1971, 20 mil t em 1979, 190 mil t em 1991 e 220 mil t são esperadas em 1992. Hoje o catfish é o mais importante pescado produzido nos EUA, seja ele proveniente da pesca ou de fazenda de cultivo. Ocupa o sexto lugar em consumo logo atrás de espécies valorizadas como o atum, camarão, bacalhau, pollock e salmão. Nos EUA, o estado do Mississipi com 40 mil hectares de viveiros é hoje o maior produtor do catfish, seguido do Alabama com 10 mil ha e Arkansas com 9 mil ha. Os estados da Louisiana e do Texas também produzem quantidades significantes. Atualmente a atividade gera diretamente para os criadores US$ 300 milhões por ano, e gera também para a indústria de beneficiamento outros US$ 300 milhões.

O sucesso dessa indústria de aqüicultura é devido, entre outras coisas, a alta demanda para produtos de carne branca e de sabor suave. Enquanto a demanda para pescados na dieta dos americanos cresceu 25% na década de 80, a produção extrativa do mar estagnou-se. O preço do catfish no mercado também é competitivo. No varejo, o filé de catfish, a carne de gado e o filé de frango equipararam-se em torno de US$ 8.80/kg.

O custo de produção do catfish é relativamente baixo e vem diminuindo em termos reais por conta dos ganhos oriundos das pesquisas e da economia de escala. Tal fato vem fazendo com que os produtores aumentem sua fazendas.

Como extensionista e consultor, ajudo anualmente centenas de pessoas a avaliar suas possibilidades em aqüicultura baseado no que eu chamo “os sete ingredientes para o sucesso”. Desta maneira o produtor em potencial se responsabilliza pela decisão de investir ou não. Essa decisão é baseada nas informações e não pela pressão de outras pessoas. A aqüicultura, em particular a produção de catfish, não é uma maneira de enriquecer rapidamente. Na verdade é um investimento arriscado.

A seguir explicarei melhor estes sete ingredientes:

1 – CLIMA – A temperatura ideal para o crescimento para o catfish é de 29 ºC. No Sul dos EUA esta temperatura ocorre durante mais ou menos 100 dias do verão. No total são precisos 210 dias de temperaturas mais altas para um ganho de 500 gramas. Os climas mais frios como os encontrados no Centro e no Norte dos EUA não são apropriados para a cultivo do catfish já que é preciso mais de um ano para produzir catfish para o mercado.

2 – TERRA – Topografia e Solo O ideal é construir viveiros em terras quase planas utilizando um método de construção chamada cut and fill (cortar e encher). Cortando o barro do centro da área do viveiro e depositando aos lados resulta num viveiro com a superfície da água acima da superfície da terra original. Este tipo de construção usando tratores puxando ‘pans’ guiado por sistema de laser é o mais barato em terras planas. Viveiros assim construídos podem ser despescados com redes de arrasto sem drenar a água. A profundidade é de 1 a 1.5 m e a área é de 2 a 8 hectares.

Terras propensas a vazamento não devem ser usadas devido ao custo excessivo para correção deste problema.

3 – ÁGUA – Quantidade e Qualidade. Água de poço profundo é ideal por causa da sua boa qualidade. No Mississipi quase todos os 40.000 hectares de viveiros dependem de poços semi-artesianos com profundidade de 20 a 50 metros. Por outro lado, no Alabama 80% dos viveiros são abastecidos com água de chuva. Lá a água de poço é difícil e cara, por isso é utilizada somente na época da seca. A pluviosidade anual desta região é de 1.400 milímetros. Água bombeada de rios e riachos pode ser utilizada para se encher viveiros, mas há que se manter uma luta constante contra peixes selvagens e água poluída.

4 -CAPITAL – Investimento e Giro Infelizmente para o investidor é necessário ‘um monte de dinheiro’. A terra custa em torno de US$ 2,500 por hectare desenvolvido. Construção, instalação elétrica, aeração, etc. ficam em mais ou menos US$ 5,500 por hectare e o capital de giro necessário por ano é de aproximadamente US$ 3,750 por hectare. Logo, para montar uma fazenda e produzir catfish para o mercado o capital necessário no primeiro ano é de US$ 11,750 por hectare.

Trata-se de tanto dinheiro que poucos podem arcar. Talvez seja por esse motivo que a indústria nos EUA cresça de maneira regular em vez de assistir a períodos de investimentos excessivos invadindo o mercado.

5 – MERCADO Chega de dizer que: “não adianta produzir um peixe se não existe um mercado”. Nos EUA o catfish está tendo boa aceitação hoje em dia em regiões sem tradição de consumo deste pescado como Nova York e Boston. A qualidade do nosso catfish é excelente e com os problemas de falta de pescados oriundos do mar e medo de sua possível contaminação,

o catfish está sendo a principal alternativa. Ressalte-se que mesmo assim a indústria investe anualmente em torno de US$ 3 milhões em marketing. O catfish é oferecido numa boa variedade de produtos frescos (40%) e congelados (60%). Sendo 60% do total vendido como filés.

6 – GERENCIAMENTO O Departamento de Agricultura do Governo Federal tem descrito a aqüicultura do catfish como a mais intensiva e a mais arriscada forma de aqüicultura dos EUA e eu concordo.

É preciso pouca mão-de-obra para cuidar de uma fazenda de catfish. Um gerente e seis empregados (três durante o dia e três à noite) podem cuidar de uma fazenda de 175 ha com uma produção anual de quase mil toneladas.

O gerente é responsável pela alimentação diária, monitoração do oxigênio dissolvido à noite, aeração, tratamentos, etc.

7 – INFRAESTRUTURA Isto é, fontes de produção e venda de alevinos, ração, equipamentos, etc. Também inclui apoio dos extensionistas especializados das Universidades estaduais (land grant), e apoio da pesquisa aplicada das universidades e de outros grupos.

Para se ter êxito em aqüicultura é preciso o apoio legislativo para o fomento com a criação de leis especiais para derrubar as barreiras legais que interferem com o desenvolvimento da atividade.

O futuro da indústria do catfish nos EUA é promissor. Existem porém vários problemas que ainda tem que ser resolvidos para continuar a sua viabilidade, como os problemas de mercado, de terapêuticas efetivas e aprovadas, da poluição potencial causada pela drenagem dos viveiros e da competição entre os vários grupos por recursos de água limitados.