O Uso de Anestésicos durante o Manejo de Peixes

Por: Rodrigo Roubach1 e-mail: [email protected]
Levy de Carvalho Gomes1 e-mail: [email protected]
1 Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia


Normalmente os anestésicos são utilizados durante procedimentos rotineiros em piscicultura, ocasiões em que são administrados de duas formas: por inalação e por via injetável. Neste artigo, os autores se detêm ao uso de anestésicos por inalação, por ser a forma mais utilizada no Brasil. A operação de anestesia, por ser um procedimento muitas vezes indispensável em sistema de piscicultura, deve ser realizada da forma mais eficiente possível, tanto do ponto de vista biológico, quanto econômico. Biologicamente a operação tem por objetivo anestesiar os peixes sem causar nenhum problema no crescimento e na reprodução. Do ponto de vista econômico, a utilização de uma dose correta de anestésico é fundamental para evitar desperdícios do produto ou a morte dos peixes por “overdose”. A seguir, as informações básicas para anestesiar peixes de uma maneira segura, contribuindo para que a operação de anestesia em pisciculturas no Brasil seja realizada de forma correta. Os autores porém, não endossam ou recomendam o uso e/ou a aplicação de quaisquer dos produtos comerciais aqui descritos e/ou relatados.


Estágios de anestesia

Quando imersos em água com anestésico os peixes passam seqüencialmente através de vários estágios de anestesia (tabela 1). Para que a operação de anestesia seja realizada com sucesso o operador deve observar esses diferentes estágios nos peixes. O estágio normalmente utilizado para biometria, manuseio de peixes e reprodutores é a anestesia profunda e, este estágio deve ser atingido entre 1 a 3 minutos. Para avaliações de sanidade e intervenções cirúrgicas o estágio desejado é o de anestesia cirúrgica e este estágio deve ser alcançado entre 3 a 5 minutos. A recuperação dos animais deve ser rápida e tempo inferior a 5 minutos é considerado adequado.

Tabela 1. Estágios de anestesia e recuperação. Existem estágios de anestesia intermediários, porém nos deteremos aos aqui apresentados por serem os mais importantes do ponto de vista prático.
Tabela 1. Estágios de anestesia e recuperação. Existem estágios de anestesia intermediários, porém nos deteremos aos aqui apresentados por serem os mais importantes do ponto de vista prático.

Cada anestésico vai exigir uma concentração diferente para induzir ao estágio de anestesia desejado dentro dos tempos considerados adequados. Esta concentração deve ser segura, não causar forte reação do peixe ao anestésico e não provocar mortalidade. Diversos autores acreditam que 10 minutos deve ser tempo máximo de anestesia. Peixes anestesiados por mais tempo diminuem a margem de segurança da dose ideal, portanto, caso seja necessário anestesiar os peixes por tempo superior a 10 minutos é aconselhável diminuir a dose do anestésico.

Anestésicos mais utilizados no Brasil

Apesar de existirem dezenas de anestésicos para uso em aqüicultura, vamos nos deter naqueles mais utilizados nos centros de pesquisas, universidades e propriedades particulares no Brasil.

MS-222 (tricaína metano sulfonato) – É um dos únicos anestésicos liberados para o uso em peixes destinados ao consumo humano nos Estados Unidos pelo FDA – Food and Drug Administration, agência norte-americana reguladora de drogas e alimentos. É o anestésico para peixe mais difundido em todo mundo. Comercialmente também é vendido com o nome fantasia de Finquel® comercializada pela Argent nos EUA. É extremamente solúvel em água, porém é muito ácido, abaixando consideravelmente o pH da água. Devido a essa acidificação, muitos efeitos fisiológicos indesejáveis ocorrem nos peixes. A indução a anestesia é rápida e ocorre em um tempo razoável (1 a 5 minutos), sendo a recuperação também rápida (3 a 5 minutos), quando usado na dose correta. Dosagem duas vezes maior do que a ideal pode provocar a mortalidade dos peixes. Estudos recentes mostraram que o uso contínuo de MS-222 ocasiona alguns problemas na retina dos olhos dos manuseadores. A tabela 2 mostra as doses de MS-222 para algumas espécies da piscicultura brasileira.

Tabela 2 - Doses efetivas de MS-222 para várias espécies criadas no Brasil
Tabela 2 – Doses efetivas de MS-222 para várias espécies criadas no Brasil

O MS-222 é um anestésico importado e pode ser obtido diretamente das empresas através da Internet. Embalagem de 100 gramas custa US$ 75,00 acrescidos de transporte e impostos. O custo total pode chegar perto de US$ 160,00.

Benzocaína (ethyil-p-aminobenzoato) – É o anestésico mais utilizado no Brasil, principalmente por ser de fácil obtenção, barato e seguro para o usuário. É quimicamente muito similar ao MS-222, porém, por ser uma solução neutra, causa menos agitação e irritação aos peixes que o MS-222. Anestesia freqüente com benzocaína não causou diminuição no crescimento, nem problemas na reprodução das espécies testadas. É um anestésico seguro e, por ser de uso humano, as doses utilizadas para peixe não causam nenhum problema para o operador. É seguro para os peixes, ocorrendo mortalidades apenas quando são expostos a uma dose três vezes maior que a ideal. Peixes anestesiados com uma dose considerada ideal por até 30 minutos não morrem. Além disso, a benzocaína pode ser removida da água com a filtragem da solução através de carvão ativado, uma vantagem do ponto de vista ecológico, pois não deixa resíduos na natureza. A tabela 3 mostra as doses de benzocaína para algumas espécies cultivadas no Brasil.

Tabela 3 - Doses efetivas de benzocaína para várias espécies criadas no Brasil
Tabela 3 – Doses efetivas de benzocaína para várias espécies criadas no Brasil

O produto pode ser facilmente obtido em empresas especializadas em produtos para aqüicultura e em farmácias de manipulação. Em Manaus – AM, 100 gramas de benzocaína custa em torno de R$ 20,00.

Quinaldina (2-4-metilquinolina) ou Quinaldina sulfato (sulfato de 2-4-metilquinolina) – A quinaldina é um óleo amarelo com limitada solubilidade na água. A solução se torna vermelha-marrom após exposição ao ar. É acida e, da mesma forma que o MS-222, provoca uma reação irritante ao peixe. Normalmente sua potência é menor em águas moles (de baixa dureza) e, em águas com pH menor que 5 a quinaldina é ineficiente. Não é conhecida como um produto carcinogênico, porém irritações nas córneas dos olhos dos operadores foram reportadas. A tabela 4 mostra as doses de quinaldina para algumas espécies.

Tabela 4 - Doses efetivas de quinaldina para várias espécies criadas no Brasil
Tabela 4 – Doses efetivas de quinaldina para várias espécies criadas no Brasil

A quinaldina é um produto importado e 100 gramas do produto custa US$ 25,00, que, com frete e impostos, pode chegar a US$ 70,00.

2- fenoxietanol (fenoxietanol) (Sigma®) ou Etileno glicol Éter feníl éter – C8H10O2 (Merck®) – Óleo com odor aromático, além de anestésico, o fenoxietanol também é fungicida e bactericida. Por estas propriedades este anestésico é indicado principalmente em procedimentos cirúrgicos. A indução à anestesia é rápida e a recuperação muitas vezes é abrupta. Tem uma faixa de segurança adequada pois dose de até 2 vezes maior que a ideal não causa mortalidade. Esperma de reprodutores anestesiados com fenoxietanol não apresentam problemas de motilidade. Para o manipulador não é descrito nenhum problema. A tabela 5 traz as doses efetivas testadas para algumas espécies cultivadas no Brasil.

Tabela 5 - Doses efetivas de fenoxietanol para várias espécies criadas no Brasil
Tabela 5 – Doses efetivas de fenoxietanol para várias espécies criadas no Brasil

A obtenção do fenoxietanol é relativamente difícil, com um custo ao redor de R$ 420,00/L para o produto da Sigma® no Brasil, enquanto o produto da Merck® tem sua comercialização restrita à Europa, tendo os autores conseguido obtê-lo somente na Alemanha.

Mentol – Existe pouca informação sobre o uso de mentol como anestésico e mesmo livros dedicados exclusivamente a anestesia de animais aquáticos não o citam. Nossas experiências com o uso de mentol para tambaqui mostraram que é um produto eficaz para indução a anestesia, porém os peixes reagem violentamente, demonstrando que o produto é extremamente irritante. Uma avaliação mais precisa sobre esse anestésico deve ser realizada. No entanto seu uso é reportado com larvas de aruanã (Osteoglossum bichirrhosum) na dosagem de 6 ml / L de água de uma solução de 0,042% de mentol. O mentol pode ser facilmente encontrado em farmácias de manipulação, em Manaus – AM e 100 gramas custam R$ 50,00.

Fatores que podem influenciar a anestesia em peixes

A anestesia de peixes pode ser afetada por fatores biológicos e ambientais. Entre os fatores biológicos deve-se considerar as diferenças entre as espécies, como o formato do corpo e tamanho da área branquial, e as diferenças entre os peixes de uma mesma espécie, tais como tamanho, variações na taxa metabólica e quantidade de gordura corporal. Por este motivo, as doses recomendadas neste artigo podem não se aplicar ao seu peixe, sendo necessário então o ajuste da dose, tomando a dose recomendada como ponto de partida.

Entre os fatores ambientais de maior importância na anestesia de peixes de água doce, destacam-se a temperatura e o pH. A temperatura determina a taxa metabólica do peixe. Quanto mais alta, maior a taxa metabólica e, conseqüentemente, mais rápida a indução à anestesia. Já o pH da água está diretamente ligado à eficiência de certos anestésicos como a quinaldina e com a reação estressante dos peixes à baixos pH quando expostos à MS-222 e 2-fenoxietanol. Para que estes fatores ambientais não sejam problema durante a operação de anestesia o operador deve ter como rotina anestesiar os peixes sempre na mesma temperatura e pH. Dessa forma, o operador poderá padronizar toda operação, utilizando quase sempre a mesma dose do anestésico.

Procedimentos básicos de anestesia

A tabela 6 apresenta a forma de utilização dos anestésicos mais comumente encontrados no Brasil. As diluições apresentadas devem ser realizadas com muito cuidado já que erros podem concentrar ou diluir a solução mãe em 10 ou mais vezes.

Tabela 6 - Formas de apresentação, preparo da solução e estocagem dos anestésicos
Tabela 6 – Formas de apresentação, preparo da solução e estocagem dos anestésicos
Aspectos legais e de segurança para o uso de anestésicos

No Brasil ainda não existe nenhuma legislação com relação ao uso de anestésicos para peixes de pisciculturas, mesmo assim alguns cuidados fundamentais devem ser observados quando se manipula compostos químicos. Estes cuidados podem ser agrupados nas seguintes categorias:

1) Práticas seguras de operação para os usuários – O operador do anestésico deve conhecer o produto que está utilizando e os perigos que ele pode representar;
2) Armazenamento seguro das drogas e reagentes químicos – O anestésico deve ser armazenado como recomendado na tabela 2. Preferencialmente deve ser colocado em local com acesso restrito;
3) Uso seguro com os animais destinados a alimentação humana – O FDA/EUA só permite o abate de peixes 21 dias após a exposição a anestésicos químicos. Apesar de não haver este tipo de restrição no Brasil, acreditamos que seja adequado seguir estas normas;
4) O potencial de liberação das drogas no meio-ambiente – O operador deve ter cuidados especiais com o descarte da água com anestésico.

A seguir o esquema de trabalho para anestesia por inalação adaptado de Ross & Ross (1999, apresentados em sua ordem de execução.

1. Prepare um balde com um volume de água conhecido e coloque o anestésico em sua concentração final. Após a adição do anestésico agite vigorosamente a água para uma boa dissolução do produto.

2. Prepare um balde com água limpa e bem oxigenada para a recuperação dos peixes. Se for possível, e de preferência, coloque aeração no balde de recuperação.

3. Retire o peixe rapidamente, porém, delicadamente de onde estiver estocado e transfira imediatamente para o balde com anestésico. O número de peixes colocados depende do tamanho e formato do balde, mas como regra deve ser observado uma densidade em que os peixes não tenham muito contato físico.

4. O primeiro lote a ser anestesiado deve ser de 3 ou 4 peixes. Observe o comportamento desses animais até atingirem o estágio de anestesia desejado, caso tudo corra bem pode realizar o trabalho em uma escala maior. Este procedimento de segurança é fundamental para que a operação seja realizada com sucesso.

5. Após o manuseio o peixe deve ser colocado no tanque de recuperação. Após a recuperação total os peixes já podem ser transferidos.

Obs: certifique-se que seu peixe está em bom estado nutricional e de saúde, pois peixes fracos normalmente não suportam a intensidade do manejo necessário para anestesia.