Olhando a Produção de Alevinos

Por: Flavio Lindenberg – proprietário da Moana Aquacultura, empresa produtora de alevinos.


Estima-se que atualmente estejamos produzindo anualmente no Brasil, algo ao redor de 200 milhões de alevinos. Esses números condizem com uma estimativa da produção nacional de pescado cultivado da ordem de 60 mil toneladas ano, se considerarmos que somente 30% dos alevinos comercializados serão abatidos com peso médio de 1 Kg. A um preço médio de R$ 90,00 por milheiro, estamos falando de um mercado de R$ 18 milhões, movimentados diretamente com a comercialização desses alevinos a cada safra.

Os responsáveis por essa produção são aproximadamente 60 “grandes” produtores com média de 2 milhões de alevinos produzidos por safra, e 200 pequenos produtores e estações governamentais com produção media anual de 400 mil unidades.

Com uma simples divisão dos produtores pelo capital bruto supostamente apurado, tenderíamos a imaginar que se trata de atividade altamente rentável, quando na verdade tanto a produção como a comercialização são atividades complexas que envolvem tecnologia, prática, instalações apropriadas, plantéis de reprodutores e um sistema de vendas, que resultam em custos muito altos de implantação e produção. Por outro lado, os preços da venda dos alevinos têm caído a cada ano, diminuindo assim a rentabilidade e, portanto, aumentando as dificuldades para os iniciantes.

Mas, uma das maiores dificuldades do setor, reside no fato de que a grande maioria dos alevinos são destinados a uma aqüicultura amadora, sem desenvolvimento tecnológico. Além disso, os últimos elos da cadeia – os pesque-pagues e, a venda de pescado para consumo, não definiram ainda as espécies que desejam trabalhar. A cada ano alteram-se as tendências e, conseqüentemente, as espécies de alevinos mais procuradas, ou “as da moda”.
Já houve o modismo das tilápias rendali, dos carnívoros (black, tucunaré, trairão), das nilóticas e híbridas, das carpas húngaras e chinesas, dos Colossomas (pacu, tambaqui, tambacu), do catfish africano, dos Brycons e, atualmente, estão na moda as tilápias vermelhas.

Mesmo assim, as demandas, independente do “carro chefe”, se mantém para todas as espécies, ampliando dessa forma a dificuldade para que os produtores mantenham a diversidade e a pronta entrega.
Cabe aqui uma crítica à venda indiscriminada de alevinos de uma espécie, variedade ou cruzamento que não tenha sido testada e verificada a sua viabilidade econômica para a engorda. Muitos aqüicultores adquirem uma novidade vendida como “um grande negócio” e acabam por ter prejuízos no resultado final do cultivo, podendo se desestruturar ou mesmo, desistir da atividade.
Outra questão complexa é a do tamanho do alevino a ser negociado. Podemos dividir genericamente a produção entre os microalevinos (1 a 2 cm), alevinos (3 a 4 cm), alevinões (5 a 7 cm) e juvenis (20 a 100 g). Há demandas específicas para todas as categorias de tamanhos mas, normalmente, os aqüicultores que mais procuram as larvas, microalevinos e juvenis são iniciantes que, a medida que se profissionalizam, passam a usar alevinos e alevinões, buscando o meio termo entre a dificuldade de transporte dos tamanhos maiores e a maior mortalidade e riscos dos tamanhos menores.

Outro fator preponderante na escolha do tamanho é o preço, que diminui consideravelmente para os microalevinos e larvas, devido a maior facilidade de produção. Há que se considerar porém, que os alevinos representam somente algo em torno de 5% do custo de produção de uma engorda e, concentram grande responsabilidade pelo seu sucesso, não cabendo portanto uma maior preocupação em economizar no momento da compra, em detrimento da qualidade. É mais vantajoso para o aqüicultor tentar baixar seus custos de produção, atuando corretamente no manejo, arraçoamento e demais custos indiretos.
Com a profissionalização atual da aquicultura, já é possível encontrar produtores preocupados com a qualidade dos alevinos que adquirem. Muitos já exigem o conhecimento de sua origem, preocupam-se com a sanidade, conferem as quantidades recebidas, verificam a sobrevivência no transporte e, até, o potencial genético das matrizes que os originaram.

Num futuro próximo, os aqüicultores estarão procurando cada vez mais alevinos que proporcionarão um diferencial de produtividade e, consequentemente, um melhor resultado econômico na engorda.
Infelizmente, o desenvolvimento genético das espécies e o aprimoramento tecnológico da reprodução e comercialização, tarefas duras que os produtores de alevinos que ficarem no mercado terão que trilhar, provavelmente, terão que ser financiadas pelos mesmos, pois não há perspectiva de financiamento governamental aberto neste sentido.

O governo pouco tem feito de efetivo para colaborar com este ponto estratégico da aqüicultura nacional. Vemos reuniões, câmaras, comissões e projetos de pólos milagrosos, que pouco têm ajudado a combater o desestímulo que vem causando o excesso de burocracia para a legalização da atividade e falta de crédito rural especifico, que dispensam comentários das suas importâncias. Nos vemos ainda, ameaçados pela possibilidade de cobrança pelo uso das águas e da exigência de atestado ictiosanitário para transportes internos, o que sabemos, somente beneficiarão os lobistas protagonistas.

Curiosamente, temos um continente de águas e de peixes; fomos pioneiros, no passado, na primeira desova induzida por hipofização; temos hoje o melhor material genético de espécies nativas e, estamos nos aprimorando na produção das exóticas. Mas, temos também os produtores de alevinos que realizam com seriedade o milagre dos peixes e os piscicultores que, com profissionalismo, engordam esses alevinos, buscando por conta própria resolver os atuais entraves da engorda até a comercialização.

Portanto, somos levados a crer na continuidade do crescimento da aqüicultura brasileira de forma vertiginosa e na maior disponibilidade de alevinos de qua-lidade, em períodos cada vez maiores do ano.