OPINIÃO – Werner Jost

Werner Jost é diretor da Camanor, uma das empresas líderes no cultivo de camarões no Brasil, e concedeu uma entrevista à repórter Anna Ruth Dantas do jornal Tribuna do Norte, de Natal – RN. Com a habitual franqueza com que expõe seu negócio e suas convicções, Werner, na rápida entrevista, faz um balanço do atual momento da carcinicultura brasileira, falando da preocupante perda de postos de trabalho no setor e da falta de perspectivas para manter seu negócio, diante das dificuldades e entraves que vem enfrentando. O título original da entrevista, publicada em 10 de julho último e que reproduzimos a seguir foi:

“Temos um setor em crise. Não conseguimos mais ganhar dinheiro”


 

• Qual a avaliação que o senhor faz do setor da carcinicultura hoje?
Temos um setor em crise. Até o final de junho estamos trabalhando (na Camanor) com 750 pessoas. Mas estamos demitindo quase 400 pessoas para se ajustar à nova realidade. É algo drástico.

• O que está provocando essa crise?
O preço baixo no mercado mundial e a baixa cotação do dólar. Hoje em dia quase não temos mais estabilidade. O retorno é pequeno para um negócio como o nosso, que tem uma estrutura pesada. A gente não consegue mais ganhar dinheiro. E a partir de maio, com as chuvas, ainda surgiram as doenças (de camarão). Daí, se já não temos lucro, mesmo trabalhando bem, imagine quando você perde 30% ou 40% da sua produção com essas doenças.

• O que está levando ao baixo preço do camarão no exterior?
É a demanda que é menor que a oferta. Muitos países estão produzindo camarão. O preço está baixo. A principal concorrência vem da Ásia, Tailândia, China. E na América Latina o Equador, Venezuela e México.

• E a taxação no mercado dos Estados Unidos o que representou para o setor?
Foi uma complicação a mais. Mas não é um fator tão pesado. Temos um mercado forte na Europa e com a taxação ficou ainda maior. Antes exportávamos 10% a 15% para os Estados Unidos. Hoje são 2% ou 3%.

• Qual a alternativa para acabar com a crise e alavancar a carcinicultura?
É difícil apontar uma saída. Nós ainda temos a ameaça de sermos atingidos pelo “white spot” (mancha branca). Já temos hoje muitas doenças (no camarão) e ainda pode chegar a mancha branca. Essa é a doença que afeta mais o camarão. Se eclodir será um desastre completo. Acabaria com toda a produção e seria muito mais complicado.

• O que os produtores estão fazendo para evitar a chegada dessa doença?
É muito difícil evitar, devido ao desenho das fazendas. Hoje na Ásia as fazendas são muito diferentes. Para a gente seguir isso teria que recomeçar tudo.

• Com todos esses problemas, qual a saída então?
A crise pode aumentar ainda mais. É muito difícil falar em saída. No Equador a produção caiu 90% com essa doença (mancha branca). Depois eles (os produtores do Equador) tiveram uma retomada, mas muito lentamente. O que é mais difícil aqui no Brasil é porque estamos engessados com relação aos funcionários. Na Ásia e no Equador você paga aquele funcionário, a pessoa vai embora e volta. Mas aqui tem indenização, paga multa. Com todos os funcionários que estamos demitindo (400 pessoas) pagamos R$ 1,2 milhão. Se acontece um desastre (a chegada da doença) não temos flexibilidade de mandar todo mundo para casa e depois chamar de volta quando melhorar. Muitas fazendas do Rio Grande do Norte estão se antecipando (para demitir). Enquanto temos dinheiro no caixa a gente prefere demitir para poder fazer tudo dentro da legalidade.

• Qual o futuro da carcinicultura? O senhor acredita que vai acabar o setor no RN?
Acho que os países lá fora vão se recuperar. A Ásia é muito forte. O dólar fica fora do nosso alcance. O que temos é que a cada ano ficamos mais desmotivados. Isso é o resultado de ter trabalhado com muita densidade e de maneira ecologicamente não muito correta.

• Trabalhar com a densidade alta nos viveiros foi um erro dos produtores?
Não havia ordenamento na região. Se você vai a Canguaretama tem mais de 100 fazendas. Não havia um plano diretor para a região para definir a construção das fazendas. A gente vê hoje que uma fazenda atrapalha a outra. Se o camarão da fazenda do vizinho fica doente o meu fica automaticamente doente.

• O senhor fala como se estivesse se despedindo da carcinicultura, é isso mesmo?
Não sei. No momento estou muito pessimista e fico surpreso como o governo não toma conhecimento. A Camanor foi a última empresa a tomar medidas tão drásticas, as outras já tomaram. Cerca de 50% dos postos de trabalho não existem mais. Acho que temos de 2 a 3 mil pessoas a menos empregadas. Não vejo reação do Governo para chamar e perguntar o que está acontecendo. O Governo se preocupa com política, mas não faz nada para o nosso setor.

• Qual a alternativa que o senhor encontrou para manter os negócios?
Há dois anos comecei a entrar no setor imobiliário. Realmente, é incrível como você consegue com o mínimo risco ter um retorno muito rápido. E no camarão a gente investe tanto, arrisca muito, trabalha tanto e o retorno é mínimo. Para mim é muito estranho, como economista, perceber como todo setor ataca a atividade de camarão. Acho que a contribuição para o Estado é muito maior do que o prejuízo que o meio ambiente pode sofrer.

• O senhor não acha que foi a falta de organização da atividade que provocou essa visão negativa da população?
Veja a explosão de pousadas em Ponta Negra. Ela não tem a imagem negativa.

• Os órgãos do meio ambiente têm uma posição muito rigorosa com a carcinicultura? O senhor vê isso como uma rejeição?
Com certeza é desestimulante ver toda essa dificuldade. No final sempre levamos um conceito negativo. Há abuso, como nos outros setores, mas ali cabe aos órgãos públicos identificar e corrigir. O que não acontece. Você nunca sabe quem desmatou o mangue. No final todo mundo é multado. O Ibama nunca tinha feito nada e depois começou a entrar na fazenda e já pronto para multar, eles (os fiscais) já definiam quem seria multado.

• Como o senhor analisa o trabalho do Ibama e Idema?
Ibama e Idema são diferentes. Ibama está totalmente fora do controle. O fiscal do Ibama chega na fazenda e multa em R$ 500 mil ou R$ 1 milhão sem dado técnico; a multa sai da caneta dele. O Idema está sobrecarregado porque hoje em dia precisa de licença ambiental para tudo.

• Quem ganhou e quem perdeu com a saída de Solon Fagundes do Ibama?
Acho que Solon tentou reorganizar o Ibama. Ele enfrentou um corporativismo muito grande e não conseguiu fazer nada. A situação no Ibama é muito grave. Não há uma linha técnica, a finalidade é de interesse. Foi uma pena ele ter saído, ele tentou fazer o Ibama funcionar.

• Os fiscais do Ibama são movidos por interesse?
Acho que sim. Hoje e talvez no passado os fiscais foram levados por interesses que não eram técnicos. Alguém que quer prejudicar e leva o fiscal até a fazenda para lhe multar. Já passei por isso.

• Se o senhor estivesse chegando em Natal agora, qual seria sua área de negócio?
Eu gosto muito de produção. Então acho que minha inclusão seria produzir algo. Mas é muito difícil pela análise de retorno financeiro. É muito arriscado produzir aqui.