Os Moluscos Bivalves e a Biorremediação dos Impactos da Carcinicultura

Por: Alfredo Olivera, Departamento de Pesca da UFRPE
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A carcinicultura brasileira atualmente obtém destaque internacional devido aos elevados índice de produtividade do camarão Litopenaeus vannamei, com médias ao redor de 4.000 kg/ha/ano. Destacam-se também as surpreendentes taxas anuais de crescimento, próximas a 100 % – 3.548 t (1997), 7.260 t (1998), 15.000 t (1999) e 25.000 t (2000).

Na ótica da sustentabilidade, a carcinicultura também desempenha um relevante papel dentro do contexto sócio econômico do País, principalmente na Região Nordeste, uma vez que, segundo dados da ABCC – Associação de Criadores de Camarão, a prática desta atividade no ano 2000 realizou-se em 6.250 ha, proporcionando 31.250 empregos diretos e indiretos, gerando uma receita de US$ 175 milhões, dos quais US$ 70 milhões corresponderam a exportação.

A tecnologia da carcinicultura brasileira desde a utilização de comedouros e a afirmação do Litopenaeus vannamei, tem evoluído muito, com constantes melhoras na tecnologia e, recentemente, acompanhamos a intensificação dos cultivos com utilização de aereadores e substratos artificiais. No entanto, apesar de ser uma atividade em franco desenvolvimento, torna-se necessário a adoção de alguns cuidados, principalmente  com o meio ambiente. Neste sentido é imprescindível a observância dos códigos de conduta para a prática da aquicultura.

Por um lado, a pressão ambientalista em diferentes partes do planeta, o papel das ONGs na América Latina e a legislação ambiental brasileira, contribuem ao exigir dos produtores uma prática de manejo dentro do modelo de ecodesenvolvimento. Além disso, a Global Aquaculture Aliance (GAA) também exige da carcinicultura brasileira, a prática de uma atividade sustentável para obter a certificação internacional. Em todo o mundo há esforços para tornar sustentável a carcinicultura, e vêm se manifestando através de novas tecnologias que estão em fase experimental e que futuramente serão repassadas ao setor produtivo, entre elas o cultivo com troca zero de água, a implantação de sistemas de recirculação, o manejo de plâncton (incluindo o bacterioplâncton) em cultivos superintensivos, entre outros. No Brasil, a ABCC criou o Fundo da Ração para financiar pesquisas aplicadas que permitam tornar a carcinicultura cada vez mais sustentável, e é nessa perspectiva que está financiando as pesquisas sobre tratamento de efluentes utilizando moluscos.

As fazendas de camarão do Nordeste apresentam diferentes leiautes, o que determinará o manejo de cultivo de moluscos a ser empregado. Nas fazendas que liberam efluentes diretamente nos estuários ou nas fazendas que têm, entre as comportas de saída e o estuário, o manguezal como filtro, os cultivos de moluscos devem ser em baixas densidades e submetidos ao castigo naturalmente. Já as fazendas modernas que ostentam um leiaute com canais de drenagem ou tanques de sedimentação antes de liberar os efluentes ao meio, poderão se intensificar os cultivos de moluscos, isto é, ter maior densidade de estocagem e crescimento mais rápido.

Um outro aspecto a ser tomado em conta para a utilização dos moluscos é que as salinidades são muito variadas de uma fazenda para outra, existindo uma variação entre 5 e 55 %o (e algumas com água doce inclusive), as quais vão influenciar diretamente sobre o crescimento dos moluscos.

A prática da biorremediação em carcinicultura vem sendo praticanda na Thailândia e Filipinas desde 1998. Nas Filipinas é conhecida como “mangrove-friendly aquaculture program” ou programa de aqüicultura amigável com o manguezal, onde se utiliza o molusco do gênero Sonneratia, conhecido como “imbao”, que se encarrega de minimizar o impacto sobre o meio ambiente. Os moluscos bivalves reduzem nitidamente as concentrações de nitrogênio e fósforo que são liberados pelos viveiros de cultivo do “camarão tigre”  Penaeus monodon . Lá, esse molusco é cultivado nas gamboas  situadas externamente às comportas de drenagens das fazendas de camarão, com teores de salinidade entre 33 e 36 %o,  pH entre 5,29 e 6,19 e, oxigênio dissolvido entre 0,51 e 3,97, alcançando em três meses um comprimento médio de 57, 4 mm, segundo o Centro de Desenvolvimento da Aqüicultura e da Pesca do Sudeste da Ásia – SEAFDEC

Futuramente, o cultivo de macroalgas também deverá fazer parte do processo de biorremediação, podendo ser utilizadas algas dos gêneros Gracilaria sp, Gracilariopsis sp, Hypnea sp, entre outras  espécies estuarinas pertencentes ao grupo das Rhodophyta. Com a utilização de moluscos e macroalgas se reduzirá completamente a carga orgânica e inorgânica provenientes da carcinicultura. Neste sentido, pesquisadores da USP, UFBA e UFRPE, em conjunto com ABCC, estão elaborando projetos destinados a abordar esta problemática.

Cultivos

Os experimentos para o tratamento de efluentes vêm se desenvolvendo na fazenda de camarões Aquamaris em Jõao Pessoa – PB, onde se cultiva o “camarão cinza” Litopenaeus vannamei. As espécies de moluscos bivalves utilizadas são: a ostra nativa Crassostrea rhizophorae e o sururu do mangue Mytella guyanensis, ressaltando que as sementes de M. guyanensis  foram capturadas nos próprios viveiros da Aquamaris, enquanto as sementes de C. rhizophorae foram adquiridas da CONATURA, em Sergipe.

Em um primeiro momento o estudo de biorremediação está sendo realizado em gamboas (segundo o dicionário Aurélio, são locais nos leitos dos rios, onde se remansam as águas, dando a impressão de lago sereno), após as comportas de saída, onde os efluentes são liberados aos estuários. A técnica utilizada é a de instalar os cultivos em camas (ou mesas), sendo três camas por gamboa, onde cada cama contém três travesseiros (Figura 1). Os melhores resultados para o crescimento de moluscos são com uma densidade de 1.000 sementes de molusco por travesseiro, o que corresponde a 9.000 por gamboa.

As características do cultivo de tipo semi-intensivo de Litopenaeus vannamei  e do cultivo de moluscos são apresentados na Tabela 1. A produção de M. guyanensis mostrou ser mais eficaz em salinidades entre 5 e 12 ‰. Em salinidades superiores a 12 ‰ o crescimento foi insignificante. Com C. rhizophorae o melhor crescimento obtido foi em salinidades entre 13 e 23 ‰. Em salinidades inferiores a 13‰ e superiores a 23 ‰, o crescimento desta espécie foi bastante reduzido. Não foi testado o crescimento dos moluscos em salinidades superiores a 33 ‰.

Tabela 1 - Características gerais dos cultivos de camarões e ostras.
Tabela 1 – Características gerais dos cultivos de camarões e ostras.
Variáveis hidrológicas

Durante o período de cultivo de Litopenaeus vannamei (aproximadamente 90 dias) foram avaliadas diferentes variáveis hidrológicas, apresentadas na Tabela 2. Semanalmente foram realizadas amostragens em 15 diferentes pontos da fazenda, cujas análises foram realizadas no Laboratório de Limnologia da UFRPE, seguindo os protocolos estabelecidos. Destes resultados pode-se afirmar que a produção de moluscos é viável e que a minimização da carga de efluentes liberados ao meio também por parte dos moluscos é bastante considerável para fosfatos, nitratos e nitritos. No caso do fosfato inorgânico, nos diferentes meses de cultivo, pela ação da ostra, as concentrações em µg/L baixaram nitidamente de 154,35 a 116,52 no primeiro mês, de 68,09 a 31,78 no segundo mês, e de 63,45 a 15,45 no último mês. No que se refere a concentrações de nitrogênio, as de nitrato (em mg/L) identificaram melhor a ação das ostras. No primeiro mês, o nitrato baixou de 0,80 a 0,33, no segundo mês de 0,21 a 0,15 e no último mês de 0,22 a 0,18.

Tabela 2. Variáveis hidrológicas.
Tabela 2. Variáveis hidrológicas.
Considerações finais

A utilização dos moluscos bivalves nas fazendas de camarão marinho deverá propagar-se e, para isso, será necessário realizar novas adaptações nos tipos de cultivo, sobretudo em fazendas que apresentam canais de drenagem ou tanques de sedimentação.

Na prática, o cultivo de moluscos dentro dos empreendimentos de camarão, poderá ser também considerada pelos seus aspectos econômicos e sociais, por constituir um outro produto de comercialização (subproduto), que necessariamente estará ligado ao incremento de mão de obra.

Na Região Nordeste, vários estados estão iniciando a produção de moluscos bivalves em estuários que contém um grande número de fazendas de camarões e reúnem as características ótimas para o desenvolvimento da malacocultura, que com sua implementação minimizaria os impactos provenientes da carcinicultura e teria influência direta na obtenção de renda e na melhoria da qualidade de vida das populações litorâneas.

Deve-se considerar que atualmente esta atividade está na dependência de sementes de Crassostrea rhizophorae do meio natural, provenientes dos Estados de Sergipe e Maranhão e, em um futuro muito próximo, o ponto de estrangulamento para o crescimento dos cultivos de moluscos será a disponibilidade destas sementes, motivo pelo qual é pertinente recomendar a implementação de laboratórios de larvicultura na Região Nordeste.

Finalmente, podemos afirmar que com os cuidados necessários ao meio ambiente, o apoio da ABCC e outras instituições de fomento nas pesquisas e o trabalho integrado entre Universidade e setor produtivo, a atividade da carcinicultura  contribuirá com a melhoria da economia no Nordeste, e propiciará o crescimento da malacocultura (cultivo de moluscos). Se o Nordeste tem tudo esse potencial com o camarão na forma de agronegócio, futuramente também poderá experimentar esse potencial com a ostra nativa, o sururu e também, por que não, com macroalgas  tropicais.