Os números da aqüicultura segundo a FAO

Os participantes do VIII SIMBRAq, realizado em Piracicaba em outubro último, tiveram o prazer de compartilhar da companhia do Dr. Albert Tacon, especialista em alimentação de organismos aquáticos da FAO. Um ótimo papo, Albert Tacon é dessas pessoas de fala mansa, atenciosa e que, quando encontramos pela primeira vez, temos a impressão de que já o conhecemos há muito tempo.

No plenário de Piracicaba, Albert Tacon apresentou um trabalho especialmente preparado para o Simpósio da ABRAq (Production of feeds for aquatic organisms in the tropic with particular reference to Latin America and the Caribe). Nele, discute as tendências da aqüicultura mundial sob a ótica dos manejos de alimentação, com ênfase para os países da América Latina e Caribe. Tece comentários quase didáticos sobre os sistemas de cultivo detendo-se um pouco mais nos sistemas semi-intensivo – hoje responsável por 70% da produção mundial de peixes e crustáceos, e intensivo, por ser altamente dependente de ração nutricionalmente completas.

A seguir, os leitores da Panorama da AQÜICULTURA terão acesso a uma parte muito importante desse trabalho, cuja íntegra estará saindo em breve nos Anais do VIII SIMBRAq. Trata-se das últimas estatísticas da FAO (FAO/FIDI, 1994) sobre a aqüicultura na América Latina e Caribe e, apesar de serem dados referentes ao ano de 1992, são os mais confiáveis que podemos ter acesso para compor este cenário da aqüicultura, no qual o Brasil está inserido.

Em 1992 a produção total da aqüicultura na América Latina e Caribe, de acordo com a última estatística da FAO (FAO/FIDI, 1994), foi 373.054 toneladas, ou seja, somente 1,93% da produção mundial, sendo avaliada em US$ 1.311.017.000 (Fig. 1).

Esses números indicam um crescimento de 196% em peso e 242% em valor, de 1986 a 1992 (Fig. 2). Peixes e crustáceos estão sendo produzidos na mesma proporção e somam 77% de toda a produção aqüícola (Fig. 1 e Tabela 1), com um crescimento de 279% e 258% de 1986 a 1992, respectivamente (Fig. 2).

As principais espécies de peixes e crustáceos cultivados em 1992 na região foram (Tabela 1, Fig. 3):

– camarões marinhos com 140.815 t (77,5% de Penaeus vannamei, 9,1% de P. stylirostris);

– salmonídeos com 70.104 t ( 33,8% de salmão do Atlântico – Salmo salar, 33,4% de trutas – Oncorhynchus mykiss e 31,6% de Salmão Coho – Oncorhynchus tshawytscha )

– Tilápias e outros ciclídeos com 36.460 t (46.5% de tilápia azul – Oreo-chromis aureus, 39.4 % de tilápia do Nilo – Oreochromis niloticus).

O setor de mais rápido crescimento na região tem sido o das espécies de salmonídeos de águas frias, com a produção crescendo 1.677% desde 1986 e 43,6% desde 1991 (Tabela 1).

A Tabela 2 e a Fig. 4 mostram os países que mais cultivam organismos aquáticos na América Latina e Caribe em 1992.

OPÇÕES DE MANEJO ALIMENTAR

Atualmente, quatro tipos de manejo tem sido utilizados na produção de peixes e crustáceos:

Opção 1 – sem entrada de nenhum nutriente exógeno – Os animais são totalmente dependentes da produtividade natural. Consomem os organismos naturalmente produzidos nos viveiros, reservatórios, lagos, etc.

Opção 2 – entrada de substratos exógenos e/ou entrada de fertilizantes – Adição de substratos mecânicos (galhos, amarras de capim cortado, etc) e/ou fertilizantes para aumentar a produtividade natural e produzir organismos vivos como alimento para as espécies cultivadas.

Opção 3 – entrada de nutrientes exógenos e/ou entrada de dieta suplementar – Os organismos cultivados dispõem de alimento vivo natural estimulado pela entrada de nutrientes no meio e alimento suplementar adicionado pelo produtor.

Opção 4 – entrada de alimento exógeno completo – Os organismos cultivados dependem inteiramente do fornecimento de dietas nutricionais completas.

O manejo alimentar mais usado pelos aqüiculto-res tem sido o sistema semi-intensivo (SSI) com fertilização e suplementação alimentar e, em todo o mundo, 70% de todos os peixes e camarões cultivados são provenientes desse sistema. Na Ásia, o SSI está baseado no policultivo de peixes herbívoros e onívoros (carpas chinesas e indianas). Esses peixes herbívoros e onívoros constituíram 88% do total de peixes produzidos no mundo em 1992. Na América Latina e Caribe, no mesmo ano, as espécies de peixes herbívoras e onívoras constituíram 51,7% (74.966 t) do total de peixes produzidos e as espécies carnívoras somaram 48,3% (70.134 t) (Tabela 1).

O alimento suplementar utilizado pelos criadores no sistema semi-intensivo pode ir desde rações balanceadas até ingredientes que possam ser diretamente consumidos pelos peixes ou camarões, como alimentos vivos ou frescos (insetos, minhocas, crustáceos, moluscos; ma-crófitas terrestres ou aquáticas, animais abatidos), cama de galinheiro, varredura de moinho, farelo de arroz e grãos de cereais. Em todo o mundo, a maioria dos pequenos criadores que cultivam em SSI fabricam seu próprio alimento suplementar misturando, na propriedade, os ingredientes disponíveis e, em geral, a seleção desses ingredientes é ditada pelo custo dos mesmos e não pelos seus valores nutricionais. Segundo Tacon, mesmo não tendo estatísticas disponíveis, estima-se que entre 80 e 90% da produção de peixes da Ásia (principalmente China e Índia) está baseada no uso de alimentos feitos na propriedade e não em rações manufaturadas.

CULTIVOS EM SISTEMA INTENSIVO – SI

Com exceção dos camarões marinhos que algumas vezes são cultivados de forma intensiva em viveiros, o cultivo intensivo de peixes carnívoros (salmonídeos, yellowtail, enguias, seabass, seabream) sempre é feito em tanques, raceways ou tanques-rede. Nesses cultivos são utilizadas rações nutricionalmente completas de alta qualidade (opção 4). Em contraste com os cultivos em SSI, o peixe ou camarão cultivado em SI são geralmente produzidos em monocultivo e as rações utilizadas são quase sempre manufaturadas, apesar de muitas fazendas produtoras de peixes carnívoros marinhos nos países Asiáticos utilizarem largamente ração semi-húmida produzidas na própria fazenda.

Em 1992, a produção de rações manufaturadas em todo o mundo foi estimada em 3,34 milhões de toneladas, avaliadas em 1,67 bilhões de dólares (US$ 0.50/kg). Desse total, 54,6% alimentaram peixes carnívoros, 15,9% alimentaram peixes herbívoros e onívoros e 29,5% alimentaram crustáceos.

Por região, o maior produtor mundial de rações para organismos aquáticos foi a Ásia com 56,6%, seguida da Europa e ex-USSR com 21,5%, USA e Canadá com 14,2%, América Latina e Caribe com 6,7% e África e Oriente Médio com 1,1%.

DISPARATES

Os peixes carnívoros representaram somente 12% do total de peixes produzidos pela aqüicultura mundial em 1992, isto é, 1.132.063 toneladas. Entretanto, para produzí-los foram necessárias 660.000 toneladas de farinha de peixe ou seja, 11% do total da farinha de peixe produzida em todo o mundo. Isto significa dizer que foram necessárias 3.300.000 toneladas de pequenos peixes pelágicos (anchova, sardinha, arenque, etc) capturados pela pesca e processados para alimentar essa produção. Desta forma, podemos afirmar que o cultivo de peixes carnívoros, como é praticado pelos países “desenvolvidos”, são redutores de proteína bruta de peixe e não produtores de proteína bruta. Em contraste, os peixes herbívoros e onívoros, 88% da produção mundial, consumiram somente 73.000 toneladas de farinha de peixe.

Albert Tacon afirma que, apesar da farinha de peixe representar uma fonte ideal de proteínas e lipídios para fabricação de rações para peixes, há uma necessidade urgente de reduzir a total dependência deste insumo pela indústria aqüícola, pois, o custo e o suprimento deste insumo de alto valor, tem se tornado cada vez mais incerto, principalmente para países não produtores de farinha de peixe; ainda mais, se o sistema intensivo vier mesmo a ser confirmado como uma “tendência” na aqüicultura mundial.


O E-mail – endereço eletrônico do Dr. Albert Tacon, que trabalha na FAO – Itália é: [email protected]