Os Víbrios na Carcinicultura

Por:
Emiko Shinozaki Mendes1
e-mail: [email protected]
Paulo de Paula Mendes2
Lílian Maria Nery de Barros Góes3
Suely Santos Bezerra1
Karla Patrícia Brito de Araújo Vieira3

1Departamento de Medicina Veterinária/UFRPE,
2Departamento de Pesca e Aqüicultura,
3Pós-graduação UFRPE


As bactérias do gênero Vibrio são consideradas como as mais importantes na carcinicultura. Sobre elas muito se fala, existindo até falsas crenças utilizadas em campo, para diagnosticar a sua presença e patogenicidade. Nesse artigo procura-se esclarecer algumas questões sobre esses agentes, principalmente no que se refere à interpretação, muitas vezes errônea, dos resultados de fermentação da sacarose e de luminescência. Os autores destacam, ainda, a carência de profissionais competentes para diagnosticar corretamente as doenças bacterianas, o que concorre para o uso indiscriminado de drogas, principalmente de antibióticos.

A taxa de crescimento mundial da carcinicultura, nesses últimos 20 anos (1983 – 2003), aumentou à razão de 11,84% ao ano, entre os países produtores de camarões de água doce e salgada. Ao associarmos este crescimento com a intensificação da densidade de estocagem no processo de engorda, verifica-se que nem sempre o resultado é positivo. O aumento da densidade pode propiciar o desequilíbrio de vários parâmetros do cultivo e, finalmente, ser o gatilho para o desenvolvimento de doenças de etiologias diversas, tais como vírus, bactérias, parasitos, dentre outros. No entanto, é importante destacar que a carcinicultura mundial tem se deparado com muitas pesquisas, visando o desenvolvimento desse agronegócio e, principalmente, na tentativa de elucidar questões prementes, como a etiopatogenia, diagnóstico, tratamento e profilaxia das várias doenças existentes.

Dentre os principais agentes causadores das doenças destacam-se as bactérias, por se encontrarem normalmente nos ambientes aquáticos e serem capazes de desencadear infecções primárias e/ou secundárias (oportunistas) nos organismos cultivados. As bactérias que se desenvolvem em ambientes marinhos são classificadas como halofílicas (halo = sal, filo = amizade) e entre estas se destacam as do gênero Vibrio. Os víbrios são as bactérias mais importantes na carcinicultura e fisiologicamente estão presentes no trato digestivo dos camarões, entretanto, quando em desequilíbrio podem causar enfermidades com elevadas mortalidades. Ressalta-se que os camarões quando submetidos a uma situação de estresse podem adquirir infecções por víbrios (vibriose), caracterizadas neste caso como infecção primária, ou ainda agravar uma enfermidade (infecção secundária), como por exemplo, uma virose, por serem os víbrios habitantes naturais de ambientes marinhos.

Os Víbrios

Os víbrios são bactérias gram-negativas e anaeróbicas facultativas, de ocorrência mundial. Morfologicamente são definidos como bacilos não esporogênicos1, finos ou com uma única curvatura rígida. São móveis e muitos têm um único flagelo polar2 quando se desenvolvem em meio líquido. Este gênero inclui cerca de 50 espécies, com numerosos biótipos3 e sorovares4. Pelo menos 11 espécies de víbrios são reconhecidamente patogênicas ou potencialmente patogênicas para humanos. Para os invertebrados, e com destaque para os camarões cultivados no Brasil, pelo menos nove espécies podem ocasionar infecções entéricas5, sistêmicas6 ou externas, tais como: Vibrio anguillarium, V. alginolyticus, V. parahaemolyticus, V. splendidus, V. cholerae, V. damsela, V. harveyi, V. vulnificus, Vibrio spp.

Alguns víbrios possuem a capacidade de fermentar a sacarose quando inoculados em Ágar Tiossulfato Citrato Sais de Bile (TCBS), sendo as colônias identificadas pela coloração amarela (Figura 1). Já as que não fermentam a sacarose são macroscopicamente identificadas pela sua coloração verde (Figura 2). Algumas espécies de víbrios podem ainda apresentar as duas colorações em uma mesma colônia (Figura 3), sendo capazes de fermentar “parcialmente” a sacarose, além de outras espécies poderem apresentar sorovares sacarose positiva e sorovares sacarose negativa. É importante ressaltar que esta capacidade de fermentar ou não a sacarose não está relacionada com a patogenicidade da bactéria e, portanto, a presença de um tipo ou de outro não indica a gravidade da situação.

Não se pode tecnicamente usar o argumento “coloração das colônias”, para distinguir os víbrios quanto a sua patogenicidade, apesar de erroneamente se afirmar que “víbrios amarelos” não são preocupantes, por não serem danosos para o camarão (Tabela 1). Costuma-se relacionar também o número de “víbrios amarelos” com os “víbrios verdes” como referência para uma ação corretiva através de práticas de manejo ou mesmo o uso de drogas, por se entender de forma errada esses conceitos.

Para um diagnóstico confiável, faz-se necessário realizar provas bioquímicas para a identificação da espécie. Quando for necessário adotar medidas emergenciais, o resultado da incubação em ágar TCBS pode direcionar o manejo a ser adotado, observando-se o número de colônias e as suas características morfológicas, mas não deve ser a única análise a ser efetuada.

 

Figura 1 – Colônias de Víbrio spp.  sacarose positivas (colônias amarelas) em ágar TCBS 
Figura 1 – Colônias de Víbrio spp.  sacarose positivas (colônias amarelas) em ágar TCBS
Figura 2 – Colônias de Víbrio spp.  sacarose negativas (colônias verdes) em ágar TCBS 
Figura 2 – Colônias de Víbrio spp.  sacarose negativas (colônias verdes) em ágar TCBS
Figura 3 – Colônias de Víbrio spp. com fermentação “parcial” da sacarose em ágar TCBS (colônias verdes e amarelas)
Figura 3 – Colônias de Víbrio spp. com fermentação “parcial” da sacarose em ágar TCBS (colônias verdes e amarelas)
Tabela 1 – Espécies de Víbrios patogênicos e não patogênicos e suas  características quanto à fermentação da sacarose 
Tabela 1 – Espécies de Víbrios patogênicos e não patogênicos e suas  características quanto à fermentação da sacarose
Luminescência

Os microrganismos, embora geneticamente e estruturalmente simples, possuem uma interessante forma de comunicação quando se encontram em altas densidades populacionais, comportando-se como organismos complexos. Este processo foi descoberto em bactérias luminescentes marinhas (Vibrio fischeri), sendo verificada que esta emissão de luminescência estava associada à densidade populacional bacteriana. Posteriormente, foi denominado “quorum sensing”, uma vez que correspondia a um mecanismo de comunicação onde os microrganismos monitoravam sua densidade populacional.

Em laboratório, a luminescência pode ser detectada quando o microrganismo é cultivado em meio apropriado, colocado em ambiente escuro após a incubação sob condições favoráveis. Em cultivos de camarão, a luminescência pode ser observada à noite, desde que a população microbiana esteja elevada, uma vez que esta é a principal característica de sua emissão, conforme acima relatado.

Em relação aos víbrios, algumas espécies patogênicas e não patogênicas podem apresentar essa característica. Destaca-se ainda que uma mesma espécie pode ser luminescente ou não, de acordo com o sorovar presente e, portanto, esta característica também não pode servir de base para a designação de patogênicos ou não para os camarões (Tabela 2).

Tabela 2 – Espécies de Víbrios patogênicos e não patogênicos e suas  características quanto à emissão de luminescência
Tabela 2 – Espécies de Víbrios patogênicos e não patogênicos e suas  características quanto à emissão de luminescência
Vibriose

Nas vibrioses, também conhecidas como “síndrome da gaivota” (SHPN) e enterite séptica hemocítica, os camarões na fase de engorda podem apresentar os seguintes sintomas: desorientação (natação lenta), hemolinfa turva com tempo de coagulação alterado, aglomeração nas margens do viveiro atraindo aves, opacidade da musculatura, coloração avermelhada dos apêndices, flexão do terceiro segmento abdominal, brânquias, cutícula e apêndices melanizados, anorexia e apatia. Quando na larvicultura, observam-se: alimentação reduzida, ausência de filamentos fecais, atraso da muda, colonização bacteriana da cutícula, dos apêndices, da região oral, do hepatopâncreas e do intestino, infecção entérica ou sistêmica, destruição das células epiteliais do hepatopâncreas e intestino médio, e conseqüentemente, o aumento no tempo de larvicultura e redução da sobrevivência.

Muitas vezes, entretanto, os sintomas observados são comuns a uma série de enfermidades, não sendo possível, somente através dessa observação, determinar a doença e muito menos a espécie causadora. Em decorrência disso, merece destaque o fato de que esta falta de distinção dos sintomas tem levado alguns técnicos a diagnosticar erradamente, principalmente, as doenças de origem bacteriana. A título de exemplo, muitos diagnósticos realizados em campo de Hepatopancreatite Necrosante (NHP), doença causada por diversas espécies de Rickettsia, não foram confirmados no exame laboratorial, onde foi diagnosticada a vibriose.

Como medida profilática, indica-se um rígido controle da qualidade da água utilizada nos cultivos, aliada as análises periódicas do camarão, observando-se não somente o seu exterior, como também as brânquias, hepatopâncreas, hemolinfa, conteúdo intestinal, etc. Associado a estas práticas, o ideal seria o acompanhamento da carga bacteriana da água, com o propósito de se obter uma curva da dinâmica populacional, para que se possa monitorar com eficiência a microbiota de cada viveiro. Este monitoramento permite observar as possíveis variações sazonais, ocasionadas pelas mudanças climáticas ou de manejo.
No Brasil, a taxa de crescimento da carcinicultura cresceu à razão de 69,6% ao ano, no período de 1980 a 2002. No entanto, esse agronegócio decresceu (15,84%) em 2003, em decorrência principalmente dos problemas cambiais, da ação antidumping e da ocorrência da mionecrose infecciosa. Atrelado a esses problemas, a ocorrência das doenças tem se tornado um problema de difícil solução, agravado pela falta de profissionais habilitados para realizar diagnóstico, prescrever medicamentos e efetivo controle da sanidade dos animais. Não é raro ver o uso desordenado de drogas, principalmente antibióticos, como verificado na avicultura na década de 80, quando o uso incorreto desses medicamentos gerou resistência bacteriana, deixando de produzir o efeito desejado e, conseqüentemente, promovendo grandes perdas econômicas.

Estratégias

O manejo adequado destaca-se entre as estratégias para minimizar e até combater os víbrios, com especial atenção na densidade de estocagem, aeração, alimento/alimentação e tratamento do viveiro no período pós-colheita. Atenção deverá ser dada às práticas básicas de biosseguridade que devem ser implantadas na fazenda, tais como rodolúvio7 (para carros, caminhões e motos), desinfecção adequada dos equipamentos comuns a diferentes viveiros (tarrafas, caiaques, aeradores), controle dos visitantes, desinfecção dos caminhões e caixas térmicas utilizadas no processo das despescas e aquisição de pós-larvas de fornecedores idôneos.

O uso de drogas antimicrobianas deve ser atentamente refletido, principalmente em relação à estrita necessidade, a dosagem utilizada, período de tratamento e de carência8 , observando ainda se a droga escolhida é de fato eficaz contra o agente etiológico.


1 Esporogênicos – Microrganismos capazes de produzir esporos. O esporo é uma fase de resistência e de latência, na qual os microrganismos se protegem contra extremos de temperatura.
2 Flagelo polar – Estrutura fina filamentosa, existente na maioria das bactérias em forma de bastonetes, que confere motilidade em meio líquido.
3 Biótipos ou biovares – Subespécies que são fisiologicamente diferentes.
4 Sorovares ou sorotipos – Subdivisão das espécies baseadas nas diferenças antigênicas.
5 Infecções entéricas – Infecções causadas por bactérias que elaboram enterotoxinas (toxinas que afetam os tecidos da mucosa intestinal) durante a formação de colônias ou a proliferação no tubo digestivo.
6 Infecções sistêmicas – Infecções causadas quando certos microrganismos invadem a mucosa intestinal e outros tecidos e se multiplicam.
7 Rodolúvios – Valas sanitárias destinadas à desinfecção de veículos, localizadas nos acessos da propriedade. Devem conter substâncias desinfetantes, as quais devem ser periodicamente renovadas em intervalos estabelecidos pelo fabricante. 
8 Carência – Período necessário para a eliminação da droga do organismo.


BIBLIOGRAFIA

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