Ostras – A produção da maior fazenda marinha do Brasil

Por: Jomar Carvalho Filho
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A Fazenda Marinha Atlântico Sul é hoje a maior empresa brasileira produtora de moluscos. Sua produção de mexilhões e ostras, hoje ao redor de 13 mil dúzias mensais, é proveniente de um bem estruturado parque de cultivo localizado no Ribeirão da Ilha, um dos mais simpáticos e bucólicos recantos da bela Florianópolis – SC.

A Atlântico Sul nasceu em 1999, fruto da fusão de três micro-empresas vizinhas, produtoras de ostras e mexilhões, que não viram outro caminho senão o da união de esforços para transpor de vez as fronteiras do mercado catarinense, até então a única opção que tinham para escoar a produção. Segundo o engenheiro agrônomo Nelson Silveira Júnior, um dos sócios da Atlântico Sul, na ocasião, nenhuma das empresas tinha condições de partir, sozinha, para a montagem de uma estrutura de processamento com a inspeção federal do Ministério da Agricultura (SIF), sem o qual seria impossível comercializar com todo o país. “Decidimos dividir os investimentos para conseguir a nossa planta com SIF, que hoje se encontra estrategicamente bem localizada no bairro Campeche, a dez quilômetros do aeroporto Internacional Hercílio Luz”, diz Nelson.

Ao todo são sete os sócios da fazenda marinha – dois biólogos, quatro agrônomos e um oceanógrafo – alguns deles, buscando especialização na área financeira e administrativa. A Atlântico Sul emprega 21 funcionários, que se dividem nos afazeres do rancho, uma infra-estrutura montada à beira mar para dar suporte aos cultivos, e da planta processadora, onde ostras e mexilhões recebem os cuidados finais, sendo embaladas e despachadas para o mercado.

A Fazenda Marinha Atlântico Sul ocupa uma extensa área de cultivo na Baía Sul, no Ribeirão da Ilha. A produção é dividida em cinco baterias de cultivo, cada uma delas com 18 a 20 espinhéis (ou long-lines) medindo cerca de 90 metros de comprimento cada. Ao todo a fazenda opera com 92 espinhéis que permitem, aproximadamente, 8.460 pontos de amarração para cordas de mexilhão, bandejas e lanternas para ostras. Atualmente, os mexilhões ocupam apenas 10% da área de produção, sendo o restante, dedicada à produção da ostra Crassostrea gigas, também conhecida como a ostra do Pacífico.

As ostras da Atlântico Sul

O cultivo de ostras no Estado de Santa Catarina é determinado pela variação da temperatura das águas ao longo do ano. No período de águas frias, que normalmente vai de abril a dezembro, o crescimento é muito acentuado, favorecido também pelo menor ritmo de incrustações nas estruturas de engorda (fouling). Já no período das águas quentes, de janeiro a março, quando a temperatura fica ao redor de 27°C, podendo chegar até 30°C, ocorre praticamente uma parada no crescimento das ostras, momento em que os produtores também se preocupam com as possíveis mortalidades dos animais, que costumam acontecer nessa época. Além disso, com as águas quentes, os produtores redobram os cuidados frente à rapidez das incrustações, aumentando bastante a mão-de-obra para limpeza das estruturas de engorda. Segundo o engenheiro agrônomo Fábio Faria Brognoli, um dos sócios da Atlântico Sul, os melhores povoamentos são aqueles realizados de fevereiro a junho, quando as ostras terão pela frente um bom período de águas frias, para que possam crescer sem problemas.

A empresa, a exemplo de todos os demais produtores de ostra do Pacífico, adquire as suas sementes diretamente do Laboratório de Cultivo de Moluscos Marinhos da UFSC, o único no país que produz sementes de Crassostrea gigas, comercializando-as a R$ 10,00 cada milheiro (os preços podem variar segundo o tamanho da semente adquirida).

Medindo de 1 a 1,5 mm de comprimento, as sementes utilizadas pela Atlântico Sul são colocadas nas caixas flutuantes, que vêm a ser estruturas de madeira cobertas por tela do tipo mosquiteiro, que flutuam ao sabor das águas.

Após 15 dias, essas sementes são peneiradas para que os animais que atingiram de 4 a 6 mm (cabeça do lote), sejam transferidos para as lanternas-berçário. As sementes não selecionadas retornam para o mar, onde permanecem por mais duas semanas até que atinjam o tamanho adequado. A seleção por tamanho, seja através de peneiragem ou seleção manual, é uma prática constante ao longo de todo o processo de cultivo de ostras, e serve para selecionar indivíduos com o mesmo padrão de crescimento, formando lotes homogêneos em todas as fases do cultivo.

Lanternas e Bandejas

Nas lanternas-berçário, as sementes crescem de aproximadamente 6 mm até cerca de 4 cm, o que começa a acontecer com alguns indivíduos do lote a partir da quarta semana (cabeça do lote). O crescimento das ostras, no entanto, não é homogêneo, daí a necessidade de fazer peneiragens seguidas para separar do lote, todos os animais que já estejam prontos para serem alojados nas demais estruturas utilizadas na engorda.

A exemplo do que aconteceu com o manejo das sementes nas caixas flutuantes, todas as ostras das lanternas-berçário da fazenda são trazidas periodicamente para o rancho, para serem peneiradas com o objetivo de selecionar as que alcançam aproximadamente 4 cm.
A partir desse tamanho, as ostras são transferidas para as bandejas intermediárias.

Segundo Fábio Brognoli, o crescimento nas bandejas intermediárias não é grande, visto que entram com 4 cm e saem com 5-6 cm. Mas nesta fase, diz Brognoli, as ostras encorpam mais do que crescem.

Da mesma forma que das vezes anteriores, as ostras das bandejas intermediárias são trazidas várias vezes para serem peneiradas em máquinas especialmente construídas para esse fim.

De cima para baixo: • Caixas flutuantes para alojar sementes feitas de madeira e tela; • Lanternas berçário feitas com tela “de fabricar boné”, • Bandejas intermediárias feitas de recipientes plásticos empilháveis; • Lanternas definitivas, com 45 cm de diâmetro e malha 12 mm
De cima para baixo: • Caixas flutuantes para alojar sementes feitas de madeira e tela; • Lanternas berçário feitas com tela “de fabricar boné”, • Bandejas intermediárias feitas de recipientes plásticos empilháveis; • Lanternas definitivas, com 45 cm de diâmetro e malha 12 mm

As ostras que atingiram os 5-6 cm deixam as bandejas intermediárias e passam para as lanternas definitivas, com 6 andares e 45 cm de diâmetro, confeccionadas com rede de malha 12 mm.

As ostras nessa fase do crescimento são também trazidas para o rancho ao longo da engorda final, para serem limpas e terem suas linhas de crescimento quebradas.

Na fase final do crescimento, as ostras são classificadas por tamanho. As do tipo 1 medem de 7,5 a 8,5 cm e são as mais vendidas. Nesse tamanho ficam alojadas numa densidade de 35 dúzias por lanterna. As do tipo 2, medindo de 9 a 11 cm, ficam alojadas na densidade de 30 dúzias por lanterna e, as do tipo 3, acima de 12 cm, são armazenadas na densidade de 20 a 25 dúzias por lanterna.

Máquina selecionando ostras de bandejas intermediárias (5-6 cm) para serem levadas para as lanternas definitivas
Máquina selecionando ostras de bandejas intermediárias (5-6 cm) para serem levadas para as lanternas definitivas

 

Ostras das lanternas definitivas sendo selecionadas para o mercado
Ostras das lanternas definitivas sendo selecionadas para o mercado
Máquina de lavagem de ostras em tamanho de mercado
Máquina de lavagem de ostras em tamanho de mercado
Produção

A Fazenda Marinha Atlântico Sul iniciou a safra deste ano a partir de 7 milhões de sementes, o que permitiu, pela primeira vez, que a empresa conseguisse abastecer seus clientes, numa média mensal de 13 mil dúzias, sem a necessidade de adquirir ostras de outros produtores. Isso, segundo Nelson Silveira Filho, era um desejo antigo porque, dessa forma, é possível manter o padrão de qualidade estabelecido pela empresa. “Ao adquirir ostras de terceiros, era preciso deixá-las no mar por pelo menos 20 dias, manuseá-las no rancho para limpeza, dentro dos padrões que os nossos clientes estão acostumados a receber”, diz Nelson.

A fazenda marinha atende a clientes de todos os estados do Brasill, desde que tenha um aeroporto próximo, para que as ostras cheguem com o mesmo frescor de quando saem das lanternas. Em muitas capitais a Atlântico Sul tem representantes com serviços de entrega e em outras, contrata motoboys que retiram as ostras no aeroporto e as entregam na porta do cliente. Está sendo montado também um serviço de venda pela internet para o atendimento à pessoas físicas.

A empresa tem se dedicado também no que diz respeito ao marketing. Segundo Nelson, “para a ostra não existe o que chamamos de valor agregado, porque você pode colocar isto ou aquilo, e não vai aumentar o valor de venda do produto. Ela tem valor quando sai do rancho às 8 horas da manhã, e às 8 horas da noite, está nas mãos do cliente no Rio de Janeiro, Brasília ou Fortaleza”. Muitas vezes, para os pedidos feitos até às 10:00 horas da manhã, a mercadoria, dependendo da região, chega no mesmo dia nas mãos dos clientes.

Acima: ostras do tipo 1 (7,5 a 8,5 cm) limpas e prontas para serem comercializadas frescas. Abaixo: a perfeita companhia para um champagne ou um bom vinho branco Chardonnay
Foto da esquerda: ostras do tipo 1 (7,5 a 8,5 cm) limpas e prontas para serem comercializadas frescas. Foto da direita: a perfeita companhia para um champagne ou um bom vinho branco Chardonnay

Nelson conta que apesar de muitos anos de experiência, ainda há muito para se conhecer sobre o mercado de moluscos no Brasil. Lembra que o consumidor não sabe como abrir a ostra, e muito menos, que para isso existe um instrumento especial. “Há muito o que fazer no marketing do produto.

Hoje nossa ostra é conhecida como “a ostra de Santa Catarina” ou “ostra de Florianópolis”, e não como “ostra da Fazenda Marinha Atlântico Sul”, onde está embutido um trabalho de acompanhamento ambiental, com análises regulares da qualidade da água da baía, bem como do produto que comercializamos. E isso é um diferencial que deve ser considerado como um bom argumento de venda”, diz Nelson.