Para os Iniciantes: Fazendo as Contas

Por: Alexandre Alter Wainberg

Dando continuidade a seção “Para iniciantes”, estamos publicando nesta edição mais um artigo do biólogo marinho Alexandre Waimberg destinado àqueles que estão iniciando uma engorda de camarões marinhos. Na próxima edição 55, a Panorama da AQÜICULTURA publicará o sexto e último artigo desta série, onde o autor se deterá nos possíveis problemas a que estão sujeitos os que se embreiam nesta atividade. 


Ao contrário do que muitos afirmam, a carcinicultura não visa produzir alimentos. Venhamos e convenhamos, camarão não é um alimento diário para alimentação da humanidade. O camarão é um artigo de consumo de luxo e, para o carcinicultor, o objetivo é ganhar dinheiro. A produção deve gerar lucro e, obviamente, o custo de produção deve ser inferior ao preço de venda. Mais ainda: o lucro deve ser suficiente para pagar o investimento dentro de um prazo aceitável. Em diversos casos, o lucro também deverá cobrir os gastos financeiros resultantes de financiamentos. A escala tem papel fundamental na viabilidade do empreendimento e, no caso da carcinicultura brasileira, podemos estabelecer 4 escalas (arbitrárias) de operações de engorda:

1- Familiar: área pequena, em geral menor que 10 hectares, manejada somente pelos familiares do proprietário ou com no máximo 2 funcionários, pouca ou nenhuma organização administrativa e tributária (pessoa física), baixo nível tecnológico e produtividade inferior a 2 toneladas/hectare/ano.

2- Pessoa Física ou pequena empresa: área em geral inferior a 100 hectares, manejada pelo proprietário e/ou funcionários, organização administrativa e tributária em geral optante pelo “Simples” ou funcionando como pessoa física, médio nível tecnológico e produtividade entre 2-6 toneladas/hectare/ano.

3- Média empresa: área em geral inferior a 200 hectares com administração profissional, em alguns casos o processo inclui também laboratório de produção de pós larvas e frigorífico, nível tecnológico de médio a alto e produtividade podendo alcançar níveis superiores a 6 toneladas/hectare/ano.

4- Grande empresa: área em geral superior a 200 hectares com produção incluindo todas as etapas do processo, nível tecnológico alto com produtividade geralmente superior a 6 toneladas/hectare/ano.

Nada impede que um empreendimento se inicie na escala familiar e venha a se transformar em uma grande empresa. Outra forma de ser pequeno e atuar como grande é pela formação de cooperativas.

Para entender as diferenças entre as escalas de produção podemos comparar a produtividade da carcinicultura (quilos/hectare/ano) com subir uma escada. No primeiro degrau estão as formas mais simples de produção, com baixo investimento em tecnologia e infra-estrutura, e consequentemente com baixa produtividade. Para subir um degrau é necessário algum esforço tecnológico e econômico, que resultará em um aumento da produtividade. Em geral, este esforço não é linear, ou seja, no início da escada são necessários pequenos esforços para subir os degraus.

A medida que estamos mais altos na escada, a cada degrau os esforços vão se tornando maiores, até o ponto em que o custo não compensa o benefício.

No início da escada, o lucro por quilo é alto porque o custo é baixo, porém a produção é pequena. No topo da escada o lucro por quilo é pequeno porque o custo é alto. Ganha-se no volume porque a produção é grande. No início da escada, o risco é pequeno porque o custo de produção é baixo resultando em menor vulnerabilidade para variações de mercado. No topo da escada, o risco é alto pois como o lucro por quilo é menor, alguma retração no mercado pode resultar em prejuízo.

Ao longo da história da carcinicultura brasileira este ponto de equilíbrio tem migrado cada vez mais para o alto da escada e as nossas fazendas obtém produtividade bastante satisfatória quando comparada a outros países da América Latina. Assim, podemos classificar (arbitrariamente) os empreendimentos também quanto ao nível de produtividade:

A – Até 1.500 quilos/hectare/ano: viveiros rústicos e rasos (<0,6 metros), geralmente abastecidos pela maré ou com bombeamento suplementar, densidade de estocagem inferior a 10 camarões/m² .

B – 1.500 – 3.000 quilos/hectare ano: em geral com viveiros bem construídos, abastecidos com bombeamento de capacidade média para cerca de 3-5% do volume da fazenda por dia, densidade de estocagem de até 20 camarões/m².

C – 3.000 – 5.000 quilos/hectare/ano: fazenda e viveiros com lay-out moderno, bombeamento com capacidade para entre 5-10% do volume da fazenda por dia, algumas fazendas possuem aeração suplementar, densidade de estocagem de até 30/m².

D – Mais que 5.000 quilos/hectare/ano: fazenda e viveiros com lay-out moderno, bombeamento com capacidade de cerca de 10% do volume da fazenda por dia, aeração suplementar, algumas operam em 2 fases usando pré berçários, densidade de estocagem superior a 30/m².

Existem alguns casos com produtividade recorde, estocagem superior a 50 camarões/m² , etc. No entanto, ainda não se pode afirmar com segurança que estes níveis são sustentáveis.

Neste artigo é impossível analisar todas as combinações entre estas escalas arbitrarias de tamanho e produtividade (16 combinações), e qualquer exercício de projeção esbarrará em extrapolações e arredondamenos que diminuem sua validade. Então, tomarei como exemplo uma fazenda tipo 2B (ver escalas acima), cujos investimentos são demonstrados abaixo:

Além dos investimentos propriamente ditos, não pode ser esquecido a necessidade de capital de giro. Não adianta construir sem ter dinheiro para funcionar. Para chegar ao valor do capital de giro é necessário analisar os custos de produção, o que será feito mais adiante. A grosso modo, podemos considerar o capital de giro como sendo igual ao custo de 1 ciclo de produção da fazenda inteira. Em uma fazenda do tipo 2B o capital de giro é de cerca de US$ 2.000 por hectare.

Como em qualquer negócio, os custos podem ser divididos em custos fixos e variáveis. Os custos fixos podem ser caracterizados por serem gastos que tem que ser feitos de qualquer forma e quase não se relacionam diretamente com o volume produção. Os custos administrativos, por exemplo, enquadram-se como custos fixos pois serão praticamente os mesmos para uma produção de 100 toneladas ou 150 toneladas. Os custos variáveis são gastos diretamente relacionados e proporcionais com a produção. Para produzir mais camarão é necessário mais pós larvas e mais ração. Na prática, muitos custos variáveis acabam sendo analisados como custos fixos pois não é possível apropriar adequadamente para cada viveiro ou cultivo. Teoricamente, seria possível apropriar o número de homens/hora ou de litros de água (energia) para cada viveiro individualmente, mas na prática isto é muito difícil. No caso da carcinicultura a análise fica simplificada se considerar-mos como custos variáveis somente pós larvas, ração e as despesas comerciais tais como gelo, embalagens e impostos sobre as vendas e considerar o resto como custo fixo.

Para analisar custo de produção é necessário levar em consideração pelo menos 1 ano fiscal, pois existem despesas sazonais, tais como 13º salário, que podem não aparecer se a análise for feita com somente 1 ciclo de cultivo ou semestre. Os custos variáveis de uma fazenda tipo 2B são demonstrados abaixo:

Uma das melhores alternativas de comercialização para o produtor é a exportação. Atualmente (1/8/99) a indústria recebe o quilo de camarão para beneficiamento por R$ 6,35 (US$3,49), no tamanho 81-100 peças por quilo com cabeça. O frete, embalagem, gelo e até parte da mão de obra para despesca são por conta da industria. O custo para o produtor é muito baixo, pois como o destino é a exportação existe isenção de ICMS, incidindo somente os 3% relativos ao “Simples”. Simples = 3% x R$ 6,35 (81-100 venda p/ exportação) = R$ 0,19/1,82 = US$0,10/Kg.

Pelo acima exposto conclui-se que a carcinicultura pode apresentar lucratividade em torno de 30%. Poucos negócios rurais apresentam tal margem de lucro (e urbanos também !), e isto tem impulsionado a expansão da carcinicultura brasileira na taxa de 100% ao ano. Este crescimento resultará em maior competição entre os fornecedores de insumos, estabelecendo uma tendência de redução de alguns custos variáveis, principalmente ração, que corresponde a 1/3 do custo de produção. No lado da receita, até bem recentemente, todas as fazendas eram competidoras pelo cliente do mercado interno.

Com o realinhamento cambial, exportar tornou-se a melhor alternativa, e algumas fazendas precisam trabalhar juntas para gerar volume. Com o aumento da produção brasileira, ganharemos maior representação no mercado internacional, alcançando novos patamares de preços a medida que se acumula experiência em comércio exterior, o que poderá melhorar ainda mais o lucro do carcinicultor. No entanto, não fiquem muito contentes com as notícias: no próximo próximo artigo só abordarei problemas.


Próximo e último tema a ser abordado: (6) enfrentando os problemas
Alexandre A. Wainberg é biólogo marinho, estudante de mestrado da UFRN, vice-presidente da COOPERCAM, e proprietário da PRIMAR com 42 Hectares.