Para os Iniciantes: Resolvendo os Problemas

Por: Alexandre A. Wainberg – Mestre em Biologia Marinha,vice-presidente da COOPERCAM e proprietário da PRIMAR com 42 Hectares de engorda de camarões marinhos Caixa Postal 36, Goianinha, Rio Grande do Norte – CEP 59173-000, Brasil – Tel: (84) 502-2309 / e-mail: [email protected]

A seguir, o último dos 6 artigos do biólogo marinho Alexandre Wainberg destinado àqueles que estão iniciando uma engorda de camarões. No artigo “Fazendo as Contas” da última edição 54 houve um erro de informação na tabela de custos de produção cujos valores deveriam estar em US$ e não em R$ como foi publicado.


Como qualquer atividade que se preze, a carcinicultura também apresenta seus problemas. Além de todos os problemas que os empreendimentos normalmente tem que enfrentar neste país de loucos, o fato de trabalhar com animais vivos introduz complicações extras que, muitas vezes, são incompreensíveis a que não tem experiência no setor. Esses problemas são vários e atingem todo o espectro do negócio desde o seu planejamento inicial, construção, operação e comercialização do produto final.Os problemas inerentes a casos particulares não serão abordados neste artigo, que se propõe a iluminar os que serão enfrentados em todos os casos independentemente do porte ou localização.

Certa vez, ao projetar uma fazenda de camarões para um grande grupo industrial, tive sérias dificuldades em explicar que a produção pode ser variável conforme uma infinidade de fatores. Na indústria, o estoque de aço pode ficar armazenado por anos e, ao final, ainda está lá. Na carcinicultura, os animais podem viver ou morrer, crescer mais ou menos, etc., e o produtor tem um controle muito reduzido sobre seu negócio, quando comparado por exemplo a uma lanchonete, clínica, ou indústria.

Para facilitar a compreensão, os problemas serão divididos em operacionais e administrativos. Atualmente, os principais problemas operacionais enfrentados pela carcinicultura brasileira estão relacionados a pós larvas, doenças, ração, meio ambiente, e segurança. Os principais problemas administrativos são mão de obra, tributação, e comercialização. É bom lembrar também que esta série de artigos não aborda a produção de pós larvas, que não é coisa para iniciantes.

Problemas Operacionais

1- Pós Larvas

As pós larvas são insumo principal dentro da carcinicultura. O fato de que o camarão que cultivamos não existe em nossos mares torna obrigatório o fornecimento a partir de laboratórios especializados. Estes são poucos e não garantem o fornecimento regular. Mesmo fazendas que possuem seu próprio laboratório não estão isentas de ficar com viveiros ociosos por falta de pós larvas. Qualquer redução na produção dos laboratórios ligados as fazendas (quase todos), deixa os outros produtores sem pós larvas. Pelas contas de capacidade de produção, os laboratórios nacionais poderiam suprir a demanda do mercado, mas isto não acontece porque problemas na produção parecem ser periódicos em todos os laboratórios. Outro fator de preocupação decorre da constatação que a expansão da capacidade brasileira de produção de pós larvas não tem acompanhado a taxa de expansão da área de cultivo. Diversas fazendas estão sendo projetadas, estão em construção, ou em ampliação, mas não se tem notícia de novos investimentos significativos na produção de pós larvas.

Os problemas relacionados com a regularidade do fornecimento de pós larvas são fáceis de detectar porque são óbvios, os viveiros ficam vazios ou sub povoados, mas o mesmo não ocorre com a qualidade. Na literatura existem vários artigos que procuram desenvolver escalas de qualidade para pós larvas mas estas dificilmente se adaptam a realidade diária de uma fazenda. Parâmetros tais como tamanho, uniformidade, comportamento, sobrevivência em testes de estresse e povoamento são bons indicadores, mas é quase impossível determinar a qualidade real da pós larva e prever sua performance. Não é como na avicultura, onde o produtor compra o pinto de primeiro dia sempre do mesmo fornecedor e as variações de qualidade são mínimas. O carcinicultor brasileiro, por mais experiente que seja, não tem a mínima idéia do que está comprando e, está ficando cada vez mais difícil prever o que vai acontecer no viveiro.

A qualidade da semente é fator fundamental para qualquer cultivo e, na maior parte do setor agropecuário, está relacionado com a genética. Para produzir sementes de organismos que não estão disponíveis na natureza, é necessário formar e manter plantel de reprodutores, geração após geração, sem perda de qualidade do material genético. A existência de galinhas de alta performance deveu-se a um trabalho de seleção que vem sendo desenvolvido a décadas (ou séculos). Para o camarão este trabalho é muito recente, não apresentando ainda resultados significativos que diferenciem o camarão cultivado dos seus parentes da natureza, realçando características que resultam em melhor performance, resistência a doenças, etc. No Brasil, este trabalho ainda não existe ou não apresentou resultados palpáveis para indústria. Ao contrário, existe forte desconfiança de que o plantel nacional esteja perdendo qualidade genética colocando em risco todo o futuro da atividade.

No Brasil, no que se refere ao comércio de pós larvas, não é o cliente (fazendeiro) que detém o poder, é o fornecedor (lab.), e esta realidade resulta em desvios éticos na conduta comercial. Os laboratórios freqüentemente mudam ou cancelam as datas de entrega, vendem pós larvas contaminadas por doenças, e não se responsabilizam pela performance do produto vendido. Por outro lado, várias fazendas, para se prevenir, encomendam pós larvas de vários laboratórios simultaneamente sem cancelar o excesso em tempo hábil, tornam-se inadimplentes justificando-se sobre a qualidade das pós larvas, ou atribuem maus resultados ao fornecedor sem no entanto proceder adequadamente nas técnicas de cultivo.

2- Doenças

O segundo problema que salta ao olhos na carcinicultura são as doenças. As epidemias de doenças são eventuais em qualquer atividade de confinamento animal e, na carcinicultura, geralmente estão associadas a vírus ou bactérias. Nos cultivos tradicionais, porcos, bois, galinhas, etc., a maioria das doenças é conhecida e para muitas já foram desenvolvidos métodos de controle que envolvem remédios ou procedimentos sanitários. Eventualmente, mesmo em animais cultivados há séculos, aparecem novas doenças como a doença da vaca louca, na Inglaterra. Os monocultivos são promíscuos e facilitam a proliferação das doenças. Pode-se dizer que, sob certos aspectos, a incidência de doenças é diretamente proporcional ao nível de intensificação do cultivo. Nos cultivos mais intensivos elas ocorrem com mais freqüência e são mais virulentas.

A carcinicultura industrial nos moldes praticados atualmente é uma atividade muito recente, contando com apenas cerca de 30 anos. Simplesmente ainda não deu tempo de saber muita coisa e surpresas desagradáveis têm surgido de vez em quando. Sendo uma criação aberta, com grande contato com o ambiente circundante, as condições do ecossistema adjacente contribuem significativamente para o estado sanitário das criações. Também por esta razão, o isolamento completo das criações é quase impossível, e as epidemias podem se espalhar tendo como veículo simplesmente a água, plâncton, outros animais e até pelas fezes das garças, onde já foram encontrados vírus ativos. Aparentemente, uma vez atingido, o ecossistema adjacente fica sendo portador permanente da doença e mesmo controlando internamente nas fazendas, a reinfecção é quase certa.

Estas características da carcinicultura resultaram em um histórico de epidemias importantes, que causaram prejuízos na casa de bilhões de dólares (não estou exagerando), principalmente no sudoeste da Ásia. Nesta região, as epidemias começaram nos cultivos mais intensivos de Taiwan, espalhando-se depois por toda região como a queda de um castelo de cartas. Na América do Sul os problemas com doenças iniciaram mais tarde mas tiveram o mesmo comportamento de disseminação. A epidemia da Sindrome de Taura (TSV) surgiu inicialmente no Equador e hoje se faz presente em todo o continente com raras exceções. Outras doenças importantes na engorda do Litopenaeus vannamei são o IHHNV, um vírus que provoca nanismo e deformidades, e NHP, uma bactéria que ataca o aparelho digestivo. Recentemente, foram introduzidas no continente, a partir do sudoeste asiático, a doença dos pontos brancos (WSV) e, provavelmente, também a doença da cabeça amarela (YHV). O governo brasileiro, corajosamente, fechou as fronteiras do país à importação de todos os crustáceos, tentando deter sua introdução no território nacional.

No Rio Grande do Norte, aparentemente, não existem mais camarões saudáveis. Cultivamos uma sopa de letrinhas (TSV,IHHNV,NHP,ETC.) e a sobrevivência dos camarões nos viveiros tem sido muito prejudicada. Hoje, por incrível que pareça, no Rio Grande do Norte, são consideradas boas as fazendas que trabalham com sobrevivência média anual de 50%. Não existe nenhum controle sanitário efetivo dos cultivos, não existem centros de diagnóstico de doenças, não existe controle no transporte entre os estados favorecendo a disseminação. Até quando esta situação irá se sustentar é uma incógnita, mas certamente toda indústria da carcinicultura nacional está seriamente afetada, e este fato põe em risco a sua sobrevivência. Se por acaso os vírus asiáticos chegarem por aqui, muitos carcinicultores irão a falência, inclusive eu. Eu tenho muito forte na memória a epidemia de Taura que atingiu minha fazenda em 1996. Quase me estrepei e não gostaria de ter que passar por esta experiência novamente.

3- Ração

O terceiro problema relaciona-se com a ração para camarão. Existe um monopólio de fato da Purina, que parece ser a única indústria com capacidade para produzir regularmente e com razoável constância na qualidade. As outras indústrias ainda não conseguiram chegar ao patamar de mercado da Purina e esta falta de competição real tem mantido alto os preços deste insumo. Na ração de camarão, componentes principais e essenciais, como a farinha e óleo de peixe, são importados e estão em alta no mercado internacional, refletindo no preço da ração no mercado interno, que gira em torno de US$600 por tonelada, quase o dobro dos preços no Equador, reduzindo a competitividade do produto nacional. A previsão de produção de 14.000 toneladas de camarão cultivado em 1999 resultará em um consumo de cerca de 20.000 toneladas de ração, suficiente para atrair outras fábricas de porte e aumentar a competitividade reduzindo os preços, mas projetos industriais são de maturação longa e não se pode prever mudanças no panorama a curto prazo (1-2 anos). O pequeno e médio produtor pode ter dificuldades em conseguir comprar diretamente da fábrica pois seu volume de compras é pequeno. Sua opção é trabalhar em regime de associação ou cooperativismo com outros colegas produtores.

4- Meio Ambiente

Qualquer atividade humana interage com o meio ambiente, incluindo logicamente a carcinicultura. Sob o ponto de vista ambiental, qualquer alteração será prejudicial aos ecossistemas e deve haver um balanço entre o custo e o benefício do desenvolvimento humano e a conservação da natureza. Cada local tem uma capacidade finita de desenvolvimento sem causar a ruptura do ecossistema, denominada capacidade de carga. A carcinicultura é acusada de causar severos impactos ambientais em Taiwan, Indonésia, China, Tailândia, Filipinas, Equador, Honduras, Nicarágua e outros países, onde se desenvolveu em excesso, suplantando a capacidade de carga do meio ambiente circundante.

Os manguezais são o ecossistema mais afetado e diversas ONG’s ambientalistas internacionais clamam pela morte da carcinicultura, que já foi julgada e condenada em um tribunal de ONG’s em Nova Iorque (não oficial), “The Shrimp Tribunal” (http://www.greenpeace.com) . Exageros a parte, a carcinicultura causa impactos ambientais muito pequenos, mas que podem se exacerbar se for operada em locais inadequados. Além disso, certos locais foram muito ocupados pela atividade, com fazendas lado a lado por quilômetros e quilômetros, com a drenagem de uma caindo na captação da outra, e outros exageros. Nestas áreas a carcinicultura sofreu de “auto poluição” , ou seja, seus excessos voltaram-se contra ela.

No Brasil, três fatores contribuíram para que a carcinicultura não tenha sido (até hoje !) responsável por impactos ambientais significativos: a legislação de proteção dos manguezais é muito rigorosa; o desenvolvimento é muito recente e ainda ocupa pouca área; o desenvolvimento é muito espalhado, sem muita concentração de fazendas. Afortunadamente, o desenvolvimento tem se concentrado em áreas que têm poucos manguezais. Os manguezais do Amapá, Pará e Maranhão, dentre os maiores do mundo, simplesmente não tem quase nenhuma fazenda. No entanto, alguns locais parecem ter alcançado nível de desenvolvimento que pode ter ultrapassado a capacidade de carga do meio ambiente. Nas fazendas localizadas nos estuários do Rio Curimataú e da Lagoa de Guaraira, no Rio Grande do Norte, os cultivos raramente são saudáveis, apresentando incidência de diversas doenças, o que pode ser indicador do fenômeno da “auto poluição”. Os fazendeiros da Bahia e do Piauí quase nunca sofrem com doenças nos cultivos, indicativo de um meio ambiente mais saudável.

Para a nossa sociedade moderna, não importa se a atividade trás ou não problemas ambientais. O que importa é como a mídia faz o relato dos fatos e faz pender a balança da percepção do público sobre o problema. Neste trabalho, as ONG’s ambientalistas estão dando um banho nos aqüicultores em geral, e mais especialmente carcinicultores e salmonicultores. A carcinicultura brasileira também terá que se haver com os embates com os ambientalistas e o combate recrudescerá a medida que a atividade se desenvolve.

Temos a oportunidade de desenvolver a atividade de forma ordenada e regulamentada usando as técnicas mais modernas de gerenciamento costeiro integrado. O desenvolvimento da carcinicultura brasileira passa necessariamente por uma flexibilização da legislação de proteção aos manguezais, que permita a construção de canais por dentro do mangue, para permitir o acesso e drenagem das fazendas localizadas nas áreas atrás dos mangues. A construção de fazendas dentro de manguezais é, e deve continuar sendo, proibida.

Problemas Administrativos

1- Mão de Obra

Na carcinicultura, como em qualquer atividade no Brasil, a relação entre capital e trabalho tornou-se uma guerra de leis inadequadas, abusos entre as partes e interferências externas. As leis trabalhistas não foram desenvolvidas para atender necessidades do setor agrícola de maneira geral, onde o serviço é determinado pelas características do animal ou vegetal cultivado, e tornam a administração dos recursos humanos bastante problemática para atividade. Com isto, algumas fazendas são obrigadas a ignorar algumas leis e criam esquemas próprios para viabilizar o cultivo. É sempre bom lembrar que nosso camarão compete diretamente com o do Equador, Honduras, Nicarágua, etc., que não tem nenhuma lei trabalhista e o custo com a mão de obra é muito pequeno. Logicamente não é objetivo de ninguém fazer seus funcionários de escravos, mas é desejável que a legislação tenha alguma flexibilidade para permitir que as atividades não sejam feitas a margem da lei. Esta situação resulta em embates eventuais com ex-funcionários na justiça do trabalho, as vezes raiando o absurdo.

Treinamento é outro aspecto relevante no quesito mão de obra. Estima-se que a carcinicultura brasileira possa alcançar 30.000 hectares de área cultivada até o ano 2005, o que resultará em cerca de 20.000-30.000 empregos diretos. Isto é muito bom, pois serão criados empregos onde eles não existem. Levando-se em consideração, para as fazendas, um tamanho médio de 100 hectares, isto resultará em 300 fazendas de camarão que necessitarão cerca de 300 gerentes e 1000 técnicos que simplesmente não existem em território nacional. Mesmo hoje, diversos projetos têm se munido de mão de obra estrangeira. Torna-se então imprescindível formar mão de obra para tocar tudo isto. Não existem cursos técnicos regulares em carcinicultura, e as universidades que lecionam áreas afins estão concentradas nas regiões sudeste e sul, longe do principal foco da produção que é o nordeste. Além do mais, é necessário formar primeiro os professores. Para fornecer suporte aos produtores pequenos e médios, também é imprescindível formar e melhorar a extensão rural.

2- Tributação

No Brasil, além do tamanho da carga tributária, o contribuinte também é sufocado pela complexidade do sistema. Existem os impostos diretos sobre a produção (IR, ICMS, Simples, PIS, Cofins, etc.), e os indiretos, que incidem em cascata ao longo da cadeia produtiva. Até o faturamento de R$720 mil, o “Simples” realmente reduz bastante a carga e a complexidade dos impostos, principalmente no item INSS sobre a folha e sobre a produção. O ICMS apresenta dificuldades extras uma vez que existe uma guerra fiscal entre os estados, que cobram taxas diferentes para comercialização no mercado interno. Assim, o camarão que paga 5,51% no Rio Grande do Norte, paga somente 0,34% na Paraíba. Com o realinhamento cambial, a exportação tornou-se uma alternativa bastante satisfatória também em termos tributários, pois existe isenção de diversos impostos cobrados para o mercado interno.

3- Problemas Comerciais

O comércio caracteriza-se por um fornecedor, que vende e entrega um produto, e um cliente, que paga e recebe este produto. A ruptura deste encadeamento desestabiliza o mercado e quebra a confiança. Na carcinicultura brasileira o maior problema comercial para o mercado interno é, sem dúvida nenhuma, a inadimplência. Algumas fazendas acumulam inadimplência na ordem de milhares de reais. A maior parte do camarão comercializado no mercado interno atravessa a informalidade econômica em algum ponto da cadeia comercial que vai da fazenda até o consumidor final. Seja por sub- faturamento de nota fiscal ou do volume vendido, grande parte do movimento de vendas é escamoteado. Mesmo fazendas que trabalham 100% na legalidade não podem garantir que o atravessador que compra o seu produto agirá adequadamente e contribuirá com sua parte. Esta informalidade de fato tornou o comércio de camarões no Brasil um saco de gatos, onde prevalecem pessoas e não empresas profissionais. Volta e meia aparecem novos compradores, que começam muito bem, e após algum tempo dão um grande calote em vária fazendas. O problema é tão sério que a Associação Brasileira de Criadores de Camarão edita uma lista de caloteiros. Recentemente foram firmados contratos entre fazendas e supermercados para escoamento do produto, que mesmo a um preço mais baixo para o produtor, apresenta segurança muito maior.

O mercado de exportação, ativado este ano com a liberação do câmbio, apresenta grande segurança em relação a inadimplência, além das vantagens tributárias já citadas. No entanto, para este mercado, outras preocupações vêm a tona. O camarão brasileiro, recente no mercado, ainda vai construir sua imagem. Neste momento é muito importante oferecer um produto de qualidade diferenciada, aproveitando que nossa infra-estrutura viária permite a rápida chegada do camarão na processadora. É preciso ter muito cuidado neste momento com dois fatores formadores de opinião: meio ambiente e saúde. O consumidor de hoje se preocupa se aquele produto é nocivo ao meio ambiente, e também se preocupa se faz bem a saúde. Se for notificado que a carcinicultura brasileira destruiu manguezais, o produto pode ser boicotado. Se o camarão apresentar resíduos dos antibióticos usados nas rações para combate de doenças, sua venda pode ser proibida em diversos países. Isto já aconteceu antes.

4- Segurança

Infelizmente é muito fácil roubar camarão de uma fazenda. Nas noites escuras, ladrões munidos de tarrafas podem fazer um estrago. Um lanço bem dado, na frente de uma entrada de água, pode pegar mais de 3 quilos de camarão. Felizmente, este ainda é o nível dos roubos no Brasil. No Equador, quadrilhas especializadas chegam a despescar os viveiros ou interceptar as cargas entre as fazendas e as processadoras. Até pós larvas são roubadas nos laboratórios. Na Indonésia, durante o colapso das moedas, a população faminta das vilas vizinhas invadiram fazendas para roubar toda produção. As fazendas são cercadas, algumas com cercas elétricas, possuem vigilância armada, torres de observação, e visores infravermelhos. Uma verdadeira guerra. No Rio Grande do Norte existe o histórico de uma quadrilha, que aparentemente foi desbaratada a bala durante uma tentativa de roubo em uma fazenda. Na minha opinião, a segurança da carcinicultura reflete a segurança da sociedade. Sociedade insegura, atividade insegura.

5- Problemas Institucionais

Para o carcinicultor brasileiro, A carcinicultura nacional sofre de perseguição. A quantidade de órgãos que metem a mão na cumbuca é impressionante: Serviço de Patrimônio da União, IBAMA, Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Secretaria Estadual de Recursos Hídricos, Secretarias Federal e Estadual de Fazenda, INSS, Ministério do Trabalho, INCRA, Sindicatos, ufa!!! Todos querem tirar uma casquinha. É taxa e imposto por todo o lado. Creio que todas as atividades produtivas brasileiras sofrem do mesmo mal, mas a carcinicultura possui uma herança histórica que fragmentou a liderança em âmbito governamental. Ela já foi subordinada a antiga SUDEPE, depois foi agregada ao IBAMA. Este, por sua vez, dançou entre vários ministérios. Mais recentemente, foi criado o Departamento de Pesca e Aqüicultura do Ministério da Agricultura, que promete unificar e desburocratizar o comando. A torcida é grande. O reconhecimento da carcinicultura como atividade produtora de alimentos e sua inserção dentro do organograma do Ministério da Agricultura é uma antiga reivindicação do setor, que permitirá que a atividade seja regida como uma agropecuária normal: crédito agrícola, secutirização da produção, comercialização em bolsas de mercadorias e futuros, etc.

Uma última opinião: ao se decidir investir em carcinicultura, o empresário ou produtor rural, na maioria das vezes não tem a mínima idéia da complexidade da atividade e dos fatores que irão afetar a viabilidade econômica. No artigo anterior ficou demonstrado que a carcinicultura pode ser uma atividade altamente lucrativa, quando tudo ocorre como o previsto. No entanto isto raramente acontece. Nestes 20 anos de atuação na carcinicultura, nunca vi uma fazenda apresentar os resultados previstos no papel. Papel não reclama e nele pode-se escrever o que quiser. A carcinicultura é uma atividade de altíssimo risco, onde tanto se pode ganhar como perder muito dinheiro. Se você está planejando investir em carcinicultura, sugiro que visite instalações em operação, converse com as pessoas envolvidas, e sobretudo, proceda tecnicamente contratando assistência especializada.

Gostaria também de agradecer a paciência dos leitores ao longo destes 6 artigos, que refletem somente a opinião do autor. Qualquer semelhança com fatos ou personagens da vida real é mera coincidência. Sucesso a todos.