Paulo Afonso – BA

A Piscicultura no Oásis do Sertão Nordestino


A Prefeitura Municipal de Paulo Afonso promoveu o seu I Festival da Tilápia que foi um sucesso por associar, definitivamente, a tilapicultura às perspectivas de desenvolvimento da região. Segundo o prefeito Paulo Barbosa de Deus, após o encerramento das obras da Hidrelétrica do São Francisco, os municípios da região precisaram buscar alternativas que gerassem empregos e a escolha de Paulo Afonso não podia ser outra senão a piscicultura. A aridez do sertão ao redor, sem chuvas há dois anos, já matou 60% do rebanho bovino, caprino e ovino, e os solos, rasos e cheios de pedras, em nada incentivam a agricultura, limitando sobremaneira as possibilidades de sustento dos produtores rurais, estimulando-os ao êxodo para as grandes cidades.

Num forte contraste, a presença serena do Rio São Francisco literalmente inunda a região com suas águas. Só o velho Chico, ainda majestoso apesar das grandes transformações pelas quais tem passado, pode oferece uma fartura de água represada em imensos e belos reservatórios, capazes de transformar, através da aqüicultura, todo o perfil econômico local.

Festival

A primeira vista, o I Festival da Tilápia, nos moldes em que foi realizado, pode parecer precoce, já que os primeiros tanques-rede colocados nas águas da região somente agora completaram um ano. Mas justifica-se, segundo o prefeito, já que o objetivo principal da evento foi disseminar a piscicultura e divulgar os potenciais piscícolas da região, além, é claro, de incentivar o consumo de peixes cultivados e mostrar a todos as vantagens de se investir no município.

Além de muita festa e música, como convém a um Festival, os participantes puderam ter acesso a muitas informações de qualidade, disponibilizadas durante “I Seminário Regional de Piscicultura” e no “Curso sobre qualidade de água no cultivo de peixes”, realizados durante o evento. Uma seção de pôster, dividida em dois dias, mostrou significativas contribuições das universidades, principalmente a Estadual da Bahia e Federal Rural de Pernambuco, abordando temas como o manejo da engorda das tilápias, monitoração da qualidade da água, hibridação, patologia, engorda do camarão de água doce Macrobrachium rosenbergii e de peixes da região, destacando-se entre eles o pacamã ou niquim Lophiosilurus alexandri, reunidos num total de 30 pôsteres.

Por detrás de todo o trabalho realizado junto aos produtores locais, está o esforço da Bahia Pesca, uma empresa da Secretaria da Agricultura do Estado da Bahia, desenvolvendo seu Programa de Desenvolvimento de Piscicultura em Grandes Barragens. Para que se tenha uma idéia do potencial desses reservatórios, Roseane Patriota, diretora executiva da empresa, explica que, caso venha a ser utilizado apenas 1% da área inundada dos reservatórios do Complexo Paulo Afonso, Xingó e Itaparica para a criação de peixes em tanques-rede de pequeno volume (4 m3), será possível produzir anualmente cerca de 40.000 toneladas de pescados, considerando resultados de produção bastante conservadores.

Caiçara

Hoje, a piscicultura em Paulo Afonso desenvolve-se em duas frentes e a primeira, numa área de 80 hectares onde estão instalados 30 ha de viveiros, é chamada Projeto Caiçara. Esses viveiros pertencem a 14 associações de produtores (uma associação é formada por vários indivíduos que podem estar sozinhos ou representar uma família e que, sobretudo, tenham afinidades entre si). Cada uma dessas associações possui dois hectares de viveiros (três de 5.000 m2 e dois de 2.500 m2 para pré-engorda) e um depósito para ração. Existe ainda uma fábrica de ração pertencente a todos, em operação produzindo diariamente duas toneladas de alimento peletizado (curiosamente operada por mulheres). O Projeto Caiçara possui ainda uma planta processadora de pescados, também em pleno funcionamento, voltada para a produção de filés, com câmara frigorífica para armazenar seis toneladas, operando com capacidade diária para 1.500 kg de peixes inteiros ou 500 kg de filés, com o certificado do SIE – Serviço de Inspeção Estadual.

Os produtores do Projeto Caiçara também possuem uma unidade para produção de alevinos revertidos de tilápia, com oito viveiros de 500 m2 e oito de 1.000 m2, ainda em fase de preparação do plantel de reprodutores. A previsão é de que venham a ser produzidos 150 mil alevinos revertidos mensalmente no início das operações até alcançar 300 mil alevinos mês, no mais curto espaço de tempo.

Tanques-rede

A outra vertente de produção de pescados cultivados na região encontra-se nas margens da barragem de Xingó, nas localidades de Xingozinho, Malhada Grande e Ilha Verde. Lá, 1.440 tanques redes de 4 m3 cada um, distribuem-se por um cenário cinematográfico que é um verdadeiro colírio para os olhos.

Os projetos têm sido financiados por alguns bancos, entre eles o Banco do Brasil e o Banco do Nordeste, com recursos liberados pelo PRONAF com prazo de carência de um ano e taxas de juros da TJLP mais 6% ao ano. O projeto do Banco do Brasil prevê para cada produtor dez gaiolas de 4 m3, sendo nove para engorda e uma para alevinagem, incluindo 9.000 alevinos e ração.

Atualmente, os produtores de tilápias de Paulo Afonso trabalham com o objetivo de despescar 60 kg/m3. Segundo o engenheiro agrônomo André Luiz de Castro Teixeira, um dos quatro membros da equipe da Bahia Pesca que atuam na área, essa densidade final chegará oportunamente a 120 kg/m3, desde que o manejo seja ainda mais assimilado pelos produtores e que seja possível o acesso a rações de melhor qualidade. André Teixeira mostrou-se surpreso com as diferenças entre as rações que tem utilizado na região pois já foram obtidas nos reservatórios conversões alimentares que variaram de 1,4:1 a 2,3:1, com nítidas diferenças de qualidade.

Cinco mil tanques-rede devem estar em operação nos reservatórios até o final deste ano e para que tudo dê certo, André espera contar com o interesse da indústria de rações para dar suporte aos cultivos, principalmente nos tanques-rede, onde é fundamental a qualidade do alimento completo e de boa digestibilidade. Ao que parece isso não será problema, haja visto o grande interesse já demonstrado pelos principais fabricantes de ração, presentes com seus estandes no I Festival da Tilápia.

Cooperativa

A satisfação dos produtores com o dia-a-dia na piscicultura é o melhor termômetro e não é difícil detectar que está em alta. José Alves Feitosa, piscicultor em Xingozinho disse estar plenamente satisfeito com a nova profissão que vem exercendo e feliz, conta que em uma despesca recente, após 6 meses de cultivo, ganhou a mesma quantia suficiente para comprar as terras que lhe pertencem, incluindo as poucas cabeças de gado que tem.

É de admirar a intimidade com que Feitosa já maneja seus tanques-rede e o grau de conhecimento sobre o manejo que já conseguiu absorver no seu pouco tempo de experiência como piscicultor. Os técnicos da Bahia Pesca sabem da importância da formação desses produtores para que possam tirar o melhor da qualidade genética e da ração que irão manusear daqui para frente e, para isso, convivem diariamente com os eles num trabalho de extensão lento e paciente, mas necessário.

Carlos Correia Bezerra é outro piscicultor e também presidente da Cooperativa Mista Agropecuária de Paulo Afonso – COMAPA, composta por 31 associações. Bezerra está bastante satisfeito com os rumos que a atividade vem tomando e não tem dúvidas do benefício que a piscicultura já está trazendo à população local, até então sem perspectivas diante da certeza da seca. Bezerra afirma satisfeito, já ter conhecimento do primeiro caso de uma pessoa que retornou de São Paulo, para onde havia migrado, por conta das conquistas de seus familiares com os primeiros resultados obtidos com piscicultura. É um bom sinal, afirma.

Bezerra, presidente da Cooperativa COMAPA: "ainda que no início, a piscicultura em Paulo Afonso já é capaz de reverter o êxodo do homem do campo"
Bezerra, presidente da Cooperativa COMAPA: “ainda que no início, a piscicultura em Paulo Afonso já é capaz de reverter o êxodo do homem do campo”
MPE

Os pequenos produtores que hoje criam tilápias no município de Paulo Afonso, muito em breve contarão com um vizinho de grande porte. O Grupo MPE (leia-se Valença da Bahia Maricultura) está compondo uma parceria com a empresa AAT International – Advanced Aquaculture Tecnology, visando produzir 3.000 toneladas anuais de tilápias em raceways, envolvendo recursos do BNDES e BNB, além de todo apoio logístico que está sendo oferecido pelo governo municipal. Estrategicamente será uma boa união para todos já que a nova empresa disporá também de produção de alevinos e uma bem estruturada unidade de beneficiamento.

Atualmente, como sabemos, o mercado bastante competitivo tem sido o grande vilão dos empreendimentos produtivos e domá-lo passou a ser a principal meta, seja para o grande, seja para o pequeno produtor. E somente uma coisa é certa: ambos só prosperarão oferecendo o que o mercado deseja, e com muita qualidade.