Peixes Nativos de Água Doce

Nutrição, genética, processamento e manejo foram temas de destaque do 2º Seminário de Tendências e Tecnologias na Piscicultura

O confortável Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá-MT, recebeu de 8 a 10 de setembro, a Feira Nacional de Peixes Nativos de Água Doce e o 2º Seminário de Tendências e Tecnologias na Piscicultura. As palestras do evento, organizado pelo Sebrae MT, atraíram cerca de 400 pessoas, entre produtores, investidores, pesquisadores e fornecedores de insumos de todo o país. Uma programação bem planejada e bastante abrangente foi a marca do seminário, que mais uma vez foi coordenado pela gestora do projeto de piscicultura do Sebrae MT, Valéria Louise da Silva Pires. O evento contou também com o apoio da Aquamat (Associação dos Aquicultores de Mato Grosso) e do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural).


Empresas vindas de diversos estados estiveram presentes na Feira de Peixes Nativos, que se manteve aberta ao público em geral e aos participantes do seminário. Estiveram presentes três fabricantes locais de rações – Rações Marlin, VB Alimentos e Pap Rações – além de produtores de alevinos, representantes de equipamentos de controle de qualidade da água, fabricantes de redes, tanques-rede e equipamento para aeração e alimentação. Entre as muitas empresas, estavam presentes a Bernauer Aquacultura, Weemac, Tanques-rede RHV, Engepesca, Trevisan, Têxtil Sauter, Braspeixe, Escama Forte e Manso Aquicultura.

O Núcleo de Estudos em Pescado (NEPES), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), também marcou sua presença com um estande na Feira, expondo alguns dos projetos desenvolvidos pelos seus alunos de graduação e pós-graduação. Chamaram a atenção dos visitantes os produtos desenvolvidos para agregar valor às espécies nativas como o filé de tambaqui defumado de forma convencional (serragem) e com fumaça líquida e corantes, o concentrado proteico de tambatinga, o presunto cozido e defumado de tambatinga e o fishburguer elaborado com resíduo da filetagem. O NEPES/UFMT desenvolve pesquisas na área de produção de peixes nativos e ornamentais, e promove inúmeros cursos de capacitação, tanto na área de produção como na de processamento de pescado. Para 2017 já está programada a abertura de um curso de pós-graduação lato sensu em Piscicultura e Processamento de Pescado. Para mais informações em www.nepesufmt.com.br ou pelo e-mail: [email protected]

O 2º Seminário de Tendências e Tecnologias na Piscicultura foi aberto pela diretora técnica do Sebrae em Mato Grosso, Leide Garcia Novaes Katayama. Na ocasião, Leide garantiu que o orçamento do projeto de piscicultura desenvolvido pelo Sebrae em Mato Grosso já está garantido para 2017 e 2018, e que atuará ainda mais intensamente em toda a cadeia produtiva. Em outro pronunciamento, o presidente da Associação dos Aquicultures do Estado de Mato Grosso (Aquamat), Jules Ignácio da Silva Bortoli, disse sobre a satisfação em ver reunida boa parte do setor produtivo num evento de relevância nacional. Entretanto, apesar do sentimento de celebração, Jules falou dos aborrecimentos. Disse estar cansado de ouvir “que a aquicultura é uma atividade do futuro, muito promissora e com perspetivas excelentes, etc. e tal. Efetivamente não tem caminhado assim, e muitas vezes as coisas parecem que não andam. Quando a gente resolve uma coisa, surge uma exigência nova”, desabafou. E listou entre os entraves, os altos custos da energia elétrica, as leis trabalhistas inadequadas, a legislação ambiental, muitas vezes absurda, a ponto de chegarem a pedir um relógio medidor de vazão em cada tanque, e a polêmica proibição da tilápia e tanque-rede em Mato Grosso, quando em Mato Grosso do Sul é permitida. É preciso ser um guerreiro, finalizou, sendo bastante aplaudido.

O melhoramento genético a serviço da produção dos peixes nativos foi o tema da palestra do professor da Universidade Estadual de Maringá, Ricardo Pereira Ribeiro. Ricardo sustentou que a piscicultura deve seguir o exemplo das demais cadeias produtivas, que utilizam apenas animais melhorados. “Onde os animais selvagens dão os mesmos resultados que os animais melhorados?”, perguntou aos presentes. E concluiu, afirmando que a aquicultura brasileira ainda patina em função deste “achismo”. Lembrou o BNDES, que em estudo publicado recentemente sobre a aquicultura brasileira, optou por investir apenas em projetos de aquicultura que utilizam formas jovens melhoradas (alevinos). Essa decisão do BNDES, segundo Ricardo Ribeiro, tende a provocar esse mesmo sentimento em todo o sistema financeiro, já que o uso de alevinos melhorados traz mais segurança para o agente financiador na medida em que o produtor vai trabalhar com mais estabilidade e melhores condições para conduzir seu negócio. Na sua opinião, para transformar a piscicultura numa atividade empresarial, não se pode mais depender dos estoques selvagens como reprodutores, na medida que não são adaptados, são desuniformes e, citando o caso do pirarucu, têm dificuldades na reprodução. Ricardo mostrou aos produtores presentes como é feito os cruzamentos visando o melhoramento genético, com as formações de famílias e as estratégias de seleção mantendo a variabilidade genética. E causou surpresa ao fazer uma crítica ao desempenho dos híbridos de peixes redondos, principalmente quando o foco é o ganho de peso. Explicou que, o que se deseja em qualquer híbrido é que exista o “vigor do híbrido”, que é medido para cada uma das características que se deseja avaliar. Para que haja o vigor para o ganho de peso, por exemplo, é preciso que o híbrido supere, em média, a soma dos resultados dos pais, dividido por dois. Se esse valor não for superior, não há o que se chama “vigor do híbrido”. E explicou que os estudos comprovam que o tambacu e a tambatinga não têm vigor para ganho de peso. Segundo Ricardo, cruzar redondos sob o ponto de vista do ganho de peso não é negócio, pois já existem muitos estudos que demonstram que o cultivo do tambaqui puro, até 2,0kg, supera em até 30% todos os cruzamentos com outras espécies de redondos, como pacu e pirapitinga. Disse ainda que os produtores podem até preferir os híbridos pelo fato de terem uma cor mais comercial, e reconhece que é difícil mudar o mercado e o hábito de usar o híbrido, ainda que não exista vigor para o crescimento. Mas, na sua opinião, o uso desses híbridos para características de desempenho é um “pioramento” e não um melhoramento genético.

Uma avaliação da produção de pescado no Estado de Mato Grosso foi apresentada por Daniel Latorraca, Superintendente do Instituto Mato-grossense de Pesquisa Agropecuária – IMEA. No estado, os peixes redondos respondem por 58% da produção, enquanto os bagres de couro (pintado, cachara, cachapira e pintachara) respondem por 27%. Quase toda a produção é consumida no próprio estado, e o pouco excedente é enviado para o mercado de outros estados, principalmente o Distrito Federal. Entre julho e setembro deste ano o preço médio de venda dos peixes redondos foi de R$ 4,60, deixando uma margem razoável ao produtor, que teve custos de produção ao redor dos R$ 4,00. Já os produtores de bagres de couro não tiveram a mesma sorte. Enquanto os bagres eram vendidos, em média, a R$ 6,55, os custos operacionais de produção chegavam a R$ 6,94 (ou R$ 7,33 se forem levados em consideração a depreciação e o custo de oportunidade). Apesar desse quadro ruim para os produtores de bagres de couro, Latorraca cosidera que Mato Grosso tem uma grande vantagem na produção de peixes nativos, tanto em questões econômicas como nas ambientais, com produtores que se beneficiam da escala de produção. Entretanto, o custo de produção da piscicultura mato-grossense está diretamente ligado ao preço da ração, que nos últimos meses foi fortemente influenciado pelo grande aumento nos preços das commodities. Enquanto essa situação persistir, o produtor vai ter que conviver com margens estreitas.

Os desafios e as oportunidades na industrialização dos peixes nativos foi o tema abordado por Pedro Furlan, da Nativ Pescados, empresa localizada no município de Sorriso-MT. O empresário caracterizou a cadeia produtiva do pescado cultivado como “ainda em estruturação”, com pouco conhecimento técnico operacional. “No Brasil, ainda não temos muita gente que entenda de peixe, tanto na indústria como no campo, onde os custos de produção são altos, com baixa escala”, disse Furlan, antes de apresentar a Nativ Pescados. Mostrou como funcionam a linha de “desmonte”, que corta o peixe inteiro para filetar e porcionar, e a linha de industrializados, que usa a carne mecanicamente separada para o preparo de empanados, pré-fritos, vendidos na caixinha. Para esses produtos da linha de industrializados, além dos peixes nativos, utiliza também o filé de tilápia e camarão, adquiridos de terceiros. Na área de desmonte a Nativ tem capacidade de processar 6.048 toneladas de peixes por ano, e na área de industrializados 2.016 toneladas anuais de empanados. Sobre os fornecedores de peixes para o desmonte, ou seja, os piscicultores, disse que cerca de 50% deles não têm o controle mínimo dos seus estoques, necessário para atender às exigências de um frigorífico. E ilustrou o que disse mostrando dados do recebimento de um fornecedor da Nativ, cujo nome manteve em sigilo, que declarou na nota fiscal que estava vendendo 6.000 kg de tambaquis com peso médio de 3,13 kg. Na entrada o lote foi pesado, e logo constatado que eram apenas 4.251,75 kg. Desse total foram descartados: 27,25 kg por conta de odor e baixa qualidade; 42,25 kg (1%) de ração no interior dos peixes; 123,78 kg (2,93%) de gordura visceral, resultando em 4.058 kg de tambaqui. O transtorno para a indústria é muito grande, principalmente porque esse tipo de produtor que não tem controle do que produz e vende, faz com que a indústria fique ociosa. A Nativ tem uma capacidade instalada para produzir cinco vezes mais do que produz atualmente. Pedro Furlan disse que o Brasil não está atuando no mercado externo de peixe, mas garantiu que aí está a oportunidade a médio e longo prazo. Citou dados da Abras – Associação Brasileira de Supermercados, dando conta que o varejo de pescado em 2015 movimentou R$ 2,6 bilhões. Deste total, R$ 1,9 milhões foram de pescado congelado e salgado, boa parte importada, como o bacalhau, polaca, merluza, panga e o salmão.

Apesar do Brasil não estar atuando no mercado externo, Furlan garantiu que é nele que reside a grande oportunidade de crescimento a médio e longo prazos. No seu entender, para que o negócio do pescado cultivado seja grande no Brasil e que deixe de ser um setor voltado para atender a nichos de mercado – atualmente não chega a 2% do mercado global – é preciso que o produtor brasileiro se volte para a exportação. Reconheceu, porém, a importância do mercado doméstico, principalmente neste ciclo de crescimento que vivemos atualmente, já que ajuda a pagar as contas. Insistiu que, para crescer e ter uma escala como a do bovino e do suíno, é preciso buscar o mercado externo, ainda que essa não seja uma tarefa muito fácil. E ilustrou a dificuldade contando as experiências da Nativ. Em 2009, na feira de pescado de Bruxelas, uma das maiores do mundo, os produtos Nativ foram apresentados aos compradores internacionais e foram muito bem avaliados com relação à qualidade. Mas o preço do pintado foi considerado caro, quando comparado aos similares oferecidos no mercado internacional. Ao invés de comprar o pintado brasileiro, os compradores preferiram adquirir filés de outros bagres, oferecidos por outros países produtores, até pela metade do preço, disse. Já na apresentação do tambaqui, a aceitação também foi muito boa, o preço despertou interesse, mas, segundo Furlan, há um problema técnico sanitário, que é um entendimento que o tambaqui brasileiro possui salmonela, e isso fecha as portas para o tambaqui no exterior. Contou que em 2010 a Nativ havia fechado um contrato com uma rede francesa, com mais de 400 lojas, para fornecer a costela de tambaqui no cardápio, mas o processo de exportação demorou e os franceses acabaram comprando de um concorrente, que enviou as costelas. “Nesse produto foi identificada a presença de salmonela”, disse. “A remessa foi apreendida e a empresa brasileira foi punida e ficou sem poder exportar para União Européia por dois anos. Os peixes de cultivo amazônicos possuem barreiras que ainda precisam ser bem trabalhadas para que possam ser removidas”, completou Pedro Furlan. Lembrou também das dificuldades financeiras que a Nativ passou há três anos, que a fez sair do mercado por um tempo. Falou do retorno, a seu ver bem sucedido, já que 85% dos clientes que eram atendidos, voltaram a comprar da Nativ. Pedro acredita que o crescimento do setor vá se manter, fortalecido cada vez mais pela propagação dos benefícios do consumo do pescado, e salientou que a indústria deverá ser cada vez mais fortalecida, já que é preciso sempre atender às necessidades sanitárias que o pescado exige. No final da sua apresentação, alguém na plateia perguntou o que mudou de 2006, desde quando a indústria foi montada, até hoje. Pedro Furlan respondeu que mudou praticamente tudo. “Em 2006 foi montada uma indústria focada, principalmente, no pintado e no tambaqui, para exportação; e uma parceria com a BRF, na época com a Sadia, para produzir empanados. Nem um nem outro funcionou. Vimos que o buraco era bem mais embaixo na cadeia produtiva. A gente imaginava que a experiência em outras proteínas nos ajudaria a produzir com escala, com volume. Mas isso não aconteceu. E não foi por falta de insistência. Mantivemos uma estrutura parruda, com promoção nos pontos de venda, por anos e anos, acreditando que a gente ia chegar nesse volume, nessa escala. Tivemos que parar a operação pra recomeçar do zero, de uma maneira que o mercado comportasse e a gente conseguisse ter rentabilidade. Hoje vejo algumas empresas novas entrando no setor e cometendo os mesmos erros que cometemos. Não vejo muito futuro pra eles. Vejo gente entrando pesado, investindo muito, mas sem ser sustentável”, sentenciou.

A sanidade dos peixes e a sua relação com a comercialização foi o tema apresentado pelo pesquisador da Embrapa Amapá, Marcos Tavares Dias, que começou falando da importância do manejo para evitar as parasitoses e outras doenças. Os cuidados com a criação passam pela origem dos peixes, que devem sempre vir de larviculturas comprometidas com a sanidade dos reprodutores e alevinos. Marcos detalhou algumas condições propícias para que parasitos infestem uma piscicultura, destacando a disponibilidade de habitat adequado, com alimento em abundância, matéria orgânica em excesso, um ambiente adequado para a reprodução para que haja um número suficiente de parasitos para atingir um hospedeiro. Condições propícias para a transmissão, como um clima com temperaturas altas e pluviosidade, muitas vezes com mudanças bruscas de temperatura, também facilitam a ocorrência de parasitos. Marcos lembrou que a presença de parasitos pode ser considerada normal, sendo preocupante quando o número de parasitos aumenta excessivamente. Mostrou alguns parasitos comumente encontrados nos peixes nativos: a Perulernaea gamitanae, que ocorre principalmente dentro da boca e na língua dos peixes, dando um aspecto nada comercial; o Acanthocephalo Neochinorhynchus butnerae, um verme intestinal que ocorre principalmente nos peixes cultivados no Amazonas e Rondônia; o Ictiophitirius multifilis, conhecido como Ictio; os Argulídeos, que são como carrapatos aderidos nos peixes, e até a Lernaea cyprinacea, introduzida no Brasil pela carpa, que também afeta peixes cultivados na Região Norte. “Os prejuízos na comercialização podem se manifestar de várias maneiras. O aspecto do animal pode ser alterado com feridas pelo corpo. O peixe pode perder peso por não conseguir se alimentar em decorrência dos parasitos na boca, ou mesmo por respirar com dificuldade por ter parasitos nas brânquias”, explicou Marcos Tavares. O pesquisador falou também sobre as bacterioses, que podem fazer com que os peixes percam nadadeiras ou fiquem despigmentados, e apresentou o resultado de uma avaliação que fez das perdas econômicas na aquicultura brasileira, provocadas pelas bacterioses e parasitoses. “Os prejuízos somaram US$ 84 milhões e foram levados em consideração os custos com alevinos, equipamentos, ração, aditivos em ração, mão de obra, mortalidade, conversão alimentar e perda de crescimento”, afirmou. Na sua avaliação muitos fatores são responsáveis pelas doenças, e listou alguns deles: alta de densidade de cultivo; traumas e danos físicos nos peixes; baixa qualidade da água associada à renovação inadequada; abastecimento com água de rios, lagos e igarapés que trazem parasitos para o cultivo; baixa resistência genética às doenças; introdução de peixes com novos parasitos para os estoques já presentes nos viveiros; presença de predadores (aves e outros animais – hospedeiros intermediários de parasitos); estado de saúde debilitado decorrente de nutrição deficiente; estresse causado por mudanças ambientais bruscas de temperatura e pH; e, a ocorrência de temperaturas mais baixas que podem favorecer a reprodução e multiplicação de certos parasitos, como os protozoários. Marcos Tavares recomendou não alimentar com dejetos de outros animais, eliminar peixes mortos no viveiro e examinar sempre os peixes cultivados.

A qualidade dos alevinos de peixes nativos produzido no Brasil e as estratégias para não comprometer o futuro da cadeia de produção, foi o tema da palestra do professor Danilo Streit, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Danilo começou sua apresentação afirmando que a premissa fundamental para o sucesso de qualquer produção animal, é que haja o domínio total da produção das formas jovens, no caso dos peixes, os alevinos. Por esta razão, lamentou que a produção de alevinos no Brasil seja pouco valorizada. Ao apresentar a forma como se estabeleceu a produção dos alevinos das espécies nativas, lembrou de Rudolf von Ihering, nos anos 30, e dos húngaros que colaboraram com o Brasil nos anos 80. E concluiu que, atualmente, os laboratórios fazem as mesmas coisas, repetindo o mesmo modelo aplicado décadas atrás para a carpa, sem evolução alguma, a começar pela seleção dos reprodutores, que se dá pelos mesmos processos arcaicos. Sobre a indução hormonal, não houve nenhuma inovação nessas décadas que se passaram, o mesmo acontecendo com a embriologia, larvicultura e alevinagem. As grandes questões atuais da piscicultura de nativos, segundo Danilo, estão relacionadas com a qualidade dos alevinos que estão chegando ao mercado. “Os produtores de alevinos estão preparados para continuar na atividade? Teremos alevinos para atender a demanda crescente? Com que qualidade estarão sendo produzidos no futuro próximo?”, perguntou. Na sua opinião, os produtores não estão preparados e a perspectiva é a de que não teremos alevinos suficientes, se alguns fatores não mudarem. O fato de que tudo que chega ao mercado esteja sendo consumido sem contestação, sugere, infelizmente, que não há necessidade de mudar o atual padrão de produção, disse. O foco do produtor de alevinos, na maioria das vezes, é apenas cumprir suas metas, solucionar suas dificuldades e captar mais compradores. Já os que engordam os peixes, esperam alevinos com muita qualidade, padronização, segurança genética, livre de enfermidades, com oferta regular e na quantidade certa do que foi comprado. E tudo isso nem sempre acontece. Os alevinos representam menos de 5% do custo de produção do peixe, e se os laboratórios cogitarem aumentar o valor dos alevinos para investir mais em qualidade, os “engordadores caem para trás”. Ainda segundo Danilo, pelo fato da maior parte dos fornecedores de alevinos no Brasil serem amadores, na medida em que apenas repetem processos e não investem em genética e qualidade dos animais, o que está em jogo é a oferta adequada para dar suporte à ampliação que os piscicultores de nativos desejam.

Francisco das Chagas Medeiros, secretário executivo da Peixe-BR, e um dos principais representantes da piscicultura mato-grossense, falou sobre a perspectiva de mercado para os peixes nativos. Iniciou sua palestra lembrando que a Associação de Aquicultures de Mato Grosso (Aquamat) foi criada em 2005, quando tentaram proibir a produção do tambacu no estado. Com a criação da associação, a proibição não logrou sucesso e um ano depois o estado produziu 12 mil toneladas de peixe. Atualmente, graças a atuação da Aquamat e com a ajuda do Sebrae, o estado produz 74 mil toneladas. Ao falar das perspectivas dos peixes nativos, Francisco reconheceu que o crescimento desse setor é mais vagaroso que o da tilápia. Lembrou ainda que o preço da tilápia na porteira, que sempre andou junto ao preço do peixe redondo, desgarrou nos últimos dois meses, tendo a tilápia se valorizado mais. Sobre a opção dos produtores mato-grossenses de utilizar peixes frutos de cruzamentos, Francisco disse que o produtor está produzindo com o pouco que ele tem. “No dia em que tivermos linhagens melhoradas de peixes puros, certamente esses peixes que hoje criamos, não serão mais criados”. Sobre o mercado para os bagres de couro, redondos e o pirarucu, Francisco falou da sua convicção de que comemos o que é colocado no mercado, a preço competitivo. Lembrou ainda que no dia em que o fornecedor vietnamita chegou ao Brasil e vendeu o panga, colocou por água abaixo toda a teoria que diz que é difícil mudar o hábito alimentar do brasileiro. Minimizou o problema da espinha em Y, dizendo que uma máquina para a remoção dessas espinhas já está em fase adiantada de desenvolvimento. Apesar de existir um bom número de frigoríficos no Brasil, Francisco afirmou que, se todos eles estivessem processando a pleno vapor, não processariam 30% da produção brasileira. “Isso faz com que o processamento e comercialização feita de forma clandestina seja, atualmente, um grande problema para o setor”. Disse ainda que no Mato Grosso o consumo de nativos, é de 15 kg per capita, e que em todo Brasil é de 1,69 kg per capita, um consumo menor que os peixes que o país importa (2 kg per capita). E fez uma reflexão sobre o processamento: “temos o hábito de agregar valor, mas isso só é bom pra quem tem dinheiro. Para os que não têm, quanto menos valor agregado melhor, porque o peixe vai ser muito mais barato”. Quanto ao fato da tilápia inteira e eviscerada ser vendida em mercados populares a aproximadamente R$ 8,00, o mercado cearense de alguma forma confirma isso. Talvez tenhamos que deixar vir para o Brasil os produtos para atender as classes A e B, para nos ocupar com o abastecimento das demais classes sociais. E desafiou a todos a pensar diferente: “o que estamos fazendo nos trouxe até aqui, mas não vai nos levar até amanhã, porque a ração vai continuar cara e o preço do peixe, barato”.

Os detalhes que fazem a diferença na nutrição dos peixes foi o tema abordado por Débora Fracalossi, da Universidade Federal de Santa Catarina. Débora falou das principais características dos alimentos e a função dos principais ingredientes. A especialidade de Débora é a determinação de exigências nutricionais dos peixes, razão pela qual falou da importância das rações não apenas para o crescimento adequado, mas também para fazer com que os animas sejam mais resistentes às doenças. Explicou didaticamente a importância da energia nas rações, e como funciona a bomba calórica, o equipamento utilizado para medir a energia na ração bruta ou em algum ingrediente. Falou das macronutrientes (proteína, carboidratos e lipídio) que podem ser transformadas em energia. Explicou que somente as proteínas com bom perfil de aminoácidos são adequadas. Sobre o balanceamento dessas fontes, disse que é desejável que a maior parte da energia venha de carboidratos e lipídios. “O peixe come para saciar sua demanda de energia. Se o alimento tem muita energia, ele vai saciar rapidamente sua fome e vai parar de se alimentar antes de consumir a quantidade de proteína que necessita” disse. Já nos casos em que a ração tem excesso de proteína, ela vai ser usada pra gerar energia e isso, além de aumentar o custo da ração, vai fazer com que o peixe excrete o nitrogênio em excesso, na forma de amônia, poluindo o ambiente. Além disso, rações com muita energia fazem o peixe ficar com muita gordura visceral. Débora falou ainda dos nutrientes dos principais ingredientes utilizados para a fabricação das rações e da digestibilidade desses ingredientes.

Os participantes do Seminário de Tendências e Tecnologias na Piscicultura assistiram também André de Freitas Siqueira, sócio da Piscis Ind. e Com. Ltda., que levou para a Feira o entreposto móvel de pescado, um projeto financiado pelo governo do Estado do Ceará, Finep, Embrapa Suínos e Aves e a empresa Engemac que construiu os equipamentos. Com o apoio do Sebrae, o caminhão está sendo apresentado em vários estados. Em outra palestra, Gilcler Alcino de Souza, explicou detalhadamente os caminhos que levam ao crédito. Fernando André Salles da APTA/SP falou dos princípios que regem a Aquaponia, e de que forma esse sistema de cultivo pode ser bem utilizado na produção de peixes nativos. Eduaro Ono, da Nova Aqua falou das oportunidades e desafios da criação de pirarucu, desde as barreiras da sua comercialização internacional por ser um peixe em extinção, controlado internaciolamente pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção – CITES, até a sua presença nos cardápios de restaurantes famosos e companhias aéreas. Um peixe que está se despindo do estigma de ser vendido salgado em mercados com poucos cuidados sanitários, para ser degustado entre pessoas de paladar exigente.

O evento contou também com clínicas tecnológicas que abordaram diversos temas, entre eles a produção de peixes ornamentais, doenças transmitidas pelo pescado, nutrição, processamento, retirada de espinhas, entre outros.

O resultado do evento foi considerado por todos – organizadores, palestrantes, expositores e congressistas – como muito positivo, por conseguir reunir um número significativo de profissionais comprometidos com a aquicultura, e o conteúdo das apresentações certamente será de grande valia para os que participaram dos dois dias de palestras. Ficou um gostinho de quero mais, já esperando o próximo, que se realizará daqui dois anos, como de costume, em Cuiabá. Até lá.