Peixes palhaço: sua biologia e seu cultivo

Quem não se sente fascinado ao ver os “peixes palhaço” nadando entre os tentáculos de uma anêmona do mar? Muito antes do lançamento do filme “Procurando Nemo”, os “clownfish” ou “anemonefish” (como são conhecidos em inglês), já exerciam uma popularidade indiscutível entre os fotógrafos e documentaristas subaquáticos, que se encantam com a graciosidade do seu jeito de nadar e as cores vivas do seu corpo, que variam do laranja, vermelho, preto, amarelo e rosa.

Em sua maioria esses peixes possuem listras ou máculas contornadas, cuja forma lembra a cara pintada de um palhaço, e que motivaram o seu nome. Com a exibição do filme da Disney/Pixar os peixes palhaço tornaram-se ainda mais populares junto ao grande público. Também, sob o ponto de vista comercial, eles são considerados os peixes ornamentais marinhos mais importantes, tanto no aspecto extrativo, como no aspecto de cultivo, visto que superam a demanda de mercado de todos os peixes marinhos ornamentais do mundo.

Nesse artigo conheceremos alguns dos aspectos da biologia comportamental dos peixes palhaço, sua relação com as anêmonas, manutenção em aquários e, principalmente, as possibilidades de cultivo comercial desses que são, sem dúvida, os ornamentais mais conhecidos do mundo.



Por:
Alberto O. Lima¹ [email protected]
Jussara de A. Guerreiro¹
Leandro Portz²
1 Núcleo de Estudos em Pesca e Aquicultura (NEPA), UFRB, Cruz das Almas/BA
2 Laboratorio de Aquariologia, UFPR, Palotina/PR


Nos últimos anos o comércio de peixes ornamentais marinhos tem aumentado consideravelmente, assim como a exploração indiscriminada da pesca extrativa sobre os ecossistemas marinhos de recifes. Contudo, a solução definitiva para garantir a sustentabilidade do comércio de aquarismo marinho e um caminho para a conservação da biodiversidade marinha ornamental, em longo prazo, deve se dar pelo desenvolvimento de tecnologias ambientalmente corretas em laboratórios de cultivo (hatchery), como forma de garantir os suprimentos de peixes ornamentais marinhos. Isso reduzirá a pressão sobre os estoques naturais (DHANEESH, 2009).

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Segundo Job (2005), medidas de conservação estão sendo implantadas pela aquicultura ornamental marinha, como o melhoramento de raças de peixes, cada vez mais demandadas pelos hobistas oriundos da aquicultura. Nos Estados Unidos, por exemplo, o preço atual dessas espécies melhoradas geneticamente é 25% superior àquelas capturadas em ambiente natural. Isso é resultado do esforço bem sucedido de produtores comerciais para produzir espécies mais adaptadas ao ambiente do aquário, do que aquelas capturadas no ambiente natural.

Um bom exemplo desse sucesso foi o que aconteceu com o peixe palhaço (clownfish ou anemonefish), mundialmente conhecido como Nemo, que foram sobre-explotados na natureza para satisfazer à crescente demanda gerada após o sucesso do filme “Procurando Nemo”. Programas de reprodução em cativeiro podem mudar significativamente a pressão sobre muitas espécies ornamentais, entre elas o peixe palhaço, e espera-se que a difusão de tecnologias de cultivo promova o crescimento da indústria de aquarismo em nível mundial. Há uma expectativa de que até 2011, Taiwan produza dois milhões de peixes palhaço, o que irá gerar uma receita de US$ 100 milhões no lucrativo mercado de peixes ornamentais (WU LILIAN, 2009).

O cultivo de ornamentais marinhos não é uma atividade relativamente comum no Brasil, principalmente sob o ponto de vista das condições técnicas e estruturais. Contudo, quando o produtor está munido de alguns critérios como disponibilidade e qualidade de água, técnicas de manejo com reprodutores e larvicultura, é perfeitamente possível se implantar criações em escala comercial e explorar essa atividade cada vez mais promissora em países de clima tropical.

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Antecedentes Bio-Ecológicos

Os peixes palhaço pertencem à Família Pomacentridae, subfamília Amphiprioninae, muito embora sejam todos considerados como Damselfishes (peixes donzelas) (FISHBASE, 2004). São também denominados como Anemonefishes (peixes de anêmonas) pela sua estreita relação de simbiose com as anêmonas do mar (Figura 1).

Figura 1: Peixes palhaço Anemonefishes, espécie Amphiprion ocellaris (à esquerda) e A. frenatus (Tomato, à direita), fazendo simbiose com as anêmonas do mar em um aquário de recifes. Foto: Alberto O. Lima

Figura 1: Peixes palhaço Anemonefishes, espécie Amphiprion ocellaris (à esquerda) e A. frenatus (Tomato, à direita), fazendo simbiose com as anêmonas do mar em um aquário de recifes. Foto: Alberto O. Lima
Figura 1: Peixes palhaço Anemonefishes, espécie Amphiprion ocellaris (à esquerda) e A. frenatus (Tomato, à direita),  fazendo simbiose com as anêmonas do mar em um aquário de recifes. Foto: Alberto O. Lima

Os peixes palhaço apresentam características sexuais hermafroditas protândricas, ou seja, as gônadas funcionam primeiramente como masculinas (VAZZOLER, 1996). A subfamília apresenta ainda complexos taxonômicos nos grupos, onde existem 29 espécies, sendo 28 pertencentes ao Gênero Amphiprion e uma espécie ao Gênero Premnas (P. biaculatus), (WILKERSON, 2003).

Do ponto de vista do cultivo, praticamente todas as espécies de peixes palhaço podem ser reproduzidas em cativeiro, muito embora somente algumas sejam exploradas comercialmente devido à alta demanda por parte dos aquaristas.

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Os gêneros Amphiprion e Premnas são morfologicamente similares, sendo peixes pequenos, com dimensões variando de 5 a 16 cm de comprimento. O corpo, de uma forma geral, é ligeiramente robusto com um perfil ovalado, apresentando escamas ctenóides e boca protrátil, com dentes diminutos. Possui apenas uma nadadeira dorsal alongada, que se estende por toda a região dorsal do corpo. Em alguns, essa nadadeira é alongada até o pedúnculo caudal. As nadadeiras peitorais, ventrais e caudal têm formato arredondado, podendo ser semitransparente ou contornadas por bordas escuras (Figura 2).

Figura 2: Anatomia básica do peixe palhaço, mostrando os principais aspectos de sua estrutura corpórea, adaptado Waikiki Aquarium
Figura 2: Anatomia básica do peixe palhaço, mostrando os principais  aspectos de sua estrutura corpórea, adaptado Waikiki Aquarium

Os “complexos de espécies” são usados para separar mais detalhadamente os peixes palhaço dentro das espécies que compartilham traços similares. Seis complexos são reconhecidos (Tabela 1). O “Complexo Percula” é compreendido de somente duas espécies (A. ocellaris e A. percula). Essas têm como similaridade três faixas brancas verticais com cores de fundo variáveis em tons de laranja ao preto (Figura 3).

Tabela 1: Compartilhamento de similaridades morfológicas entre peixes palhaço  com maior ou menor grau de parentesco. Os agrupamentos são empíricos e podem não gerar indíviduos híbridos * Adaptado de: Time to Quit Clownin’ Around: The Subfamily Amphiprioninae, sem referências para Amphiprion omanensis Allen & Mee, 1991

Figura 3: Características anatômicas das espécies adultas: peixe palhaço verdadeiro (Amphiprion percula) à esquerda, e do falso percula (A. ocellaris) à direita. Foto FISHBASE. www.fishbase.org.

Figura 3: Características anatômicas das espécies adultas: peixe palhaço verdadeiro (Amphiprion percula) à esquerda, e do falso percula (A. ocellaris) à direita. Foto FISHBASE. www.fishbase.org.
Figura 3: Características anatômicas das espécies adultas: peixe palhaço verdadeiro (Amphiprion percula) à esquerda,  e do falso percula (A. ocellaris) à direita. Foto FISHBASE. www.fishbase.org.

A espécie Amphiprion ocellaris (CUVIER, 1830) é a mais conhecida dos aquaristas e comumente chamada de falso percula, por apresentar semelhanças anatômicas à espécie Amphiprion percula (LACEPÈDE, 1802), considerada o palhaço verdadeiro. Estes peixes apresentam, em alguma fase da vida, similaridades de cores, confundindo os criadores e pesquisadores. Contudo, a principal característica diagnóstica na anatomia de A. ocellaris é feita pela presença de 11 raios de espinhos na nadadeira dorsal (raramente 10 raios), ao passo que na espécie A. percula possui 10 raios na nadadeira dorsal (raramente 9 raios) (ALLEN, 1997).

Portanto, é muito importante que o criador de peixes palhaço fique atento para, quando adquirir indivíduos juvenis de procedência distintas, não misturar os lotes, de forma que a diferenciação entre Amphiprion ocellaris e A. percula, seja percebida no decorrer do amadurecimento. Só assim ele pode juntar os casais de maneira compatível com cada espécie.

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Existem outros “complexos de espécies”, como podem ser vistos resumidamente na tabela 1, onde grupos morfologicamente próximos podem cruzar-se e gerar indivíduos híbridos. Estes cruzamentos são induzidos por criadores com o objetivo de gerar novos padrões de cores. As fotos abaixo mostram alguns padrões de coloridos melhorados geneticamente.

A mais importante empresa de criação comercial de organismos ornamentais marinhos dos Estados Unidos, a ORA (Oceans Reefs Aquariums), na Flórida, tem trabalhado no melhoramento genético de seus plantéis com o objetivo de oferecer ao mercado novos padrões de cores e variantes específicos (Figura 4).

Figura 4: Variedades de peixes palhaço de diferentes espécies produzidas pela ORA, Flórida-USA, já sendo comercializadas em  diversos países do mundo. Fotos: ORA (Oceans Reefs Aquariums)
Figura 4: Variedades de peixes palhaço de diferentes espécies produzidas pela ORA, Flórida-USA, já sendo comercializadas em  diversos países do mundo. Fotos: ORA (Oceans Reefs Aquariums)

A ORA (www.orafarm.com) nos Estados Unidos vem trabalhando com estas novas raças de peixes palhaço há 10 anos e o mercado tem aceitado bem estes variantes devido aos padrões peculiares de cores, alguns apelidados de Picassos Platinium, em homenagem ao pintor espanhol Pablo Picasso.

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Peixes ornamentais marinhos produzidos em sistemas de aquicultura têm mostrado que a aquicultura como atividade produtiva pode dar contribuições ao meio ambiente, uma vez que peixes selvagens não são mais capturados no ambiente natural e a ORA tem tirado proveito disso em seu marketing institucional.

Distribuição Geográfica

Os peixes palhaço, de uma forma geral, são nativos dos Oceanos Índico e Pacífico, sendo encontrados em grande parte do sudeste asiático, Austrália e em ilhas ao sul do Japão. A diferenciação na ocorrência biogeográfica se deu na espécie A. ocellaris, primeiramente por coletas feitas nas Ilhas de Sumatra, Indonésia, enquanto A. percula foram coletados na Nova Inglaterra e parte de Papua Nova Guinea (ALLEN, 1997).

Na natureza os peixes palhaço podem ser encontrados em mares tropicais de baixa profundidade e temperaturas amenas, variando de 25 a 28ºC. Habitam os oceanos Indo-pacífico, mais especificamente as regiões da costa leste da África, Ilhas Comoro, Madagascar, Mar Vermelho, Ilhas Seychelles, Mauricios, Maudivas, Golfo Pérsico, Índia e Sri Lanka, todo o complexo de ilhas da Indonésia, Mar da China, Taiwan, Filipinas, Ilhas Marianas e Salomão, Fiji, Tahiti e toda a Micronésia, Melanésia, Polinésia, além de grande parte da Austrália. Desta forma, para iniciar uma criação comercial, os exemplares devem ser adquiridos de aquaristas que já possuem casais formados e maduros, ou de criadores comerciais (quando juvenis). Grande parte dos peixes encontrados no Brasil são importados dos Estados Unidos, onde a espécie não é nativa, mas já é explorada em larga escala em fazendas de criação.

História natural, relação com as anêmonas e segregação de casais para criação

Os peixes palhaço vivem em média entre 6 a 10 anos, e sua alimentação no ambiente natural é composta basicamente de pequenos crustáceos copépodos, larvas de tunicados e algas. Entretanto, em cativeiro não fazem questão de uma alimentação rígida, aceitando bem alimentos industrializados para peixes ornamentais marinhos e patês à base de pescado.

Os palhaços são peixes mau nadadores e no ambiente natural necessitam da proteção de algumas anêmonas-do-mar, sem as quais estariam vulneráveis ao ataque de predadores maiores. A complexa relação dos peixes palhaço com a anêmona envolve um nível de discussão que vai além dos propósitos desta revista. Sabe-se que muitos peixes palhaço produzem um muco que protege seu corpo dos tentáculos urticantes da anêmona-do-mar. Em ambiente de aquários de recifes é comum eles fazerem simbiose com anêmonas-do-mar, como foi visto na figura 1. Entretanto, em larvicultura comercial, não é necessário o uso de anêmonas, uma vez que os peixes podem ser mantidos juntos ou separadamente (Figura 5).

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Figura 5: Peixes palhaço (Amphiprion ocellaris): (A) juvenis criados pelo autor e (B), casal mantido separadamente sem anêmona-do-mar
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Figura 5: Peixes palhaço (Amphiprion ocellaris): (A) juvenis criados pelo autor e (B), casal mantido separadamente sem anêmona-do-mar
Figura 5: Peixes palhaço (Amphiprion ocellaris): (a) juvenis criados pelo autor e (b), casal mantido separadamente sem anêmona-do-mar

A agressividade é um dos fatores que condicionam a mudança de sexo entre os peixes palhaço. Somente os peixes mais agressivos completam a troca de sexo quando estão em grandes grupos. O processo de “hierarquização” da dominância sexual se dá, por exemplo, com os indivíduos sempre maiores e definidos sexualmente como fêmea. Essa fêmea, então, mantém o controle do grupo, impedindo que qualquer outro peixe daquele grupo se atreva a disputar espaço ou alimento com ela.

Em ambiente de cultivo os criadores utilizam os casais de peixes palhaço que se segregam naturalmente para formação de plantéis. Portanto, os criadores que estão preparando plantéis para formação de casais, devem ficar atentos ao crescimento diferenciado das fêmeas, sempre maior que os machos. No momento da separação destes, vale o cuidado para não incluir um indivíduo do qual ela não tenha escolhido como o parceiro para formação do casal. Geralmente o indivíduo macho escolhido pela fêmea “alfa” é muito parecido em termos de tamanho com os outros indivíduos do grupo.

A própria agressividade da fêmea manifesta-se em machos menores e hermafroditas protândricos, ou seja, indivíduos que possuem gônadas que atuam como ovários e/ou como testículos, sendo essas gônadas primeiramente funcionais como machos. O macho maior do grupo inibe o amadurecimento sexual dos outros pré-adultos, mantendo estes em um estado de intersexualidade. Se porventura a fêmea alfa ou líder “ativa” desaparecer, o macho maior do grupo completa sua inversão sexual, passando a produzir somente ovócitos e se tornando fêmea por definitivo.

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Esses fenômenos não acontecem em criações comerciais, uma vez que o criador atento a esse comportamento procura separar o casal que segregou-se naturalmente. É importante que os casais que vão se formar estejam em maturação em um único tanque que tenha vasos de cerâmica ou canos plásticos, de forma que sirvam de abrigos para, no momento da segregação, serem separados mais facilmente. A figura 5 B mostra um vazo de cerâmica que pode servir de abrigo para casais formados.

Antecedentes do cultivo de peixes ornamentais marinhos

Não existem, ao certo, informações sobre os primeiros cultivos de peixes ornamentais marinhos. Muitos criadores nos anos 60 tentaram a produção comercial e caseira do peixe palhaço, porém seus registros não foram publicados. FRIESE (1971) cita sobre aquaristas que tiveram sucesso parcial na reprodução de alguns peixes como cavalos marinhos, alguns Gobiideos e poucos Pomacentrideos na década de sessenta. Trabalhos daquela época sobre reprodução multigeracional foram feitos no Aquário de Wilhelma, em Stutgart – Alemanha, pelo Dr. W. Neugebauer com peixes dos gêneros: Hippocampus, Dunckerocampus (tipos de cavalos marinhos) e Amphiprion spp. (peixes palhaço).

HOFF (1985) relata que o início do comércio de peixes ornamentais marinhos nos Estados Unidos se deu com o seu envolvimento inicial no Instant Ocean Hatcheries (1974-1985). Grande parte dos trabalhos desenvolvidos pelo autor mostrou-se inviável na época devido aos altos custos com estruturação de hatcheries, embora toda a produção fosse vendida com facilidade, principalmente a de peixes palhaço.

Hoje com o aprimoramento de novas tecnologias de cultivo, muitas hatcheries exploram comercialmente o cultivo de peixes ornamentais marinhos, a exemplo do Tropic Marin Centre na Inglaterra, ORA (Oceans Reefs Aquariums) – USA; C-Quest em Porto Rico, o Mangrove Tropicals e Ocean Rider, ambos no Havaí.

Existem hoje inúmeros laboratórios em universidades e hatcheries comerciais que são comprometidos em desenvolver tecnologias de cultivo, envolvendo peixes marinhos ornamentais, principalmente em países como os Estados Unidos (Flórida, Havaí e Nova York), Austrália, alguns países da Europa, sudeste Asiático e Oriente Médio.

No Brasil os criadores comerciais ainda são de pequena escala e não conseguem atender por completo as lojas e distribuidores, sendo necessária a importação para atender à demanda nacional.

O cultivo de peixes marinhos ornamentais no Brasil

Pode-se dizer que o cultivo de peixes ornamentais marinhos, efetivamente, teve início no Brasil em 1984, quando o biólogo marinho Alceu Roberto Cataldo de Castro, retornando de uma pós-graduação nos Estados Unidos, trouxe consigo alguns exemplares de peixes ornamentais. O peixe palhaço foi escolhido por não ser originário do Oceano Atlântico e por ser um peixe de reprodução relativamente fácil. Alceu acreditava que não era vantajoso criar peixes nativos do Brasil naquela época, ainda subexplotados, já que estes, por serem provenientes do extrativismo, não apresentavam demanda de mercado tão alta quanto àqueles que teriam de ser importados.

Montou sua criação na Ilha de Itaparica, na Bahia, com basicamente três espécies de peixes palhaço (Amphiprion ocellaris, A. frenatus e A. ephippium). Durante anos, Alceu ostentou o título de único biólogo brasileiro a conseguir reproduzir um peixe marinho com sucesso. Seus peixes abasteceram diversas lojas em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. Na década de 90 o biólogo faleceu. Parte de sua criação foi desfeita e as matrizes foram vendidas para diversos lojistas. Curiosamente ainda hoje existem criadores que possuem exemplares de peixes criados pelo Alceu em São Paulo e Bahia.

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Atualmente existem alguns estados que vêm aprimorando o desenvolvimento de tecnologia de cultivo do peixe palhaço, todos eles em hatcheries particulares na Bahia, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Contudo, as universidades públicas do país ainda não demonstraram interesse em pesquisar a biologia comportamental e métodos de reprodução de peixes marinhos ornamentais, sejam eles exóticos ou nativos, salvo universidades particulares no Sul do Brasil, que vêm demonstrando um relativo interesse por meio de alguns poucos pesquisadores.

Requisitos básicos para montagem de um sistema de criação

Normalmente para montagem de um sistema fechado de circulação para peixes marinhos pode se usar algumas baterias de aquários de aproximadamente 20 litros, interligadas a um Sampler de 200 litros. A bateria deverá ter uma circulação contínua por meio de uma bomba submersa com vazão aproximadamente de 4000 litros/hora no mínimo (Figura 6).

Figura 6: Esquema com bateria de aquários para acondicionamento de reprodutores de peixes palhaço com reciculação contínua (Adaptado de Wittenrich, 2007)
Figura 6: Esquema com bateria de aquários para acondicionamento de reprodutores de peixes palhaço com recirculação contínua (Adaptado de Wittenrich, 2007)

Pode-se optar por iluminação artificial ou fotoperíodo natural. A água dos tanques poderá ser natural, desde que seja previamente filtrada e esterilizada ou preparada com sal sintético e mantida a uma salinidade de 30‰. Quando constatada uma elevação por diferença de densidade da água, esta deverá ser reposta com bicarbonato de magnésio e bicarbonato de cálcio (conforme especificação dos fabricantes), dissolvido em água doce desclorada e deionizada, na concentração aproximadamente 1280-1320 mg/L e 400-410 mg/L (ppm), respectivamente, mantendo uma relação de Mg:Ca de 3.25:L. A qualidade da água deve ser monitorada uma vez por semana, conforme os kits de testes utilizados, normalmente: pH, condutividade, alcalinidade, amônia e nitrito. A temperatura pode variar em estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, portanto, este sistema deverá ser mantido em 28˚C por meio de aquecedor acoplado a um termostato.

O sistema de filtração deve estar conectado a uma central de recirculação composta por filtração física (remoção de sólidos em suspensão), e esterilização por ultravioleta (UV-30 W); filtração química (Protein Skimmer para separação de espuma, acoplado à matrizes de carvão ativado) e um filtro biológico (composto de matrizes de bio-ball e outros substratos para nitrificação e desnitrificação de compostos nitrogenados). Quem mora longe do oceano também pode manter peixes palhaço cultivados com água do mar sintética, embora a quantidade e qualidade da água devam ser um critério de viabilidade a ser avaliado antes da montagem de um cultivo comercial. Todos estes equipamentos, reagentes e sais sintéticos podem ser encontrados em lojas especializadas e o sistema, uma vez montado, deverá ficar maturando antes do povoamento conforme especificação técnica de cada produto ou equipamento.

Aquisição de reprodutores para um cultivo

Uma vez montado o sistema de acondicionamento e filtragem, a primeira necessidade básica para quem pretende montar um cultivo de peixes ornamentais marinhos é adquirir os reprodutores. Conforme relatado anteriormente, os peixes palhaço são espécies exóticas e devem ser adquiridos de aquaristas, que geralmente têm indivíduos maduros, de boa qualidade e desovando nos aquários. Podem também ser adquiridos em cultivos particulares dentro e/ou fora do Brasil.

Os peixes comprados de importadores, cuja origem dos espécimes tenham sido de coletas extrativas, podem apresentar problemas na reprodução devido ao intenso estresse que passaram com produtos químicos usados nas coletas. Outro requisito, além da qualidade da água, é a disponibilidade de formação de plantéis adquiridos de diversas fontes. Geralmente aquaristas marinhos têm bons casais desovando há anos e estão disponíveis a “leiloar” seus peixes quando estes são bem pagos. O investimento em casais formado é estratégico, pois estes têm uma vida longa (mais de 10 anos) e desovarão constantemente se bem alimentados.

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Contudo, a melhor maneira de formar plantéis é pela aquisição de indivíduos juvenis que, em torno de um ano, já têm idade para começar o processo de desova. Ressalta-se que indivíduos oriundos de aquicultura são mais indicados por serem ecologicamente corretos e comercialmente viáveis por já apresentarem adaptação mais fácil ao manejo.

Povoamento e acondicionamento dos peixes na bateria de cultivo

Em cada aquário deverá ser colocado um par de peixes palhaço juvenis, que atinge a maturidade em torno de um ano ou já adquiridos maduros. O povoamento dos peixes será de forma gradativa, visando manter o equilíbrio eletrolítico como medida preventiva ao choque termoquímico, ou seja, evitar diferenças bruscas na temperatura e química da água. Em cada aquário são colocados vasos de argila ou tubos de PVC de 50 mm de diâmetro, conforme figura acima, onde serão introduzidos nos tanques, criando um ambiente propício para a segregação sexual dos casais, bem como área de refúgio para estes. Peixes palhaço costumam se refugiar em seus abrigos quando são criados em ambiente com grande movimentação externa de pessoas circulando.

Manejo nutricional de juvenis e reprodutores de peixe palhaço

Em condições normais de produção, os peixes marinhos possuem exigências qualitativas diferentes, porém, semelhantes em nutrientes e energia para manutenção e crescimento, quando comparados aos demais monogástricos. Os peixes possuem a capacidade de utilização do alimento natural proveniente do meio aquático, podendo sua alimentação ser suprida por meio de rações processadas artificialmente, com a possibilidade de inclusão de nutrientes e energéticos de forma a atender às exigências para o máximo crescimento e melhor condição de saúde, independentemente do meio em que vivem e da fase de produção. (GONÇALVES, et al, 2007).

Dessa forma, o conhecimento dos valores nutricionais dos alimentos, convencionalmente utilizados em rações para peixes ornamentais marinhos é uma ferramenta importante para o balanceamento correto que venham a compor a dieta de peixes ornamentais. Segundo WILKINSON (2003), uma dieta adequada para peixes palhaço deve fornecer todos os nutrientes necessários para o crescimento, manutenção dos tecidos celulares, além do uso de alimentos energéticos em trabalhos com reprodução. Os grupos nutricionais básicos para realizar trabalhos com estes peixes são as proteínas, lipídios, carboidratos, vitaminas e minerais.

Entender as exigências e requerimentos nutricionais por parte das 29 espécies de peixes palhaço, tanto nos aspectos de crescimento como de maturação é um desafio ainda a ser alcançado por muitos pesquisadores, uma vez que cada grupo apresenta habitats específicos e ocupação de nichos ecológicos diferenciados ao longo da evolução nutricional.

HOFF (1996) descreveu inúmeros aspectos referentes aos requerimentos de alguns nutrientes para peixes palhaço, onde são propostas algumas dietas contendo ingredientes voltados ao desmame (weaning), pigmentação e crescimento.

Os criadores geralmente alimentam os peixes palhaço com dietas basicamente secas e úmidas, sendo este último composto geralmente de biomassa de artemia, filés de peixes e mariscos congelados, lecetinas com proteínas de soja, gelatina em pó e vitaminas na forma de patês. Associar alimentos preparados a industrializados, ao que parece, tem demonstrado resultados satisfatórios, uma vez que a variedade de nutrientes frescos pode aumentar a sua disponibilidade.

Hoje é possível encontrar dietas secas formuladas ou preparadas à base de patês, contendo basicamente mexilhão, peixes e lulas, juntamente com a adição de carotenoides e premix vitamínicos sem, contudo, existir uma dieta específica para determinada espécie. Sabe-se que manter peixes ornamentais marinhos alimentados ad libidum ou no mínimo três vezes ao dia com intervalos de 4 horas tem mostrado resultados satisfatórios e condições de se desenvolverem de forma saudável com grandes possibilidades de desovas regulares.

Na tabela 2 é proposta uma formulação de ração utilizando ingredientes clássicos, como farinhas de pescado, bem como outros ingredientes inéditos de origem vegetal (quinoa e amaranto), visando incrementar uma melhor digestibilidade e assimilação de nutrientes para peixes ornamentais, em particular a espécie de peixe palhaço Amphprion ocellaris.

Tabela 2: Proposta de formulação de ração para peixe palhaço (A. ocellaris), em fase experimental, usada por Alberto O. Lima
Tabela 2: Proposta de formulação de ração para  peixe palhaço (A. ocellaris), em fase experimental,  usada por Alberto O. Lima

Os resultados desse experimento estão sendo conduzidos pelo autor Alberto O. Lima em parceria com a Universidade Federal da Bahia – UFBA, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, juntamente com a Universidade Federal do Paraná, (Laboratório de Aquariologia) – UFPR.

Larvicultura

A larvicultura com espécies marinhas sempre foi considerada um entrave tecnológico ao longo dos anos, entretanto, peixes palhaço, por desovarem naturalmente sem a indução de hormônios, são mais fáceis de manejar no processo de larvicultura.

Quando ocorre a primeira desova nos vasos ou abrigos, os ovos devem permanecer por 5 dias com os pais. Depois deste período devem ser separados em outro aquário contendo aeração constante e microalgas marinhas da espécie Nannochloropis oculata, objetivando manter a boa qualidade da água.

A eclosão ocorre à noite, após o sétimo ou oitavo dia da postura. Nesse intervalo, devem ser adicionados rotíferos marinhos da espécie Brachionus plicatilis, que irão se alimentar destas microalgas, que por consequência alimentarão as larvas de peixes palhaço. Os rotíferos podem ser adquiridos na forma de ovos secos em empresas especializadas.

Após 10 dias de alimentação à base de rotíferos, adiciona-se gradativamente artemia recém-eclodida com rotíferos. O protocolo nutricional até a substituição da artemia pela ração de desmame pode levar aproximadamente 30 dias. A dieta inerte e de desmame deve ser administrada na forma de pó fino ou na forma líquida. Rações de desmame são também comercializadas por empresas especializadas.

Ovos maduros aderidos ao jarro de barro
Larva um dia após eclosão
Alevino com 20 dias, já pigmentado
Alevinos
Aglomerado de juvenis com 90 dias

Considerações finais

O cultivo de peixes marinhos no Brasil, seja ele com espécies ornamentais ou de corte, ainda necessita caminhar bastante de forma a resolver inúmeros problemas de natureza institucional e tecnológica, respectivamente.

Muitas perguntas podem ser sugeridas como:

a) Quais os índices de crescimento e maturação que as espécies marinhas nativas do Brasil necessitam para atingir o padrão comercial?
b) Como despertar o interesse de instituições públicas de forma a entender que a pesquisa básica com espécies ornamentais pode ser uma ferramenta como primeiro passo a ser aplicado com espécies nativas?

Estas questões ainda estão sem resposta, mas precisamos continuar acreditando que o Brasil, como o maior produtor da agropecuária tradicional pode, também, ser o maior produtor da aquicultura mundial.

Nota do Editor - O biólogo marinho Alceu Roberto Cataldo de Castro comercializou por muitos anos, e com muito sucesso, os peixes palhaço que ele próprio produzia nas instalações que mantinha em sua casa, em Itaparica-BA. Formado em biologia marinha na UFRJ e pós graduado na Universidade de Miami, Alceu foi um dos mais brilhantes especialistas em cultivo de organismos aquáticos que o Brasil já conheceu. Em 1971 já produzia pós-larvas de camarões marinhos em larga escala, quando trabalhou no projeto piloto que a Companhia Souza Cruz mantinha em Guaratiba, no Estado do Rio de Janeiro. Alceu faleceu em 1998, e seu talento para a aquicultura será sempre lembrado por todos que tiveram o prazer do seu convívio. Nota do Editor – O biólogo marinho Alceu Roberto Cataldo de Castro comercializou por muitos anos, e com muito sucesso, os peixes palhaço que ele próprio produzia nas instalações que mantinha em sua casa, em Itaparica-BA. Formado em biologia marinha na UFRJ e pós graduado na Universidade de Miami, Alceu foi um dos mais brilhantes especialistas em cultivo de organismos aquáticos que o Brasil já conheceu. Em 1971 já produzia pós-larvas de camarões marinhos em larga escala, quando trabalhou no projeto piloto que a Companhia Souza Cruz mantinha em Guaratiba, no Estado do Rio de Janeiro. Alceu faleceu em 1998, e seu talento para a aquicultura será sempre lembrado por todos que tiveram o prazer do seu convívio.

As referências bibliográficas citadas neste artigo podem ser obtidas com o autor.


*Agradecimentos a Professora Drª Janice Isabel Druzian e as Técnicas: Emily K. Conceição, Aline Casais & Lívia B. de Jesus ambas do Laboratório de Pescado e Cromatografia Aplicada (LAPESCA) da Faculdade de Farmácia da UFBA, pela disponibilidade e colaboração nas análises química das rações.