Pirarucu

Espécie ameaçada pode ser salva através do cultivo

Por: Rossana Venturieri – e-mail: [email protected]
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD
Geraldo Bernardino – e-mail: [email protected]
CEPTA/IBAMA


Seja pela abordagem ecológica, seja pela econômica, a necessidade de aprimorar o conhecimento sobre os peixes nativos brasileiros é indubitável. No caso do ambiente amazônico, a peculiaridade dos ecossistemas que o compõem evidencia a importância desse estudo. Somente nessa região, estima-se a ocorrência de mais de 2.000 espécies de peixes, muitas das quais sequer serão conhecidas e, apenas algumas, têm potencial para a piscicultura.

A despeito do elevado número de espécies, o extrativismo concentra-se em um número reduzido delas, que atingem maior valor comercial, depletando esses estoques. Essa sobrepesca vem penalizando tão fortemente os recursos naturais, que em muitos lugares nem mesmo as necessidades locais são atendidas. Na Amazônia, se estima um consumo de pescado per capita de 194g/dia, quatro vezes maior que o consumo em todo o mundo, e ainda existem indícios de valores mais altos para o Baixo Amazonas.

Segundo as estatísticas do IBAMA/CEPENE (1996), o extrativismo é responsável por grande parte dos pescados produzidos na região norte, onde é realizado de forma artesanal em todos os estados, à exceção do Pará. A produção estimada por modalidade, segundo as regiões e unidades da federação pode ser observada no quadro 1.

Pode-se notar, a partir desses dados, a expressiva participação da pesca extrativa no norte do país e a mínima produção de peixes pela aqüicultura, menos ainda que o nordeste, apesar da riqueza hídrica da região. A análise demonstra a potencialidade da aqüicultura na região norte, que deve ser estimulada e multiplicada, sob pena de ter seus estoques naturais irremediavelmente comprometidos pelo excesso de captura, equivalente a mais da metade do total pescados de água doce do país.

Espécies potenciais para a região – o Pirarucu

Ainda que portador do maior biodiversidade de peixes do mundo o Brasil produz, através da piscicultura, principalmente espécies exóticas, como carpas e tilápias e, em menor escala, peixes nativos, como pacu, tambaqui, etc. As espécies mais produzidas em 1996 foram a carpa (17.853 toneladas), a tilápia (11.768) o pacu (6.155 toneladas) e o tambaqui (4.808 toneladas). Como nas outras regiões, na região norte as espécies produzidas pelo cultivo são tambaqui, carpas e tilápias.

Entre as espécies nativas da região, existem inúmeras com potencialidade para cultivo. Entre elas, notoriamente o tambaqui, a pirapitinga, a matrinxã e o surubim, além do pirarucu. Chegando a atingir 3 metros de comprimento e 200 kg de peso, o pirarucu (Foto 1) tem uma carne saborosa e desprovida de espinhos. IMBIRIBA et al (1994) referem um rendimento médio de carne de 57% para o pirarucu, superior ao encontrado para algumas espécies amazônicas de valor comercial, como a piramutaba Brachyplatistoma vailantii, que está próximo a 44%. Além de carne, o pirarucu pode fornecer subprodutos de valor comercial potencial, como o couro, que pode representar 10% do seu peso. Depois de curtido, o couro pode ser utilizado como matéria prima para vestuário e acessórios como bolsas, cintos, etc.

Foto 1: Pirarucu com 3 m de comprimento e 200 Kg de peso
Foto 1: Pirarucu com 3 m de comprimento e 200 Kg de peso

O pirarucu não aparece nas estatísticas de cultivo, apenas nas da pesca artesanal, cujos volumes capturados podem ser vistos no quadro 2.

De todos esses estados, verifica-se que o Amazonas é o que apresenta a captura mais intensa. Comparando-se com dados da SUDEPE de 1988, verifica-se que a captura de pirarucu no Estado do Amazonas tem sofrido uma redução drástica, de 1.751 toneladas em 1984 para 310 toneladas em 1988, caindo ainda mais para as 207,5 toneladas em 1996.

Embora exista uma legislação específica no que se refere ao seu tamanho mínimo para captura (a Portaria IBAMA Nº 039, de 2 de dezembro de 1987, determina que o tamanho mínimo de captura seja 1,50 m), a pesca predatória vem penalizando bastante as populações naturais, havendo mesmo indícios de que em alguns locais, a espécie esteja em vias de extinção. A captura do pirarucu é em grande parte feita com o uso de arpão, facilitada pela necessidade que o animal tem de vir a superfície para respirar, ou na época da desova, quando está construindo o ninho ou protegendo a prole.

Some-se a isso a ação predatória e clandestina de pescadores de países fronteiriços, que financiam artes de pesca para pescadores brasileiros para serem pagos com pescado, principalmente o pirarucu.

A palavra pirarucu, de origem indígena, é formada pela reunião de pira = peixe, e urucu = vermelha, cor característica da semente de urucu Bixa orellana. O que mais chama atenção ao observarmos um destes gigantescos peixes é a coloração vermelha, dominante na orla posterior das escamas de determinadas regiões do corpo. A intensidade da coloração que apresenta tais escamas, assim como seu número, variam de acordo com o sexo e aproximação do período de desova. Tem cor castanho-clara, a partir do oitavo ou nono mês de vida.

Pertencente à família dos Osteoglossídeos, o pirarucu Arapaima gigas é considerado um peixe primitivo, praticamente um fóssil vivo, sendo o maior representante da família e exclusivo do ambiente amazônico. Os Osteoglossomorpha são um dos grupos mais antigos de teleósteos vivos, que surgiram durante o Período Jurássico (165 milhões de anos atrás), possivelmente no supercontinente Pangea. Eles formam o elo entre os peixes ósseos ancestrais e os teleósteos modernos. Na família Osteoglossidae, ocorrem somente dois gêneros: Osteoglossum (com duas espécies de aruanã O. bicirrhosum e O. ferreirai) e Arapaima (com uma única espécie, A. gigas). Ambos os gêneros só ocorrem na Amazônia e estão relacionados aos gêneros Sclerophages, que ocorre na Austrália e, Heterotis, que ocorre na África.

Além da língua óssea, o pirarucu possui em sua boca duas placas ósseas laterais e uma palatina, que funciona como verdadeiros dentes que retém a presa matando-a antes de engolir. Tem dois aparelhos respiratórios, tendo necessidade de subir à superfície a cada 20 minutos aproximadamente, para realizar a respiração aérea. Esta respiração aérea é obrigatória, e uma operação vital para o pirarucu, que morre se for impedido de realizá-la.

Das espécies amazônicas que têm potencial para a piscicultura, o pirarucu mostra grandes perspectivas, mas há necessidade de mais pesquisas sobre a sua reprodução e larvicultura.

Pesquisadores que estudaram o pirarucu nos açudes nordestinos afirmaram que este peixe não pode ser considerado um peixe voraz e sim um carnívoro moderado, capaz de transformar alimentos de valor comercial inferior, em carne de qualidade superior.

Sua dupla respiração, aérea e aquática, permite que se adapte e desenvolva em águas com baixos teores de oxigênio dissolvido. Entretanto, é um animal sensível a teores baixos de amônia. Dentre os peixes forrageiros empregados na alimentação do pirarucu em cativeiro destacam-se a tilápia O. niloticus, tamuatá (caboja) Hoplosternum littorale, acari (cascudo) Plecostomus sp, piaba (nome comum a várias espécies da família dos caracideos) e destaque como forrageiro o camarão canela Macrobrachium amazonicum. A utilização do pirarucu na piscicultura é facilitada, em parte, pelas suas características fisiológicas. Dentre as características deste peixe, destacam-se sua grande rusticidade, notadamente devido a sua respiração aérea, alta velocidade de crescimento, chegando a alcançar até mais de 10kg em um ano e, a qualidade e o rendimento de sua carne.

Sistemas de cultivo mais empregados

Seja por seu tamanho, seja pelo seu habitat natural, ou, o que é mais provável, pelo desconhecimento da biologia e requerimentos da espécie, a maioria dos produtores que criam pirarucu o fazem dentro de sistemas extensivos (considerando-se aqui como intensiva a produção controlada em todas as fases do processo produtivo, inclusive o desempenho zootécnico do animal, alimentação balanceada e qualidade e quantidade de água empregadas no sistema). Assim, os processos de reprodução, larvicultura, alevinagem e engorda rotineiros na piscicultura de outras espécies são deficitários quando se trata do pirarucu. Existem poucos dados que permitam desenvolver metodologias de cultivo especificas e, principalmente, uma oferta de alevinos que garanta uma produção comercial previsível.

Produção de alevinos

A estratégia de desova do pirarucu é diferente da dos peixes migradores, que liberam de uma única vez seus gametas e são induzidos à reprodução artificial através de preparações hormonais. Como peixes de desova parcelada, os pirarucus liberam grupos de ovos, em ninhos preparados para esse fim e, para minimizar a baixa produção de larvas, têm um comportamento de proteção à prole.

Somente na época da desova é possível identificar o sexo, uma vez que os machos apresentam um caráter sexual secundário extragenital caracterizado pelo enegrecimento da cabeça e região dorsal, além da mudança de coloração para vermelho intenso da orla das escamas de determinadas regiões do corpo, que surge durante o acasalamento e persiste por vários dias após a desova. As fêmeas, no entanto, praticamente permanecem cor castanho-clara.

A primeira reprodução do pirarucu em cativeiro foi obtida no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, em 1939. Entretanto, esse item de vital importância para a propagação da espécie em piscicultura, permanece pouco conhecido até hoje. Cabe ressaltar algumas características: a) os machos e fêmeas apresentam uma gônada (ovário ou testículo) funcional ímpar; b) criados em cativeiro, os peixes atingem a maturidade sexual aos cinco anos; c) dispensam cuidados parentais à prole, construindo ninho de forma circular, com diâmetro (até 50 cm) e profundidade (menor que 20 cm) variáveis; estas escavações são praticadas no solo em locais desabrigados de vegetação aquática, preferentemente a uma profundidade menor que 1,50 metro; d) a proteção ao cardume aparentemente é realizada diretamente pelo exemplar macho que é secundado pelo outro indivíduo do casal; e) o período de desova coincide, normalmente, com o chuvoso, que na Amazônia, em geral, varia de dezembro a junho (principalmente janeiro a maio).

Por ser um animal de desova parcelada, o pirarucu tem potencialidade de reproduzir durante todo o ano, como registrado em 1939 no Museu Paraense Emílio Goeldi. Estudos realizados por Flores (1980) no Peru, durante 4 anos, utilizando 697 fêmeas, determinaram para a região estudada a distribuição constante do gráfico 1.

Esses dados confirmam que podemos obter exemplares maduros durante quase todos os meses do ano, com maior frequência em determinados períodos. No Brasil, estas informações ainda estão sendo levantadas, mas pelos dados referidos no Museu Emilio Goeldi, a reprodução pode ocorrer durante todo o ano. O que se faz necessário é um estudo mais aprofundado da biologia do animal e das características de seu habitat natural, para se detectar os sinais ambientais e/ou fisiológicos que desencadeiam os processos de maturação/acasalamento/desova.

Em cativeiro, os reprodutores são mantidos em açudes previamente preparados com peixes forrageiros, a uma densidade de estocagem de um reprodutor para cada 200-300 m2 ( carga de 250 a 500g/ m2). Para a formação do plantel utiliza-se normalmente animais com peso mínimo de 10 kg., pela facilidade de manuseio e para possibilitar a domesticação do animal em cativeiro. A distribuição percentual de fêmeas por tamanho e grau de maturação descrita em 1980 por Flores (Gráfico 2) fornece dados mais detalhados de pirarucus em exemplares por ele estudados no Peru.

A partir desses dados, observa-se que o percentual de fêmeas em maturação eleva-se a partir de 1,80-1,90 m de comprimento, quando o animal pesa em média 80 kg., e a partir de 2,0 m as fêmeas apresentam-se em alguma fase do ciclo reprodutivo adulto.

A reprodução do pirarucu ocorre de maneira semelhante, tanto na natureza quanto no cativeiro, com a corte, construção do ninho, acasalamento e guarda da prole. Em cativeiro, a seqüência inicia-se com a falta de interesse pelo alimento por parte dos reprodutores, desaparecendo gradativamente o hábito de virem aguardar a comida diariamente, no mesmo local; no macho, a região superior da cabeça fica totalmente enegrecida; esta coloração se estende da região do dorso até quase a inserção da nadadeira dorsal; os flancos, ventre e parte da região caudal tomam uma coloração vermelha intensa. O aparecimento desse caráter extragenital secundário denota que o peixe está apto para o acasalamento.

As fases do acasalamento (e luta pelo domínio do tanque em alguns casos) são seguidas de um período de tranqüilidade, perturbado apenas, a longos intervalos, pela subida lenta de um reprodutor do casal, de cada vez, para respirar; esse período de tranqüilidade dura de 4 a 5 dias; depois, os reprodutores podem ser vistos, um de cada vez, em posição vertical, de cabeça para baixo; quando a profundidade onde está o ninho é rasa, os peixes mostram a nadadeira caudal parcialmente fora da água. A água, nesse período, fica turva devido à escavação do ninho, que é circular, com 20-50 cm de diâmetro e mais ou menos 20 cm de profundidade.

Os ovos são de coloração verde escura, ovóides, pouco resistentes, com a extremidade arredondada inteiramente opaca e a outra extremidade ligeiramente transparente. Seu diâmetro longitudinal mede 4,2 mm e o transversal 2,8 mm. Podem estar presentes ainda outros ovos de coloração esbranquiçada, em degeneração. A quantidade média de ovos produzida pelo pirarucu é muito pequena, principalmente considerando-se o tamanho do animal. Há pelo menos três grupos de ovócitos no ovário maduro do pirarucu: um lote maior, de cor verde escura, de ovócitos que estão prestes a serem desovados; um lote verde mais claro, de tamanho menor e variável, de lotes que serão recrutados a seguir e, um lote menor, amarelado, de ovócitos imaturos. É apenas o lado esquerdo do ovário que apresenta desenvolvimento e funcionalidade (Foto 2), e o peso do órgão maduro de uma fêmea de 1,90 m (± 90 kg) é em torno de 1,0 – 1,5 kg. A quantidade de ovócitos presentes está ao redor de 180.500, distribuídos aproximadamente 25% do lote maduro, 25% do lote de tamanho intermediário e 50% de ovócitos menores, imaturos – ou seja, em média, apenas 50.000 ovócitos estariam disponíveis para cada desova. Se compararmos com uma fêmea de 10 kg de tambaqui, cujo peso do ovário pode atingir 20% do peso do animal (2,0 kg.) e com a quantidade de ovócitos prontos para ser ovulados ao redor de dois milhões, pode-se ter uma idéia da fecundidade restrita do pirarucu por desova.

Foto 2
Foto 2

O testículo do pirarucu, por sua vez, também é um órgão ímpar e de pequeno tamanho (29 cm para um animal de 1,90 m) (Foto 3), e também apresentou pouca produção de sêmen nos animais analisados por nós. Este talvez seja o maior entrave na reprodução artificial desse peixe.

Foto 3
Foto 3
Larvas

A larva recém-eclodida mede 11,6 mm, tem a margem superior transparente e a inferior (saco vitelino) verde claro. Este é volumoso e alongado, estreitando da parte anterior para a posterior. Com 24 horas de vida, a larva mede 13,5 mm de comprimento, apresenta pigmentação esparsa no dorso e o seu saco vitelino torna-se verde mais claro. Com 3 dias mede 14,6 mm, a pigmentação é mais visível e seus olhos são mais intensamente pigmentados. Desde que eclodiram, as larvas continuam mantendo a mesma posição, ou seja, ficam deitadas de lado devido ao peso do saco vitelino, mas não permanecem paradas, apresentando ativo movimento oscilante no corpo, menos acentuado da cauda para a cabeça.

Com 4 dias medem 15 mm, apresentam a cabeça já bem pigmentada e já possuem a boca e o orifício anal já abertos, embora ainda não se alimentem; o saco vitelino já está quase que totalmente absorvido e as nadadeiras peitorais já são completamente visíveis. Com 5 dias medem 15,8 mm e o saco vitelino apresenta-se bastante reduzido. Com 6 dias medem 16,5 mm e nadam com grande desembaraço; o saco vitelino ainda não foi totalmente absorvido, mas as larvas já começam a comer.

No período de reprodução, o comportamento de acasalamento é observado até que sejam visualizados os pequenos alevinos nadando em cardume próximo à cabeça do parental que os protege. Estes, somente são visíveis após atingirem uma semana de vida. Alimentam-se ativamente, principalmente de pequenos camarões.

Quando os alevinos estão nadando sob a proteção dos pais é que são capturados com o auxílio de tarrafas de malha fina (tipo camaroneira), e transferidos para tanques de alevinagem. A transferência dá-se logo após a captura, normalmente em recipientes com pouca água (aprox. 25% da capacidade). Como têm respiração aérea, não necessitam injeção de oxigênio, a não ser em transportes a longa distância, casos em que o transporte é efetuado em sacos plásticos com água e oxigênio.

A literatura refere uma produção média de 4.000 larvas/desova, mas, com o sistema de captura normalmente utilizado, a quantidade de alevinos capturados/desova comumente varia de 200 a 800 animais. Esse baixo rendimento provavelmente se deve a predação, ectoparasitas, dificuldades de alimentação ou mesmo canibalismo, comum entre peixes carnívoros quando apresentam desenvolvimento desigual.

Atualmente, estão sendo testados métodos de manejo da reprodução natural e efetuados estudos básicos de anatomofisiologia para o desenvolvimento de técnicas de reprodução artificial do pirarucu. Estes estudos são importantes pois indicam as práticas que podem ser utilizadas na criação racional do animal. Os resultados até agora obtidos, por exemplo, confirmam a pequena quantidade de ovócitos no ovário pronto para desova e a existência de pelo menos 4 grupos de ovócitos no ovário do pirarucu, atestando que fisiologicamente o animal tem condição de desovar mais de uma vez. Do mesmo modo, observa-se o pequeno tamanho do testículo do pirarucu e a restrição na produção de sêmen em indivíduos sexualmente maduros.

A estrutura hipofisária (a hipófise é a glândula que produz os principais hormônios do animal) do pirarucu é bastante diferente das outras espécies normalmente criadas em cativeiro, talvez por sua origem ancestral. Além de avaliações morfológicas sob microscopia de luz e eletrônica, estamos realizando estudos para identificar, na hipófise do pirarucu, sítios imunorreativos a gonadotropina (hormônio indutor da maturação gonadal) através da utilização de antisoros anti-hormônios gonadotrópicos, obtidos de gonadotropinas de outro peixe amazônico, o jaraqui Semaprochilodus theraponura. A descoberta recente de que o GnRH (neurohormônio que induz a produção de gonadotropina) do aruanã Osteoglossum bicirrosum é a provável origem do GnRH de salmão, amplamente encontrado na maioria das espécies de peixes criadas em cativeiro e usado para induzir reprodução, sugere que esse hormônio pode ser utilizado em pirarucu. Vale ressaltar que os procedimentos de indução à reprodução artificial usualmente realizados com peixes de piracema não se aplicam de maneira similar ao pirarucu.

Esses estudos têm implicação direta na busca de métodos para a produção comercial de pirarucus, e são um alerta para aqueles que pensam em criar este peixe com a mesma facilidade como se criam as espécies normalmente utilizadas na piscicultura. Como tilápias, os pirarucus têm desova parcelada e produzem poucos descendentes por desova – mas é inviável manter um plantel de 20-30 mil reprodutores, como se usa para tilápias. Do mesmo modo, têm pequena produção de sêmen como Clarias, mas não se pode, como usado para esta espécie, sacrificar os machos para fertilização com sêmen intratesticular, pois o tempo de maturação sexual do animal é extenso e o custo de formação desses reprodutores inviabilizaria a proposta.

Além do método de coleta natural, atualmente utilizado, existem outras possibilidades para a propagação artificial de pirarucu, que podem ser empregadas para melhorar o baixo rendimento normalmente obtido, e realizadas com simples mudanças nas unidades de produção e manejo para reprodução, como: 1) Natural, com coleta das pós-larvas e criação em laboratório; 2) Natural, com coleta dos ovos e incubação e larvicultura em laboratório; 3) Semi-artificial, com indução hormonal dos reprodutores nos viveiros e incubação de ovos e larvicultura em laboratório.

A solução para a produção comercial de alevinos de pirarucu está no investimento em pesquisa para obter, através de indução hormonal, o recrutamento contínuo (ou otimizado) dos lotes de ovócitos presentes no ovário e a maximização da produção de sêmen. Aliado a isso, o desenvolvimento de técnicas para manipulação ambiental, incubação, larvicultura e alevinagem sob condições controladas.

Com este objetivo, estamos realizando pesquisas com o apoio do CEPTA/IBAMA e outras instituições públicas e privadas, e apresentando projeto mais abrangente ao CNPq. Esses estudos precisam ser intensificados, considerando o caráter ancestral e todos os aspectos que tornam o pirarucu uma espécie sui generis para a piscicultura (Quadro 3).

Alevinagem

Como todas as outras fases, a alevinagem do pirarucu também tem sido realizada de forma extensiva, uma vez que não se tem definidos os requerimentos nutricionais para os animais em suas diferentes fases de vida. Inicialmente, os alevinos são alimentados com camarões e pequenas larvas de peixes capturados com rede de arrasto confeccionada em malha de 1 a 2 mm. Depois, quando se tornam um pouco maiores, são alimentados com carne de peixe picada à vontade. Os alevinos acima de 15 cm são estocados em viveiros de 200 a 1.000 m, profundidade de 1,0 a 1,5 m, em densidade de 1 peixes/m2.

Uma prática comum é combinar a criação de pirarucus com outros animais da fazenda, como aves, suínos, búfalos etc., com o propósito de utilizar os excrementos destes como fonte de fertilização orgânica para espécies forrageiras, as quais, por sua vez, irão servir de alimento aos pirarucus.

Alimentos substitutivos à carne de peixe também têm sido testados, como vísceras de bovinos, isoladas ou mescladas com rações secas. Os pirarucus aceitam rações secas, desde que treinados para isso. O treinamento dos alevinos e dos adultos é relativamente fácil; mais até que o treinamento alimentar de outras espécies carnívoras criadas em cativeiro. Essas rações devem ter um teor protéico elevado, acima de 30%.

Trabalhos recentes têm sido realizados com ração, ração + peixes moídos e com a utilização de substitutivos de peixes picados na dieta, como ensilado biológico de pescado, preparado a partir de resíduos de pescado (Honczaryk & Maeda, 1998). Estudos mais aprofundados sobre as necessidades nutricionais e formulações específicas precisam ser realizados, para que se reduza mais essa variável no cultivo do pirarucu.

O pirarucu é, na maioria dos casos, criado em reservatórios artificiais (açudes) ou viveiros de 2.000 a 10.000 m2, em policultivo com outras espécies, principalmente as de cadeia trófica baixa, consideradas forrageiras (usualmente as tilápias). Devido a isso, pouco se sabe qual seria seu real desempenho em sistemas de produção comerciais – ou seja, mais intensivos. Dados de literatura mencionam que o pirarucu pode alcançar em cativeiro aproximadamente 10 kg em um ano (açude), em associação com peixes forrageiros. Normalmente, introduzem-se os forrageiros 2 a 3 meses antes da colocação dos pirarucus.

Experimentos de cultivo mais intensivo foram realizados por alguns pesquisadores, que obtiveram ganhos de peso que variaram de 19 a 2.506 gramas em dez meses de cultivo e de 15 a 4.000 gramas em doze meses. No 26o mês, os animais apresentavam peso de 15 kg. A alimentação fornecida constituiu-se de peixes vivos e, posteriormente, peixe congelado e moído com rações artificiais. Em trabalho mais recente, abaixo referido, utilizando ensilado de pescado, foi obtido o seguinte desempenho, em 150 dias de período experimental:

A literatura registra outros experimentos com pirarucu com o seguinte resultado, conforme a densidade de estocagem. (Quadro 4)

A alimentação utilizada constituiu-se de tilápias vivas colocadas três vezes por semana nos viveiros de criação, em quantidade equivalente a 6% do peso vivo dos pirarucus.

Taxas de conversão para pirarucus criados em cativeiro estão entre 5,7 e 6,5:1, dependendo do alimento fornecido, segundo Honczaryk & Maeda, 1998; da mesma forma, o ganho de peso diário também é variável conforme taxa de estocagem, alimento fornecido, peso inicial do peixe etc. havendo referências de 11,4 g/dia, além das supramencionadas.

Apesar das conversões elevadas, normais em espécies carnívoras, o ganho de peso diário do pirarucu é notável, o que confirma o excelente potencial que a espécie tem para o cultivo e, a aceitação de alimento inerte, de rações balanceadas, de alimentos preparados a partir de resíduos vem ratificar isso. É necessário, realizar estudos sobre os requerimentos nutricionais do animal em suas diferentes fases de vida, para definir a ração adequada para o tamanho adequado.

O crescimento do pirarucu inicialmente é maior em comprimento do que em peso, como pode ser verificado no Gráfico 3 . Isto chama a atenção para a adequação do tempo de cultivo ao produto que se deseja comercializar, ou seja, os animais que possuem um filé mais alto são os que precisam ficar maior tempo em criação.

É importante que, além de pesquisas sobre a sua biologia e tecnologia de produção, sejam buscadas novas formas de apresentação desse peixe no mercado, que não exijam animais do tamanho que são comercializados a partir do extrativismo. O pirarucu normalmente é comercializado em “mantas”, salgadas no local de captura e secas ao sol. Nenhum peixe criado comercialmente atinge o peso que o pirarucu atinge no mesmo tempo de cultivo. O investimento na pesquisa e produção de pirarucus de menor porte para comercialização reduziria o tempo de cultivo, o tempo de giro do capital e, principalmente, viabilizaria a criação da espécie em cativeiro, do ponto de vista comercial. Logicamente, esses animais deveriam ter certificação de origem de pisciculturas apoiadas e incentivadas pelos órgãos governamentais, os quais poderiam exigir como contrapartida ao seu apoio e incentivo a destinação de determinado percentual de produção para a reposição de estoques naturais.

Como foi demonstrado, a aqüicultura é atualmente uma atividade em expansão em todo o mundo, tem obtido um crescimento expressivo no Brasil, principalmente nas regiões sul e sudeste, apoia-se principalmente em espécies exóticas que, se disseminadas indiscriminadamente na região amazônica, é provável que acarrretem modificações nas populações autóctones. O pirarucu, por sua rusticidade, valor comercial, domesticação e ganho de peso, pode ser uma espécie exitosa na piscicultura amazônica. O apoio e incentivo à sua criação, através de pesquisa biológica e execução de modelos experimentais para geração de um sistema de produção comercial, ao mesmo tempo em que seria uma nova atividade produtiva, reduziria o peso do extrativismo sobre a espécie. Com pesquisa e seriedade. A manutenção do pirarucu como componente da diversidade biológica amazônica – e do planeta, uma vez que é endêmico da região e um fóssil vivo – é responsabilidade de todos nós, que recebemos esse patrimônio e temos a obrigação de zelar por ele.


Agradecimentos

A D.D.Uliana Agropecuária Industrial – Projeto Arapaima, Almeirim/Pará, pelo apoio na primeira fase do estudo.


Referências

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IMBIRIBA, E.P.;LOURENÇO JÚNIOR, J.B;DUTRA,S. – Rendimento de carne do pirarucu Arapaima gigas (Cuvier).EMBRAPA/CPATU. Boletim de Pesquisa 150. Belém, Pará,1994 21p.

ESTATÍSTICA DA PESCA 1996 – Brasil – Grandes Regiões e Unidades da Federação.Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis-Centro de Pesquisa e Extensão Pesqueira do Nordeste-CEPENE.Tamandaré,Pe.nov.1997.

FLORES, H.G. Desarrollo sexual del paiche (Arapaima gigas C.) en las zonas reservadas del estado (Rios Pacaya y Samiria). Inf.Inst.Mar, Perú-Callao, v.67, p.1-14, 1980.

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