Pirarucu:

O manejo e seleção de reprodutores e matrizes nas instalações do DNOCS

Por:
Antonio Roberto Barreto Matos
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Pedro Eymard Campos Mesquita
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Maria do Socorro C. Mesquita
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Tácito Araújo Bezerra
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Carlos Riedel Porto Carreiro
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A introdução do pirarucu no Nordeste brasileiro se deu pela primeira vez em 1939, pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), que recebeu, na ocasião, 50 exemplares do peixe, procedentes do Museu Paraense Emílio Goeldi. A espécie foi introduzida, motivada pelo seu alto valor econômico e, principalmente, em virtude do pirarucu ser um peixe carnívoro, que possibilitava o combate biológico às piranhas Serrasalmus piraya, e pirambeba S. rhombeus, que nessa época proliferavam nos açudes nordestinos (Fontenele & Vasconcelos – 1982). Assim, no período de 1940 a 1943, sete grandes açudes infestados com Serrasalmus, receberam 5.590 alevinos de pirarucu.

Recentemente, em 2004, a espécie foi reintroduzida na Região Nordeste através do Projeto Pirarucu, uma parceria do DNOCS com a SEAP – Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca da Presidência da República, com o intuito de fornecer subsídios técnicos, científicos e econômicos aos piscicultores que desejavam realizar o cultivo do pirarucu, em regime de engorda. Além do cultivo em cativeiro, as pesquisas se dedicaram também à identificação de machos e fêmeas, através do uso de marcadores moleculares.

 

Plantel de reprodutores e matrizes

Fase 1: Esta é a fase onde começa com a seleção de reprodutores, preferentemente feita com peixes nascidos e criados na própria estação do DNOCS. São escolhidos exemplares saudáveis, sem deformações corporais e de bom desenvolvimento somático, ou seja, os peixes escolhidos são os que mais crescem em relação a outros de mesma idade, criados em idênticas condições. É também fundamental a escolha de indivíduos condicionados ao consumo de rações comerciais para carnívoros (Silva, 1999). O condicionamento de alevinos está descrito em Ono et al, 2004.

Os alevinos (Foto 1) são mantidos em viveiros ou tanques numa densidade de 3 a 5 peixes/m2. Ao atingirem peso médio de 1,0kg os indivíduos são selecionados por tamanho. Tal procedimento é necessário para evitar a segregação entre eles e até mesmo o ataque de indivíduos maiores aos menores. Nesse período os peixes são alimentados com rações comerciais para carnívoros, que possuem teor protéico entre 56 a 40% de proteína bruta (PB). A taxa de alimentação varia entre 5 a 3% do peso vivo e a freqüência alimentar é de quatro refeições/dia. Os peixes chegam a dobrar de peso num período de 20 dias. Segundo observações práticas tem-se notado que os pirarucus se alimentam melhor quando a transparência da água é superior a 50cm e que a ração deve ser administrada lentamente por sobre o cardume, que normalmente a come com muita voracidade.

Foto 1 - Alevino de pirarucu com peso médio de 150g. O preço médio de um exemplar custa entre R$ 1,00 e R$ 1,50/cm
Foto 1 – Alevino de pirarucu com peso médio de 150g. O preço médio de um exemplar custa entre R$ 1,00 e R$ 1,50/cm


Fase 2: Ao atingirem 1,0kg, os peixes podem ser mantidos em viveiros, tanques ou tanques-rede até que atinjam peso médio entre 15 e 20kg. A medida que crescem, aumentam também o tamanho dos peletts das rações para eles administrados. Nessa fase, os peixes recebem ração do tipo extrusada, com o mesmo teor protéico citado anteriormente, e a taxa de arraçoamento varia entre 3 e 2% do peso vivo e a freqüência alimentar é de três a duas refeições/dia. Vale salientar que a cada dois a três meses é necessária uma nova seleção entre os indivíduos. Outra estratégia que pode ser adotada é a aquisição de juvenis que estejam com essa faixa de peso, porém, será preciso adquiri-los em piscicultura de procedência conhecida. Lembrando-se que, se os indivíduos forem condicionados ao consumo de ração comercial, facilitará consideravelmente o manejo alimentar. O valor de um juvenil está entre R$ 500,00 e R$ 1.000,00.

Fase 3: Nessa fase, os peixes são então mantidos em viveiros escavados no terreno natural, com área variando de 1.000 a 10.000m2 e profundidade média acima de 1,10m. A alimentação dos peixes é feita com peixes forrageiros, notadamente a tilápia. É feito também o arraçoamento com “bolotas” de ração (Foto 2), feitas a partir de uma mistura de ração comercial do tipo extrusada e massa de peixe, que depois de prensadas são colocadas na geladeira para serem oferecidas no dia seguinte. As “bolotas” pesam em torno de 80 gramas e possuem boa estabilidade na água. A taxa de arraçoamento é de 2 a 1% do peso vivo e a freqüência alimentar é de duas refeições/dia.

Foto 2 - “Bolotas” de ração administrada aos peixes adultos
Foto 2 – “Bolotas” de ração administrada aos peixes adultos

O pirarucu alcança a primeira maturação gonadal entre o quarto e o quinto anos de vida e com comprimento total acima de 1,20m, quando pesa entre 50 e 60 kg. Macho e fêmea se acasalam e cavam o ninho (buraco) em solo preferentemente argiloso (barro), tarefa executada principalmente pelo reprodutor. O local é de água rasa, pois dificilmente a profundidade ultrapassa 1,50m. O ninho pode ter até 0,50m de diâmetro e profundidade de 0,20m, aproximadamente.

A espécie é de desova parcelada, isto é, se reproduz o ano todo. Contudo, entre os meses de dezembro a maio ocorre a maior incidência de desovas, nas condições climáticas do Nordeste brasileiro (Silva, 1999).

Sexagem molecular do Pirarucu

Na reprodução do pirarucu, quando não se dispõe de métodos científicos apropriados, a identificação de casais de reprodutores se torna uma tarefa dificílima já que, externamente, não há o que diferencie o macho da fêmea, sendo preciso, portanto, uma identificação a partir da observação de suas gônadas. Em razão disso se faz necessária a utilização da tecnologia de DNA, que desenvolve marcadores moleculares determinantes de características sexuais. Essa tecnologia, derivada da genética molecular, além da identificação sexual dos peixes, permite solucionar outros problemas da aqüicultura, como a identificação de vírus em estoques de reprodutores, a verificação de endogamias (atuando como poderosa ferramenta do melhoramento genético de diversas espécies) e, a identificação de populações (facilitando o manejo de estoques).

O Laboratório de Genética Molecular – LabGeM, do Centro de Pesquisas em Aqüicultura Rodolpho von Ihering, do DNOCS, vem utilizando com sucesso marcadores moleculares para a identificação sexual do pirarucu. A utilização desses marcadores moleculares tem sido realizada conforme descrito a seguir: inicialmente alguns exemplares são sacrificados e dissecados para a identificação anatômica de suas gônadas. Em seguida, as gônadas são extraídas (Foto 3) e levadas ao microscópio ótico para teste histológico, visando confirmação do sexo. Com base nesse resultado inicia-se o processo de isolamento de DNA genômico (Foto 4).

Diversas amostras de diferentes tecidos são tratadas, o que resulta em protocolo bem sucedido para o isolamento de DNA de pirarucu com qualidade e concentrações viáveis para estudos de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), uma tecnologia que gera cópias in vitro de genes. Quando esses genes apresentam diferenças polimórficas entre machos e fêmeas, tem-se um marcador molecular e o resultado é observado num processo chamado eletroforese e figura como uma impressão digital.

Foto 3 - Extração de gônada para identificação via teste histológico
Foto 3 – Extração de gônada para identificação via teste histológico
Foto 4 - Precipitado de DNA genômico de pirarucu
Foto 4 – Precipitado de DNA genômico de pirarucu

Mediante o uso dos marcadores moleculares do sexo dos pirarucus iniciou-se a identificação dos reprodutores do plantel do Centro de Pesquisas (100 indivíduos). Cerca de vinte e cinco indivíduos já receberam chips eletrônicos (Foto 5) para sua identificação e em quatro desses já houve resultados. Dois machos e duas fêmeas, que foram postos para acasalar, resultaram em desova, cujos alevinos já estão em fase de treinamento alimentar com ração comercial. O passo seguinte será o sequenciamento dos genes que apresentam diferenças polimórficas.

Foto 5 - Leitor de chip eletrônico com identificacão de reprodutor
Foto 5 – Leitor de chip eletrônico com identificacão de reprodutor
Manejo de reprodutores e matrizes

O manejo de peixes adultos é sempre uma preocupação, pois costumam saltar por sobre as redes de arrasto, causando muitas vezes traumatismos aos operários. Por isso, os viveiros devem ser esvaziados até que seja possível observar o dorso dos peixes. Lentamente os indivíduos são capturados com o uso de uma rede em forma de tubo, confeccionada com panagem de fio poliamida a qual denominamos de “camisinha” (Foto 6). Logo em seguida, os peixes são colocados sobre macas para facilitar o transporte (Foto 7).

Foto 6 - Momento em que o operário espera o tempo adequado para colocação da “camisinha”
Foto 6 – Momento em que o operário espera o tempo adequado para colocação da “camisinha”
Foto 7 - Após a captura o peixe é colocado sobre uma maca confeccionada em lona
Foto 7 – Após a captura o peixe é colocado sobre uma maca confeccionada em lona
Obtenção de desova em cativeiro

Os principais sinais de desova entre os pirarucus são as lutas dos reprodutores acasalados, pelo domínio de seu território e com sua própria parceira. Ambos ficam com suas cores mais acentuadas, sendo que os machos ficam um pouco mais coloridos que as fêmeas. Também começam a “assoalhar” e começam a escavar os ninhos, buracos circulares no chão de vários tamanhos, mas geralmente com profundidade de 20cm. Os pirarucus constroem vários ninhos que são chamados de “panelas” e escolhem o melhor local para realizar sua desova. Depois de eclodidas, as larvas nadam sobre a cabeça do macho. O cardume possui o aspecto de uma esfera mudando constantemente de forma, e desloca-se lentamente, acima da cabeça do reprodutor. A fêmea geralmente fica um pouco mais distante e afugenta qualquer outro peixe que se aproxime do cardume.

A coloração escura que toma a cabeça e o dorso do reprodutor onde nada o cardume, tem por fim mascarar as larvas, que também são negras, e, portanto, difíceis de serem distinguidas.

Considerações finais

Outros trabalhos têm sido desenvolvidos no Centro de Pesquisas, como a produção de alevinos, condicionamento alimentar e o cultivo em tanques-rede e viveiros, com o objetivo de fornecer subsídios aos que desejam ingressar na atividade. É de grande importância o fato do DNOCS voltar a produzir alevinos da espécie, destinados a cultivos em cativeiro. Da mesma forma, também é importante a produção de alevinos destinados ao repovoamento dos açudes de particulares interessados em sua criação extensiva, capazes de garantir que esses peixes não invadirão águas públicas.


Referências
ONO, E.A.; HALVERSON, R.M.; KUBITZA, F. Pirarucu. O gigante esquecido. Panorama da Aqüicultura, Rio de Janeiro, v. 14, n. 81, p. 14 -25, jan./fev. 2004.
SILVA, J.W.B.S. Apostila da disciplina de Aqüicultura II do Curso de Engenharia de Pesca. 1999. 6p. Fortaleza
VENTURIERI, R.; BERNARDINO, G. Pirarucu. Espécie ameaçada pode ser salva através do cultivo. Panorama da Aqüicultura, Rio de Janeiro, v. 09, n. 53, p. 13 -21, mai./jun. 1999.