Piscicultores do São Francisco amargam novo prejuízo com mortalidades de tilápias

Em fevereiro passado, os produtores de tilápia em tanques-redes no Rio São Francisco, na região dos reservatórios da Hidrelétrica de Xingó, no sertão alagoano e baiano, viram repetir o triste cenário do ano passado, quando o fenômeno da mortandade de toneladas de peixes que eram cultivados aconteceu novamente. Alguns piscicultores perderam totalmente a sua produção.

As mortalidades atingiram a parte superior do lago do reservatório, que tem uma extensão de 60km, chegando também aos cultivos do Povoado Malhada Grande, de Paulo Afonso na Bahia.

O desastre que matou também os peixes fora das gaiolas, mobilizou técnicos especialistas que percorreram as comunidades para analisar as causas das mortes, tentando descobrir a relação dessa mortandade com o aumento da vazão provocada pelas fortes chuvas que caíram no Norte de Minas Gerais. Este é o terceiro desastre em cinco anos, relacionado com o aumento súbito da vazão do rio, que ao longo de 10 dias viu sua vazão aumentada de 2.000 para 6.200m³/segundo. Segundo Miguel Ângelo Rodrigues de Alencar, Gestor do APL Piscicultura, que visitou os cultivos afetados, os sintomas são os mesmos das vezes anteriores, principalmente as bolhas espalhadas pelo corpo do peixe.

Segundo Miguel Alencar, o governo do Estado de Alagoas e o Sebrae estão sensibilizando os tilapicultores a não abandonarem a atividade, orientando-os a documentar as perdas com laudos oficiais para posteriormente acionarem a CHESF, de forma a tentarem o ressarcimento dos prejuízos, já que a mesma não tomou nenhuma providência, mesmo tendo conhecimento do aumento das chuvas na cabeceira do Rio, fato anunciado na mídia com a antecedência de pelo menos dois meses. Um dos piscicultores já possui um laudo da própria CHESF, que atesta a morte dos peixes por embolia gasosa. Ainda segundo Alencar, se este aumento de vazão fosse gradativo, a probabilidade de perdas seria menor, pois daria condições dos peixes se adaptarem as novas condições ambientais. Para o especialista, a usina conhece os transtornos que causa ao triplicar a vazão do rio num período de tempo tão curto.

A mortandade de peixes na região, já foi contabilizada sendo a seguinte até o momento: Delmiro Gouveia: Associação dos Piscicultores do Povoado Salgado – mortalidade total – 29 mil peixes – aproximadamente 10 toneladas; Olho D’Água do Casado: Associação dos Trabalhadores Rurais da Fazenda Nova Esperança II – mortalidade parcial – 88 mil peixes – aproximadamente 52 toneladas e, Associação dos Pescadores São José – mortalidade total – 33 mil peixes – aproximadamente 19,5 toneladas; Piranhas: Associação dos Aqüicultores de Xingó – mortalidade total – 26,4 mil peixes – aproximadamente 15,6 toneladas e, piscicultor Luiz Cavalcante – mortalidade parcial – aproximadamente 200 toneladas.

As 297 toneladas de peixes mortos representam um prejuízo de R$ 980 mil (R$ 3.300,00/tonelada), com sérias conseqüências para os grupos de pequenos produtores que têm na piscicultura a única alternativa de geração de ocupação e renda. Esses piscicultores vêm sendo assistidos, desde o início das atividades, por diversas instituições, como o Incra, Codevasf, ADENE, Instituto Xingó, CHESF, Sebrae, Seap/PR, Governo do Estado e Prefeituras Municipais, que acreditam ser a piscicultura uma atividade geradora de ocupação e renda, com inclusão social.