PISCICULTURA COMPETITIVA

Por: Marcelo José de Melo
Médico Veterinário Codevasf


A Piscicultura ainda é uma atividade pouco difundida no Brasil, muito embora na atualidade, o domínio da tecnologia de criação de peixes já permita ao produtor rural se engajar nessa atividade, contando com parâmetros técnicos consistentes, que lhes dão a segurança de retorno do capital investido.

Para que o produtor rural se transforme em um piscicultor é preciso que ele saiba, entre outras coisas, o montante de recursos necessários para um empreendimento dessa natureza e qual será o seu lucro. A melhor maneira de fazer com que ele entenda isso é comparar a piscicultura com outras atividades agropecuárias. O objetivo desse trabalho é comparar aspectos de investimento, custeio, produção, produtividade, receita e rentabilidade de piscicultura com a agricultura e a pecuária.

PISCICULTURA x AGRICULTURA

A piscicultura foi comparada ao cultivo de milho, arroz e feijão. Foi considerado um modelo de cultivo em uma área de um hectare (10.000 metros quadrados) com agricultura de sequeiro e uma safra por ano, inclusive para os peixes. Consideraram-se as inversões financeiras, investimento e custeio, sendo que este último constou de ração, compra de alevinos para a piscicultura e o V.B.c. (Valor Básico de Custeio) para as atividades agrícolas, não se considerado, portanto, outros como mão-de-obra, encargos, impostos (FUNRURAL, PROAGRO), depreciação etc. Além dos investimentos totais, comparou-se, para as quatro atividades, o período de cultivo, produção, receita e rentabilidade conforme apresentado no Quadro 1.

A análise dos dados apresentados no Quadro 1 chama a atenção, em primeiro lugar, para as inversões financeiras necessárias para o desenvolvimento das quatro atividades.

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Por exemplo, os investimentos para a implantação de um hectare de piscicultura são cerca de 22 vezes superiores àqueles necessários para o cultivo de uma mesma área de milho, arroz e feijão. O custeio da piscicultura, por sua vez, também é cerca de 17 vezes superior àqueles necessários para as atividades agrícolas.

Em resumo, a piscicultura é uma atividade bastante onerosa, quando comparada com a agricultura. Possivelmente, o alto custo de implantação tem sido um fator limitante à difusão da piscicultura no meio rural. No tocante à produção, a piscicultura somente é inferior ao milho (3.750 kg contra 4.500 kg), isso em valores absolutos. Entretanto, tratam-se de produtos de origens diferentes – animal e vegetal. A carne de pescado, entre os quatro produtos comparados, é a que tem o maior valor nutricional.

Investe-se mais na piscicultura, mas, em compensação, também obtém-se melhor receita do que na cultura do milho, arroz e feijão. A receita da piscicultura é de 15 a 28 vezes maior do que a da agricultura.

A rentabilidade da piscicultura é ligeiramente inferior ao feijão e milho e tem uma vantagem mais acentuada sobre o arroz. O parâmetro rentabilidade, entret9nto, não deve ser analisado como se fosse definitivo, pois o seu cálculo está baseado no preço do produto que, por sua vez, sofre influência direta das oscilações sazonais do mercado.

PISCICULTURA x PECUÁRIA

A piscicultura foi comparada à criação de bovino, suíno e frango. O comparativo entre a piscicultura e a bovinocultura poderia ser efetuado com base na área cultivada, ou seja, 1 ha (hectare) de viveiros para criação de peixes comparada a 1 ha de pastagem artificial para criação de bovino. O mesmo parâmetro (área), entretanto, não seria ideal para comparar a piscicultura com a suinocultura e a avicultura, pois estas são desenvolvidas em galpões e em sistemas super-intensivos. Desse modo, foram usados artifícios para comparação entre essas quatro atividades:

– fixaram-se os investimentos da piscicultura para a área de 1 ha e adotouse o mesmo valor para as outra três atividades, ou seja, estabeleceu-se a premissa de que o produtor rural dispusesse de recursos para implantar 1 ha de piscicultura e, com esse mesmo valor para as outras três atividades, ou seja, estabeleceu-se a premissa de que o produtor rural dispusesse de recursos para implantar1ha de piscicultura e com esse mesmo montante de recursos, o que ele poderia fazer na bovinocultura, suinocultura e avicultura;

. – a partir dessa fixação dos investimentos, calculou-se que os recursos necessários para 1 ha de viveiro (piscicultura) seriam o suficientes para a implantação de 14 ha de pastagem artificial para bovinocultura e90 m2e 100 m2 de galpões para a suinocultura e avicultura, respectivamente; e de posse desses dados, desenvolveram-se as atividades dentro dos parâmetros técnicos disponíveis, que permitiram definir o custeio, produção, receita e rentabilidade/conforme apresentado no Quadro 2.

Considerando que os investimentos foram de valores idênticos para as quatro atividades, a análise dos dados contidos no Quadro 2 mostra grandes variações no custeio. O custeio mais baixo é o do frango e, por ter um ciclo curto, permite que o produtor rural tenha lucros várias vezes por ano. Já o custeio da suinocultura e da bovinocultura é quase cinco vezes superior ao da piscicultura. O fato de não exigir grandes quantitativos de recursos para o custeio poderia ser um atrativo para o produtor rural se engajar na piscicultura.

Em termos de produção de proteína animal, considerando o período de um ano, observa-se que a suinocultura leva grande vantagem sobre outras atividades, chegando a produzir cerca de 25 toneladas, o que é 3.0/ 6.8/ e 7.5 vezes superior ao frango, peixe e gado, respectivamente.

Cabe ressaltar que no período de um ano, um hectare de piscicultura tem uma produção semelhante a 14 ha de gado de corte.

A rentabilidade da bovinocultura é a mais baixa e ainda apresenta o inconveniente de longo ciclo de cultivo. A rentabilidade anual observada para os cultivos de frango, suíno e peixes situam-se em valores próximos entre si, podendo-se afirmar que, sob este aspecto, são atividades semelhantes.

CONCLUSÕES

Através desse breve ensaio técnico e econômico sobre a piscicultura comparada com outros ramos da agropecuária não se pode concluir que uma determinada atividade é melhor do que a outra. Cada uma apresenta vantagens e desvantagens que devem ser bem analisadas pelo produtor rural, antes de se dedicar a qualquer delas.

É preciso, sobretudo, que o produtor rural conheça as vantagens e desvantagens do seu rama, que a atividade seja do seu gosto pessoal e trabalhando com dedicação e perseverança qualquer das atividades analisadas poderá trazer sucesso.

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