Piscicultura Marinha:

Foto: Balsa com quatro tanques-rede (4 x 5 x 1 m) em zona costeira da região de Camocim – CE

Pesquisadores cearenses acreditam que os pargos serão os primeiros peixes marinhos a serem cultivados comercialmente no Brasil

Por: Francisco Hiran Farias Costa – e-mai: [email protected]


Segundo as estatísticas da FAO de 1998, a produção aqüícola mundial em 1996 foi de 34,1 milhões de toneladas, gerando recursos da ordem de USS 46,5 bilhões. Dessa produção, a piscicultura marinha, incluindo peixes diádromos, contribuiu com 2,3 milhões de toneladas, destacando-se os cultivos de salmão do atlântico Salmo salar, com 555,6 mil toneladas, de “milkfish” Chanos chanos, com 364,5 mil toneladas e do “yellowtail”Seriola quinqueradiata, com 145,9 mil toneladas.


Na América Latina, a piscicultura marinha tem destaque no Chile com a produção de espécies típicas de regiões temperadas, como os salmões, em sistemas de tanques-rede. Sem dúvida, os tanques-rede são responsáveis pelo crescimento da piscicultura marinha por possibilitarem cultivos em ambientes naturais (baías e mares). O Equador também se destaca com a implantação do cultivo comercial de cioba Lutjanus analis em tanques-rede.

Nas últimas décadas, tem se verificado o incremento da produção de algumas espécies de peixes marinhos tropicais, destacando-se as garoupas Epinephelus spp. e os pargos Lutjanus spp.. A produção de peixes destes dois gêneros em países asiáticos, principalmente Hong Kong, Malásia e Tailândia, já é superior as 12 mil toneladas/ano, atingindo cotações no mercado mundial que variam de US$ 3,00 a US$ 6,00 para os pargos, e de US$ 10,00 a US$ 30,00 para as garoupas. Para algumas espécies destes gêneros como a garoupa branca Epinephelus aeneus e a cioba Lutjanus analis, já se consegue realizar a reprodução induzida, larvicultura e alevinagem em ambientes controlados, enquanto que para outras espécies como o “yellowtail” Seriola quinqueradiata, a engorda ainda depende da coleta de juvenis selvagens em seus ambientes de origem.

Brasil

Segundo Benetti & Feeley (1998), algumas espécies de peixes marinhos tropicais encontradas no Brasil apresentam-se como candidatas à aquicultura comercial, destacando-se os pargos Lutjanus spp. e linguados Paralichthys spp., pelo excelente potencial. Além dessas, são citadas também as garoupas Epinephelus spp., os robalos Centropomus spp. e as corvinas Scianidae, como peixes que possuem um potencial muito bom para o cultivo.

O Brasil possui um enorme potencial para o desenvolvimento da piscicultura marinha comercial devido, principalmente, a abundância de espécies nativas de alto valor comercial e pelos seus mais de 8.000 quilômetros de costa (em grande parte, clima tropical), com inúmeras baías e áreas protegidas. Entretanto, apesar dos esforços de algumas universidades e centros de pesquisas, o país ainda não possui tecnologia completa de reprodução, larvicultura, alevinagem e engorda de peixes marinhos brasileiros, havendo a necessidade da transposição deste obstáculo, para a viabilização da piscicultura marinha comercial. Como principais instituições envolvidas com o desenvolvimento de tecnologias para o cultivo de peixes marinhos, pode-se citar a Universidade Federal de Santa Catarina, o Instituto de Pesca de São Paulo, a Fundação Universidade de Rio Grande e a Universidade Federal de Pernambuco. As pesquisas desenvolvidas por essas instituições se concentram ou se concentraram em cultivos de tainhas Mugil spp., robalos Centropomus spp. e linguados Paralichthys spp.. Ressalta-se aqui o enorme avanço no desenvolvimento da tecnologia de reprodução, larvicultura e alevinagem do robalo Centropomus paralellus, realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Além desses peixes, estas instituições começam a desenvolver trabalhos relacionados com a adaptação ao cativeiro de algumas espécies de garoupas Epinephelus spp. e pargos Lutjanus spp..

A partir do ano de 1997 o GPGF/DEP/UFC – Grupo de Pesquisas em Gaiolas Flutuantes do Departamento de Engenharia de Pesca da Universidade Federal do Ceará, iniciou pesquisas objetivando verificar a adaptação em tanques-rede de peixes marinhos tropicais, entre os quais, a cioba Lutjanus analis, o pargo-dentão L. jocu, o ariacó L. synagris, o mero Epinephelus itajara, o robalo Centropomus undecimalis, a tainha Mugil spp. e o camurupim Tarpon atlanticus.

Pargos

Nos últimos dois anos, os pesquisadores do GPGF/DEP/UFC observaram que os pargos Lutjanus spp., se adaptam rapidamente ao cativeiro (tanques-rede), permitindo altas densidades de estocagem que variaram de 100 a 200 indivíduos/m3 (densidades superiores não foram testadas). Verificou-se também que os pargos resistem bem ao manejo habitual em piscicultura (estocagem, biometria, transporte, etc.), aceitam dietas artificiais e têm boas taxas de crescimento, mesmo com dietas não adequadas nutricionalmente. A partir de juvenis selvagens, tanto a cioba L. analis, como o pargo-dentão L. jocu e o ariacó L. synagris, atingem tamanho comercial em menos de 12 meses de cultivo, chegando aos 400-500 g de peso médio. Para o ariacó L. synagris, foi observado que esta espécie é capaz de maturar sexualmente em tanques-rede, quando atinge peso médio superior aos 300g.

Meros

Quanto ao mero Epinephelus itajara, constatou-se que indivíduos desta espécie têm altas taxas de crescimento, como já citado em literatura especializada, sendo que um lote de 20 peixes com peso médio de 100g, estocados em um tanque-rede de 20 m3, atingiu em cerca de 12 meses, tendo como única alimentação restos de peixes, pesos que variaram de 4 a 5 kg, sem que tenha sido registrada nenhuma mortalidade. As garoupas Epinephelus spp. atingem a primeira maturação sexual a partir dos 3-4 kg, sendo que, para o mero E. itajara, não existem muitas informações sobre esse assunto e seu cultivo poderá não ser viável se a primeira maturação sexual ocorrer quando possíveis reprodutores estiverem com pesos acima de 8-10 kg, inviáveis para o manejo em cativeiro. No Estado do Ceará, como em outros estados brasileiros, o mero, apesar do excelente sabor e grande porte não possui boa aceitação comercial por não possuir boa aparência externa além de questões culturais, como lendas que relatam ataques a pescadores. Assim, é comercializado na forma de filé como se fosse garoupa ou badejo.

Robalos

Em todas as tentativas de aclimatização de robalos Centropomus undecimalis em tanques-rede, sempre foi verificado problemas com mortalidade durante algumas atividades de manejo, tendo sido constatado pelo pesquisadores do GPGF/DEP/UFC que estes peixes não aceitam facilmente dieta artificial. Apesar dos inúmeros trabalhos encontrados em literaturas especializadas, que citam aspectos relacionados à reprodução, larvicultura, alevinagem e engorda de robalos, somente a partir de 1994, relatou-se produções comerciais do robalo C. undecimalis, na República Dominicana e no México, com valores acima das 330 toneladas (FAO, 1998).

Tainhas

No mundo, as tainhas Mugil spp. são cultivadas, principalmente, em viveiros escavados, com produções superiores a 13 mil toneladas/ano, nos últimos 5 anos (FAO, 1998). Durante experimentos em tanques-rede, observou-se que apesar da fácil adaptação ao cativeiro, os peixes se machucavam facilmente apresentando problemas com mortalidade. Seu manejo é difícil por escaparem facilmente dos tanques-rede e apresentarem sinais de estresse, pelo fato de serem excelentes saltadoras. Mesmo assim, as tainhas apresentam grande potencial para o cultivo, principalmente, em estados das Regiões Sul e Sudeste, onde possuem boa aceitação comercial.

Camurupins

Os camurupins Tarpon atlanticus deslocam-se para o Estado do Ceará a partir de agosto/setembro, com o objetivo de desovarem, sendo capturados em currais de pesca (armadilhas). A partir de janeiro/fevereiro, é intenso o aparecimento de alevinos e juvenis destes peixes que adentram em lagunas costeiras, permanecendo por um período de 1 ano. No período 1998/99, 400 indivíduos com peso médio de 80g, foram estocados em 4 tanques-rede de 20 m3 cada e atingiram, num período de 10 meses, peso médio superior a 3 kg (produção acima de 1.200 kg, usando restos de peixes), não tendo sido observados problemas de mortalidade, doença, deformidade ou canibalismo durante o cultivo. O camurupim é um peixe marinho carnívoro que se adapta facilmente à água doce, sendo muito apreciado na pesca desportiva. Peixes com peso médio em torno de 3 kg podem ser utilizados em pesqueiros, pois apresentam enorme resistência durante a captura por anzol, enquanto que para consumo humano, provavelmente, o mercado será restrito e local.

Camurupim Tarpon atlanticus cultivado em tanque-rede
Camurupim Tarpon atlanticus cultivado em tanque-rede
Perspectivas

A produção de peixes marinhos através de projetos de aqüicultura só será viável comercialmente no Brasil com um sólido projeto de pesquisa realizado em conjunto por universidades brasileiras, apoiado pela iniciativa privada e com consultoria estrangeira. Desta forma, cada grupo de pesquisa ficaria responsável por uma determinada parte do projeto (reprodução, larvicultura, alevinagem, engorda, nutrição, etc…), visando reduzir custos e eliminando deficiências devido a insuficiência de pessoal. Se faz importante também a experiência de profissionais de potencial reconhecido internacionalmente no auxílio da coordenação das atividades de pesquisas, bem como nas estratégias que serão usadas. No atual momento, o GPGF/DEP/UFC está desenvolvendo dietas para a engorda em tanques-rede da cioba L. analis, do pargo-dentão L. jocu, e do ariacó L. synagris, bem como, se preparando para a reprodução, durante o ano de 1999, de pelo menos uma espécie da família Lutjanidae. De posse dos resultados obtidos e das perspectivas para os próximos 2 anos, os pesquisadores acreditam que, provavelmente, será entre os pargos Lutjanus spp. que se encontrará o primeiro peixe marinho viável de cultivo em tanques-rede no Brasil.