Policultivo de peixes em SC

Por: Osmar Tomazelli Junior 
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Jorge de Matos Casaca
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EPAGRI/CHAPECÓ-SC –
Centro de Pesquisa Para Pequenas Propriedades CPPP


O Estado de Santa Catarina ocupa hoje um lugar de destaque no cenário nacional com a produção de peixes de água doce mantendo um crescimento anual ao redor de 10%, tendo produzido em 1999 cerca de 16 mil toneladas (figura 1).

A região oeste do Estado tem seu desenvolvimento sócio-econômico baseado na produção agropecuária, com destaque para a avicultura e a suinocultura. O rebanho de suínos no Estado é de cerca de 3,4 milhões de cabeças, das quais 76% concentram-se nesta região.

A grande disponibilidade de resíduos orgânicos nas pequenas propriedades rurais, principalmente de aves e suínos, associada à facilidade de distribuição em viveiros de piscicultura, à pouca exigência de mão de obra, à inexistência de comércio para os dejetos de suínos e, à boa qualidade do mesmo como fertilizante para a piscicultura, criou um cenário favorável ao desenvolvimento da piscicultura integrada no Estado de Santa Catarina. A produção de peixes de água doce no Estado em 1990 foi de 1.521 t e, em 1999, atingiu 15.977,84 t, com um crescimento de 900% (Figura 1). O número de piscicultores assistidos neste período cresceu de 6.431 para 23.840, organizados em 51 associações municipais, 2 associações regionais e 1 associação estadual.

A produtividade deste sistema de cultivo varia de 4 a 6 toneladas por hectare a cada ano. Segundo dados da safra 2000 colhidos pelo CPPP – Centro de Pesquisa para Pequenas Propriedades da EPAGRI, localizado em Chapecó, oeste do Estado, o custo do quilo do peixe produzido está ao redor de R$0,32 enquanto o preço médio de comercialização do peixe vivo seja de R$1,00. As principais vantagens para o produtor rural são o efetivo aumento de sua renda e a possibilidade de reciclar dejetos de alto poder de poluição, contribuindo para a melhoria do ambiente, condições sem as quais não é possível manter a estabilidade do cultivo de peixes ao longo do tempo.

A aplicação de dejetos de suínos nos viveiros de piscicultura permite aumentar sua produtividade natural. Em viveiros devidamente adubados e apropriadamente estocados com peixes de hábitos alimentares diferentes (policultivo), as partículas orgânicas provêem a base de nutrientes para a produção de pescado, estimulando a produção de plâncton e bactérias. Os peixes em policultivo por sua vez consomem estes organismos mantendo equilíbrio entre a produção e o consumo possibilitando níveis adequados de oxigênio dissolvido, pH e outras variáveis limnológicas.

Um dos sistemas mais desenvolvidos da engenharia ecológica é a criação de peixes em policultivo e, a sustentabilidade destes cultivos existe por mais de 1000 anos. As relações tróficas como também a ecologia das espécies são bem conhecidas, utilizadas, estimuladas e controladas, obtendo-se um ganho ótimo na despesca.

O viveiro de piscicultura é um habitat para o peixe, um lugar para o desenvolvimento de alimento natural, para a decomposição da matéria orgânica e reciclagem dos nutrientes.

Uma característica importante da piscicultura integrada a dejetos de animais é que a mesma não possui capacidade de utilizar dejetos de suinoculturas intensivas, não se caracterizando, portanto, como uma solução para a utilização de grandes quantidades de dejetos, mas como uma atividade que utiliza uma pequena parcela destes resíduos como um insumo à fertilização dos viveiros.

A preservação do meio ambiente e a obtenção de bons índices de produtividade são os desafios enfrentados pelos piscicultores. O conhecimento e o controle da qualidade da água torna-se indispensável para que esta atividade possa crescer de forma auto-sustentável. Embora este sistema de cultivo seja reconhecido por especialistas por colaborar com a melhoria da qualidade ambiental, um dos principais problemas enfrentados pelos produtores é a crítica negativa em algumas regiões do país por estarem supostamente promovendo a poluição de nossos mananciais hídricos. Estas afirmações não são fundamentadas em dados de pesquisas e a principal delas, a de que a piscicultura estaria contaminando as águas superficiais com organismos de origem fecal, tornou-se um dos principais alvos de estudos da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina – EPAGRI, através do seu Centro de Pesquisa para Pequenas Propriedade – CPPP, localizado em Chapecó, CPC – Centro de Pesquisa de Camboriú, estações experimentais de Concórdia, Ituporanga e Caçador. Essas instituições têm desenvolvido pesquisas sobre a qualidade de água e da carne dos peixes cultivados em parcerias com vários órgãos, entre ele o Centro Tecnológico de Alimentos do SENAI, Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, Escola Agrotécnica Federal de Concórdia – EAFC e Associação Catarinense de Aqüicultura – ACAq.

Figura 1 - Evolução da Produção de Peixes de Água Doce e as áreas alagadas, em Santa Catarina.
Figura 1 – Evolução da Produção de Peixes de Água Doce e as áreas alagadas, em Santa Catarina.
Qualidade da Água:

Resumimos a seguir alguns dos principais resultados de um estudo com duração de dois anos, realizado no município de Chapecó – SC, quando foram analisados a água do cultivo e efluente de 31 viveiros em 16 propriedades rurais durante dois anos. Foram avaliados os sistemas vertical (baias de suínos construídas sobre os viveiros), horizontal (baias de suínos construídas às margens e os dejetos canalizados até os viveiros) e variável (adubos orgânicos são levados e espalhados diariamente nos viveiros). A seguir, alguns resultados referente a qualidade de água durante a despesca e a qualidade microbiológica tanto da água como da carne dos peixes.

Coliformes fecais – Os microorganismos do grupo dos coliformes não são patogênicos (embora algumas linhagens o sejam) e sua importância primordial se deve ao fato de serem bons indicadores de contaminação fecal. Os coliformes fecais indicam a ocorrência de uma microflora variada, na qual predomina a Escherichia coli, tendo seu habitat exclusivo no trato intestinal de animais de sangue quente.

A legislação ambiental vigente no estado de Santa Catarina (ver box) estabelece a concentração máxima de coliformes totais e fecais para o corpo receptor, ou seja rios e riachos que recebem águas provenientes dos cultivos (tabela 1), não havendo citação para os efluentes. A Organização Mundial da Saúde (OMS), enquanto não forem estabelecidas normas bacteriológicas definitivas de qualidade de água para a piscicultura, sugere que seja utilizada uma concentração de até 1.000 coliformes fecais 100 por mililitro, como referência, sendo epidemiologicamente segura e técnicamente viável.


Os efluentes liberados pelos viveiros de piscicultura amostrados encontram-se dentro da norma bacteriologica para coliformes totais e fecais para águas de rios e riachos de classe III. (figura 2). Para a classe II (figura 3) os modelos vertical e horizontal estão bem próximos do mínimo exigido pela legislação, e o modelo variável esta em conformidade com a mesma. Devido a baixa vazão que normalmente ocorre durante o cultivo e que em 29,4% das amostragens não houve liberação de água é improvável que um efluente com estas características cause um incremento na concentração de coliformes fecais admitida pela legislação ambiental para córregos de classe II (tabela 1), cujas vazões são acentuadamente maiores. Não houve diferença significativa na concentração de coliformes fecais entre a entrada e saída de água nos viveiros. Para os efluentes, 62,5% das amostras ficaram abaixo de 1.000 NMP/100ml (Número Mais Provável por 100 mililitros) e, 95,83% abaixo de 4.000 NMP/100ml (Figuras 4 e 5).

Figura 2 - Porcentagem de Amostras com até 4000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais no efluente dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe III
Figura 2 – Porcentagem de Amostras com até 4000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais no efluente dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe III
Figura 3 - Porcentagem de Amostras com até 1000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais no efluente dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe II
Figura 3 – Porcentagem de Amostras com até 1000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais no efluente dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe II
Figura 4 - Porcentagem de Amostras com até 4000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais na água de entrada e saída dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe III
Figura 4 – Porcentagem de Amostras com até 4000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais na água de entrada e saída dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe III
Figura 5 - Porcentagem de Amostras com até 1000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais na água de entrada e saída dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe II
Figura 5 – Porcentagem de Amostras com até 1000 NMP 100 mL-1 de coliformes fecais na água de entrada e saída dos viveiros de piscicultura e a legislação para os rios de classe II
Parâmetros físico-químicos:

Foram avaliados os parâmetros físicos e químicos da entrada e saída de água nos viveiros. Para temperatura, oxigênio dissolvido e pH não houve diferença significativa entre a entrada e saída de água dos viveiros. Embora a produção de plâncton provoque a desoxigenação da água durante a noite, no período da manhã a concentração de oxigênio dissolvido é normalizada atendendo a legislação. Para nitrato houve redução significativa através da passagem da água pelo viveiro em cerca de 6 vezes. A concentração observada na água de abastecimento provavelmente se dá através da lixiviação do nitrato de estercos espalhados pelos potreiros e adubação nas lavouras. No efluente, a concentração máxima observada foi de 1,59 mg/l, e está aquém do estabelecido pela legislação (tabelas 1 e 2). Para os outros parâmetros houve aumento significativo.

O parâmetro indicador de carga orgânica (DBO5), embora tenham aumentado de concentração no efluente situa-se aquém do valor de 60 mg/l citado pela legislação para emissão de efluentes líquidos (tabelas 1 e 2). Amônia total na média observada no efluente está cerca de 2,5 vezes abaixo da concentração máxima permitida para emissão de efluentes líquido (tabelas 1 e 2). O orto-fosfato é o parâmetro com maior diferença entre o efluente e a concentração permitida para rios de classe II (tabelas 1 e 2) – cerca de 40 vezes. Há necessidade de um maior estudo sobre esta variável para quantificar o aporte por lixiviação dos terrenos circundantes cujas águas superficiais aportam aos viveiros, já que o aporte diário de 0,36 kg/ha/dia, através do esterco de suínos, a perda permanente para o sedimento e a absorção intensa pelo fitoplâncton não justificam a concentração encontrada.

A turbidez é aumentada através das práticas de cultivo cerca de 2,6 vezes, sendo o maior responsável a produção planctônica e a suspensão inorgânica de sedimentos em épocas de chuvas intensas. Os valores encontrados (tabela 2) para o efluente esta de acordo com águas de classe III e ligeiramente superior para águas de classe II (tabela 1). Em resumo, os resultados obtidos evidenciam a excelente qualidade dos efluentes da piscicultura integrada à suinocultura devido a baixa carga orgânica apresentada, contagem de coliformes e liberação de nutrientes quando comparados com as exigências da legislação ambiental para efluentes e os corpos receptores.

Efluentes Durante a Despesca:

A despesca, da forma como é realizada pelos produtores rurais, é parcialmente feita com redes, seguido da drenagem total dos viveiros para a coleta manual dos peixes. Isso faz com que a qualidade do efluente gerado diminua rapidamente a partir dos últimos 30% do volume de água drenada, principalmente com a elevação da demanda de oxigênio e materiais sedimentáveis. Este parâmetro não permite que o efluente seja liberado ao meio ambiente sem tratamento prévio, conforme a legislação ambiental de Santa Catarina. A sugestão é que a despesca seja realizada com redes apropriadas, sem liberar a água do viveiro, ou direcionar a água residual para um tanque de decantação.

Qualidade microbiológica da carne de carpa comum e da tilápia em cultivos integrados à suinocultura.

Os peixes cultivados no Oeste de Santa Catarina são consumidos principalmente em pesque-pagues e feiras livres. A industrialização, no entanto, já é uma realidade no Estado, com uma unidade em funcionamento em Chapecó e outra em Turvo, no litoral sul. Além dessas, estão em projeto pelo menos mais três unidades de abate na região Oeste do Estado.

Com o objetivo de fornecer dados da qualidade do peixe cultivado foram realizados diversos trabalhos para avaliar microbiologicamente a qualidade do músculo da carpa comum (Cyprinus carpio) e tilápia nilótica (Oreochromis niloticus) através da enumeração de bactérias enteropatogênicas como Salmonella,Staphylococcus aureus, e coliformes totais e fecais com teste específicos para Escherichia coli.

A pesquisadora da Epagri, Marinez Antoniolli avaliou os peixes provenientes de policultivo com fertilização através de baias de suínos construídas sobre os viveiros, povoadas com uma densidade populacional de 100 suínos por cada hectare de área alagada. O objetivo foi conhecer o grau de contaminação do músculo de carpa comum (Cyprinus carpio) por microrganismos do grupo coliforme. Os exemplares analisados apresentaram qualidade microbiológica dentro dos padrões estabelecidos para o consumo humano. Peixes cultivados em viveiros fertilizados com dejetos de suínos e peixes alimentados com ração foram analisados e os resultados mostraram que não houve diferença entre os níveis de contaminação por organismos do grupo coliforme.

O produtor Francisco Sedoski, piscicultor a mais de 15 anos no município de Chapecó, disponibilizou sua propriedade à pesquisadora Fabiana Pilarski e colaboradores para que pesquisassem microrganismos do grupo Coliforme, Staphylococcus aureus e Salmonella spp. em viveiros fertilizados com dejetos de suínos com uma taxa de aporte de 110 suínos por hectare de área alagada, e comparar com carpas alimentadas somente com ração. As análises realizadas no músculo de Cyprinus carpio durante toda a pesquisa, período de 180 dias, não revelaram diferença microbiológica entre carpas alimentadas com matéria orgânica e com ração, constatando que ambas se enquadram dentro dos padrões estabelecidos pela DINAL – Divisão Nacional de Vigilância Sanitária de Alimentos, estando, portanto, aptas ao consumo humano.

Em estudos realizados na Escola Agrotécnica Federal de Concórdia, os pesquisadores da Epagri, Anastácio Matos e Matias Boll compararam a qualidade microbiológica do músculo da carpa comum em policultivo fertilizado por dejetos de suínos confinados em densidades de 45 e 60 suínos por hectare de área alagada, com peixes alimentados com ração peletizada com 24 % de proteína bruta. Os resultados mostram que não houve diferença entre os tratamentos para pesquisa de coliformes totais e fecais, Staphylococcus aureus e Salmonellano músculo dos peixes. Salmonella foi ausente no músculo das carpas em todas as amostras. Concluíram os autores que os peixes alimentados com dejetos de suínos e ração apresentaram a carne dentro dos padrões recomendados pelos órgãos de vigilância sanitária do País.

Outro estudo avaliou a qualidade higiênico-sanitária e o processo de filetagem da tilápia e da carpa comum, industrializadas no município de Chapecó. As pesquisadoras do SENAI/CTAL Ieda Rotawa e Ingrid Tomazelli analisaram peixes provenientes de policultivos fertilizados com dejetos de suínos, pesquisando Listeria spp e psicrotróficos em amostras de filé de carpa e tilápia resfriados e congelados; psicrotróficos e Staphylococcus aureus, NMP de coliformes totais e fecais e Salmonella spp em amostras de filés resfriados, num total de 40 amostras. Todas as amostras de filés de peixe estudadas atenderam aos padrões microbiológicos da legislação brasileira vigente em todos o parâmetros considerados. Nas amostras pesquisadas não foi detectada a presença de Listeria spp e Salmonella spp. Concluíram que o congelamento de filés de peixe é eficiente, porque reduziu a contagem total de psicrotróficos em aproximadamente um log. O processo de filetagem e a manipulação dos peixes estão adequados e que os filés de peixe estão aptos para o consumo humano. Vale ressaltar que todas as análises microbiológicas dos trabalhos citados acima foram realizadas em parceria com o laboratório do Centro Tecnológico de Alimentos do SENAI, credenciado pelo Ministério da Agricultura.

Conclusão

De acordo com os resultados dos estudos realizados até o momento, o sistema de policultivo com o uso de resíduos orgânicos não compromete o meio ambiente, estando de acordo com a legislação ambiental. Da mesma forma, a qualidade da carne do pescado produzido garante a segurança alimentar do consumidor. Novos estudos estão em andamento para fortalecer e difundir boas práticas de manejo, que venham garantir a sustentabilidade futura da piscicultura integrada em Santa Catarina.


A bibliografia consultada para a elaboração deste artigo poderá ser solicitada aos autores através de e-mail