Preço do peixe não evolui e exige maior controle sobre os custos de produção

Por: João Donato Scorvo Filho 
APTA Instituto de Pesca,
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A estimativa do Departamento de Pesca e Aqüicultura, criado em julho de 1998, junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, era de que em 2002, a produção nacional de tilápia atingiria um volume de 70.248 toneladas. Porém, como ainda não foram apresentadas as estatísticas do setor, não sabemos se esta estimativa se concretizou. Podemos afirmar, no entanto, que a tilapicultura foi o setor da aqüicultura que mais cresceu nestes últimos anos, com o aumento no número de criações tradicionais, em sistema semi-intensivo em viveiros, como na instalação de criações em sistema intensivo, principalmente em tanques-rede, sem deixar de salientar o aparecimento das chamadas “fábricas de peixe”, que têm despertado o interesse dos criadores.

Além da tilápia, outras espécies de peixes, também têm apresentado bom desempenho. Destaque deve ser dado aos bagres, como o pintado, catfish americano e o jundiá, que despontam como alternativa para os piscicultores brasileiros, principalmente os das Regiões Sul e Sudeste.

O crescimento da piscicultura certamente está contribuindo para o aumento do índice de consumo aparente de pescado per capita no Brasil, que hoje, segundo a FAO, está por volta de 7,5 kg por habitante/ano, pouca coisa acima dos 6,8 kg registrados em 1998 e, ainda muito abaixo do consumo mundial, que está perto dos 16 kg/habitante/ano. O advento dos pesque-pagues teve papel fundamental para este resultado, sendo um tradicional mercado da piscicultura e ainda seu principal consumidor. Em 2002 estima-se que um volume de 30 mil toneladas de peixes tenham sido comercializados apenas pelos pesqueiros paulistas, que contribuem assim para a popularização do pescado de água doce, principalmente nos grandes centros onde os pesqueiros continuam a fazer sucesso.

Destino da Produção:

Usando alguns dados relativamente antigos, veremos que a aqüicultura brasileira produziu na safra 1994/1995, 40.567,2 toneladas, passando para 116.398 toneladas na safra 1998/1999, o que corresponde a um crescimento de 187%. Uma pergunta que pode então passar pela cabeça do produtor e, das pessoas ligadas à piscicultura, é se estamos preparados para absorver um aumento da produção de pescado, como todos preconizam para os próximos anos.

O que sabemos é que a manutenção dessas altas taxas de crescimento, vai depender do aproveitamento de mercados hoje atendidos somente pela pesca extrativista, uma vez que a comercialização de peixes através dos pesque-pagues tem apresentado algumas variações ao longo do tempo. Ultimamente, o número de pesqueiros e de seus freqüentadores, após terem experimentado um rápido crescimento em decorrência da euforia inicial, somada ao estímulo econômico gerado no início do Plano Real, sofreu um declínio, até a atual aparente estabilização. Hoje, no Estado de São Paulo, a principal espécie utilizada nos pesqueiros é a tilápia, com 60% do total comercializado, sendo seguida pelos peixes redondos (pacu e tambaqui) e pelos piaus (Leporinos sp.). Outras espécies também comercializadas, mas em menor escala, são os bricons (matrinxã, piraputanga e piracanjuba), os bagres africano e americano, o pintado e o dourado.

Atacado e varejo

De grande importância também para o produtor são os supermercados, processadoras e as feiras livres, tidos como canais de comercialização ainda pouco utilizados.

O mercado atacadista de pescado, hoje atendido, principalmente, pela pesca marítima, poderá ser atendido em parte pela aqüicultura. O principal ponto de comercialização de pescado no atacado da América Latina está no Entreposto de Pescado da Capital Paulista pertencente á Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo – CEAGESP. No início da década de 80, este entreposto chegou a comercializar 90 mil toneladas por ano e, surpreendentemente, em 1999, foi responsável pela comercialização de apenas 40 mil toneladas. Hoje, a CEAGESP pode ser apontada como uma boa alternativa para o escoamento do peixe criado no Brasil, uma vez que não existem limites de distâncias para este mercado, capaz de receber pescados frescos e congelados de todos os cantos do país. Atualmente, em seus leilões, pode ser constatada com certa freqüência, a presença de tilápias, peixes redondos e outras espécies oriundas da piscicultura. Os preços praticados variam conforme a oferta do produto e a abundância de outros peixes de maior procura, ou com melhor preço.

Em se tratando de mercado varejista, parece ser uma tendência geral, na Grande São Paulo e nas maiores cidades do interior paulista, a instalação de peixarias nas lojas de super e hipermercados. Mesmo nas pequenas lojas das grandes redes (aquelas que atendem aos bairros), esta tendência é notada com o aumento de peixarias que apresentam um variado número de espécies de pescado. Com isso, tem aumentado o interesse das grandes redes de supermercado pelos peixes oriundos das pisciculturas uma vez que este normalmente apresenta melhor frescor e uniformidade de tamanho, além de preços mais estáveis.

Como aconteceu em outros países, a importância dos abatedouros ou processadoras no escoamento da produção aqüícola é muito grande. No Brasil, a partir da década de 90, pode-se observar o surgimento de pequenos abatedouros nos Estados das Regiões Sul e Sudeste, que têm atendido a mercados regionais ou mesmo pontuais. No início, estes estabelecimentos encontraram muitas dificuldades na legalização da atividade, pois as leis e normas estabelecidas eram baseadas no processamento de pescados marinhos, que industrializavam espécies diferentes e em escala muito maior daquela produzida na piscicultura, porém, aos poucos, as dificuldades foram sanadas com discussões entre o setor produtivo e os órgãos fiscalizadores que, equacionaram as reais necessidades em estrutura para a atividade piscícola, dentro de um quadro compatível com o tamanho das produções a serem processadas. Houve uma diminuição do tempo para a obtenção dos registros graças à agilização das análises dos processos pelos técnicos dos Serviços de Inspeção Federal, Estadual e Municipal e a conseqüente aprovação e registro de algumas plantas processadoras.

O grande problema, atualmente, está na manutenção da competitividade do produto, principalmente, para os filés, que mesmo apresentando na maioria das vezes, excelente qualidade, concorrem com produtos mais baratos e mais abundantes oriundos da pesca industrial, como é o caso do filé de merluza que, mesmo sendo em grande parte importado da Argentina e do Uruguai, é oferecido pela rede varejista com preços que variam de R$10,00 e R$15,00 o quilo, variando conforme a apresentação, tamanho, e presença ou não de pele no filé.

Como a oferta para o pesque-pague ainda não atingiu patamares que resultem em uma redução dos preços para o produtor, os abatedouros têm encontrado muita dificuldade na compra de peixes a preços que viabilizem sua comercialização. Como mostra a Tabela 1, o preço de peixes comercializados no Estado de São Paulo não tem apresentado muita variação nos últimos anos. Algumas processadoras, porém, têm conseguido sucesso na colocação de seu produto pelo atendimento a nichos de mercado, com um produto diferenciado abastecendo diretamente a segmentos constituídos, principalmente, por consumidores de alto poder aquisitivo ou entregando seu produto diretamente ao consumidor, sem a presença do atacadista e do varejista. No Estado de São Paulo, encontramos algumas processadoras que vêm obtendo sucesso nestes dois casos. O primeiro comercializando filés de tilápias com nome estrangeiro, abastecendo supermercados e restaurantes de classe A da Capital, concorrendo com filés de salmão, linguado, badejo e robalos. No segundo caso, a processadora montou uma logística de transporte e entrega, colocando seu produto nas cidades vizinhas e mesmo na Capital.

Tabela 1 – Preços médios de venda do quilo de peixe vivo, em Reais, recebido pelo piscicultor no Estado de São Paulo.
Tabela 1 – Preços médios de venda do quilo de peixe vivo, em Reais, recebido pelo piscicultor no Estado de São Paulo.
Custos de Produção:

Partindo-se do princípio que existe um mercado constituído para o pescado de água salgada, abastecido pela pesca, o ingresso do pescado oriundo da aqüicultura neste mercado, obriga o setor aqüícola a aumentar sua produção, bem como a equacionar seus custos de produção, de forma a obter preços competitivos. Dada a importância do conhecimento dos custos de produção e sua composição na atividade aqüícola, inúmeros pesquisadores vêm apresentado resultados com planilhas e valores que demonstram a viabilidade desta atividade. Os resultados desses estudos têm mostrado também situações bem diferenciadas, apresentando maiores margens de lucro para os piscicultores mais profissionalizados e, menores para aqueles com menor grau de planejamento e gerenciamento do empreendimento.

O fator mais importante da composição do custo de produção da piscicultura, sem dúvida nenhuma, é o custo relacionado com a alimentação dos organismos aquáticos. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Alimentação Animal – SINDIRAÇÕES, o Índice Geral para os Custos de Rações (IGCR) que analisa o comportamento dos preços de todos os componentes utilizados na produção de rações, apresentou uma alta de 64,25% entre os preços de janeiro a outubro de 2002. As rações para peixes, com 28% de proteína bruta foram as que acumularam a menor alta com 45,40% no mesmo período. Na primeira semana de janeiro de 2002, a tonelada da ração para peixe custava R$ 448,45 e na última semana de outubro este valor estava estimado em R$ 652,04. Esta variação foi causada pela instabilidade nos preços das matérias-primas, em especial o milho, que está em falta no mercado interno e com grande demanda no mercado internacional. Esta situação tem dificultado a obtenção de capital de giro pelo produtor e levado as indústrias a trabalharem com margens reduzidas, além de ter que buscar fontes de matérias primas alternativas com custos menores.

Queda dos preços

O aumento da produção associado à estabilização no número de pesque-pagues, fez com que houvesse uma pequena redução no preço de venda dos peixes praticados pelos piscicultores do Estado de São Paulo e de estados vizinhos.

Ao se debruçarem sobre os preços praticados pela piscicultura paulista, os pesquisadores da Agência Paulista da Tecnologia dos Agronegócios – APTA/SAA relataram que os preços dos peixes já mostravam uma tendência de queda, entre 1995 e 1997, com um decréscimo de 6,93%. Hoje, os preços se apresentam, em geral, mais baixos, com uma redução próxima dos 28%, entre as safras de 1997/1998 e 2001/2002 (Tabela 1). Esta redução é muito maior se for feita à deflação dos valores praticados em cada época. Assim, é fundamental que o aqüicultor tenha em mente a importância do controle dos custos de produção através do gerenciamento da criação. Será inevitável a diminuição desses custos para poder acompanhar o decréscimo nos preços de venda.

Para que obtenham melhores resultados, os piscicultores devem procurar a melhoria das taxa de conversão alimentar dos seus peixes, através do uso de manejos alimentares mais adequados, linhagens mais preparadas e alimentos mais eficientes, associados a ciclos de produção mais curtos, obtidos com manejos criatórios mais eficazes.