Principais Parasitoses e Doenças em Tilápias

Juvenis de tilápia-do-Nilo com olhos opacos e saltados (exoftalmia). O corpo dos peixes se encontra escurecido e podem ser observadas áreas despigmentadas e lesões superficiais na pele. Um quadro com sinais clínicos externos semelhantes à septicemia por Streptococcus. A exoftalmia, a opacidade da córnea e o corpo escurecido também são sinais freqüentes em deficiências nutricionais. Assim, a confirmação das infecções por Streptococcus exige o isolamento desta bactéria em meios de cultura específicos.

Eng° Agr° Fernando Kubitza (Ph. D.)
Méd. Vet. Ludmilla M. M. Kubitza 
ACQUA & IMAGEM SERVIÇOS
Jundiaí, SP (Tel: 11–4587-2496)


Doenças e parasitoses diversas são observadas no cultivo de tilápias. Embora algumas doenças ou parasitoses sejam mais freqüentes que outras, ainda não foram identificados parasitos ou patógenos específicos para as tilápias. Os patógenos e parasitos coexistem com as tilápias no ambiente de cultivo. Qualquer desequilíbrio causado pelo uso de densidades de estocagem excessivas, pela inadequada manutenção da qualidade da água, má nutrição e o manuseio grosseiro, aumenta a incidência de problemas com doenças. A susceptibilidade das tilápias às parasitoses e doenças dependem de diversos fatores, entre muitos: a espécie ou linhagem de tilápia; as condições de qualidade da água e a carga orgânica nas unidades de produção; o estado nutricional dos peixes; e, principalmente as condições de temperatura da água. Condições sub-ótimas de temperatura aumentam a predisposição das tilápias às doenças e parasitoses.

Temperaturas baixas inibem a resposta imune e a habilidade dos peixes em reagir a diferentesantígenos. A resposta imune das tilápias é praticamente inibida sob temperaturas ao redor de 16 a 18ºC. Nestas condições a atividade bacteriana também é reduzida. No entanto, quando ocorre uma elevação da temperatura ambiente, as bactérias retomam sua atividade de forma mais rápida comparado à habilidade dos peixes em restaurar de forma eficiente o funcionamento do seu sistema imunológico. Isto explica a maior incidência de doenças em tilápias nos períodos de inverno e início da primavera. As tilápias cultivadas sob condições de temperatura entre 23 a 32ºC, são menos propensas às parasitoses e doenças, a não ser quando são submetidas à água de má qualidade, a um manejo nutricional e alimentar inadequado e a um manuseio grosseiro. Assim, a qualidade do manejo da produção é fundamental para o sucesso no cultivo.

A intensificação no cultivo de tilápias cria condições para uma maior ocorrência de doenças. Os sistemas de recirculação de água, o cultivo em raceways e em tanques-rede são marcados pelas altas densidades de estocagem e intenso arraçoamento. Isto aumenta o contato entre os peixes e a transmissão dos patógenos. Em sistemas de recirculação, em particular, há uma mistura das águas de diferentes tanques de produção, favorecendo a distribuição dos patógenos por todo o sistema. Isto favorece os surtos de doenças, podendo causar consideráveis perdas econômicas.

Principais parasitos das tilápias

Diversos parasitos externos e internos causam problemas no cultivo de tilápias. Estes parasitos normalmente estão presentes na água, e se aproveitam de alguma situação de estresse causada pelo abaixamento da temperatura, má qualidade da água, má nutrição ou manuseio inadequado, que reduzem a resistência das tilápias. O acúmulo de material orgânico nos viveiros e tanques durante o cultivo pode favorecer o aumento na população de alguns parasitos, gerando desequilíbrios na relação peixe-parasito-ambiente. As lesões causadas por estes parasitos geralmente não são tão severas, a não ser que um grande número de parasitos esteja presente e que a infestação ocorra em órgãos vitais. Alguns parasitos, no entanto, se alimentam do sangue dos peixes e podem causar lesões bem severas, mesmo quando presentes em pequenos números. Seus danos também são mais severos em peixes menores. Muitos parasitos infestam as brânquias, dificultando a respiração dos peixes, causando a morte dos mesmos por asfixia.

Figura 1: Hifas de Fungos (Saprolegnia) em tilápia do Nilo. Esfregaço de pele visto ao microscópio (400X)
Figura 1: Hifas de Fungos (Saprolegnia) em tilápia do Nilo. Esfregaço de pele visto ao microscópio (400X)

Protozoários parasitos: a) são organismos microscópicos e unicelulares; b) a maioria se multiplica sem a presença do hospedeiro; c) se beneficiam do aumento na carga orgânica da água; d) ocorrência comum em cultivo intensivo; e) geralmente são encontrados em pequenas quantidades em tilápias aparentemente sadias; f) alterações bruscas na qualidade do ambiente favorecem grandes infestações. Diversos tipos de protozoários foram isolados de tilápias em cultivo intensivo durante infestações de intensidade variável. A seguir é apresentado um resumo das principais características de alguns destes organismos e suas infestações em tilápias:

Ichthyophthirius multifiliis: a) causa a “Ictiofitiríase” ou “Doença dos Pontos Brancos”; b) perdas significatvas em regiões com inverno bem marcado; c) apresenta célula ovóide recoberta por cílios, diâmetro entre 0,5 a 1,5 mm e núcleo na forma de “ferradura” ou “C”; d) maior incidência durante em meses de temperaturas amenas; e) peixes jovens são mais susceptíveis que peixes adultos; f) peixes que se recuperam de infestações moderadas desenvolvem resistência; g) Sinais clínicos: pontos brancos visíveis a olho nu na pele, nadadeiras e brânquias auxiliam no diagnóstico; excesso de produção de muco e prurido nos peixes; lesões na pele favorece infecção bacteriana ou fúngica seundária; infestação severa nas brânquias dificulta a respiração e causa asfixia; h) Tratamento (ver Tabela 7): formalina por tempo indefinido nas concentrações de 15 a 25ml/m3, em 3 a 4 aplicações com intervalos de 3 dias; sal a 1%, em 3 a 4 tratamentos espaçados a intervalos de 3 dias (viável em sistemas de recirculação e em aquários); elevar a temperatura acima de 30°C prejudica a reprodução do parasito.

Chilodonella sp: a) infestações mais freqüentes quando as tilápias são submetidas à condições de estresse, após o manejo inadequado, nutrição desbalanceada e queda na temperatura da água; b) estresse por elevada temperatura também pode favorecer a infestação por Chilodonella; c) é um protozoário ciliado, de formato ovóide à semelhança de um coração; possui 8 a 15 fileiras paralelas de cílios na superfície ventral da célula; é um parasito obrigatório e se alimenta das células epiteliais (pele) dos peixes; d) pode se alojar em cistos, sobrevivendo por grande período na água ou no substrato dos viveiros e tanques; e) se reproduz por divisão binária e as formas jovens podem nadar e infestar outros peixes; f) sinais clínicos: pruridos e lesões cutâneas; aumento na secreção de muco; causam inflamação no tecido branquial, fusão das lamelas secundárias, dificuldades respiratórias e morte dos peixes por asfixia; g) diagnóstico: facilmente identificada em raspados de muco e brânquias vistos ao microscópio; h) controle: corrigir os desequilíbrios ambientais (no caso de baixas temperaturas, pouco pode ser feito em áreas abertas, embora em sistemas de recirculação o controle de temperatura pode ser viável); terapia com formalina, na concentração de 25 a 50ml/m3, aplicada por tempo indefinido e, se houver necessidade, repetir o tratamento após 4 a 5 dias.

Tricodinídios (Trichodina e Tripartiella): a) estão presentes em todos os ambientes de cultivo e geralmente ocorrem em pequeno número nos peixes; b) nas Filipinas foram registradas 5 espécies de Tripartiella infestando as brânquias de tilápias; c) maiores problemas em pós-larvas e alevinos, porém podem causar mortalidade severa em tilápias de maior porte, quando estes peixes são expostos à água de inadequada qualidade e excessiva carga orgânica; d) baixas temperaturas favorecem as infestações; após o inverno, a elevação na temperatura leva a uma rápida multiplicação dos parasitos, que se beneficiam do estado debilitado dos peixes que ainda não se recuperaram do estresse causado pelas baixas temperaturas; e) os Tricodinídios são um problema particular em tilápias que protegem as larvas na boca; estes ciliados se alojam na cavidade bucal e infestam as larvas; f) os tricodinídios apresentam a forma de um disco; o diâmetro da célula geralmente está entre 40 a 60mm; a célula é circundada por cílios que auxiliam na locomoção e alimentação dos parasitos; g) possuem uma estrutura de fixação compostas por dentículos, que auxilia na aderência à pele, nadadeiras e brânquias; se alimentam filtrando o material orgânico presente na água; o acúmulo de resíduos orgânicos nos viveiros e tanques favorece o aumento da população destes parasitos; altas densidades de estocagem aumentam o contato entre os peixes e favorece a infestação; h) a reprodução destes parasitos ocorre por fissão binária (simples divisão em dois); i) sinais clínicos: excessiva produção de muco; prurido, corpo de coloração escura; lesões na pele favorecem a infestação secundária por fungos e bactérias; inflamação das brânquias e dificuldade respiratória, podendo culminar com massiva mortalidade dos peixes por asfixia; a mortalidade é maior em peixes mais jovens, principalmente quando ocorre uma infecção bacteriana secundária; j) diagnóstico: a identificação dos tricodinídios é relativamente fácil uma vez que possuem aparência peculiar e inconfundível; raspado de pele e brânquias são examinados ao microscópico; k) controle: manutenção de adequada qualidade da água, bons níveis de oxigênio e redução da carga orgânica nos tanques e viveiros; tratamento com formalina na concentração de 170 a 250ml/m3 em banhos de 30 minutos a 1 hora; formalina na concentração de 15 a 25ml/m3 por tempo indefinido; sal em banhos de 30minutos a 1 hora 2,5 a 3%; tilápias toleram altas concentrações de sal; permanganato de potássio em banhos de 10 a 15 minutos na concentração de 5g/m3.

Figura 2: Ichthyophthirius multifiliis de raspado de brânquias de tilápia visto ao microscópio. Notar o núcleo em forma de “ferradura“.
Figura 2: Ichthyophthirius multifiliis de raspado de brânquias de tilápia visto ao microscópio. Notar o núcleo em forma de “ferradura“.

Epistylis sp, Ambiphrya (Scyphidia sp) e Apiosoma sp.: a) se desenvolvem em grande número em ambientes com grande carga orgânica; b) tilápias submetidas a estresse térmico podem sofrer grande infestação por estes parasitos; são mais freqüentes em alevinos; c) estes protozoários são sésseis (fixos), apresentam tamanho entre 40 a 100mm e possuem cílios em um arranjo circular na extremidade da célula; d) se fixam à pele, nadadeiras e brânquias dos peixes através de uma haste transparente e se alimentam de partículas orgânicas em suspensão na água; e) a reprodução ocorre por fissão binária; f) a distinção entre estes três gêneros é fácil de ser realizada, com base no formato do corpo e na aparência do núcleo; o Epistylis sp é o único que forma colônias, com aspecto semelhante a cachos de uvas; g) Sinais clínicos: infestações severas levam a uma excessiva produção de muco; hiperemia e lesões na pele; insfestação pesada no opérculo pode dificultar o batimento opercular e a respiração; Epistylis formam colônias com aspecto de pus nos raios duros das nadadeiras dorsais e também sobre o corpo; infestações nas brânquias podem causar asfixia; h) diagnóstico: feito através do raspado de pele e brânquias e posterior visualização ao microscópio; i) controle: manutenção de adequada qualidade da água, bons níveis de oxigênio e redução da carga orgânica nos tanques e viveiros; estes parasitos são facilmente combatidos com formalina a 170ml/m3 em banho de 1 hora se a temperatura da água estiver próxima a 14°C; para controle de Ambiphrya (Scyphidia) pode se usar o sal comum (cloreto de sódio) na concentração de 0,5 a 1% por tempo indefinido; as tilápias toleram bem estas condições de salinidade, sendo que algumas espécies se adaptam bem a salinidade equivalente a água do mar (3,6%).

Ichthyobodo: a) se manifesta quando o peixe é submetido a condições ambientais desfavoráveis (altas densidades, inadequada qualidade da água, deficiências vitamínicas, ou peixes já acometidos por outras infecções); b) pode causar mortalidade severa em tilápias, principalmente em pós-larvas e alevinos, infestando até mesmo os ovos em incubação; c) em tilápias maiores, o Ichthyobodo se aproveita da queda da resistência associada a alguma condição de estresse, particularmente sob temperaturas abaixo de 25°C; d) este parasito não tolera temperaturas acima de 30°C; e) o Ichthyobodo é um dos menores ectoparasitas que infectam os peixes (diâmetro ao redor de 5-8 x 10-15mm); tem formato esférico e piriforme; f) se fixa ao hospedeiro com o auxílio de um disco adesivo; possui 4 flagelos com movimentos rápidos e que podem ser observados ao microscópio; g) apresenta grande potencial reprodutivo e um caráter oportunista; h) sinais clínicos: encontrados na pele (geralmente nos espaços entre escamas), nas nadadeiras e nas brânquias de tilápias em água doce e salgada; causam lesões de pele similares às lesões causadas por outros protozoários; infestação severa nas brânquias podem causar a morte dos peixes por asfixia; i) diagnóstico: feito com a visualização, sob microscopia, de material raspado da superfície do corpo (muco e pele) e das brânquias; j) controle: medidas preventivas como as já sugeridas para outras parasitoses devem ser aplicadas; tratamento terapêutico é feito com sal comum na concentração de 0,5 a 1%; o Ichthyobodo apresenta caráter eurialino e pode resistir a alta salinidade; formalina ou permanganato de potássio nas concentrações e formas de aplicação recomendadas na Tabela 7.

Tabela 7. Produtos e formas de tratamento usados na prevenção e controle de parasitos, fungos e bactérias em tilápias.
Tabela 7. Produtos e formas de tratamento usados na prevenção e controle de parasitos, fungos e bactérias em tilápias.

Piscinoodinium e Amyloodinium: a) o Piscinoodinium é considerado um problema potencial no cultivo de tilápias em água doce em diversos países; é um dinoflagelado de formato arredondado ou amebóide (formato de pêra) e tamanho entre 30 a 140 mm; possui um aparato de fixação denominado rizocisto (com a aparência de raízes) que penetra no tecido do hospedeiro; é um organismo clorofilado, o que lhe confere uma coloração ligeiramente esverdeada; em seu interior podem ser observados os dinosporos, que são formas flageladas e móveis; o ciclo de vida é semelhante ao do Íctio.; as infestações são mais comuns quando a temperatura está ao redor de 23 a 25°C. Infestações em tilápias são mais comuns quando estas são estocadas em alta densidade, mal nutridas e submetidas a uma água de má qualidade e alta carga orgânica; c) o Amyloodinium é um dinoflagelado parasito de tilápias e em água salobra ou salgada; o parasito adulto (trofontes) tem diâmetro entre 50 a 350mm; seu ciclo de vida também é semelhante ao ciclo do Íctio, sendo completado em 5 dias a uma temperatura de 25°C; também possui rizóides como o Piscinoodinium; a temperatura ideal para o desenvolvimento do Amyloodinium varia de 23 a 27°C; as infestações não são observadas a temperatura abaixo de 17°C; d) sinais clínicos: estes parasitos se fixam na pele das tilápias, causando irritação e grande produção de muco que confere ao corpo um aspecto aveludado ou ‘’empoeirado”. Daí o nome comum de “veludo” dado a infestação por estes dinoflagelados; também se aloja no tecido branquial, sendo que infestações severas dificultando a respiração, fazendo com que os peixes fiquem boquejando na superfície da água e possam morrer por asfixia; a infestação pode atingir os olhos e os parasitos podem penetrar debaixo da pele e se alojar no tecido subcutâneo, favorecendo a ocorrência de infecções bacterianas secundárias; e) diagnóstico: é feito através da observação de raspados de pele ou de brânquias ao microscópio ou em exame histopatológico da pele ou brânquias contendo alguma fase dos parasitos; profissionais pouco familiarizados com estes parasitos podem realizar diagnósticos imprecisos; f) controle: não é fácil; melhor prevenir assegurando uma boa qualidade da água nos tanques e viveiros, mantendo os peixes bem nutridos e ajustando corretamente a densidade de estocagem dentro dos limites adequados para o sistema de cultivo; alguns profissionais mencionam que a elevação da temperatura da água para 32 – 34°C, onde possível, auxilia no controle da infestação; o sulfato de cobre também pode ser uma opção de tratamento em doses de acordo com a alcalinidade total da água (Tabela 7); o Piscinoodinium é bastante tolerante ao sal comum (cloreto de sódio) e ao tratamento com formalina. Muitos problemas com oodiniose ocorrem em águas com alta transparência. A entrada de luz favorece o desenvolvimento destes parasitos clorofilados. Assim, uma medida prática que tem apresentado bons resultados no controle do Piscinoodinium em viveiros é o estímulo da formação do fitoplâncton através da diminuição do fluxo de água, aplicação de calcário quando necessário e adubação química dos viveiros ou mesmo a manutenção do arraçoamento se os peixes ainda estiverem se alimentando.

Figura 3: Edema em brânquias de tilápia causado por infestação maciça por Chilodonella sp.
Figura 3: Edema em brânquias de tilápia causado por infestação maciça por Chilodonella sp.

Figura 4: Hemorragia intestinal (presença de grande quantidade de fluído sanguinolento nas alças intestinais) em tilápia vermelha.
Figura 4: Hemorragia intestinal (presença de grande quantidade de fluído sanguinolento nas alças intestinais) em tilápia vermelha.

Esporozoários (Mixosporídios): a) são endoparasitas pertencentes ao filo Myxozoa, família Myxobolidae (Myxobolus e Henneguya); foram observados cistos cutâneos com microsporídos em alevinos de tilápia de Moçambique (O. mossambicus); infestações severas por Henneguya sp. foram observadas em ciclídeos nativos na América do Sul; os mixosporídios podem ser encontrados em tilápias em ambientes naturais, mesmo sem que os peixes apresentem qualquer sinal patológico evidente; sob condições de cultivo intensivo, as infestações por mixosporídios podem ser mais freqüentes; b) a infestação ocorre com a liberação dos esporos dos microsporídios que estão presentes nas cartilagens dos peixes mortos e em decomposição; esporos também podem ser liberados diretamente de peixes vivos; antes de estarem aptos para a infecção, os esporos necessitam passar por um período de potenciação nos sedimentos;c) Myxobolus cerebralis causa a doença de “whirling” ou “doença do rodopio”; este parasito parece estar disseminado no mundo todo e já foram observadas infestações em várias espécies de peixes, inclusive em tilápias em ambientes naturais; ocorre na forma de cistos repleto de esporos localizados nos tecidos; a severidade da doença é maior em peixes jovens; possui ciclo de vida complexo, envolvendo um hospedeiro vertebrado (o peixe) e um invertebrado (o anelídeo Tubifex tubifex); os esporos apresentam formato oval a circular e variam muito de tamanho, geralmente com 7 a 10mm de comprimento por 7 a 10mm de largura e 6 a 8mm de espessura; c) Henneguya: inúmeras espécies de Henneguya foram encontradas em peixes de água doce; em tilápias há muitas referências de infestações por este parasito; a Henneguya apresenta um envelope de formato oval e alongado, no interior do qual estão alojados dois esporos ovais ou fusiforme; do envelope são projetados dois longos processos caudais semelhantes a um chicote, conferindo ao parasito a aparência de um espermatozóide; o tamanho dos esporos varia de 8 a 24mm de comprimento e o processo caudal de 20 a 45mm; d) sinais clínicos: cistos na pele e nas brânquias; também podem ser encontrados cistos no fígado, intestino, músculos, coração, rim, baço e outros tecidos; dentro destes cistos podem ser encontrados milhares de mixosporídios; infestações nas brânquias podem levar a uma oclusão da circulação branquial, necrose e disfunção respiratória; quando alojados nos músculos, os parasitos parecem ter pouco efeito sobre o hospedeiro; relatos de grande mortalidade de tilápias por infestações de microsporídios não freqüentes na literatura; no entanto, em alguns sistemas intensivos com recirculação de água nos Estados Unidos, os microsporídios estão associados a consideráveis perdas econômicas no cultivo deste peixe; o movimento típico de rodopio em infecções por Myxobolus cerebralis resulta da destruição, pelo parasito, dos nervos cerebrais ligados à coordenação motora; lesões na coluna vertebral, com curvatura do tronco e da cauda, estão freqüentemente associadas a destruição do tecido cartilaginoso onde se alojam os cistos com os esporos dos parasitos; o escurecimento da parte posterior do tronco dos peixes também parece estar associado a destruição de nervos associados com o controle da pigmentação do corpo; outros sinais indicativos ocorrência de infestaçõpes por Myxobolus são as deformidades corporais em peixes que sobreviveram as infecções (má formação e retração do opérculo, a curvatura da coluna vertebral e a mal formação da mandíbula); peixes com aspecto sadio e aparentemente não infectados, podem ser portadores dos esporos de mixosporídeos; infestações por Myxobolus cerebralis ou por Henneguya podem reduzir a imunidade das tilápias, tornando-as mais susceptíveis a bactérias, fungos e a infestação por outros parasitos; e) diagnóstico: feito a partir de raspados das lesões e cistos, observando a presença de esporos sob microscopia; a “doença do rodopio” também pode ser diagnosticada com um relativo grau de convicção com base nos sintomas, antes do desenvolvimento dos esporos; o diagnóstico definitivo é feito através de exame histopatológico da cabeça, cartilagem vertebral ou brânquias dos peixes e posterior identificação dos esporos; f) controle: não há terapia para esta doença; a prevenção pode ser feita evitando a introdução de peixes portadores de esporos na piscicultura; peixes adquiridos devem ser submetidos a quarentena; equipamentos e tanques devem ser desinfectados quando suspeitar da ocorrência de mixosporídios; em alguns países como nos Estados Unidos, a ocorrência de mixosporídios deve ser obrigatoriamente notificada às autoridades sanitárias; constatado um foco da doença, alguns procedimentos são adotados: incineração dos peixes que estão com a doença ou com esporos dos parasitos; desinfecção de incubadoras e equipamentos; drenagem e desinfecção dos tanques para a erradicação dos esporos.

Figura 5: Tilápia do Nilo com lesão ulcerativa no opérculo causada por infestação de fungo e bactéria.
Figura 5: Tilápia do Nilo com lesão ulcerativa no opérculo causada por infestação de fungo e bactéria.

Trematodos monogenéticos: a) são ectoparasitas do grupo dos platelmintos; possuem uma estrutura de fixação denominada “haptor”, a qual é equipada com ganchos; o Gyrodactylus sp e Dactylogyrus sp. são os monogenéticos mais freqüentes em tilápias; os problemas com estes parasitos aumentam com a intensificação dos sistemas de produção (aumento nas densidades de estocagem e na carga orgânica na água dos tanques e viveiros); b) Gyrodactylus sp: facilmente identificado pela ausência de olhos e pela existência de um embrião em desenvolvimento dentro do parasito adulto (vivíparo); possui “haptor” com um par de ganchos longos e rodeado por 16 ganchos menores; encontrado no corpo e nas nadadeiras, embora possa se instalar nas brânquias dos peixes; infestação pesada pode causar irritação na pele, fazendo com que o peixe fique letárgico e frequentemente se esfregue no fundo e nas laterais dos tanques; o movimento destes vermes sobre a pele pode ser observado mesmo a olho nu; c) Dactylogyrus sp: facilmente reconhecido pela presença de 4 manchas oculares (4 olhos) e “haptor” com um par de ganchos pequenos e 14 ganchos menores marginais; não gera embriões; a sua reprodução é feita através da liberação de ovos, dos quais eclodem larvas ciliadas que se desenvolvem em formas adultas e, posteriormente, invadem outros peixes. O Dactylogyrus é encontrado nas brânquias dos peixes; d) sinais clínicos: ocorrem na superfície do corpo, nadadeiras e brânquias; aumento na produção de muco, peixes letárgicos e boquejando na superfície; infestação severa nas nas brânquias resulta em inflamação do epitélio branquial e ruptura dos capilares sanguíneos, prejudicando a respiração e levando os peixes à morte por asfixia; e) diagnóstico: feito através do raspado da superfície do corpo ou das brânquias dos peixes e exame do material coletado sob microscopia. Há a possibilidade de se fazer a identificação do parasita diretamente nas brânquias através do uso de uma lupa de mão; f) controle: manter os peixes bem nutridos e garantir adequada qualidade da água, ajustando corretamente as densidades de estocagem e evitando grandes cargas orgânicas nos viveiros e tanques; banhos com formalina a 170-250ml/m3 por 1 hora em tanques e aquários; formalina por tempo indefinido 25ml/m3 em tanques e viveiros; permanganato de potássio como recomendado na Tabela 7; triclorfom em tratamento por tempo indefinido nas doses de 0,5ml/m3 (para tilápias); tratamento indefinido com sal nas concentrações de 0,5 a 0,75%, viável em sistemas de recirculação de água.

Figura 7: Tilápia com lesão fúngica na cabeça.
Figura 7: Tilápia com lesão fúngica na cabeça.

TREMATODOS MONOGENÉTICOS


Crustáceos parasitos: a) a Lernaea cyprinacea e o Ergasilus sp são microcrustáceos pertencentes à família Copepodidae (copépodos). O Argulus sp e o Dolops sp são microcrustáceos da família Branquiurea; b) estes microcrustáceos já foram observados infestando tilápias; c) infestações por estes parasitos depreciam valor comercial dos peixes e podem abrir caminho para doenças fúngicas e bacterianas secundárias, que resultam em considerável mortalidade; c) estes organismos utilizam estruturas específicas de fixação no hospedeiro, causando lesões na pele e brânquias; infestações severas nas brânquias pode resultar em asfixia nos peixes; o Argulus em particular, se alimenta dos fluídos dos peixes com o auxílio de um rostro; pode servir como vetor de vírus e bactérias; infestações por Argulus resultam em anemia, redução no crescimento e até mesmo na perda de peso dos animais; d) Lernaea sp.: várias espécies de Lernaea afetam os peixes; possui ganchos especiais na região cefálica os quais penetram na musculatura dos peixes; apenas a região caudal, com aspecto de verme, é visível externamente; vários órgãos podem ser invadidos pelos processos cefálicos quando a infestação do parasito ocorre na região abdominal; mortalidade de tilápias devido a infestações por Lernaea foram registradas em diversos países; no Brasil, infestação de Lernaea em tilápias geralmente são restritas ao período do inverno, quando os peixes se apresentam debilitados com as baixas temperaturas; o ciclo de vida da Lernaea deve ser entendido para que as estratégias de controle do parasito sejam mais eficazes; e) Argulus sp: mais de 100 espécies de Argulus já foram identificadas; é conhecido como “piolho dos peixes”; há vários relatos de infestação em tilápias; parece ser um importante vetor de doenças virais e bacterianas; apresenta o corpo achatado e oval, podendo medir até 1cm; f) Ergasilus sp: ocorre frequentemente nas brânquias dos peixes, sendo denominados de “larvas das brânquias”; as tilápias parecem apresentar maior resistência à fixação destes parasitos comparados a outros peixes; embora seja um parasito pouco freqüente em tilápias, grandes infestações podem ocorrer em cultivos intensivos com alta densidade de estocagem; causa hipertrofia, inflamação e fusão dos filamentos branquiais, dificultando a respiração dos peixes mesmo sob condições de adequado oxigênio dissolvido na água; g) diagnóstico: os parasitos são visíveis ao olho nu e facilmente identificados; fases jovens (copepoditos) podem ser identificados com o uso de estereoscópio (lupa). h) controle: no caso da Lernaea a melhor política e evitar a introdução de peixes infestados ou não adquirir peixes de fornecedores suspeitos; o uso da quarentena é recomendável antes de distribuir os novos peixes por toda a piscicultura; infestações por microcrustáceos não têm sido observadas em tanques de larvicultura e alevinagem de tilápias; uma explicação para este fato é o hábito alimentar zooplanctófago das pós-larvas e dos alevinos, que acabam controlando as fases jovens destes parasitos; isto abre a perspectiva de uso de um controle biológico, particularmente da Lernaea, em tanques e viveiros de cultivo ou pesca recreativa com a estocagem simultânea de peixes plânctófagos ou filtradores; a duração do ciclo de vida da Lernaea depende da temperatura da água, sendo um fator determinante da estratégia de tratamento a ser adotada. Banhos com sal nas concentrações de 3 a 5% durante 1 minuto é um tratamento eficaz para todos os estágios da Lernaea; o Argulus não é sensível a elevação da salinidade na água, portanto tratamentos com sal comum são ineficazes contra este parasito. O triclorfom na concentração de 0,5mg de I.A./L, controla as fases de náuplios e os copepoditos, mas sua eficiência no controle das fases adultas é questionável. Durante o verão (28 a 32ºC) devem ser feitas 3 aplicações a intervalos de 7 dias entre as aplicações. Nos meses mais frios (15 a 20ºC) o intervalo entre as aplicações deve ser aumentado para 12-14 dias; tilápias são bastante tolerantes a doses elevadas de triclorfom; o controle químico do Argulus também é feito com o uso do triclorfom; outro produto utilizado no controle da Lernaea é o diflubenzuron (dimilin), um inibidor da formação de quitina, aplicado na dose de 0,05 a 0,10 mg/L (0,05 a 0,1g/m3). Antes de proceder ao tratamento com estes produtos, consulte um profissional experiente para melhor esclarecer os risco envolvidos no tratamento e sugerir as melhores estratégias para solucionar o problema;

DOENÇAS BACTERIANAS

Pelo fato de serem de fácil disseminação e por apresentarem caráter oportunista, as bactérias são importantes patógenos na piscicultura intensiva. Embora inúmeras bactérias patogênicas já tenham sido isoladas em tilápias, apresentaremos neste artigo apenas as mais freqüentes e importância econômica: Streptococcus, Aeromonas e Pseudomonas e Flavobacterium columnare.

Existem vários fatores que predispõem os peixes a infecções por bactéria (bacterioses). Dentre os principais destacamos: a) má nutrição; b) inadequada qualidade da água (baixo oxigênio dissolvido e elevados níveis de amônia tóxica e nitrito); c) excessivo acúmulo de resíduos orgânicos nos tanques e viveiros, o que serve de reservatório e substrato para a multiplicação de bactérias e outros organismos patogênicos; d) o abaixamento da temperatura, fator de particular importância no cultivo de tilápias em regiões com inverno bem definido; e) o manuseio grosseiro durante as despescas e as transferências de peixes entre as unidades de cultivo; f) estresse durante o transporte vivo; g) infestações por outros parasitos.

Streptococcus sp.: a) a infecção por Streptococcus é uma das doenças mais sérias nos sistemas de cultivo de tilápias em diversos países; a mortalidade é mais severa e freqüente em sistemas intensivos de criação, principalmente onde há um manejo inadequado da qualidade da água e da nutrição dos peixes; b) é uma bactéia Gram positiva com formato esférico (cocos), encontrada nos mais diversos ambientes; causa infecção em tilápias cultivadas em água doce e salobra; tilápias em água com salinidade entre 15 a 30g/l, sob temperaturas variando de 25 a 30°C, apresentam maior susceptibilidade ao Streptococcus do que quando cultivadas em água doce na mesma condição de temperatura (Chang e Plumb 1996); c) a transmissão do Streptococcus ocorre de forma horizontal (de peixe para peixe), sendo que a bactéria é liberada do peixe já morto ou moribundo para a água. Outra via de infecção é o uso de peixes contaminados com Streptococcus no preparo de rações, procedimento comum em diversos países; d) sinais clínicos: coloração escura do corpo, letargia ou natação errática, em sentido espiralado devido inflamação da meninge cerebral dos peixes; corpo levemente curvado; abdômen distendido; córnea opaca e hemorrágica; hemorragia difusa na pele, ao redor da boca e do ânus; hemorragia na base das nadadeiras e no opérculo; em um estágio mais avançado os olhos podem estar saltados uni ou bilateralmente (exoftalmia); os olhos podem apresentar uma inflamação granulomatosa bastante severa; podem ocorrer lesões na epiderme, incialmente se apresentando como áreas despigmentadas, evoluindo para lesões mais definidas; Os sinais clínicos internos são:acúmulo de fluído sanguinolento na cavidade abdominal, causando ascite (acúmulo de líquido no abdômen); fluído sanguinolento no intestino que é facilmente eliminado pelo ânus após compressão abdominal; o fígado se apresenta pálido, o baço aumenta de tamanho e adquire uma coloração escura, quase negra; o trato digestivo apresenta aparência geral avermelhada (hiperêmico); o coração e o rim também podem estar infectados; e) diagnóstico: o isolamento da bactéria é feito com o uso de meios de cultura seletivos como o BHI, o TSA e o Todd-Hewitt; um diagnóstico presuntivo pode ser realizado com a detecção de coccus Gram positivos no exame histológico do tecido infectado ou em esfregaços; f) controle: para evitar maiores problemas, manter adequada condições ambientais e boa nutrição; remoção imediata de peixes mortos e moribundos; quando a infecção é diagnosticada tardiamente, pouco se pode fazer para reduzir a mortalidade; terapias atuais para o tratamento de septicemia por Streptococcus se baseiam no uso de ração medicada com antibióticos. Em casos avançados da doença, os peixes deixam de se alimentar e este tratamento pode ser de pouco efeito. Em casos menos severos a mortalidade diminui com o uso de ração medicada com antibióticos (Tabela 7); o uso indiscriminado de antibióticos pode levar a um aumento na resistência das bactérias; o melhor procedimento é realizar um antibiograma para se certificar a respeito de qual antibiótico é mais eficaz. Também é importante que o tratamento seja indicado por um profissional experiente e seja administrado corretamente. Vacinas estão sendo avaliadas na prevenção de infecções por Streptococcus e podem abrir novas perspectivas para o controle desta bactéria.

Figura 8: Tilápia com lesão fúngica na cabeça.
Figura 8: Tilápia com lesão fúngica na cabeça.

Flavobacterium columnare: a) causa a columnariose ou “doença da boca de algodão ou da cauda comida”; é uma bactéria Gram-negativa, na forma de bacilos alongados (bastonetes) e móveis, encontrado em colônias na forma de colunas, daí a denominação “Columnare”; b) normalmente habita os sistemas aquáticos e convive em pleno equilíbrio com os peixes, até que haja algum distúrbio ambiental (má nutrição ou piora na qualidade da água) ou pressão de manejo (excessiva densidade de estocagem e inadequado manuseio) e a resistência dos peixes seja diminuída; c) maior incidência nos meses de verão; temperaturas da água entre 28 e 30oC são ótimas para a bactéria; se instala em ferimentos ou lesões corporais causadas aos peixes durante o manuseio (despesca, pesagem, transporte e descarregamento) ou por parasitos, bem como em injúrias nas brânquias causadas por infestações parasitárias ou por um aumento na turbidez mineral da água; a tilápia-do-Nilo parece ser mais susceptível a esta doença quando exposta à água com pH muito ácido ou muito alcalino; d) sinais clínicos: perda de apetite e natação vagarosa; o peixe se isola do grupo e fica boquejando (asfixia) na superfície devido à infecção da bactéria nas brânquias; manchas descoloridas e localizadas na pele; lesões nas margens das nadadeiras, principalmente na caudal, com aspecto de apodrecimento (podridão das nadadeiras); lesões esbranquiçadas/amareladas ao redor da boca, apresentandocrescimento bacteriano com aspecto de tufos de algodão; áreas necróticas amareladas nas brânquias (colônias de bactérias), indicando a destruição do epitélio branquial, o que dificulta a respiração e causa a morte dos peixes por asfixia; e) diagnóstico: diagnóstico presuntivo com base nos sinais clínicos característicos da doença; a visualização das bactérias sob microscopia também auxilia; o diagnóstico definitivo é feito com o isolamento da bactéria em meios de cultura específicos como o meio Ordal?s ou Hsu-Shotts. Descrições destes meios de culturas podem ser encontradas em Pavanelli et al (1998) e Inglis et al. (1993); f) controle: a columnariose é uma infecção secundária; o uso de boas práticas de manejo ajuda a evitá-la; evite injúrias aos peixes durante o manuseio; evite manuseio excessivo em períodos com temperaturas elevadas; o sal serve como profilático nas concentrações de 0,5 a 0,8% (5 a 8kg/m3) em banhos após o manejo ou durante o transporte; o permanganato também pode ser utilizado como preventivo, em banhos de 15 a 30 minutos, após o manuseio e transporte, na concentração de 5mg/litro. Tratamento: oxitetraciclina em banhos prolongados nas concentrações de 20 a 50 mg/litro (20 a 50g/m3); ou na ração em quantidade suficiente para um consumo ao redor de 50 a 75mg/kg PV/dia, durante 10 dias; permanganato de potássio em tratamento por tempo indefinido nas concentrações de 2 a 4mg/L; ou em banhos de 30 minutos a 1 hora na concentração de 5 a 10mg/L; outras opções de tratamento podem ser encontradas no livro “Principais Parasitoses e Doenças dos Peixes Cultivados (Kubitza e Kubitza 1999).

Figura 9: Tilápia do Nilo com áreas despigmentadas sobre o corpo com desenvolvimento de fungos e hemorragias nas nadadeiras.
Figura 9: Tilápia do Nilo com áreas despigmentadas sobre o corpo com desenvolvimento de fungos e hemorragias nas nadadeiras.

Septicemias causadas por AeromonasePseudomonas: a) são bacilos móveis Gram negativos, e freqüentemente estão associadas a um quadro de infecção generalizada (septicemia hemorrágica) em peixes; a incidência é maior em tanques com excessiva carga orgânica e água de má qualidade; peixes submetidos a uma inadequada nutrição e a injúrias físicas durante o manuseio são ainda mais susceptíveis a estas bactérias; b) septicemia por Aeromonas e Pseudomonas em tilápias ocorrem com maior freqüência em períodos de temperaturas baixas ou amenas, quando a resposta imunológica dos peixes é mais reduzida. Nestas condições a mortalidade e os prejuízos podem ser consideráveis; c) sinais clínicos: perda de apetite; natação vagarosa com os peixes se posicionando nas áreas mais rasas dos tanques; escurecimento do corpo; perda do equilíbrio; palidez das mucosas e brânquias (sinais indicativos de anemia; a Aeromonas destrói as hemácias); perdas de escamas; erosão ou destruição das nadadeiras; lesões circulares ou irregulares sobre o corpo, a semelhança de ulcerações; hemorragia nas bordas das lesões e na base das nadadeiras peitorais, pélvicas e caudal; olhos saltados (exoftalmia) e de aspecto opaco e hemorrágico; abdômen distendido com a presença de líquido de aspecto opaco e/ou ligeiramente sanguinolento na cavidade abdominal; fluído amarelado ou sanguinolento no intestino; hemorragia do tipo petequial nos órgãos internos; fígado hiperplásico (com aumento de tamanho), com coloração pálida ou ligeiramente esverdeada e hemorragias focais; o baço apresenta tamanho aumentado (esplenomegalia); os rins também ficam hiperplásicos e com aspecto friável; podem ser observados pontos hemorrágicos na parede interna da cavidade abdominal. Todos estes sinais são comuns em septicemias causadas por bactérias; d) diagnóstico: os sinais indicam que existe uma septicemia generalizada, porém o diagnóstico definitivo só pode ser feito com o isolamento da bactéria em meios de cultura específicos (Rimler-Shotts e TSA); e) controle: devido ao caráter oportunista destas bactérias, a melhor forma de evitar problemas com Aeromonas e Pseudomonas é utilizar boas práticas de manejo; banhos com sal nas concentrações de 25 a 30kg de sal/m3 por 10 a 30 minutos; ou com permanganato de potássio em banhos de 30 minutos a 1 hora na concentração de 5g/m3 são boas medidas profiláticas após o manuseio da despesca e transferências; no transporte utilize sal na concentração de 0,5 a 0,8% (5 a 8kg//m3); terapia para septicemia por Aeromonas e Pseudomonasgeralmente empregam o uso de antibióticos devido ao caráter sistêmico destas bactérias. Na Tabela 7 são indicados algumas possibilidades de terapia para bactérias sistêmicas.

Figura 10: Tilápia do Nilo com lesões ulcerativas e hemorragias na pele.
Figura 10: Tilápia do Nilo com lesões ulcerativas e hemorragias na pele.

Figura 11: Tilápia Vermelha com hemorragia generalizada no corpo e nadadeiras.
Figura 11: Tilápia Vermelha com hemorragia generalizada no corpo e nadadeiras.
Figura 12: Tilápia de diferentes colorações (laranja normal e vermelha com manchas pretas).
Figura 12: Tilápia de diferentes colorações (laranja normal e vermelha com manchas pretas).

Saprolegniose: a) é o nome dado às infecções em ovos, larvas, alevinos e peixes adultos causadas por fungos da família Saprolegniaceae; dentre muitos fungos desta família, podemos destacar os do gênero Saprolegnia, Achlya e Dictyuchus; estes fungos estão distribuídos por todo o mundo, sendo encontrados na maioria dos ambientes aquáticos, vivendo às custas de resíduos orgânicos em decomposição; b) a Saprolegnia parasitica é um dos mais frequentes fungos parasitos de peixes; é identificada pelo seu crescimento micelial branco ou cinza claro, com aspecto de algodão; as hifas (ou filamentos) são longas, finas, ramificadas e não possuem segmentos; na porção final das hifas se formam os esporângios, estruturas que abrigam os esporos, formas infestantes do fungo. Os fungos geralmente agem como agentes secundários em peixes com lesões externas causadas por bactérias e parasitos. A inadequada nutrição e injúrias físicas devido ao mau manuseio durante a despesca, pesagem, transporte e descarregamento facilitam a infestação. Infecções por Saprolegnia em tilápias são bastante freqüentes durante o período do inverno e no início da primavera (quando o manuseio dos peixes começa a ser intensificado), e os peixes ainda apresentam reduzida resposta imunológica. O crescimento do fungo é acelerado a temperaturas entre 18 e 26ºC e tende a se reduzir em temperaturas mais elevadas. Infecções em tilápias são facilitadas quando estes peixes estão submetidos às seguintes condições: 1) temperaturas abaixo de 24ºC e variações bruscas de temperatura; 2) pH da água em valores extremos; 3) má nutrição; 4) manuseio grosseiro, ocasionando perdas de escamas e outros ferimentos; 5) água com excessiva carga orgânica, o que favorece a proliferação dos fungos; c) sinais clínicos: o primeiro sinal de infecção é a presença de áreas despigmentadas na pele dos peixes; com a multiplicação e crescimento das hifas, as áreas necrosadas começam a ser recobertas por pequenos “tufos de algodão” ou micélio (colônia formada pelas hifas); a destruição da pele e das escamas pode chegar a um ponto letal aos peixes; infecções nas brânquias podem resultar na asfixia dos peixes; peixes mortos são ricos reservatórios de esporos destes fungos devendo, portanto, ser removidos dos aquários tanques e viveiros; d) diagnóstico: é feito através dos sintomas observados no peixe e com a visualização, ao microscópio, do material raspado das lesões; e) controle: antes de iniciar qualquer tipo de tratamento, devem ser identificadas e corrigidas as causas que predispuseram os peixes à infecção fúngica: má nutrição, manuseio inadequado, infecções bacterianas ou parasitárias, queda brusca na temperatura, inadequada qualidade da água, manuseio de peixes sob condições inadequadas de temperatura (geralmente sob baixas temperaturas), entre outras. Os possíveis tratamentos para controlar infecções por saprolegnia são: Formalina em banhos de 1 hora nas concentrações de 150 a 300 ppm (15 a 30ml/100L); ou tratamento por tempo indefinido na concentração de 25ml/m3 em tanques e viveiros; Sal comum na concentração de 3 a 5% (300 a 500g/10L) em banhos de 5 a 10 minutos ou até o ponto em que o peixe tolerar ou se mostrar estressado; Sulfato de cobre em doses de acordo com a alcalinidade total da água (Tabela 7). Outras opções de tratamento podem ser encontradas em “Principais Parasitoses e Doenças dos Peixes Cultivados (Kubitza e Kubitza 1999).