Procambarus clarkii já está sendo pesquisado pela UFC

Por: Marco Antonio Igarashi, Professor do Departamento de
Engenharia de Pesca da Universidade Federal do Ceará. Fotos do autor.


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Desde setembro de 1996 estão sendo realizados experimentos nos laboratórios da Universidade Federal do Ceará visando a possibilidade de se cultivar o lagostim Procambarus clarkii, também conhecido como a lagosta de água doce. Os primeiros resultados são bastante animadores, com a espécie se adaptando com grande facilidade as nossas condições de cultivo, o que demonstra sua viabilidade técnica. Já foi possível para os pesquisadores da UFC obterem a desova do lagostim, completando-se poucos meses depois, o desenvolvimento dos juvenis até a maturidade sexual.

Lagostim de Água Doce

Os lagostins, também conhecidos como lagosta de água doce, reúnem vários gêneros e mais de 300 espécies. Habitam águas doces da Eurásia, Austrália, Nova Zelândia, América do Norte, Canadá Guatemala e do sul da América do Sul. A produção anual estimada situa-se entre 50.000 e 100.000 toneladas, das quais 60.000 provêm do sul dos Estados Unidos nos anos de grande produção. Segundo a publicação Crustacean Farming, entre 1988 a 1990 a produção de lagostim de água doce cultivado chegou a aproximadamente 30 mil toneladas.

A espécie Procambarus clarkii é responsável por pelo menos 85% do volume de todos os lagostim dos Estados Unidos. Natural dos Estados Unidos esta espécie foi introduzida nos seguintes países: África, Espanha, Caribe, Japão, Taiwan, França, China e Tailândia, além da América Central e América do Sul. Na Espanha e na China já se produz uma significante quantidade.

Nos países sujeitos a variações climáticas sua produção é altamente variável, como é o caso dos Estados Unidos e do Kênia.

Em seu habitat natural, o lagostim Procambarus clarkii pode ser encontrado em lagos, viveiros, brejos e valas, perambulam durante os períodos de chuva e procuram abrigos em buracos.

Condições da Água do Cultivo

O lagostim pode resistir a uma ampla faixa de condições ambientais. Eles se desenvolvem bem em uma temperatura da água entre 20 a 25 oC, 3 ppm de OD, salinidade menor que 5‰, pH de 6,5 a 8,5 e menos de 1 ppm de amônia total.

Desenvolvimento e Muda

Segundo alguns estudos, leva no mínimo 11 mudas para um jovem lagostim Procambarus clarkii maturar. Este período pode variar de 3 a 9 meses dependendo das condições ambientais, temperatura, qualidade e quantidade da água. O Procambarus clarkii pode atingir o tamanho de 30 a 80 g em 1 ano ou menos e vive de 3 a 4 anos.

Alimentação

O lagostim tem sido descrito como onívoro. Alimenta-se de vegetais e animais. Sua dieta é composta basicamente de detrito enriquecido microbiologicamente. Alimenta-se também de minhocas, larvas de inseto, moluscos, vermes, peixes, girinos, zooplancton etc…, sendo também importantes fontes de nutrientes para lagostim imaturo. O lagostim pode também se alimentar de ração peletizada para trutas e há pesquisadores que citam a possibilidade de se oferecer também ração destinada para camarões e lagostas.

Reprodução

Existem espécies de lagostim que reproduzem uma vez ao ano, enquanto que o Procambarus clarkii reproduz durante o ano todo, se houverem condições ambientais favoráveis. O macho transfere o esperma para um receptáculo seminal entre os pereiópodos (patas utilizadas para locomoção) da fêmea, onde eles permanecem viáveis por até 6 meses. Ocorre a extrusão dos óvulos pelo oviduto localizado na base interna do terceiro par de pereiópodos e são fertilizados pelo esperma, quando então uma secreção pegajosa sai das glândulas na superfície ventral de vários segmentos abdominais. Os ovos tornam-se fixos aos pleópodos (pata natatória ventralmente ao abdômen), iniciando a incubação.

Os ovos ficam pendurados como amoras e são arejados pelo movimento dos pleópodos. A eclosão normalmente ocorre em 2 a 3 semanas, à temperatura de 20 a 25 oC. Em temperatura mais baixa, seu desenvolvimento torna-se progressivamente mais lento.

A fecundidade depende do tamanho da fêmea. Uma fêmea de 7,5 a 8,5 cm por exemplo, pode produzir cerca de 100 ou mais óvulos. Já uma fêmea com 12,5 cm pode produzir de 600 a 700 óvulos.A média pode ser de 300 óvulos por fêmea.

Após a eclosão, o jovem se assemelha a um lagostim em miniatura, com cerca de 4 mm de comprimento. Os lagostins recém nascidos permanecem fixos à fêmea por algum um tempo, algumas vezes até o segundo estágio, possivelmente atraídos pelos feromônios maternais.

Viveiros

Os viveiros podem ser de 0,1 a 0,5 ha, podendo nos EUA haver duas colheitas ao ano com produção de 50 a 3000 Kg/ha. O Procambarus clarkii pode também ser cultivado em campos de 12 a 16 ha onde se cultiva arroz.

Podem ser estocados a uma densidade de 3 a 5 animais/m2 com uma proporção de 1 macho para cada fêmea. Os lagostins, de preferência, não deverão ser mantidos em uma densidade alta pois parecem territoriais, podendo travar lutas perdendo parte de seus membros. Nos viveiros aconselha-se introduzir abrigos devido a agressividade entre eles. Todavia, os fatores que podem amenizar o canibalismo é o fornecimento de uma boa alimentação, controle da densidade e a introdução de abrigos. Os predadores de lagostins, além do homem, incluem certos peixes, grandes salamandras, quelônios e cobras d’água, garças, martins-pescadores e outras aves e alguns mamíferos aquá-ticos.