Produção Intensiva de Peixes em Tanques-Rede e Gaiolas

Estudo de Casos

Por: Gustavo L. N. Bozano – e-mail: [email protected]
e José Eurico Possebon Cyrino – e-mail: [email protected]


O sistema de criação de peixes em tanques-rede ou gaiolas é classificado como um sistema intensivo de renovação contínua de água. Gaiolas são estruturas de tela ou rede, fechadas de todos os lados, que retêm os peixes e permitem a troca completa de água, na forma de fluxo contínuo, que remove os metabólitos e fornece oxigênio aos peixes. É uma das formas mais intensivas de criação atualmente praticadas e tem se tornado popular devido ao fácil manejo e rápido retorno do investimento. A criação de peixes em tanques-rede e gaiolas de forma intensiva, foi um dos temas do III Simpósio sobre Manejo e Nutrição de Peixes ocorrido em outubro passado em Campinas – SP, promovido pelo CBNA – Colégio Brasileiro de Nutrição Animal.

O investimento necessário para a produção de uma tonelada de peixe em tanque-rede é 30-40% daquele para viveiros convencionais. Este fato, aliado às altas produtividades que este sistema de criação de peixes pode proporcionar, tem sido responsável pela grande expansão que se tem observado em todo o mundo.Existem vários fatores que influenciam a capacidade de suporte, o desempenho e a sobrevivência da criação de peixes em gaiolas e tanques-rede, sendo que a escolha da espécie, qualidade da água, dimensões do tanque-rede, alimentação e a densidade de estocagem, são os principais fatores que afetam o sucesso da criação de peixes neste sistema.

A tilápia do Nilo, Oreochromis niloticus, uma espécie originária dos rios e lagos africanos que foi introduzida no Brasil em 1971 em açudes do nordeste, é hoje a segunda espécie de peixe mais criada no mundo. É uma espécie precoce que apresenta excelente desempenho em diferentes regimes de criação. Em regimes extensivos, apenas com adubação dos viveiros, alcança produtividades de até 3.500 kg/ha/ano, em regimes semi-intensivos, com renovação de água (10 l./seg/ha) e rações de boa qualidade, chega a produzir 15.000 kg de pescado/ha/ano. Quando criada em tanques-rede ou gaiolas, a tilápia do Nilo apresenta índices de desempenho muito bons. Com o uso de rações completas e gaiolas de pequeno e médio volume, é possível atingir produtividades de 250 a 300 kg/m3.

O sistema de criação de peixes em gaiolas e tanques-rede apresenta vantagens e desvantagens. Como vantagens pode-se citar: menor variação dos parâmetros físico-químicos da água durante a criação; maior facilidade de retirada dos peixes para venda (despesca); menor investimento inicial; possibilidade do uso ótimo da água com o máximo de economia; facilidade de movimentação e recolocação dos peixes; intensificação da produção; otimização da utilização da ração melhorando a conversão alimentar; facilidade de observação dos peixes melhorando o manejo; redução do manuseio dos peixes facilitando o controle da reprodução (da tilápia); diminuição dos custos com tratamentos de doenças; possibilidade de criação de diferentes espécies no mesmo ambiente, permitindo o remanejamento total de toda a criação para outro local, se necessário.          

Como desvantagens pode-se citar: necessidade de fluxo constante de água através das redes, suficiente para manter um bom nível de oxigênio; dependência total do sistema em rações artificiais/comerciais completas de qualidade superior; risco de rompimento da tela da gaiola e perda de toda a produção; possibilidade de alteração do curso das correntes aumentando o assoreamento dos reservatórios; e a possibilidade de introdução de doenças ou peixes no ambiente, prejudicando a população natural.

A criação de peixe em regime intensivo é baseada em elevadas taxas de estocagem e na utilização de rações de alta conversão alimentar. Os resíduos deste tipo de criação – alimentos não consumidos e material fecal, aumentam o teor de nutrientes no sistema, principalmente nitrogênio e fósforo, enriquecendo o ambiente. Este enriquecimento é benéfico até certo ponto, promovendo aumento na população de peixes do ambiente natural. Entretanto, o superenriquecimento do ambiente torna-se poluição, uma vez que favorece a proliferação de algas e o acúmulo de lodo anaeróbio, o que diminui a disponibilidade de oxigênio no meio. Como os peixes confinados em tanques-rede não têm como se deslocar para locais com melhor qualidade da água, é necessário que seja dispensada atenção especial ao monitoramento da qualidade da água e ao posicionamento dos tanques-rede nos corpos d’água.

O estresse nutricional é muito comum em peixes criados em tanques-rede e gaiolas. A maioria dos problemas que ocorrem neste sistema de criação estão relacionados à nutrição. Em piscicultura intensiva os gastos com alimentação normalmente se situam entre 50 e 70% dos custos totais de produção. Para a criação de peixes em tanques-rede e gaiolas, alimentação e nutrição adequadas são fundamentais para um bom desempenho e sobrevivência dos peixes. A ração utilizada para peixes criados em tanques-rede e gaiolas deve ser nutricionalmente completa e balanceada. A qualidade da ração, a taxa de alimentação e a conversão alimentar são essenciais para que o sistema de criação de peixes em tanques-rede seja viável economicamente. Além disso, a utilização de rações de boa qualidade diminui a poluição do ambiente, diminuindo os riscos de um colapso do sistema. Quanto mais eutrofizado o ambiente, menor a utilização e aproveitamento das rações fornecidas. Finalmente, deve-se notar que a conversão alimentar dos peixes varia de acordo com diversos fatores, como o sistema de criação utilizado, qualidade e forma do alimento, freqüência de alimentação, forma de distribuição do alimento, ambiente de criação, tamanho e sexo dos peixes, densidade de estocagem, qualidade e temperatura da água, etc…

Apesar da tilápia nilótica ter o hábito alimentar fitoplanctófago, utilizando o alimento natural como base da sua dieta, no sistema de tanques-rede a complementação que esta fonte de alimento faz às rações fornecidas, normalmente não é suficiente para suprir as exigências em vitaminas, minerais e aminoácidos. Os trabalhos testando diferentes taxas de alimentação e uso de alimentador de demanda automático para tilápias em tanques-rede, mostra que a alimentação ad libitum entre 90 e 100% da sociedade promove melhores resultados de crescimento. Não existem diferenças significativas em termos de crescimento e conversão alimentar entre o sistema de alimentadores de demanda e a alimentação com quantidades pré-fixadas, porém a diminuição com custos de mão-de-obra obtida com o uso de alimentadores automáticos foi em torno de 90%.

As densidades nas quais as diferentes espécies podem ser estocadas é um importante fator na determinação do custo de produção em relação ao capital investido. Se a taxa de sobrevivência e crescimento não sofrerem alterações, quanto maior a densidade de estocagem menor será o custo unitário de produção. Deve-se esperar que as densidades variem de espécie para espécie. Este fator aliado à idade, tamanho, manejo, condições ambientais e alimentação é crucial para obtenção de crescimento e produtividade máximos/ótimos.

Uma densidade de estocagem ótima é representada pela maior quantidade de peixes produzida eficientemente por unidade de volume de um tanque-rede. Produção eficiente não significa o peso máximo que pode ser produzido, mas sim o peso que pode ser produzido com uma conversão alimentar adequada, num período curto e com um peso final aceito pelo mercado consumidor.

Com o aumento da densidade de estocagem, a biomassa total também aumenta, porém o peso individual tende a diminuir, diminuindo também o valor comercial. Por outro lado, a homogeneidade de peso entre os peixes aumenta à medida que se eleva a densidade de estocagem. A densidade de estocagem depende das condições ambientais, fluxo de água e nível tecnológico empregado na criação. Portanto, é necessário determinar a densidade de estocagem ideal para cada situação a fim de se obter os melhores resultados.

Economicidade da criação de tilápia nilótica e vermelha Oreochromis sp. em tanques rede em regime intensivo – estudo de casos

A criação de tilápias (monosexo) em regime intensivo é uma das atividades aquaculturais que reúne melhores condições de viabilidade técnico-econômica. Como para qualquer outro ramo de atividade na aqüicultura, o principal desafio da tilapicultura é a redução de custos, em três vertentes: redução do tempo de cultivo sem reduzir o peso final do abate; melhoria no aproveitamento da ração (melhoria dos índices de conversão alimentar) e redução dos investimentos em instalações.

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Os dados existentes sobre economicidade da piscicultura brasileira não permitem que se cheguem a quaisquer conclusões precisas, uma vez que a confiabilidade e o detalhamento destes dados estão ainda longe de serem alcançados. Quando se trata de criação em regime intensivo em gaiolas, a carência de dados é ainda maior. Deste modo, apresentamos a seguir dois estudos de casos, com dados referentes aos custos fixos e variáveis, com a pertinente análise de viabilidade econômica simplificada, da produção da tilápia em regime de criação intensiva em gaiolas, a partir de modelos praticados na Piscicultura Barra Mansa (Mendonça, SP) e na Piscicultura São Pedro (Novo Horizonte, SP). Os quadros demonstrativos da análise econômica das propriedades foram elaborados utilizando-se dados compilados da escrituração zootécnica das propriedades, posta à disposição pelos proprietários.

Estudo de Caso 1: Piscicultura Barra Mansa

A propriedade caracteriza-se por uma área cultivável aproximada de 40 hectares, explorando primariamente a bovinocultura de corte. A propriedade possui uma praia de aproximadamente 600 metros no córrego Barra Mansa, represado pelo Reservatório da UHE de Promissão (CESP, SP) local onde foram implantados 12 tanques-rede de dimensões 2,8 x 2,8 x 1,5 m submerso, representando 11,8 m3 de volume útil. O potencial estimado da área é de 200 tanques-rede. Na primeira etapa, os 12 tanques-rede foram estocados com 3.500 alevinos de tilápias nilóticas e vermelhas Oreochromis sp. Cada um (300 peixes/m3), permitindo uma produção média de 1.770 kg por tanque-rede (produção média de 150 kg/m3; peso médio final = 500g), com um ciclo de produção de 8 meses (fevereiro-setembro) e com uma taxa de sobrevivência no período superior a 90%.

A implantação do projeto contou desde o início com a assistência técnica de um especialista em piscicultura, e a administração é feita pelo proprietário. O número de funcionários utilizados para cada atividade da criação foi: alimentação e outras atividades rotineiras: 1; biometrias: 3; despesca: 6 pessoas. O pessoal empregado na execução das atividades de rotina e biometrias é composto de empregados permanentes da propriedade, que atuam nas diversas atividades da propriedade e foram treinados pelo responsável técnico para a execução das tarefas programadas.

Quadro demonstrativo da análise econômica da criação de peixes no sistema de tanques-rede em regime intensivo na Piscicultura Barra Mansa.

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Fazenda Santo Antônio, Novo Horizonte - SP - 60.000 Kg / Safra
Fazenda Santo Antônio, Novo Horizonte – SP – 60.000 Kg / Safra

A análise econômica mostra que embora os resultados tenham sido positivos, a primeira safra não apresentou uma viabilidade econômica muito atrativa, uma vez que muitos dos recursos envolvidos na implantação, custeio e manejo dos 12 tanques-rede poderiam também ser utilizados para um número maior de unidades. Isto pode ser comprovado pela redução no custo de produção do kg do peixe, de R$ 1,51 para R$ 1,19 observada na projeção de ampliação do projeto de 12 para 60 tanques-rede, apesar da necessidade da contratação de mais um funcionário para a piscicultura. O valor que mais onerou os custos variáveis, e que conseqüentemente apresenta maior sensibilidade na determinação da viabilidade econômica deste modelo de empreendimento, foi o custo com ração. A tendência do preço de venda da tilápia, e de outras espécies de peixes, é a queda para valores abaixo de R$ 2,00/kg. Esta tendência deve ser acompanhada pela diminuição dos gastos com ração através principalmente da melhoria da conversão alimentar, que nesta safra foi de 1,55 kg de ração para cada quilograma de peixe produzido.

Estudo de Caso 2 – Piscicultura São Pedro

A propriedade caracteriza-se por uma área cultivável aproximada de 250 ha, explorando primariamente a citricultura, a bovinocultura de corte e a heveicultura (seringueiras). A propriedade possui uma baia de aproximadamente 150 m de largura, adjacente à desembocadura do córrego D’antinha, também represado pelo Reservatório da UHE de Promissão (CESP, SP). Foram implantados 40 tanques-rede de dimensões 2,8 x 2,8 x 1,5 m submerso, representando 11,8 m3 de volume útil. O potencial estimado da área é de 120 tanques-rede. Na última safra, os 40 tanques-rede foram estocados com 3.500 alevinos de tilápias vermelhas e nilóticas Oreochromis sp. cada um (300 peixes/m3), permitindo uma produção média de 1.770 kg por tanque-rede (produção média de 150 kg/m3; peso médio final = 500g), com um ciclo de produção de 8 meses (novembro-junho) e com uma taxa de sobrevivência no período de 92%. O segundo ciclo de produção já em andamento caracteriza-se pela substituição total do plantel de tilápias vermelhas por tilápias do Nilo Oreochromis niloticus que, na estrutura da piscigranja, apresentaram melhor desempenho e aumento da densidade de estocagem para 360 peixes/m3.

O projeto contou com a assistência técnica de um especialista em piscicultura a partir da segunda safra. A administração da piscicultura é conduzida pelo proprietário. O número de funcionários utilizados para cada atividade da criação foi: alimentação e outras atividades rotineiras: 1; biometrias: 3; despesca: 6. O pessoal empregado na execução das atividades de rotina e biometrias é composto de empregados permanentes da propriedade, que atuam em todas as atividades da fazenda e foram treinados pelo responsável técnico para a execução das tarefas programadas.

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A abordagem empresarial neste caso foi mais agressiva que no Caso 1. O projeto inicial foi concebido com metas mais ambiciosas, e revelou viabilidade econômica e potencial de lucro. Entretanto, a exemplo do Caso 1, o valor que mais onerou os custos variáveis, e que conseqüentemente apresenta maior sensibilidade na determinação da viabilidade econômica deste modelo de empreendimento, foi o custo da ração.

De qualquer maneira, o estudo do Caso 2 revela de modo mais incisivo que o escalonamento da produção tem um reflexo significativo no abaixamento dos custos de produção. Para acompanhar as tendências do mercado – produção de pratos semiprontos, o piscicultor em geral terá que passar a fornecer peixes para os frigoríficos, que praticarão preços de venda bastante inferiores àqueles praticados hoje, reflexo da procura de peixes vivos para suprir a demanda da indústria da pesca esportiva.

A evolução dos projetos e o uso dos sistemas de criação de peixes em tanques-rede em regime intensivo deverão ser obrigatoriamente acompanhada da redução do custo de alimentação, da melhoria dos índices de conversão alimentar aparente, do aumento da produtividade por unidade de volume dos tanques-rede e, finalmente, pela produção em larga escala.

Considerações finais

No atual estágio de desenvolvimento, não é possível afirmar ou concluir que existe um modelo adequado de produtividade e viabilidade econômica para a piscicultura em tanques-rede ou gaiolas no Brasil. Existem experiências isoladas, umas mal, outras bem sucedidas, nas várias regiões brasileiras, que serviriam de casos de estudo para os pesquisadores e técnicos brasileiros.

A análise da viabilidade técnica e econômica dos projetos de piscicultura em tanques-rede deve ser feita caso a caso, levando em conta as peculiaridades fisiográficas, climáticas e econômicas de cada região. Assim sendo, é possível apenas sugerir ou recomendar que, em função de bons resultados verificados em casos específicos, e levando em consideração o imenso potencial hídrico e as benesses climáticas do território brasileiro, seja feito um esforço coordenado das várias áreas de nossa piscicultura – pesquisa, extensão, produção e indústria de transformação, a fim de definir um modelo regionalizado para a exploração da piscicultura neste sistema de criação.

É bom lembrar ainda que todo esforço no sentido de tornar viável uma prática agro-industrial qualquer deve ser norteado pela racionalidade técnica, respeitando os limites de uso sustentado dos vários ambientes de nossos ecossistemas.