Produtividade da Pesca nos Açudes do Nordeste

Por: José Jarbas Studart Gurgel
Prof. Adjunto da Universidade Federal do Ceará


Há em todo semi-árido nordestino cerca de 300 açudes públicos de pequeno, médio e grande portes, dos quais 100 têm as atividades de pesca controladas pelo Departamento Nacional de Obras Contras as Secas (DNOCS).

Desses açudes produtores de pescado, 64% foram construídos no período de 1901 a 1960, enquanto a pesca só passou a ser controlada à partir de 1941, alcançando 70% do total de açudes no final de 1970.

Verifica-se assim que a maioria desses reservatórios é de idade avançada, enquanto a exploração pela pesca é bastante recente.

É sabido por conta de pesquisas realizadas que a produtividade pesqueira de um açude depende, principalmente, das condições físicas, químicas e biológicas da água determinadas pela natureza do solo da área inundada, da riqueza em nutrientes dissolvidos, bem como da idade do açude.

Nas regiões tropicais, onde os processos bioquímicos ocorrem com impressionante rapidez, ao ponto de exaurirem em pouco tempo os solos drenados, os açudes do Nordeste examinados à luz da produtividade biológica, apresentam três distintas fases cronológicas:

1) de incremento trófico, que corresponde a idade de 0 a 20 anos;

2) de estabilidade trófica, cuja faixa se estende dos 21 ao 30 anos e

3) de declínio trófico, para aqueles com mais de 31 anos de construídos.

Pode-se assim observar que 64% dos açudes nordestinos já se encontram na terceira idade, com índices de produtividade de pesca cada vez mais baixos. Verificou-se que os dois mais antigos açudes, o Cedro e o Acarau-Mirim, apresentam uma produtividade pesqueira de apenas 76,3 kg/ha/ano, enquanto a média de todos os 100 reservatórios foi de 111,7 kg/ha/ano. Individualmente, este índice variou de um mínimo de 12,7 kg/ha/ano, correspondente ao açude Gravatá a um máximo de 1.011,1 kg/ha/ano, devido ao açude Jaramataia, ambos localizados no Estado de Alagoas.

A Determinação dos índices de produtividade da pesca dos açudes do Nordeste foi feita por nós na Universidade de Waterloo, Canadá, e se levou em consideração os anos de atividade pesquisa de cada reservatório analisado.

Apenas 25% dos açudes se encontram na segunda idade, com índice médio de 158,2 kg/ha/ano, enquanto 11% ainda estão na primeira fase, sendo eles os açudes Açu (RN), Pedras Brancas (CE), Edson Queiroz (CE), Mendubim (RN), Realejo (CE), Patu (CE), Carão (CE), Pinhões (BA), Manoel Balbino (CE), Engº Thomaz Alencar (CE) e Premuoca (CE).

Outro aspecto que se levou em consideração para estudo da produtividade da pesca, foi quanto ao tamanho do açude, em termos de área de superfície.

A maioria dos açudes nordestinos, ou seja 54%, possue pequena área, inferior a 500 ha, enquanto em 28% ele varia de 500 a 1.899 ha e em 18% é superior a 1.900 ha.

A maior produtividade da pesca, média de 236,6 kg/ha/ano, correspondeu aos açudes de pequeno tamanho, com área inferior a 100 ha. Os grandes açudes apresentam baixa produtividade, com média de 89,4 kg/ha/ano.

Conclue-se que, no tocante ao aproveitamento pela pesca, não é uma boa política a construção de grandes açudes no semi-árido do Nordeste. São inúmeros os exemplos que se conhece de grandes e velhos açudes que quase nada mais produzem em matéria de peixe para o homem. Diante deste aspecto biológico é que temos sempre nos manifestados contrários à construção da grande barragem do açude Castanhão, no Ceará considerada como finalidade a produção de pescado. Ressalte-se contudo a importância desta obra para a irrigação, abastecimento público, controle de enchentes e geração de energia elétrica. Por atender melhor aos interesses biológicos pesqueiros, desde os primeiros momentos dos controvertidos debates sobre a viabilidade da construção do açude Castanhão, nos manifestamos favoráveis ao barramento de vários trechos do rio Jaguaribe, respaldados pelos estudos científicos em causa.