Produtores de ornamentais: O perfil dos aquicultores que abastecem o mercado

De onde vêm os peixes ornamentais destinados à aquariofilia? Apesar de ainda encontrarmos animais provenientes da captura, mostraremos aqui o trabalho de alguns aquicultores que fornecem peixes, tanto para as lojas quanto diretamente ao consumidor final. Os atores protagonistas do artigo desta edição são os pequenos, médios e grandes produtores que atuam de Norte a Sul do país.

Por:

Por: Paulo Mário Carvalho de Faria paulomcfaria@yahoo.com.br Escola Agrícola de Jundiaí – UFRN
Paulo Mário Carvalho de Faria
Escola Agrícola de Jundiaí – UFRN
[email protected]

Karina Ribeiro
Escola Agrícola de Jundiaí – UFRN
[email protected]

Camila Fernanda Almeida
PRODEMA – UFRN
[email protected]

Felipe Weber Mendonça Santos
Consultor na Empresa Aruanã
[email protected]

Rudã Fernandes Brandão Santos
Laboratório de Enzimologia,
Departamento de Bioquímica – UFPE
[email protected]


Produtores de ornamentais costumam entrar na atividade de produção por motivos diversos, que vão do gosto pela aquariofilia, passando pelos que são motivados pela visão empreendedora, pela diversificação da produção ou até mesmo pela obra do acaso.

Os episódios mais comuns são protagonizados por jovens aquaristas que tentam obter lucro com os alevinos que nascem em seus aquários. E é desta forma que se dá o início de um processo de aumento da produção, com os animais deixando de ser comercializados entre amigos, passando a ser direcionados para as lojas especializadas.

A grande maioria, é claro, não continua na atividade, mas os muitos que permanecem podem obter do hobby uma renda extra. Já os mais focados a transformam numa renda fixa e num meio de vida. Assim, é comum que os aquaristas comecem a produção com a criação de betta (Betta splendens) ou guppies (Poecilia reticulata), devido a facilidade de cultivo em pequeno espaço, maior demanda e ainda por existirem muitas variedades de linhagens. Alguns produtores serão citados como forma de exemplificar diferentes perfis de produção.

Existem milhares espalhados pelo Brasil, cada um com sua especificidade. Infelizmente, as estatísticas de produção nacional são falhas, e a identificação destes produtores por parte dos órgãos de controle, fiscalização e fomento são sempre subdimensionadas.

O hobby que se transforma

Aelison Gleidson, conhecido como “Japa” ou AG Bettas de Linhagem é um garoto de 18 anos de idade, morador do município de Parnamirim (RN). Iniciou como hobbista aos nove anos criando bettas comuns, e dois anos depois se encantou pelos bettas de linhagem. Adquiriu alguns exemplares e iniciou, em um cômodo de sua casa, uma pequena produção em garrafas pet. Aos 14 anos visitou uma exposição de bettas de linhagem em Natal-RN, onde foi presenteado com um exemplar de betta de linhagem por um dos expositores.

A partir daí o interesse pela produção só aumentou, e no final de 2015 passou a participar como competidor nas exposições. Neste mesmo ano, após ganhar seu primeiro prêmio, passou a se dedicar e investir na área. Já como produtor de peixes ornamentais, ao invés de ganhar mesada, “Japa” passou a ganhar seu próprio dinheiro, passou a auxiliar nas contas da casa, e até ajudou seu pai a comprar um carro. Atualmente, Japa possui aproximadamente 20 linhagens de betta e comercializa o casal por valores aproximados de R$ 150,00.

Diferente dos sonhos da maioria dos garotos da sua idade, seus planos para 2017 são ampliar sua produção e colher os frutos dos investimentos em matrizes que realizou em 2016. Pretende ainda investir na sua capacitação e ingressar em um curso na área de aquicultura. “Japa” é apenas um entre centenas de exemplos de produtores que iniciam sua produção através do hobby, demonstrando que é possível transformar esta atividade em trabalho, mas para isso, dedicação e empenho podem determinar a continuidade e consolidação no mercado dos peixes ornamentais.

 

Aelison Gleidson, o "Japa", de Parnamirim (RN) recebendo seu primeiro troféu da carreira em 2015 e sua estrutura de produção
Aelison Gleidson, o “Japa”, de Parnamirim (RN) recebendo seu primeiro troféu da carreira em 2015 e sua estrutura de produção

O campeão dos bettas

Rômulo Júnior, de João Pessoa-PB, é o atual campeão do Circuito Nordestino de Bettas de Linhagem e vencedor do Campeonato Nacional de Bettas (Enabettas). Sua trajetória profissional se confunde com a história da sua família. Em 1992, seu pai, Rômulo Fonseca Vieira, adquiriu um sítio onde pretendia cultivar gado de leite e ampliar sua pequena criação de peixes ornamentais. Iniciou o cultivo produzindo bettas, guppies, carpas e kinguios. Seus dois filhos sempre estiveram presentes na criação e o auxiliavam desde crianças. A partir de 2001 passou a dedicar exclusivamente ao cultivo de peixes, abandonando outras fontes de renda. O sistema de produção utilizado sempre foi em tanques de alvenaria, construídos nas dependências de sua propriedade, além de alguns viveiros de terra. Em tanques suspensos, hoje utiliza garrafas pet na separação de bettas, onde em aproximadamente 10.000 garrafas produz 3.000 bettas por mês.

Em 1993 a esposa de Rômulo presenteou seus dois filhos, Rômulo Jr. (15 anos) e Rodrigo (12 anos), com 15 tanques de cultivo cada um. Nestes tanques iniciaram a produção que viria a ser a fonte de renda dos dois hoje. Rodrigo, o mais novo, trabalhou com a produção e mais tarde começou a se dedicar à aquisição e revenda de peixes, o que o levou a montar uma distribuidora e atualmente uma loja, uma das maiores da região. Rômulo Júnior, depois de passar pela produção de bettas comuns, iniciou o investimento em bettas de linhagem e ampliou sua estrutura, utilizando principalmente tanques de alvenaria e aquários.

Os tanques ficam em uma área externa fechada por sombrite, e em um depósito de 4 x 8 m ficam os aquários em prateleiras para estoques de matrizes e desenvolvimento final dos peixes, que são observados diariamente em um processo de seleção criterioso. Atualmente são produzidos aproximadamente 1.000 casais por mês, mas no máximo 250 são selecionados e comercializados a um valor médio de 130 reais. O gasto elevado na aquisição de matrizes, na compra de rações especiais e ainda a participação em todas as competições nacionais são alguns dos investimentos necessários para se manter nessa área.

A dedicação constante e o gosto pela atividade fizeram de Rômulo o criador com maior número de premiações nas competições nacionais dos últimos anos. Em 2012, na exposição de Natal-RN, onde foi o grande campeão, presenteou um garoto de 14 anos com um betta de linhagem. Esta história nós já conhecemos…

Geralmente, produtores com pequeno espaço disponível investem mais em linhagens do que em quantidade de espécies. Selecionar uma espécie valorizada no mercado, estudar genética e manter um canal de vendas online ou diretamente em sua propriedade é uma opção que vem sendo realizada por muitos. O interesse inicial quase nunca é de obter lucro, mas com o tempo estes hobbistas consideram esta opção bem interessante.

De hobbista a juiz internacional

O guppy de linhagem também é uma espécie criada em todo mundo há décadas, mas no Brasil sua história é mais recente. Em Belo Horizonte, aos 4 anos de idade, Rodrigo Ziviane iniciou o hobby com peixes ornamentais. Aos 16 começou a criar guppies, e começou a investir na área conhecendo pela internet vários outros criadores e genética destes animais.

Após concluir sua graduação em engenharia civil decidiu fazer uma viagem aos Estados Unidos, onde conheceu alguns criadores de guppy e adquiriu bastante conhecimento pelo assunto. Esta viagem foi considerada um marco para a criação de um Clube de Criadores de Guppy no Brasil. Após a criação do clube, hoje denominado CCG – Confederação dos Criadores de Guppy, Rodrigo começou a organizar algumas exposições nacionais como forma de estimular a troca de material genético e melhora de plantel dos criadores. Atualmente participa dos campeonatos mundiais no exterior atuando como juiz internacional.

Toda sua produção sempre ocorreu em sua residência, onde em aquários separava os peixes nas respectivas linhagens. O uso de um local fechado ou uso de aquecedores era fundamental em algumas ocasiões, pois o clima em determinadas épocas do ano em Belo Horizonte não ajudava na mantença destes animais. Atualmente possui 320 aquários e aproximadamente 25 linhagens. Esta estrutura fica em um cômodo de sua residência com dimensões de 6 x 10 metros. Cada trio de guppies de linhagem, sendo um macho e duas fêmeas são comercializadas por valores próximos de 100 reais. No ano de 2016 foram comercializados 100 trios, sem contar a comercialização de alguns casais ou peixes avulsos.

O mercado é restrito à exposições e compras pela internet, sendo raro a entrega destes animais em lojas do ramo. Algumas lojas já estão despertando o interesse para este mercado, o que vem colaborando para a divulgação deste segmento. As dificuldades relacionadas a legalização do envio de peixes segundo Rodrigo é um dos principais entraves da atividade.

Estrutura de estoque de matrizes de linhagem do Rômulo Jr., de João Pessoa/ PB 
Estrutura de estoque de matrizes de linhagem do Rômulo Jr., de João Pessoa/ PB
Equipe campeã
Equipe campeã

Estrutura da estufa e exemplar de guppy da produção de Rodrigo Ziviane, de Belo Horizonte/ MG
Estrutura da estufa e exemplar de guppy da produção de Rodrigo Ziviane, de Belo Horizonte/ MG

Rei dos Aquários

Criados em menor número no Brasil, principalmente pela maior exigência em estrutura de aquários e qualidade da água, existem os acarás-disco – peixes nativos que tiveram várias linhagens desenvolvidas no exterior e introduzidas novamente no Brasil. Atualmente são poucos os criadores de diferentes linhagens, e Antônio Carlos, da AcaráRio, é um ótimo representante desse seleto grupo.

Semelhante a outros criadores, iniciou sua produção com o peixe betta até chegar aos chamados Reis dos Aquários. Antônio Carlos possui um escritório de contabilidade no Rio de Janeiro há 38 anos e desde adolescente foi criador de pássaros, principalmente curió. Dedicou grande parte de sua vida a este hobby, até que sofreu um grande assalto e teve que encerrar toda a atividade. Em 2013 conheceu um grupo de produtores de peixes ornamentais do Rio de Janeiro que o convenceu a entrar na atividade, um hobby totalmente desconhecido, mas que na época foi uma forma de se recuperar do estresse passado e um estímulo para um recomeço.

Pesquisou muito sobre o assunto e decidiu adquirir alguns exemplares de betta. Produziu por algum tempo, mas analisando a viabilidade, com pouco espaço disponível, decidiu não ser uma atividade com a rentabilidade que ele pretendia. Foi então que decidiu investir em um peixe chamado “acará-bandeira”, um peixe nativo já com várias linhagens identificadas. Investiu em estrutura no ano de 2013 dentro de sua própria residência, onde instalou algumas baterias de aquários. Adquiriu diversas matrizes de diferentes criadores e iniciou sua produção.

Durante dois anos continuou nesta atividade, mas o mercado para esta espécie não estava pagando o investimento feito, pois o preço da unidade vendida para as lojas dos peixes de linhagem eram os mesmos dos peixes comuns. Decidiu buscar por outra espécie de comportamento semelhante ao acará-bandeira, mas que tivesse maior valor econômico, e foi quando decidiu investir em acará-disco no início de 2015.

O nome da empresa – AcaráRio – foi criado na época dos acarás-bandeira e permaneceu. Hoje conta com uma bateria de aproximadamente 200 aquários. Destes, 93 são utilizados para estoque das matrizes, que em sua maioria são importadas. Sua água é estocada em reservatórios de 5.000 litros com aquecimento constante assim como a água de cada aquário, que possui aquecedor com termostato e ainda filtragem individual. Investiu em todo processo de legalização, incluindo documentação para importar e exportar peixes, o que além de demandar um bom tempo, demandou um investimento mais elevado. Hoje, Antônio Carlos possui 40 casais de disco, comercializa em torno de 100 peixes mensalmente a um valor que pode chegar a mais de 1.000 reais. Sua capacidade de produção é próxima de 600 discos por mês, e em breve a aquisição de novas matrizes e ampliação do espaço possibilitará o aumento da produção.

  
 

Estrutura da produção de Antônio Carlos, da AcaráRio
Estrutura da produção de Antônio Carlos, da AcaráRio

Investimentos pessoais

Quem possui uma maior área ou investe na aquisição de terrenos pode partir para a produção de várias espécies. Pode focar em linhagens específicas ou comuns, de acordo com a demanda local.

Este é o caso de muitos produtores que iniciam o cultivo em um cômodo de sua residência ou quintal de casa e investem em uma área maior. Um destes produtores é o Valtair Almeida, de Macaíba, Rio Grande do Norte, que já vem atuando há 16 anos na atividade de piscicultura ornamental. Inicialmente atuava como marceneiro em uma empresa de Natal-RN, onde decidiu complementar a renda com a produção de peixes ornamentais no quintal de sua casa.

O gosto pela atividade fez com que ele adquirisse alguns tanques, piscinas e caixas d’água. Produzia bettas, guppies, espadas, molinésias e kinguios. Com o passar do tempo viu que a produção de ornamentais começou a ser mais rentável do que seu emprego na marcenaria. Em 2014 investiu na compra de um terreno de 250 m2 em uma área urbana de Macaíba e implantou sua piscicultura. Construiu um pequeno laboratório para reprodução com aquários e garrafas pet para estoque de matrizes, utilizou materiais já disponíveis na antiga estrutura, como piscinas de pvc, caixas de amianto, manilhas de construção e ainda implantou tanques de alvenaria. Recebe constantemente visita de alunos da UFRN e contribui com experimentos e aulas práticas em sua propriedade.

Sua produção hoje depende da demanda local, e as espécies mais procuradas são bettas, guppies, acarás-bandeira, espadas, molinésias e carpas. Está investindo em novas linhagens de guppy e de bettas para participar de exposições e valorizar mais seus peixes, mas seu foco principal sempre foi o mercado local de peixes comuns.

Em 2016, na tentativa de melhorar as vendas, investiu na abertura de uma pequena loja no centro da cidade de Parnamirim-RN para comercializar sua produção, onde sua esposa e filhos auxiliam diariamente nos negócios. A grande vantagem de ter a própria loja foi que o valor de venda dos peixes ficou bem acima do valor que era comercializado anteriormente. Na tentativa de melhorar o mercado e escoar mais facilmente a produção, Valtair pretende, em 2017, realizar novos investimentos, principalmente em relação à legalização, uma vez que tornará possível o envio interestadual e possibilitar o escoamento total da produção mais facilmente.

Valtair Almeida, de Macaíba/ RN, recebendo premiação por participar do ENABETTAS 2016 em sua loja recém inaugurada e, do lado direito, aula prática da UFRN sendo realizada em sua propriedade
Valtair Almeida, de Macaíba/ RN, recebendo premiação por participar do ENABETTAS 2016 em sua loja recém inaugurada e, do lado direito, aula prática da UFRN sendo realizada em sua propriedade

Magé

Em estrutura semelhante, mas com maior investimento, Ney Soares produz peixes ornamentais em um terreno de 3.000 m2 no município de Magé-RJ. A piscicultura Santo Aleixo atua na produção de acarás-bandeira, kinguios, óscars, guppies e, principalmente, bettas comuns. Iniciou sua produção no ano de 1991, onde deixou sua atividade principal de cultivo de hortaliças e ingressou na aquicultura ornamental.

A cada ano vem ampliando as estruturas em tanques construídos com fôrmas de concreto, com capacidade aproximada de 3000 litros, e hoje possui aproximadamente 250 tanques. A espécie principal é o betta, onde seu cultivo é realizado inicialmente nestes tanques e, com aproximadamente três meses, os animais vão para garrafas de vidro em um galpão. O manejo de limpeza das garrafas e alimentação é bem criterioso e exige mão de obra paciente e qualificada. Atualmente a produção é comercializada para distribuidores do Rio de Janeiro.

Estrutura de tanques e separação de peixes bettas em potes de vidro da Piscicultura Santo Aleixo de Ney Soares, em Magé/ RJ
Estrutura de tanques e separação de peixes bettas em potes de vidro da Piscicultura Santo Aleixo de Ney Soares, em Magé/ RJ

 

Vista aérea da propriedade Docce Água, de André Palumbo em Guararema/ SP, de produção de kinguios e carpas
Vista aérea da propriedade Docce Água, de André Palumbo em Guararema/ SP, de produção de kinguios e carpas

Carpas nishikigoiCom terrenos e estruturas supracitados, é possível também investir em peixes de maior valor econômico como, por exemplo, as nishikigois. Estas são carpas de coloração mais intensa e com padrões definidos. Muito comum nos países asiáticos, as carpas koi, como também são chamadas, atingem valores bem elevados. Alguns exemplares chegam a custar milhares de dólares. No Brasil também existem criadores destes peixes, cujas instalações necessitam de uma maior área e geralmente são utilizados tanques de alvenaria ou escavados.

No país existe a Associação Brasileira de Nishikigoi, onde o atual presidente é o produtor André Palumbo. Sua produção é localizada no município de Guararema-SP, e nos seus aproximadamente 60 tanques escavados cultiva várias linhagens de carpas nishikigois e também algumas variedades de kinguios. Faz todo processo de reprodução em seus tanques e aproximadamente a cada 30 dias faz um processo de seleção e separação dos melhores exemplares. Geralmente, de uma reprodução, em torno de 10 a 15% são de peixes de bons padrões genéticos, mas apenas 1 a 2% são separados para participar de competições e serem comercializados com altos valores. Anualmente, os exemplares que apresentam melhor desempenho são expostos na Exposição Brasileira de Nishikigoi, que neste ano estará na edição número 37.

A história da propriedade Docce Água começou a aproximadamente 15 anos, onde a proprietária Maria Luíza Petrella Gerodetti, sogra de André, iniciou uma pequena criação de kinguios, e por achar interessante decidiu investir mais na área. No início eram somente ela e um funcionário, o Sr. Alcides. Adquiriu um terreno específico para a piscicultura e algumas matrizes de kinguios e nishikigois. André começou a ajuda-los nos manejos e nas atividades da piscicultura um pouco mais tarde, a aproximadamente 8 anos. A cada dia interessava mais pelo assunto, o que o estimulou a estudar bastante sobre linhagens.

Vando e Paulo Faria na estufa de produção de bettas no Sítio Pouso Alegre, em Patrocínio do Muriaé/ MG, e ao lado, ampliação das estruturas da propriedade de Vando 
Vando e Paulo Faria na estufa de produção de bettas no Sítio Pouso Alegre, em Patrocínio do Muriaé/ MG, e ao lado, ampliação das estruturas da propriedade de Vando

Os estudos e o gosto pela área fez com que seus peixes ficassem cada vez melhores, o que proporcionou algumas premiações nos campeonatos em que disputavam, como por exemplo o Campeão geral na exposição juvenil. Hoje a propriedade, além do Sr. Alcides e André Palumbo, possui mais dois funcionários. Em 2015 André decidiu se candidatar a presidente da Associação Brasileira de Nishikigoi. Atualmente, sob sua presidência existem 20 sócios, que colaboram constantemente para o desenvolvimento da atividade.

A Região de Muriaé

Moradores de zonas rurais, com grande disponibilidade de área e água têm a opção de investir em uma maior produção. Geralmente escolhem várias espécies de menor valor comercial, ou até elegem uma ou duas de maior demanda. Uma região produtora que merece destaque e é conhecida nacionalmente pela produção de peixes ornamentais é a Zona da Mata mineira. Acredita-se que a região seja uma das maiores produtoras do país, principalmente nos municípios de Patrocínio de Muriaé, Vieiras, São Francisco do Glória, Muriaé e Miradouro.

A “região de Muriaé” possui aproximadamente 350 produtores e atuam com a produção de várias espécies com atenção especial à produção do peixe betta. Apenas Patrocínio de Muriaé produz em torno de 300 mil bettas machos por mês, sem contar a produção de outras espécies. Em alguns meses a procura pelo peixe é bem maior que a capacidade de produção, o que vem fazendo com que os produtores invistam em tecnologias, assistência técnica e ampliação da produção.

No Sítio Pouso Alegre, em Patrocínio do Muriaé Vando Vardiero é um produtor que, junto com a esposa, produz peixes ornamentais em estufas agrícolas. Este sistema é muito utilizado na região devido as baixas temperaturas no período de outono e inverno além da variação da temperatura ao longo do dia e da noite. Este produtor iniciou a atividade em 2005 auxiliando seu pai, e em 2013 decidiu implantar sua própria estrutura.

Atualmente, produz, em três estufas, aproximadamente 4.000 bettas machos por mês, além de algumas variedades de acarás-bandeira. Está em fase final de construção da quarta estufa, onde nas horas vagas do manejo diário, vem fazendo todo serviço de terraplanagem, alvenaria, marcenaria e instalações elétricas e hidráulicas. Dentro das estufas são construídos tanques suspensos com blocos de concreto revestidos com lona para impermeabilização. No interior dos tanques de aproximadamente 50 cm de altura são colocadas garrafas plásticas perfuradas, simulando um pequeno tanque rede. Em cada garrafa, os bettas machos com aproximadamente dois meses de idade permanecem por mais três meses até que sejam finalmente comercializados.

Cada exemplar de betta macho é vendido por aproximadamente R$ 1,20 e as fêmeas a R$ 0,30. Os peixes utilizados na produção também estão sendo melhorados a cada dia, e desde 2013 Vando envia peixes para participar das exposições que ocorrem nacionalmente.

Acima - Estufas de produção na propriedade de Ronaldo Vilela, em Patrocínio do Muriaé/ MG e, ao lado, garrafas pet utilizadas na separação dos bettas na mesma propriedade
Acima – Estufas de produção na propriedade de Ronaldo Vilela, em Patrocínio do Muriaé/ MG e, garrafas pet utilizadas na separação dos bettas na mesma propriedade

Com estrutura similar, no mesmo município de Patrocínio do Muriaé existe o produtor Ronaldo Vilela que iniciou a produção após atuar como encarregado em uma piscicultura de corte. Foi um dos primeiros na região e iniciou sua produção construindo a primeira estufa em 1999. Inicialmente sua produção era pequena, mas hoje, a produção mensal chega aos 30 mil bettas machos, além da comercialização de outras espécies como guppies, melanotênias e platis. As primeiras estufas foram construídas com madeira e os tanques com barro e revestimento em lona.

Hoje já são utilizadas armações metálicas e blocos de concreto ou alvenaria. As linhagens de betta trabalhadas hoje são bem diferentes das utilizadas anteriormente. A evolução do mercado e a busca sempre por qualidade fizeram com que os produtores da região investissem também em linhagens importadas, e um trabalho de seleção genética e melhoramento vem acontecendo há alguns anos. O volume de produção exigiu a contratação de pelo menos seis funcionários para auxiliá-lo na produção.
Assim como Vando, Ronaldo comercializa sua produção para atravessadores da região, que passam nas propriedades e levam em torno de 8.000 bettas por semana.

A força do Nordeste brasileiro

Diferente de todas as outras descritas acima, localizada no município de Aquiraz, no Estado do Ceará, destacando-se pela diversidade de espécies cultivadas, existe a Piscicultura Tanganyika. Idealizada pelo engenheiro de pesca José Blanchard Filho no ano de 1990, atualmente são produzidas 162 espécies, entre continentais e marinhas.

Com uma área total de 0,5 hectares, divididos em cinco sítios, hoje a piscicultura para conseguir diversificar sua produção, passou por uma reestruturação e funciona como uma espécie de condomínio, sendo dividida por áreas: peixes continentais, peixes marinhos e crustáceos. Mensalmente são comercializadas 50 mil unidades de peixes ornamentais em todas as áreas que compõem a piscicultura. A aquicultura das espécies continentais e dos camarões marinhos é realizada em tanques de alvenaria que variam de 1,5 a 10 m², contando com um total de 2.500 tanques. Já a piscicultura marinha é realizada em salas climatizadas e em aquários de vidro.

Estrutura de produção da Piscicultura Tanganyika, de José Blanchard Filho, em Aquiraz/ CE 
Estrutura de produção da Piscicultura Tanganyika, de José Blanchard Filho, em Aquiraz/ CE

Conhecido no setor da aquariofilia nacional como Blanchard, o proprietário conseguiu desenvolver pacote tecnológico para uma vasta diversidade de ciclídeos africanos e outros peixes, utilizando inclusive técnicas de reprodução induzida. Na produção de peixes marinhos, quem coordena a área é o engenheiro de pesca Ivan Oliveira.

Ao todo são cultivadas 34 espécies. Algumas delas provenientes da criação autorizada de peixes doados pelo IBAMA, que foram alvo de tráfico de animais. A partir dessas matrizes, a piscicultura conseguiu fechar o ciclo de reprodução de vários peixes como, por exemplo, o neon gobi, viabilizando para o mercado uma espécie que tem sua captura proibida. A maior dificuldade na produção de peixes ornamentais marinhos são os elevados custos para manter, no Ceará, a temperatura da água baixa. O carro chefe da produção é o peixe palhaço, do gênero Amphiprion, sendo atualmente produzidas 10 espécies, com mais de 20 variedades.

São comercializadas para abastecer o mercado interno, reduzindo significativamente a necessidade de importação de peixes ornamentais. Aproximadamente 1.500 unidades de espécies marinhas, entre corais e peixes, são comercializadas mensalmente, sendo São Paulo e Rio de Janeiro os principais destinos.

Ainda há uma área da fazenda, coordenada pelo engenheiro de pesca Carlos Rodrigues, dedicada à reprodução de crustáceos, ciclídeos amazônicos, corydoras e algumas espécies asiáticas. Outra novidade que está sendo desenvolvida neste mesmo setor é o desenvolvimento de pacote para reprodução da raia Potamotrygon leopoldi, uma das espécies mais valorizadas no mercado de ornamentais.

Estrutura de produção da piscicultura Arapaima Brazil, de Dylcio Porto, em Belém - PA
Estrutura de produção da piscicultura Arapaima Brazil, de Dylcio Porto, em Belém – PA

Exportadores aquicultores

Como mostrado no primeiro artigo desta série, os valores de exportação de peixes ornamentais do Brasil, principalmente os do ano de 2014, são bem elevados. Acredita-se que 100% dos peixes exportados eram provenientes da captura, porém alguns fatos demonstram uma tendência aos exportadores, acenando para que, em um futuro próximo, exerçam também atividades de piscicultura. Algumas exportadoras já partiram para investir em pesquisa e na produção, dado que em algumas ocasiões faltam peixes na captura, existem cotas para coleta de exemplares e, ainda, o mercado internacional busca cada vez mais por peixes isentos de patógenos e mais adaptáveis aos cultivos.

Um bom exemplo é o da Arapaima Brazil, que iniciou a sua operação há mais de 15 anos. Com sede em Belém-PA, a empresa atua na área de exportações de peixes ornamentais de água doce. Recentemente investiu também no setor da aquicultura, uma vez que as espécies comercializadas anteriormente eram provenientes apenas do extrativismo. O mercado é exclusivamente externo, com envio de peixes para todos os continentes, pois o valor bem abaixo, pago pelos peixes no mercado interno, não compensa o valor investido.

A opção pela aquicultura, segundo um dos sócios, Dylcio Porto, “é uma das novas metas da empresa, que vem sofrendo uma série de transformações através de investimentos em qualificação dos colaboradores, infraestrutura e sistemas de gestão e controle”. Sua estrutura possui mais de 2.000 aquários, 70 tanques grandes de concreto e 6 tanques australianos, todos com sistema de filtragem, aquecimento automático e controle constante dos parâmetros da água.

O setor de aquicultura ainda é pequeno em relação a toda estrutura, mas a procura por peixes nascidos em cativeiro e a busca de algumas espécies durante todo ano fez com que os investimentos nesta área fossem ampliados. Outro fator que contribui para o investimento na aquicultura é a presença de cotas de algumas espécies, como as raias. Com um plantel de reprodutores, seria possível uma produção contínua, sem explotação dos estoques naturais.

A empresa conta ainda com uma unidade de reprodução, sediada em Salinópolis-Pará. Essa unidade voltada exclusivamente à piscicultura de peixes ornamentais de água doce, ainda se encontra em fase de aprovação junto às autoridades públicas regionais e nacionais. Possui uma área de 14 ha com 28 viveiros escavados, totalizando 9 ha de lâmina d’água. Tem ainda um laboratório para dar suporte à produção e expedição de peixes. É a partir dessa unidade que a empresa pretende, em um futuro próximo, poder oferecer espécies raras reproduzidas em cativeiro, as quais não são permitidas capturas na natureza.

Outro grande exportador que está investindo muito na aquicultura é Koji Takemura, também de Belém-PA, que possui grande estrutura destinada à exportação de peixes ornamentais. Atualmente constrói um galpão de aproximadamente 1.000 m2 com dois laboratórios para reprodução com aquários e caixas, assim como um setor com reservatórios de fibra exclusivamente para a piscicultura. Espécies que são altamente demandadas poderão em breve ser comercializadas durante todo o ano, em um padrão bem melhor do que o capturado, e ainda a valores mais elevados. Estima-se que o mercado volte a ser aquecido, como o de 2014, e somente através da piscicultura será possível atender toda a demanda.

Estrutura de produção da piscicultura de Koji Takemura, em Belém - PA
Estrutura de produção da piscicultura de Koji Takemura, em Belém – PA

Considerações finais

Infelizmente não é possível saber ao certo o número de piscicultores ornamentais do Brasil na atualidade. Estatísticas eficientes e constantes devem ser realizadas nas áreas rurais e urbanas do país à fim de identificar todos os envolvidos. De norte ao sul, de leste a oeste, pequenos, médios e grandes produtores colocam milhares de peixes ornamentais nas lojas de todo o Brasil. Acreditamos que a grande maioria se identifica com pelo menos um dos casos relatados acima. Esperamos que todos cresçam cada vez mais, como nos casos relatados, e ainda incentivem os novatos a ingressarem na área. O mercado da aquicultura ornamental se mostra bastante promissor e lucrativo, mas depende muito do empenho de cada um nele envolvido para seguir crescendo.