Produtores de soja norte-americanos querem impulsionar a piscicultura no sudeste brasileiro

Foi um sucesso o Seminário sobre criação de peixes em tanques-rede de pequeno volume, realizado em Piracicaba nos dias 29 e 30 de julho passado. Com o apoio da Mogiana Alimentos e coordenado pelo Departamento de Zootecnia da ESALQ/USP e pela ASA – American Soybean Association (Associação Americana de Soja), o Seminário contou com um grande número de produtores interessados nos resultados que se vem obtendo com este tipo de tanque-rede em outros países.

Ao participar do Seminário, H. Rudolph Schmittou, professor da Auburn University e atual Diretor de Aqüicultura da ASA em Pequim – China, falou da utilização desses tanques-redes e das grandes vantagens que oferece ao produtor.

Pequeno Volume

Entende-se por tanques-rede de pequenos volumes,aqueles cuja relação de área total de rede (m2) : volume total (m3), seja igual ou maior que 2, como pode ser observado na tabela 1.

Os tanques-rede (TR) de pequeno volume (os volumes devem ser de 1 a no máximo 4 m3 com a profundidade nunca superior a 1,5 m), podem ser utilizados em lagos e reservatórios, bem como em viveiros com área igual ou maior que 2.000 m2, que não devem estar localizados em vales profundos ou protegidos de brisas por árvores. A água dos corpos d’água para instalação desses TR, deve ter uma coloração verde-plâncton com transparência maior que 40 cm e não pode ser predominantemente barrenta ou marrom, aparentando excessiva decomposição de matéria orgânica. O fundo e a superfície não devem conter acúmulos de folhas, galhos e detritos, e os viveiros não devem conter peixes selvagens ou cultivados, exceto em situações onde a carpa capim, carpas filtradoras ou outras espécies selecionadas são parte do programa de manejo.

As taxas de estocagem devem ser calculadas para que se tenha cerca de 150 kg de peixe/m3 na hora da despesca. As taxas de conversão variam de 1,2 a 1,5:1, para tilápias, 1,4 a 1,8:1 para bagre do canal e 1,5-1,8:1 para carpa comum.

Segundo os organizadores do Seminário, posteriormente será preparada uma publicação com todas as palestras do Seminário, patrocinada pela ASA, para ser distribuída aos aqüicultores interessados.

Soja brasileira

O fato mais curioso do eventoficou por conta das justificativas dadas pelo consultor da ASA, Rudolph Schmittou, para explicar o grande interesse da Associação Americana de Soja , em divulgar estas tecnologias de cultivo entre os produtores brasileiros.

Segundo Schmittou, a estratégia da ASA para com o Brasil, é de desenvolver a aqüicultura na Região Sudeste brasileira, que segunde ele possui um grande potencial associado a um grande mercado consumidor. A idéia da ASA é de fazer o que eles chamam de marketing reverso. Isto na prática, significa que se eles ajudarem a desenvolver a indústria da aqüicultura, rações contendo uma grande quantidade de soja serão usadas. As rações para organismos aquáticos contêm em média 40 a 50% de farinha de soja. Desta forma, grandes quantidades de soja produzidas no Brasil serão consumidas aqui mesmo, ao contrário do que ocorre atualmente, quando a maior parte da soja produzida no Brasil é exportada e compete no mercado internacional com a soja produzida pelos produtores norte-americanos, associados a ASA. Se um mercado é desenvolvido internamente no Brasil para consumir a soja brasileira, haverá uma competição menor no mercado internacional, a favor dos associados da ASA, completou Schmittou.

Perguntado a respeito das quantidades anuais de ração que seriam necessárias para serem atingidos os objetivos da ASA, Schmittou não soube responder, acrescentando porém que esses números existem, e tem sido usados apenas para planejamento. Soube apenas dizer que os números são grandes e possíveis de serem alcançados, caso contrário os produtores norte-americanos não estariam desde já colocando dinheiro se não considerassem enorme o potencial brasileiro.

Sobre o mercado consumidor para esses peixes, Schmittou foi categórico referindo-se ao mercado interno brasileiro, pelo menos a curto prazo. Talvez a médio prazo o mercado após se expandir-se para longe dos pontos de produção, venha a exigir um processamento desses peixes. Mas acho que o mercado interno brasileiro absorverá grande parte dessa produção, acrescentou.

Segundo Schmittou, apesar de haver um mercado muito grande nos EUA para a tilápia, existe muita competição. Tem a Colômbia e a Venezuela, por exemplo, que estão mais próximos dos EUA que o Brasil, fazendo com que os custos de transporte sejam menores. Por outro lado, eles estão mais bem situados com relação aos trópicos, o que permite a produção ao longo de todo o ano, ao contrário da região sudeste brasileira.

Sobre os recursos da ASA destinados a promover o incremento da piscicultura, Schmittou disse que não são muitos. Eles não investirão dinheiro em plantas processadoras ou unidades de produção. A ASA somente ajudará a catalisar este processo, trazendo consultores para prestar ajuda e implementar programas. Será um investimento modesto em termos de dinheiro. A ASA é uma organização que está visando um retorno a longo prazo, é um investimento para o futuro. E completou dizendo que o único objetivo é fazer com que quase toda, senão toda a soja produzida no Brasil, seja consumida aqui, através das rações. A ASA acredita mesmo que, através de todo o pessoal que será trazido, o know-how, a tecnologia, o material para extensão, literatura, etc., estará estimulando e catalisando as ações para o desenvolvimento da indústria da aqüicultura na Região Sudeste do Brasil.

Indagado finalmente se a ASA estaria disposta a abrir as portas do mercado norte-americano para os peixes produzidos no Brasil, Schmittou disse acreditar que isso não virá a ser necessário pois como disse anteriormente, haverá mercado consumidor suficiente aqui no Brasil para absorver todo esse peixe.

Que assim seja.