Projeto Tilápia São Francisco

A inauguração das primeiras instalações

A primeira etapa de implantação do “Projeto Tilápia São Francisco” da AAT International Ltda., empresa do Grupo MPE, foi marcada pela inauguração, no último dia 22 de março, da unidade de Moxotó, localizada a jusante da barragem de Moxotó, no Município de Paulo Afonso na Bahia. A AAT International Ltda. surgiu da união do Grupo MPE (leia-se Valença da Bahia Maricultura S.A. e a Maricultura da Bahia S.A.) e a empresa americana Arraina, Inc, e tem como principal objetivo explorar o grande potencial aqüícola das barragens do Rio São Francisco, em especial as de Paulo Afonso, criando, industrializando e comercializando a tilápia para os mercados externo e interno. A empresa conta com o suporte científico, tecnológico e biotecnológico de especialistas norte-americanos para garantir, não só uma tecnologia de ponta, como a contínua renovação e aprimoramento das técnicas utilizadas pelo corpo técnico-científico da empresa e dos aqüicultores integrados.

Além da AAT International Ltda., outro investimento do Grupo MPE em Paulo Afonso, em parceria com empresários equatorianos, é a empresa Centermar, uma fábrica de ração para peixes e camarões, com inauguração prevista para o final de junho próximo. Segundo Mário Aurélio Pinto, superintendente do Grupo MPE, os investimentos iniciados há um ano devem chegar aos R$ 65 milhões daqui a dois anos, e fazem parte da estratégia que nos últimos anos tem levado o Grupo MPE a aumentar significativamente sua participação no setor agroindustrial, onde já atua na suinocultura no Estado de Mato Grosso, em parceria com a Carroll’s Foods dos EUA; na fruticultura do Rio de Janeiro, através da Bela Joana Sucos e Frutas; na criação de gado e plantações de soja, algodão, arroz e milho, também no Mato Grosso, e da carcinicultura na Bahia, onde destaca-se como o maior produtor nacional de Litopenaeus vannamei.

Projeto Tilápia São Francisco

O Município de Paulo Afonso está localizado entre os estados de Alagoas, Sergipe e Pernambuco e reúne excelentes condições ambientais estratégicas para a prática da piscicultura. O clima e a luminosidade durante o ano inteiro propicia condições ideais de temperatura para a criação de espécies tropicais. Isso, somado à abundância de água de excelente qualidade e à boa infra-estrutura de energia, comunicação e escoamento da produção, fazem de Paulo Afonso uma região de grande vocação para o cultivo da tilápia.

Abastecimento dos raceways
Abastecimento dos raceways
Detalhe dos raceways
Detalhe dos raceways
Visão geral da bateria de raceways
Visão geral da bateria de raceways


O Projeto Tilápia São Francisco abrange todas as fases do processo produtivo que inclui a produção de alevinos, a criação de tilápias híbridas em sistemas de raceways e o processamento, a industrialização e a comercialização dos produtos nos mercados nacional e internacional. O projeto prevê a integração com os piscicultores da região, onde pelo menos 40% do pescado a ser processado será adquirido junto aos piscicultores locais, que também receberão acompanhamento técnico da AAT.

O Complexo Aqua-Agro-Industrial Integrado de Paulo Afonso está sendo implantado em três áreas distintas, a Unidade Moxotó e a Unidade PA IV, no Município de Paulo Afonso, e a Unidade Itaparica, localizado em Gloria, município vizinho.

Na Unidade Moxotó, uma área de 33,47 hectares localizada a jusante da barragem de Moxotó, estão situados o Centro Integrado de Genética e Produção de Alevinos, uma bateria de raceways com 208 tanques e, o Centro de Tecnologia Aplicada, além da administração. Na Unidade PA IV, uma área de 16,41 hectares, localizada a jusante da barragem de Paulo Afonso IV, estão sendo implantadas a Unidade de Processamento e Industrialização de Pescado que será inaugurada em 28 de maio deste ano, as instalações da fabrica de rações Centermar e uma outra bateria de raceways, também com 208 tanques. Na Unidade de Itaparica, uma área de 274,54 hectare localizada a jusante da barragem de Itaparica, estão projetadas 4 baterias de raceways com um total de 832 tanques e um Centro de Produção de Alevinos.

Centro de Produção de Alevinos

A AAT está trabalhando com a tilápia do Nilo, principalmente, da variedade QAAT, desenvolvida nos Estados Unidos. Os reprodutores são selecionados a partir dos filhos destes parentais, de acordo com as características específicas relacionadas à morfologia, ao comportamento, dentre outros atributos. Os reprodutores (machos e fêmeas) são mantidos separados dentro de hapas (tanques-rede com área de 20m²) instalados dentro dos Tanques de Reprodutores (TR).

Reprodutores de tilápia do Nilo no Centro de Produção de Alevinos da Unidade Moxotó
Reprodutores de tilápia do Nilo no Centro de Produção de Alevinos da Unidade Moxotó

Para o acasalamento, os peixes são estocados nos hapas, numa relação de três fêmeas para um macho. Após a desova a fêmea recolhe os ovos na boca para a incubação (FOTO) e, durante um período de acasalamento de 14 dias, são realizadas duas coletas de ovos num mesmo hapa. Concluída a operação, os machos e fêmeas são separados passando sete dias em descanso ou recondicionamento.

Tanques na Unidade Moxotó, onde podem ser observados os hapas usados para o alojamento de matrizes e a reprodução de tilápias.
Tanques na Unidade Moxotó, onde podem ser observados os hapas usados para o alojamento de matrizes e a reprodução de tilápias.

A cada sete dias, os ovos são recolhidos da boca das fêmeas e transferidos para o Centro de Produção de Alevinos, onde passam por um processo de assepsia, seleção, contagem e classificação por estágio de desenvolvimento embrionário, sendo então estocados nas incubadoras, numa densidade de até 20.000/litro .

Os ovos ficam na incubadora por um período de até cinco dias, quando deverá ocorrer a eclosão e concentração das larvas nas bandejas de recolhimento (FOTO). Dessas bandejas, a produção de cada incubadora é distribuída para duas bandejas secundárias (cada uma com cerca de 50.000 larvas), onde permanecerão por até quatro dias nos quais se inicia o condicionamento das pós-larvas ao regime alimentar que será empregado durante a fase de tratamento e de “direcionamento” sexual para que se obtenha uma população de machos.

Detalhe de uma fêmea de tilápia com ovos na boca.
Detalhe de uma fêmea de tilápia com ovos na boca.
Bateria de incubadoras do Centro de Produção de Alevinos da Unidade Moxotó.
Bateria de incubadoras do Centro de Produção de Alevinos da Unidade Moxotó.


A partir das bandejas de condicionamento, as pós-larvas são contadas e transferidas para os tanques de tratamento primário. Esses tanques são estocados em alta densidade e abrigam as pós-larvas por um período de dez dias, após o qual são transferidas para tanques maiores, em baixa densidade, onde continuarão o processo de direcionamento sexual (tratamento secundário). O tempo médio total requerido nas duas fases (primária e secundária) é de 25 dias, dependendo da temperatura da água durante o cultivo.

Detalhe da incubadora e da bandeja com larvas de tilápia.
Detalhe da incubadora e da bandeja com larvas de tilápia.
Alevinos

Os alevinos, já direcionados, são estocados em tanques circulares de volume de 2 m3, a uma densidade de 6.000 alevinos/m3, até atingirem o peso médio de 5 gramas (Alevino I). Dai são transferidos para tanques circulares com 10 m3, onde são mantidos até alcançarem o peso médio de 25 gramas (Alevino II). O tempo total necessário para a formação do Alevino II é de 30 dias.

Tanques circulares de 2 m3 utilizados para a produção de alevinos de 5 gramas (Alevino I) no Centro de Produção de Alevinos da Unidade Moxotó. 
Tanques circulares de 2 m3 utilizados para a produção de alevinos de 5 gramas (Alevino I) no Centro de Produção de Alevinos da Unidade Moxotó.

Os Alevinos II, com peso médio de 25 gramas, são estocados nos raceways, numa densidade 250 peixes/m3 (7.500 peixes por tanque). O período de cultivo é de 120 dias, quando deverão ser obtidos peixes com peso médio de 750 gramas e uma produção de 5.060 kg/tanque. A despesca dos peixes se fará por bombeamento, quando serão transportados vivos até a planta processadora. Lá serão recolhidos no tanque de recepção e daí para o tanque de choque térmico, entrando, então, na linha de filetagem.

O Projeto Tilápia São Francisco prevê, em sua primeira fase, uma produção anual de 4.500 toneladas de peixes em Moxotó e Itaparica. A essa produção serão somadas 2.000 toneladas de peixes adquiridas junto aos produtores integrados. Numa segunda fase, a produção atingirá cerca de 10.000 toneladas anuais e, na terceira fase, a meta de produção é de 15.000 toneladas, com mais 10.000 sendo adquiridas de terceiros (integrados), totalizando um processamento anual de 25.000 toneladas de peixe “in natura”.

Unidade de Processamento e Industrialização do Pescado

A Unidade de Processamento que deverá estar em funcionamento a partir de 28 de maio, tem capacidade para beneficiar 12.000 kg de peixe inteiro a cada turno de 8 horas de trabalho, correspondente a uma produção aproximada de 3.800 kg de filé sem pele por turno. A planta processadora é dotada de equipamentos computadorizados de beneficiamento, conservação e embalagem para a produção de peixes eviscerados e filés de peixes frescos, congelados ou defumados. Possui ainda fábricas de gelo, um sistema de tratamento de água, túneis de congelamento e câmaras frigoríficas; sistema de tratamento de efluentes, laboratório de análises bioquímicas e microbiológicas, lavanderia industrial para assepsia de uniformes, bem como um centro de treinamento de higiene e educação ambiental.

Numa primeira etapa, a processadora trabalhará principalmente na produção de filés de tilápia congelados, seguido de filés frescos, defumados e pastas, além de outros produtos de valor agregado.

Mercado

Inicialmente toda produção da empresa deverá ser direcionada para os EUA, através de importadores/distribuidores especializados, apresentando um produto de classificação tipo A (1a qualidade). A AAT tem seguidamente trazido empresas norte-americanas para conhecer o projeto e assim ficarem motivados para fazerem a venda do produto e, segundo Mário Aurélio Pinto “a realidade tem correspondido às expectativas, esses profissionais têm se entusiasmado com o projeto e já é possível perceber uma disputa para comercializar o produto nos EUA”. O produto carro-chefe da AAT será o filé congelado de 100-110 gramas (peixes de 650 gramas) e, mais adiante, a expectativa que também filés frescos sejam exportados. A expectativa do Mário Aurélio é que o produto seja comercializado ao preço de US$ 2.50 a 3.00 a libra (0,452 gramas) e que já em julho este comércio se inicie de forma regular, com o produto seguindo a partir do porto de Salvador, da mesma forma que já seguem os camarões criados pela MPE. Sistema de Integração As associações ou produtores interessados em trabalhar em sistema de integração com a AAT, devem entrar em contato com a AAT International, que fará uma avaliação prévia da estrutura, organização, capacidade e nível de interesse. Receberão treinamento através de um Curso de Qualidade com duração média de 60 dias onde, além de aspectos técnicos de produção de tilápia, será dada grande ênfase à mudança de atitudes, capacidade criativa, visão empresarial e educação ambiental. Após o treinamento, em função da avaliação feita pela AAT, a associação ou produtor receberá um Certificado de Qualidade, passando a estar habilitada a receber assistência técnica, adquirir alevinos e ração, e principalmente vender sua produção para a AAT, a preços de mercado previamente acordados. Algumas associações em Paulo Afonso já estão habilitadas pela AAT.

Meio Ambiente

Os aspectos ambientais estão entra as preocupações da AAT International. Segundo o Superintendente do Grupo MPE, o projeto foi desenhado de forma a permitir a retirada total dos dejetos liberados na água pelos peixes, inclusive com aproveitamento econômico dos mesmos. “Um constante trabalho de monitoramento da água, tanto na captação quanto na descarga já está sendo executado no laboratório da empresa e de terceiros, para que a água seja devolvida ao rio com as mesmas características apresentadas na sua captação” diz Mario Aurélio Pinto.

A empresa desenvolve ainda um trabalho de recuperação ambiental nas áreas degradadas, que agora estão sob sua administração, envolvendo reflorestamento com espécies nativas, contando pra isso com instalação de um viveiro de mudas.

* As fotos que ilustram a matéria são do arquivo particular de Fernando Kubitza