Rações para Aqüicultura: Nutrição • Formulação • Balanceamento

Por Ricardo Cavalcante Martino
Biólogo Chefe da Unidade de Tecnologia do Pescado da FIPERJ – RJ


A nutrição engloba processos químicos e fisiológicos, que irão prover os animais da capacidade de realizar suas funções normais, entre as quais as de manutenção e crescimento. Para tal, são necessários os processos como a ingestão, digestão, absorção, transporte de nutrientes e excreção. Para que estes processos nutricionais sejam completos é necessário suprir os animais com a quantidade correta de nutrientes e essenciais que são: proteína e aminoácidos, lipídeos, carboidratos, vitaminas e minerais.

Quando comparamos o requerimento nutricional de peixes e animais terrestres, nos surpreendemos com o fato de que não é muito diferente. Ambos requerem os mesmos dez aminoácidos essenciais e o requerimento vitamínico e mineral é igualmente amplo e complexo. Entretanto, dentro desta surpreendente similaridade, existem diferenças significativas e detalhes importantes, devido ao meio aquático em que vivem peixes e camarões e a forma com que eles se alimentam ou devem ser alimentados.

Como aparentemente a vida na terra teve origem no mar, o meio aquático parece ser mais ideal, ou pelo menos mais adaptável para se viver. Isto é demonstrado pelo fato de que se requer muito menos energia para manter a vida dentro d’água do que fora dela. Animais aquáticos gastam menos energia para aquecer ou esfriar seus corpos, utilizando a energia principalmente para nadar. Eles são ainda mais eficientes em relação ao metabolismo de excreção, já que excretam amônia diretamente para o meio ambiente. Portanto, o seu requerimento energético e conseqüentemente o requerimento nutricional é apenas uma fração daquela dos animais terrestres.

Observadas estas considerações gerais, temos que ter em mente que a formulação e o balanceamento de rações requerem, entre outros, dois pontos muito importantes: o conhecimento sobre o requerimento nutricional da espécie e o custo final da ração.

Quanto ao primeiro ponto temos que considerar, quando da formulação da ração, a composição química e as propriedades organolépticas dos ingredientes em relação a aceitabilidade e a capacidade dos peixes e camarões de absorver tais nutrientes oriundos de ingredientes de fontes diversas.

Em relação ao segundo ponto, sabemos que o custo da alimentação, principalmente em sistemas intensivos de cultivo, é o ítem mais elevado e que em sistemas semi-intensivos representa uma fatia considerável dos investimentos. Portanto, é necessário que ao formularmos uma ração utilizemos o máximo possível de ingredientes de baixo custo, sem que venhamos a perder a qualidade nutricional da ração.

O custo/benefício, é na verdade uma soma de fatores como o ganho de peso, taxa de conversão alimentar, eficiência alimentar e taxa de crescimento específico, que caminham necessariamente juntos.

Para sintetizarmos este raciocínio, devemos ter em mente três conceitos importantes: a ração deve ser formulada ao menor preço possível, deve possuir uma taxa de conversão tanto maior quanto for possível para o animal e deve atender as exigências do mercado.

Requerimentos

Retornando ao ponto sobre requerimento nutricional, sabemos que os nutrientes essenciais podem ser obtidos de uma fonte considerável de ingredientes. Entretanto, a quantidade correta de nutrientes não é encontrada em uma única fonte alimentar. Além do mais, os ingredientes estão constantemente a mercê de amplas alterações em sua composição, devido a fatores diversos tais como variações sazonais e geográficas. Conseqüentemente, as formulações das rações devem ser modificadas freqüentemente. Análises de composição centesimal entre outras, que tem como objetivo o controle de qualidade, devem ser feitas regularmente não apenas nos ingredientes mas também nas rações propriamente ditas.

Embora o requerimento nutricional de peixes venha sendo estudado há mais de 50 anos, ainda existe uma grande lacuna em relação a este conhecimento. Excetuando a carpa (Cyprinus carpio), a truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) e o bagre americano (Ictalurus punctatus), que foram intensivamente estudados, somente no início da década passada é que as pesquisas nutricionais foram intensificadas com outras espécies, sejam de água doce ou marinhas.

Devemos compreender perfeitamente que o requerimento nutricional inclui todos os estádios de desenvolvimento (larva, alevino, juvenil, crescimento e reprodutores). As diferenças quanto ao requerimento nutricional nestes estádios é amplamente reconhecida, porém ainda se carece de muito conhecimento.

No caso de camarões do gênero Penaeus, os estudos nutricionais foram iniciados no início da década de 70. Embora muitos pontos ainda permaneçam sem conhecimento, grandes progressos foram feitos nos últimos anos, principalmente com as espécies Penaeus japonicus e P. monodon. Esta falta de conhecimento é principalmente atribuída às diferenças de metodologia de pesquisa utilizada e à falta de uma ração padrão de pesquisa. Variáveis tais como espécie, tamanho, desenho experimental, condições do meio ambiente, tipos de ração entre outros, invalidam as comparações.

Estabilidade

Um dos maiores problemas em se formular e balancear uma ração para camarão está relacionado ao seu comportamento alimentar. Por terem hábitos de ingerir o alimento lentamente, isto vem causar uma perda considerável de nutrientes na água. Para compensar esta perda, existe uma prática comum utilizada pelas indústrias que é a de aumentar a dosagem de vitaminas, pois muitas delas, principalmente as do complexo B e a vitamina C, chegam a perder mais de 85% do seu total após uma hora de imersão. Embora esta medida seja em muitos casos eficiente, é com certeza antieconômica, pois as vitaminas vêm a ser o ingrediente mais caro da ração. Na tentativa de aliviar a perda de nutrientes, são utilizados métodos tradicionais de checarem quanto à rapidez do consumo dos camarões. Todavia, estes métodos são normalmente ineficientes ou de baixa precisão. No caso de peixes, o uso de floating pellets (pellets flutuantes) pode solucionar o problema de monitoramento, mas com camarões, que são comedores de hábito bentônico, este tipo de pellet é ineficiente. Por outro lado, quando tentamos solucionar este problema com o aumento da estabilidade dos pellets na água, observamos que isto não funciona muito bem, pois o processo de lixiviação continuará ocorrendo mesmo em rações com excelente estabilidade.

Outro aspecto importante relativo a pesquisa em nutrição para aqüicultura e que vem ganhando importância nos últimos anos é o que se relaciona com a substituição da farinha de peixe. Sabemos que embora a indústria da aqüicultura continue a crescer constantemente e de forma considerável, o fornecimento mundial de farinha de peixe permanece estável. Desta forma, tem-se a necessidade urgente de tentar substituir seja parcialmente ou totalmente a farinha de peixes em rações.

Como podemos ver, muitos ainda são os problemas quanto a nutrição, formulação e o balanceamento de rações e muitas ainda são as perguntas a serem respondidas pela pesquisa. Por outro lado, e apesar desta lacuna que ainda se tem de preencher, é através dos resultados das pesquisas realizadas até hoje, que as indústrias de rações se baseiam para a formulação de suas dietas.