Raio X da Piscicultura Paulista

Raio X da Piscicultura Paulista


Dada a importância que a piscicultura vem assumindo no Estado de São Paulo, foi publicado em março último o trabalho Piscicultura em São Paulo, custos e retornos de diferentes sistemas de produção na safra 1996/97, de autoria de João Donato Scorvo Filho e Luiz Marques da Silva Ayroza, do Instituto de Pesca, e Nelson Batista Martin do Instituto de Economia Agrícola, ambos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O estudo analisou os fatores econômicos que dão suporte à expansão da piscicultura no Estado, bem como define parâmetros técnicos, custos, rentabilidade e retorno dos investimentos, nos empreendimentos que estavam operando na safra 1996/97. As análises de investimentos abordadas no trabalho enfocam a piscicultura como uma alternativa de diversificação do negócio agropecuário, otimizando os recursos disponíveis nas propriedades rurais.

A Panorama da AQÜICULTURA publica a seguir, uma versão condensada deste trabalho, preparada por seus autores.

Os dados foram coletados em 50 pisciculturas de importantes regiões do Estado, levando em consideração uma unidade de produção de peixe como uma atividade agropecuária de uma propriedade rural diversificada, com área de 4,3 hectares. Desta área, três hectares constituem espelho d’água para a criação, 0,3 hectares de reservatório para o abastecimento dos viveiros e um hectare como área de apoio.

Para a implantação da piscicultura, além da terra, rede elétrica, veículos, máquinas e equipamentos, já existentes na propriedade, foram considerados os investimentos constantes na Tabela 1. O horizonte proposto para o projeto foi de 20 anos.

Como resultado do levantamento efetuado, foram consideradas as três espécies mais exploradas pelos piscicultores: tilápia, carpa comum e peixes redondos e, para cada uma delas, três sistemas de produção em função de diferentes densidades de povoamento, taxa de sobrevivência, conversão alimentar e peso médio final na venda do produto. A produção em sistema semi-intensivo, para todas as espécies exploradas estão na Tabela 2.

Além dos investimentos é importante salientar os custos operacionais, ou seja, o que é gasto durante o ciclo de produção, destacando-se:

· Mão de obra: dois trabalhadores permanentes com salário de R$240,00 e encargos de 36%; trabalhadores eventuais na manutenção e despesca num total que varia de 24 a 48 dias/ha/ano, dependendo do sistema de produção a um custo líquido de R$10,00/dia; · Administração: foi considerado a necessidade de 24 dias/ha/ano, a um custo de R$16,67/dia, mais encargos;

· Alevinos: foram quantificados pela densidade de estocagem na engorda, por sistema e por espécie, e os preços de aquisição por milheiro foram de R$80,00 para os peixes redondos, R$50,00 para a carpa comum e R$60,00 para os alevinos de tilápia revertida;· Ração: estimadas por sistema e por ciclo de produção, de acordo com a taxa de conversão e ao preço de R$0,38/kg, posto na piscicultura;

· Calcário: seis toneladas por hectares/ciclo, ao preço de R$26,00/tonelada, posto na piscicultura;
· Esterco de galinha: seis toneladas por hectares/ciclo, ao preço de R$45,00/tonelada, posto na piscicultura;
· Cal virgem: 500 kg por hectare/ciclo, ao preço de R$0,11/kg;
· Trator e equipamentos: 96 horas por hectare/ciclo para os sistemas A e B e de 192 horas/ha/ciclo para o sistema C, a um custo de uso de R$12,09/hora;
· Caminhonete: igual ao item anterior, a um custo de R$9,07/hora:
· Medicamentos: uso de diferentes tipos, a um custo estimado de R$300,00/ha/ciclo;· Assistência técnica: custo anual de R$480,00/ha;
· Energia elétrica: R$600,00/ha/ano, nos sistemas que não utilizam aeradores, e de R$2.520,00/ha/ano naqueles que utilizam dois aeradores de 2 HP/ha;
· Manutenção geral: estimada em 5% do valor dos investimentos, por ano;
· Arrendamento: o custo de uso da terra foi estimado em R$140,00/ha/ano;
· Outras despesas: estimado como sendo de 10% dos custos operacionais efetivos;
· Custo do capital de custeio: estimado considerando-se uma taxa de juros de 16% a.a., sobre metade do custo operacional efetivo de cada sistema de produção;
· Despesas de comercialização: venda na propriedade, considerando despesas com CESSR (FUNRURAL) de 2,7% sobre as vendas.

Custos de produção e rentabilidade na piscicultura

Peixes redondos – Para os peixes redondos os custos operacionais efetivos (COE), isto é, os dispêndios efetivos (desembolso) por hectare realizado na produção dos sistemas estimados variaram de R$1,22/kg para o sistema C a R$1,38/kg para o sistema A. Os custos operacionais totais (COT) foram de R$2,10/kg para o sistema A, de 1,88/kg para o sistema B e de R$1,76/kg para o sistema C, o que resultou em uma receita liqüida (preço de venda de R$2,80/kg) de R$0,70 no sistema A e cresceu até R$1,04/kg no sistema C. Como no COT consideram-se todas as despesas efetuadas, incluindo as estimativas para o custos do capital de custeio e depreciação, os resultados mostram-se favoráveis mesmo nos sistemas de produção menos intensivos.

Considerando agora os custos totais de produção, isto é, aquele que leva em conta todos o custos inclusive arrendamento da terra, remuneração do capital fixo (a uma taxa de juros de 12% a.a.sobre o valor médio dos investi- mentos), verificou-se que foram de R$2,29/kg no sistema A e de- crescia para R$1,88/kg no sistema C permitindo obter uma receita liqüida total que varia de R$0,51/kg no sistema A, R$0,77 no sistema B e R$0,92/kg no C.

Carpa comum – Os sistemas de produção de carpa comum apresenta custos inferiores aos verificados para peixes redondos, mas como as carpas atingem menor preço no mercado, as rentabilidades foram diferentes. O COE na exploração de carpa foi de R$0,99/kg no sistema de produção B, de R$1,00/kg no sistema C e de R$1,25/kg no A. Para o COT que além das despesas diretas, incluem encargos, juros de custeio, outras despesas, manutenção de instalações, CESSR (FUNRURAL) e depreciações, obteve-se um valor de R$1,99 para o sistema A, que decrescia para R$1,53/kg para o sistema B e para R$1,45/kg no sistema C. Dado o preço médio de venda de carpa de R$2,20/kg de peixe vivo, a receita liqüida foi de R$0,21/kg no sistema A, com R$0,67/kg no sistema B e de R$0,75/kg para o sistema C. Estes resultados mostram baixa rentabilidade no médio prazo para ao sistema de produção A e um bom resultado para os sistemas B e C. O custo total de produção (CTP), atingiu R$2,20/kg para o sistema A, o qual decrescia para R$1,67/kg no sistema B e para R$1,56/kg no C. Com esses custos e o preço médio de venda, obtiveram-se as receitas liqüidas totais para os três sistemas de produção, que foi zero para o sistema A, crescendo para R$0,53/kg para o sistema B e R$0,64/kg para o sistema C. Os sistema B e C se mostraram rentáveis, enquanto que utilizando o sistema A, o produtor praticamente teve igualados custos e receitas, quando se consideram todos os componentes de custos, o que não é uma alternativa de produção viável, uma vez que esta receita deve remunerar, ainda, a atividade do empresário/investidor.

Tilápia: O custo operacional efetivo (COE) para a tilápia foi de R$1,36/kg para o sistema de produção A, enquanto que no sistema B este reduziu-se para R$1,07/kg e para o sistema C de R$0,95/kg. Quando considerado o custo operacional total (COT), verificou-se que este atingiu R$2,04/kg para o sistema de produção A, decrescendo para R$1,55/kg para o sistema B e para R$1,34/kg para o C. A um preço médio de venda de R$2,20/kg, esses custos geraram as seguintes receitas liqüidas: R$0,16/kg para o sistema A, evoluindo para R$0,65/kg para o B e para R$0,86/kg para o C.

O custo total de produção (CTP) do quilograma de tilápia foi de R$2,21/kg no sistema A, o que resultou em uma receita liqüida total de R$ -0,01/kg, mostrando que o preço médio de venda não cobriu o CTP, no caso deste sistema produtivo. Quanto ao sistema de produção B, o CTP atingiu R$1,66/kg, permitindo obter-se uma receita liqüida total de R$0,54/kg. Para o sistema de produção C, o CTP foi de R$1,42/kg, gerando uma receita liqüida total de R$0,78/kg. Esse resultados sugerem que para cobrir o custo total de produção, os produtores precisam intensificar o processo produtivo da tilápia, e que os preços propostos da ordem de R$1,25/kg para o fornecimento de tilápias para a indústria de processamento não cobrem o custo total de produção e mesmo o custo operacional total, para os processos de produção mais intensivos.

A análise econômico-financeira exige o cálculo da Taxa Interna de Retorno, ou TIR, o que é feito levando-se em conta o horizonte temporal do projeto (20 anos no caso), mais receitas e despesas no período. Essa taxa deve ser maior ou igual à TJLP mais 6% de juros ao ano, que é o custo dos empréstimos do BNDES para a realização de investimentos na agricultura. Se a TIR for menor, o investimento na piscicultura não será compensador, pois o dinheiro do BNDES é o mais barato que existe na praça. No estudo, os pesquisadores trabalharam com o custo do capital igual a 15,4% ao ano. Em cada caso, também é preciso determinar o TRC, ou tempo de recuperação do capital, medido em anos. Quanto menor o TRC, mais atraente é o projeto, principalmente numa atividade de alto risco como é a piscicultura. A combinação desses dados está resumida nas Tabelas 4.

Verifica-se, por exemplo, que a tilápia produzida na safra de 1996/97 e vendida ao preço médio de 2,20 reais por quilo apresentou TIR de 14,6% ao ano no sistema A, com tempo de recuperação do capital investido de 6 anos. No sistema de produção B, a TIR alcançou 49,7% ao ano e o TRC ficou em 2 anos. No sistema C, a TIR atingiu 81,8% ao ano e o TRC foi apenas 1,4 ano. Portanto, só o sistema A não foi atrativo, pois a TIR foi menor que 15,4% ao ano, taxa adotada como referência mínima de retorno para se viabilizar o investimento.

Os resultados obtidos mostram com clareza e os lucros na produção de tilápia crescem rapidamente à medida que se intensifica o processo produtivo. Na mesma tabela, o leitor poderá acompanhar o desempenho das aplicações na engorda de peixes redondos e carpas.

Custo Operacional Total

O componente mais importante do custo operacional total de todas as espécies e sistemas de produção analisados foi a ração, cuja participação variou de 32,62% a 36,40% do COT nos peixes redondos, 24,85% a 33,97% na carpa e, de 22,38% a 34,05% na tilápia. É visível que o aumento no rendimento/ha é seguido de um aumento da participação da ração nos custos/ha. Isto é explicado já que um maior volume consumirá mais ração, entretanto haverá um decréscimo dos custos por quilograma de peixe vivo produzido.

O mesmo acontece com os custos com alevinos, pois processos produtivos mais intensivos trabalham com maior densidade de peixes por metro quadrado de superfície de água. Mas a sua participação nos custos nunca chegou a 4% dos custos nos peixes redondos, nem a 3% na carpa, enquanto que no caso da tilápia, os custos variavam de 8,18% a 9,96%, já que se utiliza uma maior densidade por metro quadrado (Tabela 2).

(1) Para investimento em empreendimentos de piscicultura de 3 hectares de superfície de engorda e a preços em real de julho de 1997 (2) Preço de venda de peixe vivo, na propriedade, em R$/kg (3) TIR = taxa interna de retorno, em % a.a. (4) TRC = tempo de recuperação do capital investido, em anos (5) Preço médio de venda que vigorou na safra de 1996/97 fonte: dados de pesquisa
(1) Para investimento em empreendimentos de piscicultura de 3 hectares de superfície de engorda e a preços em real de julho de 1997 (2) Preço de venda de peixe vivo, na propriedade, em R$/kg (3) TIR = taxa interna de retorno, em % a.a. (4) TRC = tempo de recuperação do capital investido, em anos (5) Preço médio de venda que vigorou na safra de 1996/97 fonte: dados de pesquisa

A importância da ração no custo operacional total chama atenção para o seu preço e qualidade. O preço de aquisição, colocado na piscicultura, pode variar muito de acordo com o fornecedor, dependendo do poder de negociação do piscicultor, quer pela escala de aquisição própria, quer pela compra em grupo de produtores. Assim, no caso do custo estimado, o preço da ração foi cotado em R$0,38/kg, posto na piscicultura. Uma redução de 10% neste preço pode proporcionar uma redução entre 2,24% e 3,64% no custo de produção, indicando que o piscicultor tem que estar atento ao preço deste insumo e sempre associá-lo à qualidade, pois ele é a maior parte do custo por quilograma produzido.

Os itens de custo, cuja participação cresce com o aumento do rendimento, para as diferentes espécies, são: ração, alevinos, operação de máquinas e veículos, consumo de energia elétrica, outras despesas, juros de custeio e o CESSR (FUNRURAL). Os componentes que, por serem fixos por hectare, decrescem à medida que se intensifica o processo produtivo são: mão de obra, esterco de galinha, cal virgem, calcário, medicamentos, assistência técnica, encargos sociais, manutenção e depreciação das instalações e equipamentos. Este é o aspecto mais relevante para os produtores, isto é, observarem quais os custos são fixos anualmente e quais variam ao longo do ano ou por hectare produtivo. É na gestão dos custos que são fixos que será possível reduzir o custo médio por quilograma produzido, quer intensificando o processo produtivo, quer administrando e/ou cortando todos os custos fixos possíveis, o que inevitavelmente melhora a rentabilidade da atividade.

Lucratividade

Os resultados obtidos pelos piscicultores paulistas na safra 1996/97 contribuem para explicar parte da expansão da piscicultura no Estado de São Paulo nos últimos anos a uma taxa em torno de 30% ao ano, porque os bons índices de lucratividade e de retorno obtidos na exploração de diferentes espécies e sistemas de produção, constituem o maior estimulo aos novos investimentos e ao crescimento dos empreendimentos já existentes.

Os produtores devem estar atentos para as opções de sistemas de produção a utilizar, pois os sistemas mais intensivos se mostraram mais rentáveis e com maiores taxas internas de retorno. Por outro lado, apresentam maiores riscos, que precisam ser administrados com maior treinamento da mão de obra e domínio da tecnologia de produção, e adotar um eficiente sistema de sanidade, principalmente com apoio de assistência técnica especializada.

Uma análise comparativa com os dados obtidos pelos mesmos autores em estudo semelhante referente a safra 1993/94, mostra uma redução nos custos de produção em função de melhorias tecnológicas obtidas na taxa de conversão alimentar aparente e na taxa de sobrevivência. Porém, o aumento e firmeza da demanda pelos pesque-pagues elevou os preços de venda, o que melhorou substancialmente os índices de lucratividade e retornos dos investimentos realizados na atividade.