RANICULTURA

Como Manter Girinos em Ambientes Saudáveis 

Por: Dr. Alejandro Flores Nava
Centro de Estudios Avanzados del IPN


A ranicultura tem se expandido bastante nos últimos 10 anos, especialmente no Brasil, onde o sucesso de vários sistemas de crescimento (engorda) colocou-o na liderança mundial desta atividade. Com a evolução da ranicultura desde os métodos mais extensivos até os mais intensivos (Anfigranja – ver Panorama da AQÜICULTURA de julho/agosto de 1991), muitos problemas têm sido solucionados com sucesso em termos de alimento e alimentação, infraestrutura e manejo geral; entretanto muitos problemas ainda pendentes estão diretamente ligados à qualidade da água, especialmente durante a fase aquática do cultivo. Serão vistos a seguir os fatores que interagem com a saúde dos girinos e que são também responsáveis pela saúde do ambiente na qual os girinos vivem.

Primeiramente precisamos lembrar que um tanque ou viveiro é ele próprio um micro-ecossistema e o que nós, enquanto aqüicultores, queremos é manipulá-lo ecologicamente para que ele possa alcançar uma boa performance com o melhor retorno econômico possível. Nesses ambientes temos os fatores abióticos (luz, temperatura, matérias inorgânicas, nutrientes, etc.) bem como fatores bióticos ( girinos, algas, bactérias). Todos esses fatores tendem sempre a estar equilibrados até que nós aquacultores, ao tentarmos extrair o máximo de nossos cultivos, quebramos esse equilíbrio introduzindo rações, aumentando a densidade populacional, etc. Entretanto é perfeitamente possível fazer isso se tomarmos as medidas necessárias para contrabalançar.

CICLO DOS NUTRIENTES

Tomemos a figura 1 que nos mostra a representação esquemática dos componentes do micro-ecossistema nas condições normais de equilíbrio. Isto é, vamos assumir que sabemos o número de girinos que podem ser estocados de forma a fazerem um uso racional e sustentado da produtividade natural presente. Teremos então um número ‘máximo’ ótimo de girinos e uma comunidade de fitoplâncton (algas), zooplâncton, muitas populações de bactérias e outros microorganismos.

Esses componentes bióticos são dependentes uns dos outros assim dos fatores abióticos (luz, temperatura, etc).

Se pudéssemos ver como se dá a interdependência neste ambiente, veríamos que os girinos quando defecam, deixam uma enorme quantidade de nutrientes sob diferentes formas. Deixam por exemplo grandes quantidades de amônia (NH3 – NH4), que tem o nitrogênio como principal componente, assim como o fósforo incorporado pelos vegetais. Esses nutrientes (nitrogênio e fósforo) contidos nas fezes são liberados pela ação das bactérias assim que chegam ao fundo e retornam a coluna d’água, onde sob a ação da luz, são utilizados pelo fitoplâncton. Essas algas unicelulares por sua vez, são ingeridas pelos girinos reiniciando o ciclo. Haverão tantas bactérias, algas e zooplâncton quanto massa fecal para ser decomposta.

Outro elemento que é essencial ao fitoplâncton é o carbono e ele o extrai de várias fontes como o dióxido de carbono (CO2), ácido carbônico, íons carbonato e bicarbonato presentes na água. Todas essas fontes de carbono regulam, dependendo de sua relação de quantidade, o pH do sistema. Durantre o dia, as algas de nossos tanques/viveiros, na presença de luz, fazem a fotossíntese usando principalmente CO2, da água, aumentando o pH e oxigenando o ambiente. À noite entretanto, essas algas, na ausência de luz, consomem o oxigênio e liberam CO2 consequentemente fazendo cair o pH. Mesmo sendo os girinos conhecidos por serem bem adaptados a oscilações de pH, essas influenciam outros fatores químicos no sistema.

TOXIDEZ

Tomemos agora a figura 2 com uma situação típica de cultivo de girinos. As pricipais características do manejo são: densidade alta (normalmente 1 ou mais por litro), adição de alimento farelado e uma muito pequena troca d’água (usualmente menor que 5 litros por minuto). Temos assim um cenário diferente. A ração oferecida é somente parcialmente consumida e a sobra libera para o meio uma considerável quantidade de amônia e outros compostos nitrogenados. Os girinos também excretam bastante amônia. A amônia é um composto nitrogenado composto por duas frações: não-ionizada (NH3) e ionizada (NH4), sendo esta última mais tóxica aos organismos aquáticos. A toxidez da amônia é diretamente relacionada ao pH. Quanto mais alto o pH, mais tóxica é a amônia. Por outro lado, a fração tóxica NH3 tende a se acumular mais com pH mais baixo e a ser perdida como gás nos pH mais altos.

No sistema há outro importante papel que é desempenhado pelas bactérias. Toda matéria orgânica (alimento não consumido, fezes, algas mortas) que chega ao fundo é decomposta pelas bactérias aeróbicas que liberam nutrientes reutilizáveis pelas algas que por sua vez serão comidas novamente pelos girinos. Mas em condições anóxicas (pouco oxigênio), comum em tanques com pouca troca de água, são desenvolvidas bactérias fermen-tativas (anaeróbicas) que produzem outros compostos tóxicos como o ácido sulfídrico(H2S). Todos esses problemas de qualidade de água conduzem a doenças e em alguns casos a perda de todos os girinos.

Podemos agora nos voltar para saber como evitar esses problemas observando a figura 3.

Neste caso nosso tanque é raso (menos de 50 cm) para promover uma mistura melhor da água e distribuição mais homogênea dos nossos girinos bem como evitaremos uma microestratificação. Agora aumentamos nossa troca de água para que esteja entre 50 e 100% do volume total do tanque por dia. Isto evitará acúmulo de metabólitos e matéria orgânica mantendo uma ótima qualidade de água. Com a adição de um simples soprador injetando ar no sistema, poderemos aumentar em 400% a densidade de estocagem melhorando a produtividade da fazenda. Outra vantagem de se manter uma alta troca de água é que as temperaturas tendem a ser mais estáveis do que em sistemas estáticos.

Modificações simples e baratas no manejo dos girinos podem manter o ambiente saudável com reflexos nos lucros da ranicultura.