Ranicultura: realidades e perspectivas

Por: Samuel Lopes Lima Universidade Federal de Viçosa


Os avanços zootécnicos da ranicultura no Brasil tomaram a atividade atraente e economicamente viável.

Na década de 30 surgiram as primeiras tentativas de se criar rãs no Brasil. Mas, foi no final da década de 70 que a ranicultura ganhou grande interesse dos produtores, particularmente atraídos pelo trabalho do Prof. Luiz Dino Vizotto (UNESP), que auxiliou vários ranicultores na implantação de seus ranários, na região de São Paulo.

Em 1978, promoveu-se o primeiro encontro nacional de ranicultura (ENAR), evento que vem sendo realizado a cada dois anos, responsável pela motivação de vários pesquisadores e técnicos, além dos ranicultores, que ali apresentam seus trabalhos e empreendimentos. Atualmente estima-se que já foram implantados cerca de 2.000 ranários em nosso país, cujos ranicultores, em sua maioria, estão filiados a cinco associações estaduais. Em abril de 1992 teremos o VII ENAR, no Rio de Janeiro, promovido pela ARERJ.

Infelizmente, como acontece em quase todas as atividades, os pioneiros sofrem as maiores dificuldades para tomarem seus empreendimentos viáveis, técnica e economicamente. Desta forma, os primeiros ranicultores enfrentaram uma triste realidade: as instalações adotadas nos primeiros ranários não eram adequadas para criações em caráter intensivo. O resultado é que centenas de ranários fecharam suas portas.

Apesar dos fracassos. observou-se, durante a década de 80, vários avanços na tecnologia de criação de rãs. Propôs-se a utilização de ração para alimentar as rãs, em substituição aos alimentos vivos (peixes, minhocas e girinos), e a substituição das larvas de insetos, produzidas a partir de carcaças de animais em decomposição, pela produção de larvas alimentadas com ração e criadas a partir de moscas confinadas em moscários climatizados. Atualmente, existem vários tipos de cochos automáticos para vibrar a ração, substituindo a larva de mosca, e a ração de truta é ainda a melhor alternativa para alimentar rãs, até que se conheçam as exigências nutricionais destes animais.

Quanto às instalações, surgiram os seguintes modelos de criação na fase de engorda (ou recria): tanque-ilhas (ENAR, 1980); confinamento de rãs desenvolvido pela Universidade Federal de Uberlândia (OLIVEIRA, 1982); gaiolas para rãs, ainda em fase de pesquisas pela equipe do Instituto de Pesca da Secretaria de Agricultura de São Paulo (FONT ANELLO, 1988); e o Sistema Anfigranja de Criação Intensiva (LIMA & AGOSTINHO, 1988), que se caracteriza por possuir instalações e manejo sistematizado em todos os setores da criação (reprodução, girino e engorda).

As instalações do Sistema Anfigranja foram desenvolvidas a partir de vários protótipos de laboratório e campo, até a definição de um modelo experimental, que depois de testado e ajustado na Universidade Federal de Viçosa, foi implantado a nível de produtor, inicialmente no Ranário Real, em 1985, onde foi adaptado para escala de produção comercial. Os resultados da produtividade deste novo sistema, comparados com os do ranário tradicional (demais modelos de ranários utilizados pelos produtores), mostram uma redução no tempo de engorda de rãs (imago ao abate), de 7 a 12 meses para 3 a 4; mortalidade de 90 % a 60 % do plantei na fase de engorda, para 8a 10%; sendo que nesta fase, a conversão média está variando de 1,4 a 2,0 por kilo de ração. Soma-se a isto, as grandes facilidades que as instalações propiciam ao manejo dos animais, resultando economia de mão-de-obra.

A produtividade média no Sistema Anfigranja atualmente é de aproximadamente cinco quilos de carne de rãs por m2/safra, que, se extrapolada para produção por hectare, resulta. em 400 toneladas por ano (peso vivo). Espera-se que, com o desenvolvimento de pesquisas a nível de campo e de laboratório, estes resultados sejam otimizados. A estimativa de produção de rãs nas Anfigranjas que foram implantadas está no quadro 1.

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A produção brasileira de carne de rãs é estimada em 160 t para o ano de 1991, onde as Anfigranjas respondem por 46,2 t, o que corresponde a aproximadamente 29 % da produção nacional. O quadro 2 apresenta dados que devem ser considerados incompletos devido às dificuldades de obtê-los com precisão.

Quanto à demanda, estima-se que o mercado brasileiro tem condições de absorver 800 t de carne de rãs por ano (CRUZ & LIMA, 1990), compossibilidades deste valor ser bastante ampliado no momento em que houver mais oferta, e na oportunidade, ser adotado um trabalho de maior divulgação das qualidades do produto.  

Quadro 2 – Estimativa da produção de Rãs (kg) nas principais regiões produtoras e Anfigranjas implantadas.

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Quanto ao mercado internacional, a totalidade da carne de rãs é proveniente da atividade de caça., cuja oferta. tem flutuado entre 10 e 13 mil t/ano. Os principais produtores são: Indonésia, Bangladesh, índia, China, Japão e Malásia, na Ásia, Costa do Marfim, na África, Cuba e México, na América. Os maiores consumidores são EUA, Canadá e França.

Até agora o mercado internacional não atraiu o produtor brasileiro, uma vez que o nosso país nunca exportou carne de rãs (recentemente passamos a exportar rãs vivas). Tal fato se justifica de um lado pela reduzida oferta interna em relação à demanda e, de outro lado, pelo fato do preço internacional ser inferior ou semelhante ao praticado no mercado interno.

Desse modo, a má qualidade dos produtos ofertados no mercado internacional, aliada ao caráter predatório da caça, apontam para a abertura de um espaço bastante promissor para a ranicultura brasileira. A título de exemplo, citam-se os casos do Japão e de Cuba, com quedas. significativas nas exportações, nos últimos anos. Em 1969, o Japão exportava 881 t e, em 1984, apenas 86 t; e em 1988 suspendeu a exportação. Já a exportação cubana, após o pico de quase 1.000 tem 1974, teve sua exportação reduzida para pouco mais de 100 tem 1988.

Face a esse quadro, pode-se facilmente prever que, se os produtores brasileiros tiverem cautela e se organizarem para conquistar as potencialidades do mercado internacional, oferecendo carne de rãs criadas 7.0o tecnicamente e processadas em condições higiênicas, fatalmente as perspectivas deverão ampliar-se satisfatoriamente para o Brasil, que poderá, em breve, ser o pioneiro na exportação do produto obtido em cativeiro, com tecnologia genuinamente nacional.

Resta agora ser realista: a ranicultura está demorando a viabilizar-se, pois os fracassos deixaram seqüelas, e várias empresas tradicionais da agropecuária, que teriam condições de dinamizar o setor, têm receio de investir em uma atividade ainda insipiente. Soma-se a isso a crise econômica que o País enfrenta atualmente, onde novos investimentos não podem ser executa dos, por total falta de financiamento, impossibilitando até mesmo os ranicultores de ampliarem e remodelarem seus ranários por falta de recursos.

Enquanto as perspectivas são atrativas, a realidade nas Universidades e outras instituições governamentais que atuam nas pesquisas que têm possibilitado o desenvolvimento científico e tecnológico da ranicultura é desestimulante: faltam recursos e os salários desatualizados têm proporcionado a evasão dos profissionais.