Rãs em baias inundadas

Os primeiros resultados do acompanhamento de campo mostram a eficiência do novo desenho das baias inundadas

Por Silvia C. Reis Pereira Mello
FAMATH – Faculdade Maria Thereza, RJ
e-mail: [email protected]


Em 1998 a equipe do Laboratório de Ranicultura da FAMATH – Faculdade Maria Thereza – RJ acompanhou, o desempenho da Rana catesbeiana (rã touro gigante) engordada em sistema inundado de criação, utilizando baias de polietileno montadas no laboratório, seguindo o modelo proposto em 1977 pelo Dr. Rolando Mazzoni do INAPE – Instituto de Investigação Pesqueira do Uruguai e utilizado em ranários comerciais da Argentina (ver Panorama da AQÜICULTURA Vol. 8, edição 49 / 1998).

O acompanhamento do experimento em laboratório evidenciou diversos problemas relacionados com a higienização das baias e, já na elaboração do plano de execução, surgiram discussões entre técnicos e ranicultores filiados a ARERJ – Associação dos Ranicultores do Estado do Rio de Janeiro, quanto a problemas sanitários que poderiam ocorrer neste tipo de criação, caso não existisse uma renovação constante da água no sistema. Baseado nestas discussões, o biólogo e ranicultor Walmir Telles de Lima apresentou aos técnicos da empresa Sansuy, um modelo de baia com um piso de tela afastado do fundo, capaz de proporcionar uma melhor higienização bem como um menor consumo de água durante o cultivo.

Características da Baia

Para o estudo, a empresa confeccionou uma baia em manta plástica medindo 6m2 (2×3) e 80 cm de profundidade. Uma tela suspensa a aproximadamente 20 cm do fundo do tanque serviu com piso para as rãs. Na parte mais funda da baia foi acoplando um sistema de drenagem, regulado por um joelho móvel na parte externa, também responsável pela manutenção do nível interno da água.

O sistema de abastecimento utilizado no experimento foi feito através de um cano de PVC de ¾ de polegada, com orifícios a cada 5 cm, posicionado na diagonal sobre a baia, possibilitando a movimentação da água e a conseqüente movimentação da ração durante arraçoamento.

A baia foi montada ao ar livre, cobertura com tela de sombreamento para evitar a incidência direta do sol. Foi também colocada diretamente sobre a baia uma rede de pesca com malha de 18 mm para impedir a fuga das rãs e a entrada de predadores.

Ranicultores observam o experimento desenvolvido na baia inundada, medindo 6m2 (2x3) e 80 cm de profundidade confeccionada em manta plástica .
Ranicultores observam o experimento desenvolvido na baia inundada, medindo 6m2 (2×3) e 80 cm de profundidade confeccionada em manta plástica .

Acompanhamento de campo

Com o apoio da ARERJ, o estudo foi realizado de março a junho de 1999 no Ranário Sete Nascentes, em Xerém – RJ, e foi conduzido pelas pesquisadoras Silvia Mello e Rita Veiga, junto a uma equipe de estagiários do Laboratório de Ranicultura da FAMATH. O estudo contou também com o apoio da Nutron Alimentos, que forneceu sua ração extrusada flutuante para peixes carnívoros, contendo 42% de proteína e pellet de 8 mm e 15 mm.

Tabela 1 : Temperaturas mensais da água (máximas e mínimas)
Tabela 1 : Temperaturas mensais da água (máximas e mínimas)

Quinzenalmente foram realizadas biometrias e pesagem dos animais, anotando-se as perdas por descarte e mortalidade. O ganho de peso e a conversão alimentar foram avaliados a cada 15 dias, ajustando-se a quantidade de ração a ser fornecida de acordo com a biomassa da baia. A temperatura da água, anotada diariamente durante os quatro meses, variou de 18ºC a 30ºC. (Tabela 1). Nos dias em que foram realizadas as biometria

Nos dias em que foram realizadas as biometrias, alguns animais foram descartados, retirando-se aqueles que apresentavam lesões, peso muito abaixo ou muito acima da média.

Limpeza e troca da água

Para a limpeza da baia foi usada escovação a cada quinze dias (coincidindo com a retirada dos animais para biometria), para que fosse retirando o limo da parte interna. A água foi trocada integralmente duas vezes ao dia, uma vez pela manhã e outra à tarde. O nível da água foi ajustado de acordo com o crescimento dos animais para que somente as cabeças ficassem fora da água. Durante o arraçoamento a água também era ligada e mantida circulando por mais uma hora.

Manejo

Foram estocadas inicialmente 226 rãs/m2, perfazendo um total de 1.356 rãs na baia (Tabela 2). Após 85 dias, computando-se as perdas por descarte e mortalidade (Tabela 3), a densidade de estocagem chegou a 116 rãs/ m2, tendo-se um total de 696 rãs (51,32% do lote inicial) .

A quantidade de ração utilizada variou entre 3 a 5% do peso vivo/dia. Nos primeiros 43 dias, essa quantidade foi ofertada em 3 porções diárias: às 7:30, 11:30 e 16:00. Após este período inicial, a ração passou a ser ofertada em 4 porções: às 7:30, 10:30, 14:30 e 16:00.

Tabela 2: Ganho de peso, Conversão Alimentar e densidade de estocagem por período.
Tabela 2: Ganho de peso, Conversão Alimentar e densidade de estocagem por período.

Abate

Após o encerramento do período de acompanhamento, as rãs foram alimentadas por mais 20 dias, até serem abatidas no abatedouro da COOPERRAN localizado em Rio Bonito – RJ, sob Inspeção Federal tendo o lote abatido alcançado o peso médio de 189 g em 105 dias (Tabela 4).

Tabela 3: percentual de perdas durante o acompanhamento por morte e descarte
Tabela 3: percentual de perdas durante o acompanhamento por morte e descarte
Tabela 4: Índices obtidos no abate das rãs na COOPERRAN
Tabela 4: Índices obtidos no abate das rãs na COOPERRAN

Conclusões e Sugestões

Durante o acompanhamento de campo, foi observado que, ao contrário do ocorrido no experimento feito em laboratório, quando não existia a tela no fundo, a água manteve-se limpa a maior parte do tempo, mesmo sem ter sido feita a renovação constante da água.

A limpeza da baia só foi realizada quinzenalmente, o que facilitou em muito o manejo. Este fato, em um sistema comercial, diminuirá os custos com mão de obra.

Nos primeiros quarenta dias foram observadas as maiores taxas de perdas por descarte e mortalidade. Nesta fase, as rãs tinham menor tamanho e estavam se adaptando a comer o alimento na água, levando-as a abocanharem a perna de outras rãs, iniciando os problemas patológicos e conseqüentemente aumentando a taxa de mortalidade. Até que sejam realizados novos acompanhamentos e alterações no manejo na fase inicial, sugere-se que essa primeira fase da recria (até aproximadamente 40 g), continue sendo feita em sistema semi-seco, evitando-se assim os maiores índices de perdas no sistema inundado.

Nos dias em que a temperatura da água alcançou os 18º C, no final do mês de maio, as rãs pararam de se alimentar, o que evidenciou que águas com temperaturas muito baixas inviabilizam o uso do sistema, sugerindo a utilização de um sistema de aquecimento da água e, obviamente, deve-se levar em consideração um estudo de viabilidade econômica para a utilização do aquecimento.

Além da facilidade de manejo, a densidade final alcançada no sistema inundado (116 rãs/m2) foi o dobro do obtido nos outros sistemas, além do que se torna dispensável a produção de alimento vivo e o uso de artifícios mecânicos para movimentar a ração para que haja o estímulo ao consumo.