Rãs:

Evoluções Tecnológicas da Ranicultura Brasileira

Por: Silvia C. Reis Pereira Mello – Zootecnista e Diretora Técnica da Fiperj – Fundação Instituto de Pesca do Rio de Janeiro e Diretora da Arerj – Associão dos Ranicultres do Rio de Janeiro.


No Brasil, segundo dados do Diagnóstico da Ranicultura (1994), a primeira referência bibliográfica sobre instalações utilizadas na criação de rãs descreve o Ranário Aurora, construído em 1935, na Baixada Fluminense, por técnicos da então Secretaria de Agricultura e Pesca Interior do Estado do Rio de Janeiro. Essas instalações consistiam de tanques escavados na terra, com a forma retangular, intercalados com áreas de vegetação natural, cercadas por folhas de zinco. Em 1975, surgia um outro modelo de ranário, que consistia de um cercado de tela de náilon coberto com rede, de formato retangular. No início da década de 80, baseados na experiência de criadores, pesquisadores desenvolveram os tanques-ilhas para engorda de rãs. As instalações deste modelo de ranário também eram cercadas com telas de náilon e cobertas com rede de pesca multifilamento, para evitar os predadores.

Um sistema revolucionário para a época, denominado “confinamento” foi desenvolvido na Universidade Federal de Uberlândia em 1982, também para a fase de engorda. As baias deste novo sistema consistiam de cercados com placas pré-moldadas de argamassa, piso em concreto, com um tanque ( piscina ) com água, parcialmente coberta com telha.

Quatro anos mais tarde, surgiu o sistema anfrigranja de criação intensiva de rãs. As instalações do setor de recria (engorda) são galpões construídos em alvenaria, com piso de concreto e uma distribuição linear de cochos, abrigos e piscinas.

A ranicultura no Brasil se firmou como uma atividade econômica na década de 80. Desde então, vem passando por aperfeiçoamentos e, gradativamente, observamos uma melhora significativa de produtividade e também um aumento da produção (Tabelas 1, 2 e 3). O alto custo da implantação de um projeto, associado ao baixo poder aquisitivo de grande parte das pessoas que entram na atividade, além do número reduzido de técnicos experientes disponíveis aliado a grande criatividade dos ranicultores, vem fazendo com que os ranários implantados tenham várias modificações e adaptações, se comparados com os modelos recomendados pelos técnicos das diversas instituições de pesquisa.

Entre as técnicas de criação adotadas, a que vem sendo empregada com grande sucesso, especialmente no Estado do Rio de Janeiro, segue os princípios básicos do sistema anfigranja, preconizado pelos pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa. No setor de recria, já é consenso entre os produtores, que a disposição linear dos componentes básicos das baias (abrigo, cocho e piscina), aumenta consideravelmente a produtividade por m2.

Inverno

Durante o inverno ou em regiões de clima frio, muitos produtores vem utilizando o sistema de casa de vegetação (estufa plástica), no setor de recria, obtendo um relativo sucesso, quando comparada com a baias que não possuem esse tipo de cobertura. Tentativas do uso de sistemas verticais de criação, usando-se pequenos compartimentos, não conseguiram alcançar produções significativas.

Na maioria dos ranários, a criação dos girinos é realizada em tanques de alvenaria.

A partir de 1992, passou-se a adotar o modelo de tanque com fundo afunilado, o que tem permitido boa eficiência na limpeza. A densidade usada chega a até 2 girinos por litro na fase inicial, passando para 2 litros por girino, quando o animal atinge 1grama.

Nas épocas mais frias do ano, ou naquelas regiões onde normalmente a temperatura é mais baixa, alguns produtores fazem o aquecimento da água e também cobrem o setor com plástico transparente. Essa prática tem proporcionado a obtenção de rãs jovens nas épocas mais frias do ano.

 

Tabela 4 – Produção dos principais países e respectivos sistemas de criação.
Tabela 4 – Produção dos principais países e respectivos sistemas de criação.
Outros Países

Durante o Technofrog ‘ 97, que ocorreu no último mês de julho, foi discutido o sistema inundado de criação de rãs, desenvolvido em Taiwan. Na América do Sul, países como Equador, Uruguai e Argentina, também já adotaram esse sistema. Esse sistema, usado na fase de recria da rãs, consiste na manutenção da rã em uma lâmina d’água que varia de 3 a 5 cm fazendo com que o animal não tenha acesso à partes secas. O alimento administrado é uma ração extrusada peletizada, que flutua na água e, dessa forma, proporciona uma movimentação da ração, estimulando o seu consumo.

Dados de produção mundial de rãs também foram apresentados, considerando-se os diferentes sistemas de criação, denominando na tabela 4 como sistemas semi-seco, utilizado no Brasil, e sistema inundado.

Comercialização

O Brasil é hoje um dos maiores produtores de rãs em cativeiros do mundo. Vale salientar o crescente consumo da carne de rã com finalidades terapêuticas, principalmente pela divulgação dos diversos trabalhos científicos que atestam tais propriedades, basicamente no tratamento das diversas formas de alergias gastro-intestinais em crianças, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília

A rã vem sendo comercializado de diversas formas: congelada (carcaça inteira e coxas), fresca (carcaça inteira) e viva. Além disso, alguns subprodutos são comercializados de forma irregular e em pequenas quantidades, como as peles e as vísceras. A carne de rã produzida no Brasil é vendida no mercado interno, sendo apenas uma pequena parte destinada ao mercado externo, comercializada na forma de rã viva, para os Estados Unidos.

Entraves

Existem, no entanto, alguns entraves na comercialização da carne da rã. Apesar de ser caracterizada como pescado, a rã não foi beneficiada com a isenção de pagamento de ICMS como os demais pescados, resultando num alto o custo de impostos incidindo sobre a sua comercialização.

Além disso, os altos custos de produção do pequeno produtor R$ 5,00 a 7,00/kg (custo de produção médio, em ranários do Rio de Janeiro, sem incluir custo de abate) também concorrem para um elevado preço final do produto.

Outros problemas que também precisam ser superados são aqueles decorrentes da irregularidade da oferta e do preconceito existente, por parte do consumidor, devido ao desconhecimento das qualidades da carne de rã. Já no mercado externo, a carne da rã criada vem sofrendo forte competição com a carne de rã proveniente da caça, que chega a preços mais inferiores. Recentemente, no Estado do Rio de Janeiro, reuniram-se órgãos do governo e produtores para tentar solucionar parte desses entraves. A questão da isenção do ICMS parece ser viável, resultando numa redução no preço final do produto e num aumento do volume de carne de rã abatida em estabelecimento controlado pelo SIF. Espera-se com isso aumentar o número de consumidores, atraídos por produtos de qualidade controlada e preços mais acessíveis.

O incentivo para a realização de pesquisas foi outro tema discutido entre os especialistas no Rio de Janeiro, pois acreditam que somente com um maior desenvolvimento tecnológico e uma maior assistência ao produtor, seja possível aumentar a produtividade dos ranários e reduzir os custos de produção.