Reprodução do Linguado

Paralichthys orbignyanus em Laboratório: Desova Induzida e Natural

 

Por:
Luís André Sampaio1
Adalto Bianchini2
Ricardo Berteaux Robaldo2
1 Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG
Departamento de Oceanografia, Laboratório de Maricultura.
e-mail: [email protected]
2 Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG,
Departamento de Ciências Fisiológicas


Os linguados conhecidos por sua forma pouco usual, são peixes planos, com ambos os olhos localizados no lado do corpo que fica voltado para cima. Possuem uma carne saborosa, de alto valor comercial, já sendo cultivados comercialmente em vários países ao redor do mundo. Neste artigo, pesquisadores do Laboratório de Maricultura da Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG, que vêm desde 1995 se dedicando ao estudo das espécies de linguado da costa brasileira, falam dos bons resultados das técnicas de desova induzida e natural.

Diversas espécies de linguado ocorrem em águas brasileiras, e pertencem a Ordem Pleuronectiformes sendo que aquelas pertencentes à Família Paralichthyidae são as de maior valor comercial. No sul do Brasil, as espécies mais abundantes são Paralichthys patagonicus, que ocorre em alto mar, em profundidades de mais de 30m, e Paralichthys orbignyanus, de distribuição mais costeira e estuarina, entre o Estado do Rio de Janeiro e Mar del Plata, na Argentina. (Figura 1)

gura 1: Reprodutor do linguado Paralichthys orbignyanus
gura 1: Reprodutor do linguado Paralichthys orbignyanus

Mais de 100 espécies de peixes ocorrem no estuário da Lagoa dos Patos (Rio Grande – RS) e dentre elas, o linguado é a espécie de maior valor comercial. Entretanto, a exemplo do que acontece com a pesca da tainha, da corvina e do bagre, sua captura vem sendo reduzida nos últimos anos. A redução na oferta de pescado motivou os pesquisadores a investigar a possibilidade de cultivo de espécies nativas, dentre elas o linguado P. orbignyanus.

O cultivo de linguado é uma realidade em várias regiões do mundo, especialmente na Europa e no Japão, onde o “turbot” (Scophthalmus maximus) e o “hirame” (Paralichthys olivaceus) são, respectivamente, as espécies com maior produção. No continente americano, várias espécies do gênero Paralichthys vêm sendo cultivadas ou estão sendo avaliadas para a sua introdução na piscicultura. Dentre elas encontram-se: P. lethostigma e P. dentatus nos Estados Unidos, P. tropicus na Venezuela, P. woolmani no Equador, P. microps e P. adspersus no Chile e P. patagonicus na Argentina.

No Brasil, a espécie alvo é P. orbignyanus, pois entre as duas espécies de linguado mais abundantes na nossa costa, esta é a que possibilita a captura de reprodutores junto à águas rasas. Isso é importante porque a pesca de reprodutores em águas profundas causa ferimentos aos linguados, invibializando a sua sobrevivência em cativeiro.

Uma das características mais marcantes do linguado é sua capacidade em tolerar variações de salinidade, podendo até mesmo ser transferido da água do mar diretamente para água doce. Essa qualidade é muito importante quando se considera a possibilidade do cultivo de linguado em águas estuarinas, sujeitas à freqüentes variações de salinidade.

A reprodução de peixes marinhos, no entanto, é uma das atividades mais complexas da aqüicultura.

Enquanto existe tecnologia para a reprodução de mais de 50 espécies de peixes de água doce no Brasil, apenas cinco espécies de peixes marinhos têm sido reproduzidas com sucesso em cativeiro, sendo elas a tainha (Mugil platanus), o robalo-peva (Centropomus paralelus), o peixe-rei (Odontesthes argentinensis), a corvina (Micropogonias furnieri) e o linguado (P. orbignyanus), tema do presente artigo.

Desova Induzida

O tamanho de primeira maturação do linguado na natureza é de aproximadamente 40 cm para as fêmeas e 30 cm para os machos. A sua desova é parcial e o período reprodutivo se estende desde outubro, no final da primavera, até abril, no início do outono.

Tentativas de utilizar reprodutores capturados em alto mar pela frota de pesca industrial não foram bem sucedidas, pois o longo tempo de arrasto provoca várias lesões que levam à morte todos os indivíduos em menos de uma semana de manutenção no laboratório. Por outro lado, a experiência de captura de reprodutores na zona de arrebentação, por pescadores artesanais, vem se mostrando bastante satisfatória, pois os peixes chegam ao laboratório em boas condições de saúde e sua sobrevivência é elevada. Os reprodutores são anestesiados com benzocaína (50 ppm) e após serem pesados e medidos, é feita a determinação do sexo.

Os machos são prontamente identificados por liberarem sêmen após uma leve pressão abdominal. A tradicional canulação nas fêmeas não é recomendada para o linguado, pois devido a sua anatomia, a introdução da cânula através do oviduto pode provocar o rompimento de tecidos na cavidade abdominal, o que resulta em uma infecção generalizada seguida da morte da matriz. A confirmação do sexo das fêmeas é feita, então, pela coleta de ovócitos por intermédio de uma biópsia gonadal, realizada com a perfuração do músculo que recobre os ovários com uma seringa e agulha grossa (16 G). Apesar desta técnica ser invasiva, nenhum problema de infecção é observado e a sobrevivência após a biópsia é de 100%. (Figura 2)

Figura 2: Coleta de ovócitos por intermédio de uma biópsia gonadal usando seringa
Figura 2: Coleta de ovócitos por intermédio de uma biópsia gonadal usando seringa

Os ovócitos coletados são observados sob lupa e as fêmeas que apresentam ovócitos com diâmetro pelo menos igual a 300 mm já podem receber indução hormonal para ovulação, entretanto pode ser mais garantido utilizar fêmeas com ovócitos próximos a 400 mm de diâmetro. É interessante observar que mais de 95% das fêmeas capturadas na costa marinha durante o período reprodutivo, apresentam condições adequadas para serem submetidas ao processo de indução hormonal da desova.

Os hormônios utilizados para induzir a ovulação do linguado são o HCG (gonadotropina coriônica humana), o LHRHa (hormônio liberador do hormônio luteinizante) e extrato de hipófise de carpa. As doses rotineiramente aplicadas são 250 UI/kg para HCG, 10-100 µg/kg para LHRHa e 3-5 mg/kg para extrato de hipófise. O procedimento utilizado para as induções é semelhante para todos os hormônios. Os machos não sofrem indução e as fêmeas recebem apenas uma injeção intramuscular.

Após o hormônio ser injetado, as fêmeas são colocadas em tanques de 200 litros, onde permanecem até o momento da ovulação. A temperatura da água é mantida em 23-24ºC e a salinidade entre 30-35‰.

Figura 3: Extrusão de óvulos em fêmea de linguado
Figura 3: Extrusão de óvulos em fêmea de linguado

 A extrusão dos óvulos é feita imediatamente após a ovulação (Figura 3), que ocorre entre 24 e 48 h após a indução. A extrusão, tanto dos óvulos como do sêmen, é manual, por meio de massagem abdominal, sendo que o sêmen, pelo pouco volume, é coletado com a ajuda de uma seringa (Figura 4).

Figura 4: Extrusão de esperma. Coleta em seringa
Figura 4: Extrusão de esperma. Coleta em seringa

Uma gota de água salgada é adicionada ao sêmen para ativar os espermatozóides e a sua motilidade é verificada sob microscópio. Apenas o sêmen que apresenta espermatozóides móveis é utilizado para fertilização.

A fertilização é feita a seco, utilizando o esperma de pelo menos dois machos. Após 1-2 minutos é adicionada água salgada suficiente para cobrir a superfície dos ovos e uma leve homogeneização é feita. Em seguida 1-2 litros de água salgada é adicionado e após 10-15 min são feitas várias trocas de água por meio de uma tela que retenha os ovos, para eliminar os restos de fluído ovariano e de esperma.

Ao contrário do que acontece com os ovos de peixes de água doce, os ovos fertilizados de linguado flutuam na água do mar, enquanto os não fertilizados sedimentam. Essa propriedade é útil para separar os ovos viáveis. A taxa de fertilização é facilmente calculada através da divisão do volume de ovos flutuantes pelo volume total de ovos. Para determinar estes volumes, os ovos são concentrados e colocados em uma proveta graduada (Figura 5).

Figura 5: Ovos concentrados em uma proveta graduada
Figura 5: Ovos concentrados em uma proveta graduada
A incubação é feita em tanques cilindrico-cônicos, com aeração bastante suave e temperatura em torno de 23°C. Tanques de 40 e 100 litros são utilizados com sucesso para a incubação de ovos de linguado. Caso se opte por não utilizar um sistema de fluxo contínuo, é importante fazer uma troca de água parcial 24 h após a fertilização, momento em que os ovos que morreram devem ser sifonados para fora da incubadora. A eclosão das larvas ocorre com cerca de 40-50 h quando os ovos são incubados sob temperaturas de 17 a 21°C. Os ovos devem ser mantidos em água com salinidade pelo menos igual a 30‰, visto que em salinidades mais baixas eles não flutuam e sua viabilidade pode ser prejudicada.

Desova Natural

O processo de desova natural não é realizado rotineiramente no Laboratório de Maricultura da FURG, mas um experimento realizado entre 2001 e 2002 mostrou que é possível obter desovas fertilizadas com sucesso. A densidade utilizada foi de aproximadamente 2 kg/m2 e a proporção macho/fêmea de 1:2. Os reprodutores foram alimentados com peixe congelado, principalmente juvenis de maria-luíza, corvina, tainha e peixe-rei.
A temperatura da água e o fotoperíodo foram controlados para simular as condições que os reprodutores enfrentam na natureza. A intensidade luminosa foi mantida em 0,2 mW/cm2, pois, como peixes de fundo, supõe-se que os linguados devem se sentir mais confortáveis nesta condição do que em um ambiente de maior luminosidade.

Após 11 meses de cativeiro foram observadas as primeiras desovas de linguado em laboratório. Na ocasião, a temperatura da água era de 23°C e o fotoperíodo de 14 horas de luz e 10 horas de escuro por dia. Os ovos flutuantes foram retirados do tanque através do coletor de ovos e transferidos para incubadoras.

Considerações finais

As técnicas utilizadas atualmente para a produção de ovos de linguados se mostraram eficientes e podem ser aplicadas rotineiramente nos laboratórios que desejarem produzir esta espécie.

No caso das desovas induzidas, não há necessidade de estruturas sofisticadas, pois podem ser utilizados reprodutores recém capturados na natureza. Por outro lado, a manutenção de reprodutores de linguado em cativeiro para obtenção de desova natural exige um laboratório bem equipado e um prolongado período de manutenção em cativeiro (1-2 anos) para que as primeiras desovas ocorram.

Apesar desta dificuldade, é importante poder manter os reprodutores em cativeiro, pois somente assim será possível iniciar um programa de melhoramento genético desta espécie, o que pode permitir o desenvolvimento de linhagens com características apropriadas para ajudar a viabilizar comercialmente o cultivo desta espécie.