Reprodução e larvicultura do Peixe Rei marinho

Por Luís André Sampaio
Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG),
Laboratório de Maricultura E-mail: [email protected]


A reprodução e a larvicultura constituem uma das maiores dificuldades para o desenvolvimento da piscicultura marinha. Este ramo da piscicultura foi um dos que mais demorou a se desenvolver no mundo. Entretanto, graças ao desenvolvimento de tecnologia específica, a atividade vem crescendo ano após ano. Entre os primeiros trabalhos visando a reprodução de peixes marinhos, podem ser destacadas as tentativas de repovoamento realizadas no Mar do Norte nos anos 10 e 20. Posteriormente esta prática foi abandonada e apenas nos anos 70 passou-se novamente a dar uma maior importância à piscicultura marinha, desta vez com o objetivo de cultivar o peixe até o tamanho comercial, e não apenas de produzir ovos fertilizados para devolver ao mar. Durante os anos 70 e 80, os laboratórios de pesquisa do Japão e de alguns países europeus, pricipalmente França, Inglaterra e Alemanha passaram a estudar os aspectos relacionados ao controle da reprodução, larvicultura e engorda de peixes como linguado (Scophthalmus maximus e Paralichthys olivaceus), robalo (Dicentrarchus labrax) e “seabream” (Sparus aurata), entre outros. Hoje em dia, países do sudeste asiático, da costa do Mediterrâneo e os Estados Unidos também passaram a se dedicar ao estudo do cultivo de peixes marinhos. Segundo dados da FAO, a produção da piscicultura marinha é aproximadamente 2,5% do total de pescado produzido em cativeiro no mundo, mas devido ao alto valor atingido por estas espécies no mercado, esta produção é equivalente a mais de 5% do valor total obtido pelos produtos da aqüicultura.

Assim como os peixes de água doce, os peixes marinhos podem ser divididos em peixes de águas frias, temperadas, ou quentes. Os salmões são peixes de águas frias e o desenvolvimento da tecnologia para o seu cultivo se deu à parte das espécies tropicais e sub-tropicais, portanto o cultivo de salmões não está incluído no contexto deste trabalho.

O Brasil vem engatinhando neste ramo da aquacultura, mas alguns resultados positivos já surgiram, gerando uma boa expectativa para os piscicultores. Porém, ainda não há registro de cultivo comercial de peixes marinhos no Brasil. Neste sentido, nas regiões sul e sudeste podem ser mencionados os trabalhos experimentais sobre o cultivo de tainha (Mugil platanus) desenvolvidos pelo Instituto de Pesca de São Paulo e os esforços do Laboratório de Piscicultura Marinha da UFSC, onde está sendo estudada a produção de alevinos de robalo (Centropomus parallelus) e de linguado (Paralichthys orbignyanus).

Rio Grande do Sul

Uma característica importante para um peixe que vai ser cultivado na região do estuário da Lagoa dos Patos no Rio Grande do Sul, é a eurialinidade (capacidade de um organismo para viver em grandes faixas de salinidade), pois neste ambiente ocorrem grandes variações de salinidade, tendo sido registradas variações de 0 a 35‰ em um período inferior a 24 horas. Ao buscar espécies com este potencial, o Laboratório de Maricultura da FURG – Fundação Universidade Federal do Rio Grande vem estudando várias espécies, entre elas o linguado, a tainha, a corvina (Micropogonias furnieri) e o pampo (Trachinotus marginatus), além do peixe-rei, tema deste trabalho.

O Peixe-Rei

A Família Atherinopsidae possui espécies marinhas, estuarinas e de água-doce. São peixes de pequeno a médio porte, onde algumas espécies, como o peixe-rei marinho (Odontesthes argentinensis) podem atingir até 1 kg na natureza. Infelizmente, devido a sobre-pesca, hoje em dia são raros os exemplares de maior porte .

Apesar de sua distribuição se estender desde a Argentina até o Estado de São Paulo, o peixe-rei é uma espécie desconhecida para os consumidores de grande parte do Brasil. Entretanto, sua carne branca é bastante apreciada no RS, no Uruguai, na Argentina e até mesmo no Japão, onde há mais de 20 anos, se cultiva com sucesso uma espécie de peixe-rei de água doce (O. bonariensis) originária de nossas águas.

A captura de peixe-rei marinho é realizada exclusivamente pela pesca artesanal e infelizmente as estatísticas pesqueiras no Brasil ainda são muito imprecisas, o que não permite fazer uma avaliação correta da produção deste peixe em nosso país.

O período reprodutivo do peixe-rei se estende desde agosto até dezembro, sendo observado o pico da estação reprodutiva durante os meses de outubro e novembro.

Esta espécie apresenta uma característica reprodutiva bastante peculiar: seus ovos são bentônicos e possuem filamentos envolventes que se fixam a substratos disponíveis no fundo do mar. Quando ocorrem marés altas provocadas por ventos fortes do quadrante sul, estes substratos são jogados à praia junto com os ovos e quando a água retorna ao seu nível normal os ovos permanecem na areia da praia.

Vista característica de substratos lançados à Praia do Cassino (Rio Grande - RS) após ressacas.
Vista característica de substratos lançados à Praia do Cassino (Rio Grande – RS) após ressacas.
Detalhe dos ovos de peixe-rei aderidos aos substratos encontrados na Praia do Cassino (Rio Grande - RS)
Detalhe dos ovos de peixe-rei aderidos aos substratos encontrados na Praia do Cassino (Rio Grande – RS)

Curiosamente, os ovos podem permanecer vivos por até quatro dias, mesmo sendo expostos ao sol forte. A coleta destes ovos é realizada sem dificuldades, sendo possível recolher milhares de ovos em poucos metros. Acredita-se que esta coleta não cause grande impacto sobre a população, pois estes ovos podem ser considerados como ecologicamente mortos. Também é preciso considerar que, eventualmente, pode ocorrer uma nova maré alta em um curto intervalo de tempo, capaz de levar estes ovos de volta para a água. Entretanto, a freqüente observação de embriões mortos sugere que o sucesso desse retorno, se existe, é no máximo parcial. Até o momento não existe nenhuma avaliação científica da quantidade de ovos que são lançados a praia, mas de acordo com observações, não seria um exagero estimar que este número esteja na casa de vários milhões.

Reprodução

Além da facilidade de coletar ovos fertilizados na praia, os ovos de peixe-rei também podem ser obtidos pelo menos de outras duas maneiras: 1. Através da captura de reprodutores na natureza durante o período de reprodução (primavera e início do verão), quando é possível capturar machos e fêmeas, coletar seus gametas, realizar a fertilização artificial e levar os ovos fertilizados para serem incubados no laboratório. Entretanto, deve-se evitar uma pressão sobre o estoque de reprodutores na natureza, de modo que o recrutamento da espécie não seja afetado.

Massa de ovos verdes obtida por extrusão manual, a partir de uma fêmea madura de peixe-rei capturada na Praia do Cassino (Rio Grande - RS)
Massa de ovos verdes obtida por extrusão manual, a partir de uma fêmea madura de peixe-rei capturada na Praia do Cassino (Rio Grande – RS)

Deve ser ressaltado que os ovos obtidos desta maneira seriam oriundos de reprodutores capturados pela pesca comercial e portanto na verdade estaria havendo um aproveitamento de um material que de qualquer maneira poderia ser perdido. Também deve ser levado em consideração, que com o aumento na oferta de peixe-rei proporcionado pelo seu cultivo, poderia haver até mesmo uma redução na pressão de pesca sobre seus reprodutores.

Ovos de peixe-rei antes e depois de serem desfilamentados para permitir uma boa taxa de eclosão.
Ovos de peixe-rei antes e depois de serem desfilamentados para permitir uma boa taxa de eclosão.

Pode-se também manter reprodutores em cativeiro e obter desovas naturais sem a necessidade de indução hormonal. Os primeiros resultados desta técnica foram obtidos no final de 1999, as taxas de fertilização e de eclosão ainda deixam a desejar quando comparadas com desovas obtidas de reprodutores selvagens, mas acredita-se que ao estabelecer as condições ideais para a manutenção dos reprodutores, incluindo aí a temperatura, o fotoperíodo e principalmente a alimentação, será possível otimizar a produção de ovos, diminuindo a dependência da captura de reprodutores na natureza.

Além dos aspectos ecológicos envolvidos na captura de reprodutores na natureza, a dependência do estoque selvagem não permitirá a domesticação da espécie, algo importante para o desenvolvimento de um programa de melhoramento genético. Portanto, é indispensável o aprimoramento das técnicas de reprodução em cativeiro para o sucesso do cultivo do peixe-rei.

Incubação e Larvicultura

O período de incubação dos ovos de peixe-rei varia de 9-16 dias dependendo da temperatura. É interessante fazer a desfilamentação dos ovos, este processo consta no corte dos filamentos dos ovos com auxílio de tesoura, de modo que eles sejam individualizados, ou pelo menos separados em pequenos grupos, permitindo deste modo uma maior oxigenação dos embriões e consequentemente aumentando a taxa de eclosão. Para a realização de cultivos em maior escala seria inviável realizar esta desfilamentação tão detalhada, nesse caso seria interessante analisar o uso de incubadoras rotatórias como aquelas utilizadas para a incubação dos ovos do “channel catfish” (Ictalurus punctatus), o que poderia permitir uma boa taxa de eclosão mesmo se os ovos não fossem desfilamentados. Quando se trabalha com ovos de boa qualidade é possível obter taxas de eclosão de 90-100%, mas valores mais baixos (10-50%) já foram registradas em algumas desovas oriundas de reprodutores de cativeiro.

Existe uma característica da biologia do peixe-rei que torna a sua larvicultura mais fácil do que a de outras espécies marinhas: seus ovos são grandes, com diâmetro de 2mm. Ao eclodirem as larvas apresentam um comprimento médio de 7,5mm, peso médio de 2mg, olhos pigmentados e boca funcional. Além disso, as larvas de peixe-rei não dependem de rotíferos para sua primeira alimentação. Elas podem ser alimentadas diretamente com náuplios de Artemia, muito mais cedo do que outras espécies de peixes marinhos como a tainha e o linguado.

O crescimento das larvas de peixe-rei é bastante homogêneo, somente após atingirem 3cm observa-se um maior desvio em seu tamanho. Acredita-se que graças a esta homogeneidade, não se tem registro da ocorrência de canibalismo dentro de um mesmo lote de larvas. Entretanto, quando se oferece larvas recém eclodidas para pequenos alevinos elas são predadas com facilidade.

Nos últimos anos vários trabalhos foram realizados para determinar a melhor estratégia de produção das larvas de peixe-rei, entre eles, os resultados mais importantes para a aquacultura estão resumidos abaixo.

Alevinagem

Apesar do sucesso na produção das larvas de peixe-rei, a alevinagem ainda carece de mais estudos. As maiores dificuldades encontradas até o momento dizem respeito a qualidade das rações disponíveis no Brasil. Os requerimentos nutricionais de peixes marinhos são distintos dos peixes de água doce e as principais diferenças são encontradas no requerimento de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa pois os peixes marinhos necessitam de uma maior quantidade destes nutrientes.

Devido a falta de uma ração apropriada, nos trabalhos em que os alevinos são alimentados com rações comerciais (onde há deficiência de ácidos graxos), são observadas baixas taxas de crescimento e a ocorrência de indivíduos com deformidades. Por enquanto os laboratórios de pesquisa podem trabalhar com rações preparadas pelos próprios pesquisadores, mas a capacidade de produção de ração experimental é pequena, o que dificulta o estudo da produção de alevinos em maior escala.

Alevino de Peixe-Rei com 8cm de comprimento
Alevino de Peixe-Rei com 8cm de comprimento

Perspectivas

Após o estabelecimento da metodologia básica para a produção de larvas de peixe-rei, o Laboratório de Maricultura da FURG está buscando recursos para iniciar trabalhos direcionados à fase de alevinagem e engorda. Neste sentido, está sendo iniciado um cultivo experimental em tanque-rede no estuário da Lagoa dos Patos. Os resultados deste primeiro cultivo ainda não estão disponíveis, mas espera-se que brevemente a tecnologia para produção de peixe-rei esteja completa e possa ser repassada para os produtores interessados. Com a estrutura disponível no Laboratório de Maricultura da FURG, o domínio da reprodução do peixe-rei poderia ser atingido com mais um ou dois anos de trabalho, entretanto no momento os recursos solicitados este ano para a continuidade do projeto ainda não foram aprovados, o que deve provocar um atraso no desenvolvimento deste estudo.

A bibliografia consultada para a realização deste trabalho pode ser obtida diretamente com o autor pelo e-mail : [email protected]

Foi observado que as larvas recém eclodidas são capazes de se alimentar com ração, entretanto apesar da boa sobrevivência, seu crescimento é menor quando comparado com o crescimento de larvas alimentadas com náuplios de Artemia.

· A densidade de náuplios de Artemia para a alimentação das larvas de peixe-rei deve aumentar de 2-3 náuplios/ml logo após a eclosão, para 15 náuplios/ml após 15 dias de cultivo.

· Após o final da fase da utilização de alimento vivo (15 dias de vida), a taxa de arraçoamento do peixe-rei deve ser de 25% do peso vivo por dia, podendo ser reduzida para 15% ao atingir o peso de 1g.

· O cultivo das larvas de peixe-rei pode ser feito em altas densidades (até 90 larvas/L) sem prejuízo para o crescimento e a sobrevivência, pelo menos durante o primeiro mês de vida. As incubadoras utilizadas com maior sucesso até o momento são do tipo cilindro-cônicas, com entrada de água pela extremidade inferior, de modo que os ovos sejam mantidos em suspensão.

· Com relação à qualidade da água, foi determinado que o cultivo de peixe-rei pode ser feito em salinidades