Santa Catarina, a padroeira das ostras e mexilhões

Os cultivos de mexilhões e ostras já estão totalmente incorporados às paisagens litorâneas da costa catarinense. É extremamente prazeroso ver a costa toda pontuada por estruturas de cultivo que, para muitos produtores, na sua maioria pescadores, tem sido a principal forma de ganhar a vida e construir seus sonhos sem se afastarem do mar, que sempre lhes foi fonte de sustento.

Após uma década de trabalho concentrados no objetivo de tornar a maricultura uma atividade econômica rentável no estado, pesquisadores, extensionistas e produtores de Santa Catarina podem, juntos, orgulharem-se das conquistas até então obtidas nessa batalha diária de incorporar o cultivo de mexilhões e ostras ao dia-a-dia de muitos pescadores.

Na década passada, quase que simultaneamente, dois laboratórios do Departamento de Aqüicultura da Universidade Federal de Santa Catarina, se empenharam no cultivo de moluscos no estado. O empenho do Laboratório de Mexilhões e do Laboratório de Cultivo de Moluscos Marinhos – LCMM, foram fundamentais na consolidação do quadro atual, que conta ainda com todo apoio da EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Difusão de Tecnologia de Santa Catarina.

UNIÃO DE ESFORÇOS

O cultivo de moluscos é feito geralmente em águas litorâneas e, naturalmente, problemas como demarcação e concessão de áreas de cultivo, tráfego de embarcações, etc., tiveram que ser solucionados para que fosse possível o desenvolvimento da atividade.

Já em 1989, uma excelente estratégia, digna de elogios, levou o IBAMA – SC a criar, através de portaria (ver Panorama da AQÜICULTURA novembro/dezembro/92) um Grupo Permanente de Trabalho sobre Mexilhões, onde a UFSC, FATMA (órgão ambiental do estado), EPAGRI (pesquisa e extensão), Federação dos Pescadores, Capitania dos Portos e Delegacia do Ministério da Agricultura, uniram esforços para que todos as providências determinantes para o sucesso da atividade fossem tomadas.

Daí, para o desenvolvimento das pesquisas no campo, a determinação do período de defeso, emissão do registro de aqüicultor, foi um passo que permitiu que a atividade pudesse se desenvolver de forma ordenada

O amadurecimento final foi alcançado recentemente, com a criação da Câmara Setorial de Pesca e Aqüicultura de Santa Catarina, um órgão também composto pelos diversos segmentos que podem influir diretamente no sucesso da atividade e que, no momento, discute um importante tema que trata da revisão da legislação pesqueira e aqüícola existente, que data de 1967. Confirmando o pioneirismo do Estado na maricultura nacional, Santa Catarina, muito em breve, contará com um moderno código estadual de pesca e aqüicultura, compatível com seu potencial.

ÁREAS DEMARCADAS

Um convênio firmado em 1992 pelo IBAMA-SC e EPAGRI, gerou uma pesquisa ao longo de 2/3 do litoral catarinense que identificou pelo menos 102 áreas em 12 municípios litorâneos, aptas ao cultivo de mexilhões e ostras.

Segundo Francisco Neto da EPAGRI, responsável pelo mapeamento realizado, a escolha das áreas adequadas ao cultivo recaiu sobre aquelas abrigadas de ventos e correntes fortes, com profundidade na meia maré igual ou superior a 1,5 m, afastadas do tráfego regular de embarcações ou de fundeadouros, afastadas de áreas tradicionais de pesca e de praias utilizadas para lazer da população e turismo, e afastadas das desembocaduras dos rios.

Este trabalho, cujo objetivo é disciplinar a pratica e impedir que a maricultura não cause conflito com outros setores da economia, é pioneiro no Brasil e já estará incluído nas próximas cartas náuticas da região. Sem dúvida, trata-se de um fato historicamente relevante para a aqüicultura nacional, quando pela primeira vez cartas náuticas brasileiras possuem demarcações de áreas exclusivamente destinadas a maricultura, com a respectiva sinalização adequada.

Coube a EPAGRI a responsabilidade pela concessão das licenças de utilização dessas áreas demarcadas e, segundo Francisco Neto, os interessados em cultivar mexilhões ou ostras em Santa Catarina devem, em primeiro lugar, procurar o extensionista da EPAGRI responsável pela região escolhida, para obter todas as informações com relação as áreas disponíveis e os passos para a obtenção da licença para ocupação. Além disso, o candidato a maricultor, será encorajado também a se filiar a uma das seis associações de produtores existentes: duas em Florianópolis, duas em Palhoça (20 km ao sul de Florianópolis), duas em Governador Celso Ramos e uma em Bombinhas.

O cultivo de ostras em Santa Catarina nasceu em 1985, por iniciativa dos pesquisadores do Departamento de Aqüicultura da UFSC. Inicialmente, as atenções dos investigadores recaíram sobre as espécies nativas do estado catarinense, com atenção especial para a ostra-do-mangue Crassostrea rhizophorae, sem que bons resultados fossem obtidos, principalmente devido a sua baixa taxa de crescimento.

No entanto, no inverno de 1987, a equipe da UFSC introduziu, nas águas da Baía Norte, sementes da ostra japonesa Crassostrea gigas, proveniente de Arraial do Cabo – RJ, cujos resultados logo de início agradaram não só aos pesquisadores, mas também aos pescadores da região de Santo Antônio do Lisboa, que desde então passaram a acompanhar de perto as pesquisas, resultando no Condomínio de Pesca e Maricultura Baía Norte. Afinal, em apenas 5 meses de cultivo, durante o inverno, foi possível obter ostras de tamanho comercial.

Da associação de pescadores e pesquisadores da UFSC, nasceu o primeiro laboratório para a produção de sementes de Crassostrea gigas, construído em regime de mutirão na praia do Sambaqui, na Baía Norte, que passou a ser chamado de Laboratório de Cultivo de Moluscos Bivalves – LCMM, e muitas pesquisas foram desenvolvidas desde então.

Por outro lado, os pescadores, agora ostreicultores, começaram a viver a nova rotina de cultivo no mar. Isso permitiu detectar os problemas inerentes ao cultivo dessa espécie, que passaram a ser identificados, pesquisados e, muitas vezes, solucionados pelo pessoal do pesquisadores do LCMM.

NOVO LABORATÓRIO

Com o decisivo apoio da Victoria University, da província canadense de British Columbia, através da CIDA – Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional, foi possível construir um novo e moderníssimo laboratório inaugurado em 18 de agosto último, na presença de representantes da Universidade canadense, autoridades locais e do Ministro da Ciência e Tecnologia Dr. José Israel Vargas.

Com um custo total estimado em um milhão de dólares, o novo LCMM, está localizado na Barra da Lagoa da Conceição. Nas suas instalações, construídas para ser um centro de excelência para o cultivo de moluscos, podem ser simuladas todas as condições necessárias para uma ótima manutenção de reprodutores, de modo a obter matrizes preparadas para desova em qualquer época do ano, solucionando de imediato um problema já vivido pelos ostreicultores atuais que, em algumas ocasiões só dispunham de sementes em épocas “inadequadas” ao cultivo.

REPRODUÇÃO

As ostras japonesas, bem como as ostras nativas Crassostrea rhizophorae, são ovíparas, liberando óvulos e espermatozóides na água para eventual fertilização. São animais hermafroditas seqüenciais, isto é, em um mesmo indivíduo, inicialmente maturam as células de um sexo e, após uma desova, maturam as do outro, e assim sucessivamente. Deste modo, após cada período de desova ocorre a troca de sexo.

Os reprodutores, são animais com idade média de dois anos, mantidos nas lanternas da estrutura de cultivo do LCMM. São, supostamente, animais mais bem adaptados às condições locais, já tendo passado por períodos de águas quentes sem terem morrido de estresse.

Para a reprodução, são levados para o laboratório e, de pronto, passam por uma limpeza eficiente para que sejam evitadas contaminações por organismos patógenos e se evite possíveis desovas indesejáveis de organismos incrustantes. À seguir, são colocados nas calhas de desova, com 4 metros de comprimento e 20 cm de lâmina d’água. Inicia-se então a indução através de choque térmico. As ostras são submetidas primeiramente a água corrente com temperatura de 22 ºC e salinidade de 32 ‰, por uma hora.

Em seguida, a calha é drenada por cinco minutos, e novamente enchida com água corrente, dessa vez a 24 ºC. Nesta etapa já é possível observar o início da desova de alguns animais. Os machos, ao iniciar a liberação de espermatozóides, são logo transferidos para junto do abastecimento de água da calha para que, desta forma, estimulem a liberação de ovócitos pelas fêmeas, através de ferormônios que são liberados.

A observação dos sexos se dá a partir da observação visual dos gametas liberados. Os machos liberam um líquido de aspecto leitoso, semelhante a fumaça, pelo lado esquerdo do corpo, passivamente, aproveitando o fluxo normal da água passando pelo corpo. As fêmeas, desovam pelo lado direito, ativamente, em esguichos, sendo possível a visualização dos ovócitos.

Uma vez realizada a identificação, machos e fêmeas são separados por lotes em bacias plásticas para a liberação do restante dos gametas. Os reprodutores da calha que não eliminaram gametas, vão sendo submetidos a novos períodos de drenagem total seguidos de nova corrente de água, desta vez com temperaturas de 26 ºC, para identificação de mais reprodutores. A depender do estágio de maturação, nova indução pode ser feita a 28 º C, após o que os reprodutores são novamente devolvidos às lanternas, nas estruturas de cultivo.

Os gametas masculinos e femininos são então misturados em bacias com água com salinidade de 32 ‰ por uma hora. Neste momento, já se pode observar ao microscópio o processo de divisão celular e a qualidade das larva através do formato (formato de uva é a desejada), já sendo possível fazer uma estimativa de ovos fertilizados.

LARVICULTURA

A larvicultura da ostra japonesa, ou ostra do Pacífico, como também é chamada a Crassostrea gigas dura de 20 a 30 dias, dependendo da qualidade dos ovos, da temperatura e da quantidade e qualidade do alimento oferecido. Para alimentar as larvas, as novas instalações do LCMM na Barra da Lagoa, possuem um moderno laboratório para produção em massa de microalgas (Isochrysis sp., Chaetoceros sp., Tetreselmis sp. entre outras). Sofisticados equipamentos para controle contaminação, estoque de cepas e tanques especiais dotados de iluminação especial produzem culturas com até 180 mil células de algas por ml. Essa cultura em massa de microalgas é transferida, através de bombas, diretamente para os tanques de larvicultura conforme a mistura que se deseje fazer, nas proporções adequadas a cada estágio de desenvolvimento larval.

Para o desenvolvimento larvar, o laboratório dispõe de uma bateria de tanques de larvicultura que brevemente será ampliada para 72 mil litros distribuídos em 9 tanques de fibra de vidro.

FIXAÇÃO

A partir do décimo dia de larvicultura, as larvas mais desenvolvidas são separadas diariamente através de malhas de 250 µ, e recebem um tratamento térmico por 48 horas visando aumentar a taxa de fixação, que irá ocorrer em tanques para esse fim contendo substratos adequados (conchas de ostras, pratos de plástico, etc.). As trocas de água são diárias e a alimentação continua a ser mantida com microalgas cultivadas para essa finalidade. Após estarem fixadas por uma duas semanas, as sementes são transferidas para caixas plásticas cobertas com telas e levadas para o mar.

A partir daí, passam a dispor de alimentos naturais para continuar a crescer, se aclimatando às novas condições ambientais.

Aproximadamente 30 dias após terem sido levados ao mar, as sementes atingem de 7 a 10 mm. As que alcançam esse tamanho, são selecionadas através de peneiras, estando prontas para serem vendidas aos ostreicultores ao preço de 10 dólares o milheiro.

BERÇÁRIO

Os ostreicultores, ao adquirirem as sementes, as colocam em lanternas berçário com 40 cm de diâmetro e 1,20 m de altura, divididos em 7 andares. Segundo Luis Eduardo Albi Alperstedt, produtor e presidente da AMASI – Associação dos Maricultores do Sul da Ilha, em cada lanterna berçário são colocadas 10.000 sementes (aproximadamente 1.500 por andar).

Permanecem nessa densidade populacional de 15 a 20 dias, quando a metade dessas sementes é transferida para outra lanterna igual, ficando a população mais diluída (750 por andar), com mais espaço, engordando, submersa, por mais 40 dias, até atingirem 1,5 a 2,0 cm de tamanho.

LANTERNA INTERMEDIÁRIA

A lanterna intermediária, ou segundo berçário, é estruturalmente semelhante a lanterna berçário, sendo, entretanto, confeccionada com rede de malha 8 mm. Nessas lanternas, são colocadas aproximadamente 350 ostras por andar, e aí permanecem por mais 20 dias.

Nas lanternas intermediárias são colocadas até 350 ostras por andar
Nas lanternas intermediárias são colocadas até 350 ostras por andar
LANTERNA FINAL

São confeccionada com malha de 15 a 18 mm. Nelas são colocadas de 60 a 80 ostras por andar, ficando nesta densidade até o momento da comercialização quando as ostras atingem cerca de 10 cm de comprimento e são vendidas de R$ 3,50 a R$ 5,00 reais o quilo.

MERCADO

Para Luis Eduardo Alperstedt da AMASI, o mercado para as ostras é muito bom no verão e ainda restrito no inverno. Para ele, a solução para este problema, é a entrada em funcionamento de um estabelecimento para manuseio de ostras com o certificado do Serviço de Inspeção Federal – SIF.

Dois estabelecimentos com SIF estão sendo construídos neste momento. Um deles está sendo construído pela Associação dos Maricultores de Bombinhas, com assistência técnica da EPAGRI e recursos do IBAMA e da Secretaria de Agricultura. Outro, quase pronto para entrada em funcionamento, está sendo construído pelo ostreicultor e mitilicultor Ivan Taffarel. Dessa forma, salienta Ivan, poderemos ultrapassar as fronteiras catarinenses e alcançar os mercados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em diversos países, o cultivo de mexilhões, ou mitilicultura, é uma atividade produtiva que possui forte poder econômico. Bastante procurados para a alimentação humana, os mexilhões ou mariscos, são moluscos bivalves (duas conchas ou valvas) da família Mytilidae.

No Brasil, a espécie mais comumente encontrada é a Perna perna, que ocorre abundantemente no litoral que vai do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul. Possui excelente qualidade nutritiva, onde em cada 100 g de carne, 12 % são proteínas, 1,3 a 1,9 % sais minerais, 4 % glicídeos e 1,4 % lipídeos. Além disso, são uma excelente fonte de cálcio, ferro, potássio, fósforo, magnésio, vitaminas C, B1, B2, carotenóides e provitamina A em alta proporção.

Os mexilhões fixam-se aos substratos através de filamentos córneos (conchionila) denominado bisso, secretado por glândulas especiais, que permanecem ativas durante toda a vida do animal, permitindo que ele se refixe diversas vezes, principalmente nas zonas de marés dos costões rochosos, podendo atingir a profundidade de 10 metros.

A reprodução dos mexilhões é sexuada, com fecundação externa. Não apresentam dimorfismo sexual (machos iguais as fêmeas), mas os sexos são facilmente reconhecidos através da coloração das gônadas. Isto é, ao abrirmos as conchas, a maior parte do corpo do animal que vemos e comemos é composta pelas gônadas, que é esbranquiçada nos machos e alaranjada nas fêmeas.

Típico rancho de trabalho dos criadores de mexilhões do litoral catarinense
Típico rancho de trabalho dos criadores de mexilhões do litoral catarinense

A eliminação dos gametas (espermatozóides e ovócitos) ocorre o ano todo com picos de desova em determinadas épocas do ano, variando sazonal e regionalmente. Após a fecundação, que ocorre na água, originam-se as larvas trocóforas (24 horas após a fecundação) que derivam no mar por aproximadamente 30 a 40 dias, quando se transformam em larvas véliger, fixando-se em um substrato através do bisso. Após 5 a 8 meses de crescimento, o animal atinge a primeira maturação, estando apto a se reproduzir.

As brânquias dos mexilhões são bastante desenvolvidas e possuem dupla função: respiração e alimentação. São, portanto, animais filtradores que retiram da água do mar o alimento necessário a sua sobrevivência. Cada animal filtra de 0,5 a 4 litros de água por hora, dependendo de seu tamanho e das condições do meio. As partículas alimentares filtradas constituem-se principalmente de detritos orgânicos (75 %), microalgas e bactérias (25 %). Não há seletividade no processo de filtração, sendo que os tamanhos das partículas variam de 1 µ a 4 milímetros.

Por ser um animal filtrador, o mexilhão possui uma grande capacidade de concentrar microorganismos, caracterizando-se como transmissor em potencial de patógenos. Devido a isso, é de fundamental importância conhecer a procedência do produto e cabe ao mitilicultor tomar os cuidados necessários e monitorar a qualidade microbiológica da água e dos animais sob cultivo.

Uma determinação do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, determina que o consumo de moluscos filtradores está liberado se for proveniente de áreas com água que contenham até 14 coliformes por mililitro de água, podendo até serem consumidos crus, como no caso das ostras. Caso este número esteja entre 14 e 70 coliformes/ml, o molusco deverá ser consumido cozido. Caso esteja entre 70 e 700 coliformes por ml, a área de cultivo será considerada “restrita” ao cultivo de moluscos, que deverão obrigatoriamente serem depurados antes de comercializados. As áreas com o número mais provável de coliformes acima de 700 por ml de água estão proibidas de serem utilizadas para cultivo. As águas da Baía Sul, na Ilha de Santa Catarina,

SANTA CATARINA

No Brasil, a mitilicultura é praticada principalmente nos litorais do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Entretanto, é na costa catarinense que encontramos a mitilicultura se desenvolvendo de forma sistematizada, seguindo estratégias previamente estabelecidas, segundo um programa que foi criado inicialmente para atender aos pescadores artesanais mas que hoje se encontra aberto a qualquer candidato a produtor.

Em Santa Catarina, o trabalho com os mexilhões foi iniciado em 1986 nos Departamentos de Aqüicultura e de Biologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o estudo da reprodução desses moluscos. Em agosto de 1988, com a criação do Laboratório de Mexilhões no Departamento de Aqüicultura, várias pesquisas tiveram início e foram determinantes para o avançado estágio de desenvolvimento da miti-licultura naquele Estado.

Segundo Jaime Fernando Ferreira, Coordenador do Laboratório de Mexilhões do Departamento de Aqüicultura da UFSC, o interesse pela mitilicultura por parte dos pescadores foi detectado, quando ainda em 1988, questionários foram aplicados e mostraram um enorme interesse pela atividade. Os pioneiros ficaram ainda mais interessados quando foram surpreendidos com os primeiros resultados, obtidos após os primeiros oito meses, que já contabilizavam lucros e se tratava apenas de uma experiência, acrescenta.

O interesse pela atividade pode ser observado na tabela 1. Em 1990, 190 toneladas foram produzidas pelos pioneiros que hoje já somam 400 produtores que serão responsáveis pela safra de 3.500 toneladas, esperada para este ano. Um crescimento de 1.742 % em 5 anos.

ENGORDA

As técnicas utilizadas atualmente na mitilicultura catarinense são variações do cultivo suspenso, praticado em quase todo o mundo, adaptado às condições locais.

Nas águas mais rasas, em locais com profundidade máxima de 3 m, são utilizadas estruturas fixas (varais), onde são presas as cordas com os mexilhões (figura 1).

O bambu ainda é o material mais usado para a confecção dessas estruturas. Possuem a vantagem de serem baratos mas, por outro lado, têm uma vida útil bastante curta. Duram cerca de 8 meses submersos, após o que necessitam de ser trocados. Mitilicultores da Enseada do Brito, na Baia Sul, estão tendo dificuldades para encontrar os bambus que necessitam, e já se deslocam 30 km para adquirí-los. Toras de eucalipto e tubos de PVC de 100 mm preenchidos com concreto tem sido alternativas bem sucedidas utilizadas pelos maricultores em substituição ao bambu.

As cordas com mexilhões possuem comprimento médio de 1,2 m. Este comprimento está relacionado ao fato de que, além de não poderem tocar o fundo, devem ficar submersas nas marés mais baixas.

Em águas mais profundas, são utilizadas estruturas flutuantes – balsas ou espinheis. Os espinheis, são constituídos basicamente por um cabo mestre, mantido suspenso por flutuadores (tambores, bombonas, etc.), onde as cordas com os mexilhões são amarradas (figura 2).

Da mesma forma, as balsas são estruturas flutuantes, ancoradas ao fundo por poitas, capazes de suportar diversas cordas com mexilhões, que permanecem imersos, filtrando ininterruptamente a água do mar e, dessa maneira, crescendo mais rápido que os mexilhões dos costões.

Os mexilhões cultivados, exatamente por permanecerem durante todo o período de sua vida submersos e filtrando, quase não utilizam a musculatura para abertura e fechamento das conchas, ao contrário dos mexilhões dos costões. Isso, faz com que os mexilhões cultivados sejam mais macios, além de produzirem mais carne (25 a 30 % do peso total) que os mexilhões dos costões (15 %). Este fato, já de conhecimento do consumidor catarinense, é decisivo na hora de compra.

MANEJO DE CULTIVO

As sementes, ou mexilhões jovens, ainda são, na maioria das vezes, extraídas dos costões, sendo poucos os mitilicultores que retiram sementes fixadas nas próprias estruturas de cultivo. Os coletores de sementes – tubos de PVC, redes velhas enroladas, cordas de polietileno – que ficam flutuando por cerca de 6 meses, quase não são utilizados pelos mitilicultores catarinenses, por não saberem como se prevenir dos possíveis roubos.

Em 1,5 metros desses coletores de PVC é possível coletar até 30 quilos de sementes de 2 a 3 cm, suficientes para povoar 10 cordas de 1,2 metros.

As sementes são ensacadas em sacos de malha de algodão, especialmente fabricados para esta finalidade. Este manejo poderia ser grosseiramente comparado ao enchimento de uma meia de algodão com 1,2 m de comprimento.

Em seguida, o “tubo” de mexilhões é colocado dentro de outro saco, desta vez feito de rede de pesca (figura 3). Essa “corda” é então amarrada pendurada nas cordas mestres das estruturas de cultivo.

Figura 3 - Esquema de uma corda de cultivo de mexilhões
Figura 3 – Esquema de uma corda de cultivo de mexilhões

Após 15 dias submersos, inicia-se o apodrecimento do saco de algodão.

Os mexilhões, entretanto, não se soltam pois neste período inicial, já puderam secretar o bisso e se prender um sob os outros formando uma peça única, protegida pelo saco de rede de pesca.

Com o passar dos meses, os mexilhões vão crescendo e saído pela malha da rede que passa a ter um papel estrutural na “corda” de mexilhões (como as ferragens dentro do concreto armado).

O período de cultivo, que varia de 8 a 10 meses, exige uma atenção diária dos mitilicultores, muitos deles ex-pescadores que trocaram definitivamente a pesca pela maricultura.

RESULTADOS

Cada mitilicultor catarinense possui em média de 2 a 4 mil cordas de mexilhões com aproximadamente 1,2 m de comprimento. A produção média destas cordas é de 12 kg (com concha) e, pelo menos, 2,5 kg de carne. O preço do kg do mexilhão, ainda na casca, é R$ 1,00 e, após descascado varia de R$ 3,50 a R$ 5,00.

O investimento para a montagem de uma estrutura para cultivo de mexilhões é bastante baixo, ainda mais se for toda feita de bambus. Segundo Jaime Fernando Ferreira, da UFSC, uma balsa que está sendo testada na localidade de Ratones, medindo 7 x 7 m, projetada para produzir 4 toneladas/ano de carne (12 toneladas de mexilhões com casca), sem a necessidade de manutenção por pelo menos 3 anos, custa R$ 600,00 (somente material, sem a mão-de-obra), o que permite antever os resultados favoráveis dos testes.

Os melhores meses para a comercialização vão de novembro a março. No período de defeso, que vai de 01 de setembro a 31 de novembro, uma portaria proíbe a extração e a venda de mexilhões provenientes dos costões, também favorece a comercialização.

RESPEITO

Os cultivos de mexilhões tem sido uma atividade cada vez mais respeitada pela população litorânea e tem despertado entre os pescadores uma responsabilidade para com o meio ambiente, segundo Nino Azevedo mitilicultor da Enseada do Brito. Além de se preocuparem com esgotos e dejetos que podem afetar os cultivos, os pescadores estão atribuindo às inúmeras estruturas de cultivo, a volta de diversas espécies de peixes, camarões e polvos, que agora estão sendo atraídos pelo ecossistema formado a partir dos cultivos. Mas, mesmo com a pesca tendo sido favorecida com esse aumentado na oferta, nem assim aqueles que hoje se dedicam ao cultivo por ela se interessam pois, segundo eles viver do cultivo é bem melhor que viver da pesca.


Táticas para reduzir a mortalidade das ostras no verão

Quando as águas do mar atingem temperaturas superiores a 25 ºC, a ostra Crassostrea gigas, nativa do Pacífico, inicia um processo de maturação intenso, desovam de forma incontrolada seguida de um grande estresse e morte. Segundo o professor Carlos Rogério Poli, diretor do LCMM, é algo parecido com o salmão que após uma migração cansativa, desova, se esgota totalmente e morre. A Crassostrea gigas sofre um estresse semelhante, muito violento, ficando vulnerável à toda sorte de doenças, parasitas, etc.

Para solucionar este problema, o professor Poli convidou uma especialista norte-americana em produção de sementes de ostras triplóides, que possuem vantagens sobre as ostras comuns (diplóides) por serem mais resistentes às altas temperaturas e terem uma sobrevivência muito melhor durante o verão pois, não maturam tanto quanto as sementes normais.

De 20 de agosto a 4 de setembro, nas novas instalações do LCMM, a Dra. Sandy Downing da NOAA, em Seattle, USA, ministrou um curso que já permitiu aos pesquisadores catarinenses produzirem as primeiras 70.000 sementes triplóides de Crassostrea gigas no país. Segundo Poli, agora é só esperar para ver os resultados no campo para que o produtor possa dispor dessas sementes.

Cerimônia de inauguração do Laboratório de Cultivo de Moluscos Marinhos. Da esquerda para direita: Antonio Domário de Queiroz, reitor da UFSC, José Israel Vargas, Ministro da Ciência e Tecnologia, Carlos Rogério Poli, diretor do LCMM, Paulo Afonso Vieira, Governador de SC e Jack Littlepage de Universidade de Victoria - Canadá
Cerimônia de inauguração do Laboratório de Cultivo de Moluscos Marinhos. Da esquerda para direita: Antonio Domário de Queiroz, reitor da UFSC, José Israel Vargas, Ministro da Ciência e Tecnologia, Carlos Rogério Poli, diretor do LCMM, Paulo Afonso Vieira, Governador de SC e Jack Littlepage de Universidade de Victoria – Canadá

O que pensa Carlos Rogério Poli

Sobre a inauguração

“…não é só ter um novo laboratório para um cultivo de ostras. Existe uma conquista de uma equipe. Isso deixa a gente, no dia da inauguração, mais satisfeito ainda. Não é somente um prédio. Temos que parar e refletir no trabalho de toda a equipe. Além de pesquisadores, eles possuem outros valores humanos muito importantes. Acreditaram neles, nas idéias deles, tiveram persistência. Essa inauguração representa muita coisa.”

Sobre o futuro

“…nós nunca paramos de crescer. Nosso trabalho de maricultura não está mais naquele estágio do oba-oba. É algo muito sério e não há mais como parar isso. A maricultura já se transformou numa atividade econômica. Já tem gente vivendo dela e tem cada vez mais gente querendo começar. Mesmo que a Universidade pare, provavelmente vai ter gente montando um laboratorio para vender sementes… ou vão importar do Chile, ou do Canadá. Nao importa. Quem sabe, vai chegar o momento em que a Universidade não vai nem precisar vender sementes. Que sabe ela só vai fazer pesquisas com espécies nativas?”