SEXO DOS CAMARÕES …

E produtividade…

Por: Jomar Carvalho Filho– Biólogo – Consultor em cultivos aquáticos


O Macrobrachium rosenbergii, assim como todos os outros organismos aquáticos, possui características biológicas e comportamentais que precisam ser melhor conhecidas para que se possa encontrar o manejo mais adequado e não se tenha surpresa de baixa produtividade.

Na hora de povoar seus viveiros, muitos criadores de camarão de água doce fazem cálculos mirabolantes de crescimento e ganho de peso. A partir daí estipulam, eles próprios, a densidade e o manejo e saem atrás do resultado final, abrindo mão, na maioria dos casos, de uma assistência técnica experiente. O que se constata, nesses casos, é que quase sempre a estratégia não funciona.

Com frequência, os criadores costumam passar redes para amostragem e começam a capturar animais mais desenvolvidos, o que os leva a crer que a estratégia está correta e que os objetivos iniciais serão alcançados. Pouco depois constatam que nem todos os bichos cresceram igualmente, ficaram enormes, lindos, com pinças azuis. A partir daí começam a se indagar. Por que todos não tiveram a mesma sorte?

Para explicar uma das causas de frustração e sugerir melhor manejo e consequente aumento de produtividade, falarei do polimorfismo sexual, que vem a ser uma diferença morfológica entre machos e fêmeas, bem como entre os próprios machos, dependendo do papel que venham a ocupar dentro da comunidade.

Dessa forma podemos dizer que as fêmeas têm um crescimento médio inferior ao dos machos. Além de serem menores, possuem pinças pequenas de coloração parecida com a do corpo.

Entre os machos encontramos três tipos distintos morfologicamente. O primeiro é o que se caracteriza por pinças grandes de cor azul e tamanho do corpo bem maior que os demais. O segundo tipo apresenta pinças menores de extremidades alaranjadas, com o corpo quase tão desenvolvido como o anterior. Já o terceiro tipo é pequeno, com pinças também pequenas da mesma coloração do corpo, como as fêmeas.

Em populações normalmente estabelecidas encontramos sempre os três tipos de machos com a seguinte proporção: para cada macho de pinças azuis existem quatro machos de pinças alaranjadas e cinco machos pequenos. Cada um destes tipos apresenta características comportamentais distintas.

Os de pinças azuis são dominantes, territorialistas e sexualmente ativos. Defendem de oito a dez fêmeas, onde impedem a entrada de outros indivíduos agredindo-os com suas longas pinças, além de não deixá-los ter acesso à comida. Este comportamento é determinado pela afirmação de sua posição reprodutora. Um macho de pinças azuis jamais passa a ser um macho de pinças alaranjadas.

Os machos de pinças alaranjadas são sub-dominantes, não territorialistas e sexualmente inativos. Foi observado que na ausência de machos de pinças azuis eles atacam as fêmeas na muda nupcial. Nunca foram observados protegendo fêmeas. Continuam crescendo sempre e na ausência de machos de pinças azuis se transformam num deles.

Finalmente, os machos pequenos não são territorialistas e são sexualmente ativos. Evitam competições com machos maiores e se transformam em machos de pinças alaranjadas se as condições ambientais permitirem, podendo até se transformar em machos de pinças azuis.

COMO APROVEITAR ESSAS INFORMAÇÕES ?

Notamos que o sexo e o comportamento sexual é determinante no tamanho dos indivíduos de um viveiro de Macrobrachium rosenbergii. Sabemos que desde pós-larvas alguns animais se desenvolvem mais que os outros, entretanto o crescimento de toda a população é normal até que atinjam a maturidade sexual. Quando maduros sexualmente ( aproximadamente a partir do 4º mês ), os camarões direcionam a maior parte de sua energia para a performance reprodutora e pouca para o ganho de peso.

Sabemos também que a presença de machos de pinças azuis inibe o crescimento dos demais, principalmente por impedirem que tenham acesso à comida. Assim, podemos concluir que o melhor período para obtenção de bons ganhos de peso é aquele que antecede às primeiras cópulas no viveiro.

A partir do 4º mês, para se conseguir a melhor produtividade possível, deve-se retirar sistemáticamente os machos de pinças azuis dos viveiros através de despescas com redes de malhas seletivas.

Na verdade não existe um sistema melhor de povoamento, mais eficiente que um outro. O melhor povoamento é aquele em que o resultado final da despesca atende satisfatoriamente ao mercado de cada criador. Mas isto é outra estória.