SIG: Sistema de Informações Geográficas para Aqüicultura

Pelo biólogo Philip Conrad Scott, doutorando pela Universidade de Stirling na Escócia com tese dedicada ao Sistema de Informações Geográficas – SIG para Aqüicultura.


Sempre aprendi alguma coisa com os italianos, e hoje, ao desenvolver minha tese em Stirling na Escócia, um estudo que concatena conhecimentos de cartografia, geografia, aqüicultura e oceanografia costeira, lembro-me do Giuliano, meu patrão italiano numa gráfica de Boston – EUA, especializada na confecção de cartões postais e calendários.

Eu era aprendiz e usávamos uma técnica simples de artefinalista criando máscaras sucessivas sobre um pobre filme original que, embora tivesse algumas informações básicas, (como a imagem de um recém-construído hotel à beira mar) faltavam outras… A partir desta base e buscando os elementos faltantes em outros trabalhos anteriores, ou mesmo parecidos, somávamos por etapas os elementos faltantes. Assim, apareciam gramados cuidadosamente aparados onde na realidade ainda havia terreiro de construção; um mar com águas “azul Caribe” aparecia em locais no lugar onde por azar, havia um mar escuro no dia em que o fotógrafo foi, e assim por diante, resultando num cartão postal que dava uma boa idéia do que seria desfrutar daquele hotel (pronto) a beira mar, nas férias de verão. Era uma imagem completa, artificial em várias partes, porém uma boa aproximação da realidade, recriada a partir de outras realidades conhecidas. Assim, um hotel ainda inacabado, já conseguia atrair clientes para sua próxima temporada.

Sistema de Informações Geográficas

A utilização de um SIG – Sistema de Informações Geográficas, na aqüicultura pode dar uma idéia cartográfica e econômica aproximada do panorama da atividade implantável numa região. O SIG (ou GIS – Geographic Information System) funciona um pouco como a técnica artefinalista do Giuliano. Começamos com uma área determinada, nossa base de dimensões conhecidas e aplicamos sucessivas camadas de informações por cima, como as máscaras de acetato, com os desenhos, formas, contornos e sombras. Cada máscara representa um item, podendo ser um parâmetro abiótico como temperatura ambiente, salinidade, oxigênio dissolvido, movimento de correntes ou o relevo do terreno. O conjunto destas camadas, cada qual com sua informação específica, é o que chamamos de uma base de dados. Certamente, Giuliano poderia fazer com destreza esta montagem, produzindo seus mapas coloridos. Qual seria então a vantagem de usar um SIG?

O SIG é um programa com tremendas capacidades analíticas e estatísticas. Os bons SIGs podem ser instruídos a criar uma nova camada de informação baseada nas anteriores, que pode ser útil para uma análise. Os SIGs podem realizar projeções para frente, para o futuro, baseado em algoritmos. Isto, já seria um pouco puxado para Giuliano. Em segundos, pode-se obter uma nova imagem hipotética, baseada na variação dos componentes do banco de dados ou na alteração dos componentes dos algoritmos. Com um SIG pode-se indagar sobre a área estudada e descobrir que parcela contém tais e tais características, ou reúne requisitos pré-definidos.

Na prática

Aqui, próximo de Stirling, temos a pequena Baía de Camas Bruaich, protegida do mar aberto. É um local onde os alunos de mestrado em aqüicultura daqui, fazem levantamentos de campo para determinar qual seria a posição ideal para instalar uma criação de salmão, em viveiros flutuantes. Assim, são feitos levantamentos de correntometria, perfis de salinidade e temperatura, batimetria e transparência da água. Com estes dados, mais os obtidos da Diretoria de Hidrografia e Navegação local, como intensidade e direção dos ventos e variação das marés, os alunos escolhem um local para situar a ancoragem dos tanques-rede. O exercício dá um bocado de trabalho mas, eventualmente, consegue-se localizar uma área propícia e, coincidência ou não, geralmente os alunos acabam limitando a mesma área onde de fato, já existe uma pequena criação de salmão com umas 6 gaiolas de 25 m2 cada.

Os mesmos dados alimentados num SIG tornam-se mais dinâmicos. O SIG pode ser instruído apropriadamente a usar estes dados existentes, que as vezes são poucos, e ampliar a área de cobertura deles ou realizar uma graduação entre um valor e outro, produzindo uma nova camada de informações.

Baseados nos dados de uma área montada, podemos perguntar ao SIG questões complexas, como por exemplo, que área contém velocidades de corrente entre tal e tal, salinidade nunca menor do que 30 ‰, mesmo durante a maré baixa de lua nova, sempre mais que 4 metros de profundidade, com correntes nunca menos que x metros/min e não mais do que y metros/min, e protegido das maiores ondas de ressacas… e, o computador fazer as contas e responder rapidamente. Outro exemplo: qual seria a distância máxima horizontal que os dejetos de uma criação em gaiolas flutuantes alcançariam? Atingiriam a costa? Causariam problemas de balneabilidade?

FAO

O SIG tem sido usado cada vez mais nos setores de planejamento ambiental e conservação de áreas de interesse ecológico como parques e reservas. Na aqüicultura, o SIG tem sido fomentado pela FAO em três estudos que são as referências mais importantes (ver final desse artigo). No estudo de Nicoya, foi feito um planejamento para o desenvolvimento da aqüicultura costeira, baseado nos dados de distribuição de salinidade, superfície disponível, cobertura de manguezais, disponibilidade de pós-larvas de camarão, adequação dos solos, etc. Este estudo já iniciava o incentivo à incorporação de imagens obtidas por satélite para auxiliar na análise de áreas quanto ao potencial para aquicultura. No FAO Fisheries Technical Paper 318, isto se tornou patente e são resumidos 16 trabalhos, 10 dos quais estudos de SIG aplicados à aqüicultura que abrangem espécies como o catfish no sul dos EUA a camarões no Equador e acompanhamento de marés vermelhas.

Em 1994, a FAO publicou um trabalho de SIG a nível continental para a África, para chamar atenção ao grande potencial para aqüicultura dulcícola no sentido de encorajar países com grandes ou relativos potenciais para aqüicultura à realizarem seus estudos a nível nacional. Considerando a tarefa de analisar os dados estatísticos de quase 60 países com tantas línguas e dificuldades de toda sorte, o resultado é impressionante. Os critérios utilizados para o estudo são os tradicionais: mercados, estradas, solos, topografia e meteorologia. O critério espécie foi interessante. Utilizaram a tilápia, e baseado nos amplos estudos sobre sua fisiologia e crescimento, determinaram a nível continental, as possibilidades para seu cultivo.

Tendo em vista que estes estudos de SIG aplicados a aqüicultura vem desde 1986 e, com as condições de potencial para aqüicultura no Brasil, bem como uma base de infra-estrutura bastante melhor do que a disponível na África, já é tempo de se implementar e popularizar este tipo de estudo para as diversas regiões brasileiras. Estes estudos servirão no auxílio à formulação de uma política para aqüicultura ou para melhorar o planejamento do seu desenvolvimento.

Atualmente, a FAO prepara uma próxima publicação de SIG e aqüicultura, desta vez para a América Latina, incorporando dados da fisiologia e crescimento de três espécies de peixes: pacu, tambaqui e mojarra (Cichlasoma urophtalmus). Segundo o Dr. J.M.Kapetsky, coordenador do estudo, a dificuldade maior da FAO é conseguir dados concretos de cultivos em fazendas, devidamente acompanhados de forma científica. Há muitos dados sobre a taxa de crescimento, conversão alimentar e tolerância a variação de temperatura para os tamanhos usualmente encontrados nas estações de piscicultura governamentais, isto é, ou são alevinos antes das vendas, ou são matrizes em grandes tanques espaçosos. Faltam dados reais sobre a performance destas espécies no período e condições reais de engorda. Em tempo: criadores de todo o Brasil que tiverem estes dados e quiserem colaborar com estes estudos, estão convidados. Enviem para o autor deste artigo a localidade do cultivo (se possível com coordenadas geográficas), a altitude do terreno, a temperatura da água dos viveiros (pode ser média mensal), dados de biometria com data, bem como o tipo de regime de alimentação. Os dados aproveitados serão retribuídos com uma cópia do relatório final da FAO.

Futuro

Acredito que o SIG será cada vez mais solicitado a nível regional especialmente para o planejamento e promoção da aqüicultura. É bom lembrar que o SIG é como um organismo vivo, que necessita cuidados e cujos dados para uma região devem ser constantemente atualizados, a fim de melhorar as previsões e os diagnósticos. SIGs como o estudo africano, servem para uma dar idéia geral mas, idealmente, cada região deve realizar o seu, buscando junto aos seus recursos em terra, os dados reais e atuais.

Trabalhos para maiores esclarecimentos: 1987 – A Geographical Information System to Plan for Aquaculture – FAO Fisheries Technical Paper 287. 1994 – A Strategic Assessment of Warm Water Fish Farming Potential in Africa – CIFA Technical Paper 27. 1991 – Geographical Information Systems and Remote Sensing in Inland Fisheries and Aquaculture – FAO Fisheries Technical Paper 318.