Situação Atual e Perspectivas da Ranicultura

Por: Samuel Lopes Lima
Pesquisador visitante na UNESP – Botucatu,
Especialista em ranicultura
e-mail: [email protected]


A desvalorização do Real em 1999 trouxe novas oportunidades para vários segmentos da agropecuária brasileira, inclusive para a ranicultura. A falta de rã no mercado e o preço do nosso produto, fez com que voltássemos a ser competitivos no mercado externo. Em 2003 as exportações foram retomadas, porém segundo informações dos próprios ranicultores brasileiros, o montante dos pedidos dos importadores não pôde ser atendido, mesmo com o somatório da produção de todos os ranários do país. Além disso, nos últimos meses, a queda no valor do dólar, o aumento do custo dos fretes aéreos e dos preços ofertados pelos concorrentes, fizeram com que a exportação da rã brasileira se tornasse inviável. O desafio agora é ampliar a produção, através de ganhos de produtividade para que possamos retomar as exportações e, para isso, as dificuldades precisam ser enfrentadas nos vários segmentos da cadeia produtiva. O Brasil tem tecnologia, corpo técnico e infra-estrutura suficiente para uma retomada no crescimento dessa atividade emergente em nosso país, com grandes possibilidades de crescimento.

Até o final da década passada o mercado externo era atendido essencialmente por países que permitem a caça de animais silvestres, particularmente a China, Vietnam e Indonésia. Além do Brasil, alguns países investiram na tecnologia de criação em cativeiro, como o caso do Equador, México e de Taiwan, país atualmente líder no mercado. Nos últimos anos nosso país, porém, tem perdido mercado por problemas relacionados às deficiências na transferência da tecnologia e na urgente necessidade de se ampliar a produção, conquistar o consumidor e de se agregar valor à atividade.

Com o advento do Plano Real, houve uma perda significativa da competitividade da nossa rã no mercado externo e, quase toda a rã viva, que era até então exportada, teve que ser comercializada internamente. Como não havia um canal de comercialização consolidado, a maioria dos ranários foi desativada nos últimos anos. Em 1999 existiam cerca de 600 ranários em atividade. Hoje, após uma indagação pessoal junto aos principais produtores, estimo que apenas 15 a 20% do nosso parque ranícola esteja operando.

A tecnologia

Boa parte da tecnologia de criação de rãs surgiu graças ao espírito empreendedor do ranicultor brasileiro. Influenciados pelo potencial do mercado e pela grande facilidade de adaptação da rã-touro (Rana catesbeiana) ao clima do nosso território, os ranicultores pioneiros construíram seus ranários de maneira criativa, mas sem nenhum critério técnico, desrespeitando os princípios zootécnicos e ecológicos básicos. Eram simples cercados, com atrativos para insetos que eram utilizados para alimentar as rãs, algo pouco recomendável do ponto de vista higiênico-sanitário. Nenhuma proteção contra a fuga desses animais para o meio ambiente era utilizada. Hoje ao contrário, os ranários possuem instalações modernas e manejo eficiente. Além de proteção contra a fuga das rãs, os ranicultores podem contar com linhagem monosexo de rã-touro, contribuindo para reduzir o possível impacto que esta espécie exótica possa estar promovendo à nossa fauna .

Apesar de não ter uma dieta específica, as rãs se alimentam basicamente de ração de boa qualidade. São utilizadas rações de peixes carnívoros, que têm apresentado excelente conversão alimentar (média de 1,5 a 2,0 : 1,0). Pode-se afirmar que o Brasil possui hoje uma avançada infra-estrutura no seu parque ranícola, que conta, atualmente, com quatro abatedouros operando com Inspeção Federal e três com Inspeção Estadual.

A evolução desta tecnologia começou a se consolidar a partir da década de 80. Contou com o empenho de pesquisadores de instituições governamentais, entre as quais merecem destaque as equipes das Universidades Federais de Uberlândia e de Viçosa e do Instituto de Pesca do Estado de São Paulo. Na década de 90, passaram a atuar as equipes da UNESP – Jaboticabal e Botucatu, e as da FURG e UFPB. Além das pesquisas, estas instituições têm contribuído na formação de técnicos especializados em ranicultura. Não existem, porém, mecanismos eficientes para transferir aos ranicultores as tecnologias desenvolvidas por estas instituições. O reflexo pode ser observado na baixa produtividade da maioria dos ranários brasileiros.

Dificuldades atuais

A ranicultura ainda enfrenta o conhecido ciclo vicioso na relação oferta/demanda do seu principal produto, que é a carne de rã, onde o preço elevado do produto inibe o mercado, reprimindo a demanda, que por sua vez inibe a produção. Um dos argumentos do ranicultor é o custo elevado da ração. Porém, a maioria luta com a baixa produtividade da sua criação, promovida por instalações deficientes e manejos inadequados, que refletem em problemas sanitários.

O ponto crítico da ranicultura, porém, é o mercado. A carcaça inteira, principal forma como a carne da rã é comercializada atualmente, não atrai o consumidor, que prefere a coxa. Além disso, esse produto não agrada a dona de casa, que geralmente tem alguma restrição a este animal. A carne fresca ou congelada também não atende aos preceitos da cozinha moderna, pois o consumidor dá preferência aos produtos prontos, semi-elaborados, ou minimamente processados. Alguns produtos elaborados a base de carne de rã já estão em estudos e podem, em futuro próximo, fazer parte do mix de ofertas. O desafio é conseguir recursos para levar adiante os projetos do meio acadêmico.

Os novos rumos da ranicultura dependem dos próprios agentes da cadeia produtiva para que sejam viabilizados novos produtos industrializados. É importante fornecer matéria-prima, a um preço viável (com pequena margem de lucro) para a industrialização, viabilizando-se assim, a oferta de novos produtos ao mercado, mesmo que em pequena escala.

As poucas iniciativas de integração através das cooperativas, ainda não se consolidaram efetivamente e persiste ainda a cultura do “cada um por si”. Enquanto isto, os produtores de países concorrentes ocupam cada vez mais o mercado externo. Essas talvez sejam as únicas maneiras de conquistar novos consumidores, ampliando o mercado.


UM BATE-PAPO COM SAMUEL LOPES LIMA


Panorama da Aqüicultura: Passados cinco anos, quais os resultados efetivamente conquistados pelo Projeto Plataran – Plataforma da Ranicultura?

Samuel: Conquistamos muitas coisas, mas acredito que a mais importante foi o ganho de uma visão clara dos gargalos da cadeia produtiva, bem como de informações mais realistas sobre o mercado. No Workshop o professor Sergio Carmona, um dos consultores do projeto, apresentou uma possibilidade de se produzir carne de rã em conserva. Ele tinha um contato com uma indústria de sardinha e levou inclusive uma amostra. A iniciativa serviu para despertar a potencialidade da carne de rã, porém, mesmo naquela época em que a produção estava aumentando, era inviável fazer o produto, porque a indústria ia precisar de aproximadamente duas toneladas por dia, só para botar em operação uma pequena linha de produção de uma única fábrica de conservas. Nem se juntássemos rãs de todos os ranários daria para fazer isso. De qualquer maneira, foi lançada a idéia e tínhamos boas expectativas, mas aí surgiram problemas com doenças e alguns atropelos entre os ranicultores.

Panorama da Aqüicultura: Que tipo de atropelos? 
Samuel: A COOPERAN – Cooperativa Agropecuária dos Ranicultores do Estado do Rio de Janeiro, de Itaboraí-RJ, que na época era a principal articuladora da produção, encerrou suas atividades, gerando prejuízos para vários ranicultores. Surgiram também vários casos de doenças, que dizimaram, em menos de 30 dias, o plantel de vários ranários. Alguns grandes ranários do país praticamente tiveram que parar e recomeçar da estaca zero, e os problemas ainda persistem. Outros até encerraram as atividades.

Panorama da Aqüicultura: E que doenças foram identificadas?
Samuel:
 Poucos pesquisadores se dedicam a estudar as doenças das rãs. Algumas evidências apontam que o Streptococcus seria o responsável, há também a hipótese de que seria um vírus. O certo é que os bichos morreram e ninguém ficou sabendo o que, de fato, aconteceu. Mas essa não foi a principal dificuldade.

Panorama da Aqüicultura: E qual seria essa principal dificuldade?
Samuel:
 É a de sempre, a dificuldade que o produtor tem de comercializar. A carne de rã é um produto cercado de preconceitos pelo principal consumidor, que é a dona de casa. Algumas têm até medo do produto! Isso foi verificado no levantamento de mercado. Até então os ranicultores sempre diziam que não era difícil comercializar (enquanto a produção era pequena). Ficou claro que existe um público que consome e que quer consumir, mas não encontra o produto com facilidade, e quando encontra, muitas vezes acha caro. São em sua maioria homens, principalmente aqueles que tiveram algum histórico com a roça e que já caçaram rã alguma vez. A ranicultura é palpável, e já que existe o consumidor, existe o mercado, apesar dele ainda ser pequeno.

Panorama da Aqüicultura: E qual é o perfil desse mercado?
Samuel:
 A dona de casa quer mais facilidade. Poucas compram o peixe inteiro. Elas querem comprar o filé. No caso da rã, o que se vende é uma carcaça horrorosa parecendo um feto em miniatura; tem muito ossinho e esse osso mostra um baixo rendimento de carne, o que desestimula a dona de casa. O preço é caro em relação ao rendimento de outras carnes. Mas essa situação não serviu de desestímulo para os ranicultores, que têm muita expectativa no potencial da atividade. O Plataran detectou que vender em pequenas quantidades não é problema, o problema é quando se tem pedidos de volumes maiores. A ranicultura atualmente está numa situação interessante, pois percebe-se que está havendo uma retomada dos produtores, mesmo que lenta. Mas agora está faltando rã no mercado.

Panorama da Aqüicultura: Hoje quem tem rã, vende?
Samuel:
 Quem tem rã vende e está vendendo por R$ 7,00 o quilo da rã viva. Os compradores estão buscando aonde tiver. O pessoal da Coopercrãma – Cooperativa Regional de Piscicultores e ranicultores do Vale do Macacu e Adjacências Ltda, há poucos dias foi buscar rã lá em Belém do Pará. Atravessaram meio Brasil para poder abater aqui no Rio de Janeiro.

Panorama da Aqüicultura: E esse preço é vantajoso?
Samuel: 
Não sei, mas a realidade é que está faltando rã; mesmo o mercado sendo pequeno, a pouca rã disponível é insuficiente para atender o mercado interno. Então, umas das preocupações minhas e de outros colegas acadêmicos, é que a retomada da ranicultura deveria ser bem mais planejada. Mas infelizmente os ranicultores estão desorganizados e desamparados, técnica e financeiramente.

Panorama da Aqüicultura: Mas e a infra-estrutura existente – ranários, abatedouros, cooperativas, que você mencionou e que publicamos na edição 81 da Panorama da Aqüicultura?
Samuel:
 Corremos um sério risco de não conseguir reativar a infra-estrutura ranícola do país. Apesar de todo o empenho do pessoal, acho que os ranicultores ainda não possuem um canal de comercialização sustentável. Vendem de porta em porta e oferecem apenas a carne de rã, fresca ou congelada. No abatedouro, 47% do que chega vira resíduo, é jogado fora. Temos a urgente necessidade de agregar valor à atividade, oferecendo novos produtos e conquistar novos consumidores para ampliar o mercado.

Panorama da Aqüicultura: Quais novos produtos?
Samuel:
 O CTAA da Embrapa, no Rio de Janeiro, está estudando alternativas para utilizar a CMD (Carne Mecanicamente Desossada) da parte menos nobre da rã, que é o dorso ou dianteiro, e carne de rã em conservas. Acredito que até o final do ano tenhamos resultados para avaliar os protótipos, em alguns nichos de mercado (em pequena escala). Estou me empenhando pessoalmente na procura de empresas que possam se interessar em fabricar alguns pratos prontos, a base de carne desfiada manualmente. Acredito que este é o caminho mais curto para ampliar o número de consumidores. Creio que assim, a dona de casa, e sua família, provarão o sabor da carne de rã.

Panorama da Aqüicultura: Já encontrou alguma indústria interessada?
Samuel:
 Fiz alguns contatos e verifiquei que, à princípio, há interesse. Porém, estamos esbarrando no volume de matéria prima disponível e no preço. Como o ranicultor está obtendo um bom preço, ele não quer vender mais barato para a indústria. Espero que em breve esta situação se modifique com o aumento da produção, que deve ocorrer com ganhos de produtividade.

Panorama da Aqüicultura: E como ampliar a produtividade?
Samuel:
 Através de algumas inovações tecnológicas o ranicultor poderá, em curto prazo, se beneficiar das novidades que já estão sendo disponibilizadas. Basta haver recursos para acelerar o processo.

Panorama da Aqüicultura: E que inovações você destacaria?
Samuel: 
Além das novas técnicas de manejo reprodutivo e dos implementos especialmente desenvolvidos para o manejo alimentar dos animais, como os cochos e os dispensadores de ração, sem dúvida a introdução da linhagem monosexo representará, em breve, em ganhos significativos para os produtores. Em parceira com o colega Cláudio Agostinho, da UNESP, iniciamos o trabalho de avaliação desta linhagem no campo. Pena que os recursos são escassos e o número de ranicultores beneficiados ainda é bem restrito.

Panorama da Aqüicultura: Esta linhagem é geneticamente melhor?
Samuel:
 Este é um processo lento e gradativo, mas o principal já foi realizado. O Cláudio estimou os valores de herdabilidade dos principais parâmetros zootécnicos. A parceria com os ranicultores possibilitará, em maior escala, efetivar a seleção para se alcançar o melhoramento do rebanho a medida em que os resultados da avaliação indicarem as progênies de melhor desempenho no campo. Mais importante que isto é que, com o uso desta linhagem, o Brasil deverá sair na frente para dar o exemplo de uma criação “ecologicamente correta”. Trata-se de um instrumento para amenizar o impacto que esta espécie exótica provavelmente esteja causando à nossa fauna nativa. O benefício maior será mercadológico. Quando os produtores reiniciarem as exportações, terão um grande trunfo para divulgar o diferencial do nosso produto. Isso provavelmente ganhará reforço se concretizarmos também a inserção do caráter albino nesta linhagem.

Panorama da Aqüicultura: Qual é o diferencial da rã-albina?
Samuel:
 Ela não tem o pigmento preto na pele, e isto reflete na cor da carne. O Onofre Maurício de Moura, da UFPB, está estudando as características físico-químicas dela e os resultados preliminares são animadores. Dá para diferenciar facilmente a carne da rã-albina, da rã normal, que é pigmentada. Ela é bem mais branca, hialina. Se confirmadas nossas expectativas, teremos condições de competir com um produto realmente “verde-amarelo”, com o selo de garantia natural da procedência de cativeiro. Isto reforçará a tese da “criação ecologicamente correta” da rã brasileira, em futuro próximo. Neste momento a equipe da UNESP se prepara para introduzir o caráter albino na rã-monosexo. É uma questão de tempo, parceria com os ranicultores, e lógico, recursos para ter, o mais rápido possível, a linhagem monosexo albina. Mas por enquanto é só expectativa. Temos muito trabalho para chegar lá.