SURUBIM

Dois bagres brasileiros e dois bagres estrangeiros são cultivados por piscicultores em várias regiões do país. Os nativos são o surubim-cachara e o surubim-pintado. Os bagres trazidos de outros continentes são, o catfish norte-americano e o Clarias o bagre africano. A seguir, o panorama do cultivo dessas espécies no Brasil.

Dois bagres brasileiros fazem muito sucesso entre os apreciadores da boa mesa. O primeiro, habita as Bacias do Paraguai e do Amazonas. É o surubim da Amazônia ou surubim-cachara, como é conhecido no Centro-oeste brasileiro e cujo nome científico é Pseudoplatystoma fasciatum. O segundo, habitante da Bacia do São Francisco, é o surubim-pintado, ou simplesmente pintado, cientificamente chamado de Pseudoplatystoma coruscans. As duas espécies são muito parecidas no formato do corpo e no sabor da carne. O pintado (P. coruscans), possui um padrão de manchas circulares pretas ou pintas, que cobrem seu corpo. Já o surubim-cachara (P. fasciatum), possui um tipo variado de manchas, incluindo o padrão mais comum “tigrado”. Na natureza, o pintado pode atingir até 50 kg, ao passo que o surubim-cachara dificilmente supera os 20 kg.

A produção destas duas espécies pelos aqüicultores brasileiros é ainda muito pequena, ao contrário de sua produção pesqueira, que é grande e voltada, principalmente, para o mercado externo. Para se ter uma idéia, de acordo com o U. S. Bureau of Census, em 1992, 1.330 t de bagres brasileiros foram exportados para os EUA, com iguais previsões para 1993, onde até setembro já havia sido registrada a importação de 965 t.

Mas esses bagres também tem mercado certo nos grandes centros como São Paulo e Belo Horizonte, onde são considerados peixes de primeira qualidade, obtendo sempre com isso os melhores preços pagos a peixes de água doce no Brasil.

CODEVASF

Os bagres nativos são peixes bastante recentes no cenário da aqüicultura brasileira. Sua reprodução é pesquisada desde o início da década de 80, mas somente em 1988 o pesquisador Yoshimi Sato, da Estação de Piscicultura de Três Marias – CODEVASF – MG, conseguiu pela primeira vez a propagação bem sucedida do surubim-pintado (P. coruscans). De lá para cá, o resultado das propagações feitas na CODEVASF e os alevinos obtidos, são utilizados para o repovoamento do Rio São Francisco.

Segundo o pesquisador da CODEVASF Marcelo José Melo, os pintados na região do Alto S. Francisco podem estar prontos para reprodução a partir de setembro, prolongando-se esse período até março, quando as matrizes são constantemente verificadas para acompanhamento de sua prontidão. Os métodos de indução a desova não se diferem muito dos largamente utilizados para as espécies normalmente propagadas artificialmente.

Apesar de estar com uma tecnologia pronta para obtenção de alevinos de P. coruscans, a CODEVASF pesquisa soluções para os problemas que ainda impedem a produção do pintado em larga escala. Segundo Marcelo, esse problemas são resultantes do pequeno tamanho das suas larvas. A quantidade de ovos da fêmea do pintado por grama é uma das maiores que já se encontrou até hoje, diz Marcelo. A larva do pintado é muito pequena e sua boca também. Isso reduz demais o espectro de alimentos de boa qualidade que podem ser oferecidos em tamanho tão reduzido. Os problemas do canibalismo referentes ao pintado e ao surubim-cachara estão sempre relacionados com as dificuldades em alimentá-lo adequadamente, afirma Marcelo Melo.

PAG12-22
Extração do sêmen de reprodutor de surubim pintado (Pseudoplatystoma corucans)
CACHARA

O Projeto Pacu, empresa localizada em Campo Grande – MS, se dedica entre outras espécies, a reprodução do surubim-cachara e do pintado. O desenvolvimento de uma rotina de produção comercial de alevinos desses bagres, segundo Simão Luiz Brun, proprietário da empresa, envolveu um esforço muito grande nos últimos anos. O Projeto Pacu, desenvolveu tecnologia própria e estruturou-se para produzir em grande escala, visando comercializar seus alevinos em mercados de aquariofilia extremamente exigentes como o europeu e asiático (Japão) e hoje, 90% de sua produção de alevinos é comercializada no mercado externo.

Os alevinos de Pseudoplatystoma fasciatum são produzidos entre os meses de dezembro a maio, com produção mensal em torno de 40 a 50 mil unidades e, em menor escala, também é produzido o pintado Pseudoplatystoma coruscans.

Ainda segundo Simão, a produção atual de alevinos não atende satisfatoriamente a demanda interna e normalmente é organizada uma lista de espera para os excedentes das exportações. Seus preços no Brasil oscilam de US$ 0.50 a US$ 1.00 a unidade, dependendo da época e principalmente do tamanho dos alevinos. Isto significa que custam de 10 a 15 vezes o preço dos alevinos das espécies mais comumente criadas no Brasil.

Simão salienta que há uma tendência de barateamento dos preços praticados, na medida que se aprimora o sistema de produção e ressalta que para produzir alevinos dessas espécies, são empregadas modernas técnicas de piscicultura intensiva, necessitando de equipamentos e insumos normalmente importados, que é sempre um fator que eleva o custo de produção.

ENGORDA

O fato de serem recentes os trabalhos de engorda com o surubim-cachara e o pintado faz com que sejam poucas as informações precisas sobre manejos adequados. Não existem criadores capazes de fornecer informações consistentes sobre o manejo de engorda, bem como não existem programas de pesquisa destinados a buscar esta tecnologia.

O perfil de quem o cria é o de um piscicultor curioso que tem o surubim em seus viveiros como animais exóticos, apesar de serem espécies nativas, ou piscicultores a procura de uma espécie carnívora para o policultivo, mantendo esses peixes na densidade de 3 a 8% do total de alevinos estocados em seus tanques.

Mas os resultados de engorda ainda estão longe de serem suficientes para animar piscicultores a engorda-los comercialmente.

O produtor paulista Paulo César Martinelli, da Piscicultura Pantanal, em Descalvado – SP, sucumbiu às tentativas do cultivo do pintado. Segundo Martinelli, os rendimentos da larvicultura sempre foram baixíssimos e seus poucos alevinos encontraram problemas de doenças como o Ichthio.

Houve frustração por parte de alguns produtores que perderam alevinos possivelmente por predadores já existentes em seus viveiros, como traíras e bagres, ou por doenças. Por outro lado, curiosamente, após um ou dois anos de um cultivo em baixas densidades devido aos problemas acima, no momento da despesca a frustração sempre transforma-se em surpresa pelo tamanho dos exemplares colhidos. Para animais com um ano, o ganho de peso varia de 2 a 4 kg e, para os animais de dois anos, o ganho é de 3 a 8 kg.

O piscicultor Renato da Silva Moulin, de Tangará da Serra – MT, faz parte desses criadores. Ao despescar viveiros de pintados e surubins-cacharas engordados junto com pacus e tambaquis, espantou-se com animais de 8 kg, após dois anos de engorda. Renato sabe que isso deveu-se a baixa densidade em que esses animais estavam sendo mantidos, em função de uma mortalidade de 85% dos bagres inicialmente estocados.

FUTURO

A presença do surubim-cachara e do pintado oriundos de piscicultura nos mercados é desprezível, possivelmente inexistente e, infelizmente, tende a se manter assim por muito tempo.

Para inverter esse quadro os piscicultores brasileiros teriam que ter a seu favor um programa ambicioso de pesquisas sendo desenvolvidas. E isso está longe de existir. Desafios semelhantes com espécies carnívoras de alto valor comercial foram vencidos pela certeza de que todo o centavo investido nesse sentido seria retornado via a implantação de uma indústria próspera. Estão aí o salmão, a truta e as enguias para servirem de exemplo.

A CODEVASF, que por sua vez dedica esforços a reprodução do surubim-pintado, não tem compromisso com a aqüicultura comercial. Seus esforços são, tão somente, para abrandar o impacto da construção de seus reservatórios, sobre as espécies nativas da Bacia do São Francisco. A CODEVASF não engorda. Produz alevinos e repovoa.

A quem cabe então esse esforço na busca do conhecimento da produção em larga escala desses bagres nativos? Ao bispo?